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Espeleo-TEMA

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Title:
Espeleo-TEMA
Series Title:
SBE Espeleo-TEMA
Creator:
Sociedade Brasileira de Espeleologia
Publisher:
Sociedade Brasileira de Espeleologia
Publication Date:
Language:
Portuguese

Subjects

Subjects / Keywords:
Regional Speleology ( local )
Genre:
serial ( sobekcm )
Location:
Brazil

Notes

General Note:
ARTIGOS ORIGINAIS Tufas:Caverna do Rio Fria (SP-40) revisitada 100 anos depois de Krone: história e geologia de uma caverna formada pelo crescimento de tufa Rio Fria Cave (SP-40), revisited 100 years after Krone: history and geology of a cave formed by tufa growthWilliam Sallun Filho, Luis Henrique Sapiensa Almeida, Bruna Ferri Torresi, Fábio Rodrigues Nobre Gouveia Ana Laura Person Ferro/Canga:Novo sítio espeleológico em sistemas ferruginosos, no vale do Rio Peixe Bravo, norte de Minas Gerais, Brasil New speleological site in ferruginous systems, Rio Peixe Bravo valley, northern Minas Gerais, BrazilFelipe Fonseca do Carmo, Flávio Fonseca do Carmo, André Augusto Rodrigues Salgado Claudia Maria Jacobi Unidade espeleológica Carajás: delimitação dos enfoques regional e local, conforme metodologia da IN-02/2009 MMA Unidad espeleologica Carajás: los límites de enfoques regionales y lugar como la metodología IN-02/2009 MMARaul Fontes Valentim João Paulo R. Olivito Caracterização da unidade espelológica e das unidades geomorfológicas da região do Quadrilátero Ferrífero - MG Characterization of the speleological unit and of the geomorphological units of the Quadrilátero Ferrífero region - MGOsvaldo A. Belo de Oliveira, João Paulo R. Olivito Daniela Rodrigues-Silva Arenitos:Carste em rochas não-carbonáticas: o exemplo dos arenitos da formação Furnas, Campos Gerais do Paraná/Brasil e as implicações para a região Karst in non-carbonate rocks: example and implications in the Furnas formation sandstones, Campos Gerais do Paraná region, southern BrazilMário Sérgio de Melo, Gilson Burigo Guimarães, Henrique Simão Pontes, Laís Luana Massuqueto, Isabelle Pigurim, Hugo Queiroz Bagatim Paulo César Fonseca Giannini Geossítio do Sumidouro do Rio Quebra-Perna (Ponta Grossa/PR, Brasil): relevante exemplo de sistema cárstico nos arenitos da Formação Furnas Sumidouro do Rio Quebra-Perna Geosite (Ponta Grossa city, Paraná state, Brazil): relevant example of the karst system in sandstones of the Furnas FormationLaís Luana Massuqueto, Gilson Burigo Guimarães Henrique Simão Pontes Caverna da Chaminé, Ponta Grossa, PR, Brasil: potencial espeleológico, recursos hídricos subterrâneos e riscos geoambientais Chaminé (chimney) Cave, Ponta Grossa city, southern Brazil: speleological potential, groundwater resources and geological hazardHenrique Simão Pontes Mário Sérgio de Melo Cavernas em arenito no planalto residual do Tocantins Sandstone caves in the planalto residual do TocantinsFernando Morais Saulo da Rocha Biologia/Paleontologia:Karstic features generated from large palaeovertebrate tunnels in southern Brazil Características kársticas generadas a partir de gran túneles de paleovertebrados en el sur de BrasilHeinrich Theodor Frank, Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann, Leonardo Gonçalves de Lima, Felipe Caron, Renato Pereira Lopes Milene Fornari Comunidades de invertebrados terrestres de três cavernas quartzíticas no Vale do Mandembe, Luminárias, MG Terrestrial invertebrate communities of three quartzite caves in the Vale do Mandembe, Luminárias, MGMarconi Souza Silva, José Carlos Nicolau Rodrigo Lopes Ferreira
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Open Access - Permission by Publisher
Original Version:
Vol. 22, no. 1 (2011)
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University of South Florida Library
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University of South Florida
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K26-01351 ( USFLDC DOI )
k26.1351 ( USFLDC Handle )
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ARTIGOS ORIGINAIS
Tufas:Caverna do Rio Fria (SP-40) revisitada 100 anos
depois de Krone: histria e geologia de uma caverna formada
pelo crescimento de tufa
Rio Fria Cave (SP-40), revisited 100 years after Krone:
history and geology of a cave formed by tufa growthWilliam
Sallun Filho, Luis Henrique Sapiensa Almeida, Bruna Ferri
Torresi, Fbio Rodrigues Nobre Gouveia & Ana Laura Person
Ferro/Canga:Novo stio espeleolgico em sistemas
ferruginosos, no vale do Rio Peixe Bravo, norte de Minas
Gerais, Brasil
New speleological site in ferruginous systems, Rio Peixe
Bravo valley, northern Minas Gerais, BrazilFelipe Fonseca
do Carmo, Flvio Fonseca do Carmo, Andr Augusto Rodrigues
Salgado & Claudia Maria Jacobi Unidade espeleolgica
Carajs: delimitao dos enfoques regional e local, conforme
metodologia da IN-02/2009 MMA
Unidad espeleologica Carajs: los lmites de enfoques
regionales y lugar como la metodologa IN-02/2009 MMARaul
Fontes Valentim & Joo Paulo R. Olivito Caracterizao da
unidade espelolgica e das unidades geomorfolgicas da regio
do Quadriltero Ferrfero MG
Characterization of the speleological unit and of the
geomorphological units of the Quadriltero Ferrfero region -
MGOsvaldo A. Belo de Oliveira, Joo Paulo R. Olivito &
Daniela Rodrigues-Silva
Arenitos:Carste em rochas no-carbonticas: o exemplo
dos arenitos da formao Furnas, Campos Gerais do Paran/Brasil
e as implicaes para a regio
Karst in non-carbonate rocks: example and implications in
the Furnas formation sandstones, Campos Gerais do Paran
region, southern BrazilMrio Srgio de Melo, Gilson Burigo
Guimares, Henrique Simo Pontes, Las Luana Massuqueto,
Isabelle Pigurim, Hugo Queiroz Bagatim & Paulo Csar
Fonseca Giannini Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra-Perna
(Ponta Grossa/PR, Brasil): relevante exemplo de sistema
crstico nos arenitos da Formao Furnas
Sumidouro do Rio Quebra-Perna Geosite (Ponta Grossa city,
Paran state, Brazil): relevant example of the karst system in
sandstones of the Furnas FormationLas Luana Massuqueto,
Gilson Burigo Guimares & Henrique Simo Pontes Caverna da
Chamin, Ponta Grossa, PR, Brasil: potencial espeleolgico,
recursos hdricos subterrneos e riscos geoambientais
Chamin (chimney) Cave, Ponta Grossa city, southern Brazil:
speleological potential, groundwater resources and geological
hazardHenrique Simo Pontes & Mrio Srgio de Melo
Cavernas em arenito no planalto residual do Tocantins
Sandstone caves in the planalto residual do
TocantinsFernando Morais & Saulo da Rocha
Biologia/Paleontologia:Karstic features generated from
large palaeovertebrate tunnels in southern Brazil
Caractersticas krsticas generadas a partir de gran tneles
de paleovertebrados en el sur de BrasilHeinrich Theodor
Frank, Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann, Leonardo
Gonalves de Lima, Felipe Caron, Renato Pereira Lopes &
Milene Fornari Comunidades de invertebrados terrestres de trs
cavernas quartzticas no Vale do Mandembe, Luminrias, MG
Terrestrial invertebrate communities of three quartzite
caves in the Vale do Mandembe, Luminrias, MGMarconi Souza
Silva, Jos Carlos Nicolau & Rodrigo Lopes Ferreira



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SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 EXPEDIENTE Sociedade Brasileira de Espeleologia ( Brazilian Society of Speleology ) Endereo ( Address ) Caixa Postal 7031 Parque Taquaral CEP: 13076 970 Campinas SP Brasil Contatos ( Contacts ) +55 (19) 3296 5421 espeleo tema@cavernas.org.br Gesto 2009 2011 ( Management 2009 2011 ) Diretoria ( Direction ) Presidente: Luiz Afonso Vaz de Figueiredo Vice presidente: Ronaldo Lucrcio Sarmento Tesoureira: Delci Kimie Ishida 1 Secretrio : Luiz Eduardo Panisset Travassos 2 Secretrio: Pvel nio Carrijo Rodrigues Conselho Deliberativo ( Deliberative council ) Rogrio Henry B. Magalhes Presidente Heros Augusto Santos Lobo Carlos Leonardo B Giunco ngelo Spoladore Fernanda Cristina Loureno Bergo

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SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 ESPELEO TEMA Editor Chefe ( Chief Editor ) MSc. Heros Augusto Santos Lobo uita IGCE/UNESP Editor Assistente ( Assistant Editor ) Esp. Marcelo Augusto Rasteiro Sociedade Brasilei ra de Espeleologia SBE Conselho Editorial (Editorial Board) Dr. William Sallun Filho Instituto Geolgico do Estado de So Paulo IG/SMA SP Dra. Maria Elina Bichuette Universidade Federal de So Carlos UFSCAR Dr. Luiz Eduardo Panisset Travassos Pontifcia Universidade Cat lica de Minas Gerais PUC/Minas Editores Associados ( Associate Editors ) Antropologia MSc. Elvis Pereira Barbosa (UESC) Arqueologia Dr. Walter Fagundes Morales (UESC) Carste em Litologias No Carbonticas MSc. Rubens Hardt (UNESP) Climatologia Dr. Eme rson Galvani (USP) Ecologia Dr. Rodrigo Lopes Ferreira (UFLA) Educao Ambiental Dr Luiz Afonso Vaz de Figueiredo (CUFSA) Espao e Territrio Dr. Eduardo Pazera Jnior (GEP) Espeleobiologia Dra. Maria Elina Bichuette (UFSCAR) Espeleogeologia Dr. William S allun Filho (IG/SMA SP) Geodiversidade e Geoconservao Dr. Paulo Csar Boggiani (USP) Geomorfologia Dr. William Sallun Filho (IG/SMA SP) Hidrogeologia Dr. Murilo Andrade Valle (CUFSA) Geoprocessamento e SIGs Dr. Carlos Henrique Grohmann (USP) Histria da Espeleologia Dr. Luiz Eduardo Panisset Travassos (PUC MG) Legislao Ambiental Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda (MPE MG) Manejo Ambiental MSc. Heros Augusto Santos Lobo (UNESP) Mapeamento e Prospeco de Cavernas Fbio Kok Geribello (UPE) Micologia Dr. Ed uardo Bagagli (UNESP) Minerao Dr. Hlio Shimada (IG/SMA SP) Patogenias e Vetores Dra. Eunice Bianchi Galatti (FSP/USP) Percepo e Interpretao Ambiental Dr. Jadson Rebelo Porto (UNIFAP) Religio e Religiosidade Dr. Luiz Eduardo Panisset Travassos (PUC MG) Quadro de Revisores ( Board of Reviewers ) Dr. Abel Perez Gonzalez (UFRJ) Dr. Antonio Liccardo (UEPG) Dr Cludio M. Teixeira Silva (UFOP) Dr. Fernando Morais (UFT) MSc. Gabriela Slavec (UPE) Dr. Gilson Burigo Guimares (UEPG) Dr. Gustavo Armani (IG /SMA SP) Dr. Luis Anelli (USP) Dr. Marconi Souza Silva (UNILAVRAS) Dr. Mrio Srgio de Melo (UEPG) MSc. Maurcio de A. Marinho ( Instituto EcoFuturo ) Dr. Ricardo Fraga Pereira ( Geoklock ) Dr. Valter Gama de Avelar (UNIFAP) Apoio Traduo ( Translation sup port ) Dra. Linda Gentry El Dash (UNICAMP)

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SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 SUMRIO (CONTENTS) Editorial 5 ARTIGOS ORIGINAIS Tufas: Caverna do Rio F ria (S P 40) revisitada 100 anos depois de K rone: histria e geologia de uma caverna formada pelo crescimento de tufa Rio Fria Cave (SP 40 ), revisited 100 years after K rone: history and geology of a cave formed by tufa growth William Sallun Filho, Luis Henrique Sapiensa Almeida, Bruna Ferri Torresi, Fbio Rodrigues Nobre Gouveia & Ana Laura Person 7 Ferro/Canga : N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos, no vale d o R io Peixe Bravo, norte de Minas Gerais, Brasil N ew speleological site in ferruginous systems, Rio Peixe Bravo valley, northern Minas Gerais, Brazil Felipe Fonseca do Carmo, Flvio Fonseca do Carmo, Andr Augusto Rodrigues Salgado & Claudia Maria Jacobi 25 Unidade espeleolgica C arajs: delimitao dos enfoques regional e local, conforme metodologia da IN 02/2009 MMA Unidad espeleologica C arajs: los lmites de enfoques regionales y lugar como la metodologa IN 02/2009 MMA Raul Fontes Valentim & Joo Paulo R. Olivito 4 1 Caracterizao da unidade espelolgica e das unidades geomorfolgicas da regio do Quadriltero Ferrfero MG Characterization of the speleological unit and of the geomorphological units of the Quadriltero Ferrfero region MG Osvaldo A. Belo de Oliveira, Joo Paulo R. Olivito & Daniela Rodrigues Silva 6 1 Arenitos : C arste em rochas no carbontica s: o exemplo dos arenitos da f ormao F urnas Campos Gerais d o Paran/Brasil e as implicaes para a regio K a rst in non carbonate rocks: e xample and implications in the F urnas formation sandstones, Campos Gerais d o Paran regio n, southern B razil Mrio Srgio de Melo, Gilson Burigo Guimares, Henrique Simo Pontes, Las Luana Massuqueto, Isabelle Pigurim, Hugo Qu eiroz Bagatim & Paulo Csar Fonseca Giannini 8 1 G eosstio do Sumidouro do R io Quebra Perna (Ponta Grossa/P R Brasil): relevante exemplo de sistema crstico nos arenitos da Formao Furnas Sumidouro d o Rio Quebra Perna G eosite (Ponta Grossa city, Paran s t ate, Brazil): relevant example of the karst system in sandstones of the Furnas Format ion Las Luana Massuqueto, Gilson Burigo Guimares & Henrique Simo Pontes 99 Caverna d a Chamin, Ponta Grossa, P R Brasil: potencial espeleolgico, recursos hdricos sub terrneos e riscos geoambientais Chamin (chimney) C ave, Ponta Grossa city, southern Brazil: speleological potential, groundwater resources and geological hazard Henrique Simo Pontes & Mrio Srgio de Melo 11 1

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SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 C avernas em a renito no planalto residual do T ocantins S andstone cav es in the planalto resi dual do Tocantins Fernando Morais & Saulo da Rocha 127 Biologia/Paleontologia: K arstic features generated from large palaeo vertebrate tunnels in southern B razil Caractersticas krsticas generadas a partir de gran tneles de paleovertebrados en el sur de Brasil Heinrich Theodor Frank, Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann, Leonardo Gonalves de Lima, Felipe Caron, Renato Pereira Lopes & Milene Fornari 139 Comunidades de invertebrados terrestres de trs cav ernas quartzticas no V ale do Mandembe, Luminrias, MG T errestrial invertebrate communities of three quartzite caves in the Vale d o Mandembe, Luminrias, MG Marconi Souza Silva, Jos Carlos Nicolau & Rodrigo Lopes Ferreira 1 55

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SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 EDITORIAL Estamos em um mo mento de transio. Nos ltimos anos, a comunidade cientfica vem produzindo trabalhos cada vez mais detalhados sobre a ocorrncia da espeleognese em rochas no carbonticas, levando a questionar conceitos antigos, que definiam o carste somente em rochas de alta solubilidade, para um conceito novo, baseado em processos e organizao sistmica, em que o carste resultado de processos diversos, dentre os quais a dissoluo exerce um papel importante, e de uma organizao, onde as drenagens subterrneas em c ondutos so a conexo principal do sistema. O Brasil, sendo um pas com dimenses continentais, apresenta uma enorme variedade de afloramentos rochosos, carbonticos ou no, onde o carste pode se manifestar, tornando se, desta forma, um importante foco das pesquisas neste campo, tendo atrado a ateno de pesquisadores estrangeiros desde a dcada de 80 pelo menos, persistindo nos dias de hoje. Por outro lado, a comunidade cientfica brasileira vem se dedicando cada vez mais explorao, estudo e conserva o de stios espeleolgicos em rochas no carbonticas, sejam estes considerados de origem crstica ou no. O conhecimento do comportamento crstico de unidades antes consideradas como rochas pouco solveis tem importncia crescente para a gesto de recurso s hdricos e para o enfrentamento de riscos geoambientais tais como subsidncias e abatimentos. Nesta edio especial da revista Espeleo Tema, a Sociedade Brasileira de Espeleologia vem brindar a comunidade cientfica brasileira com uma viso atual e diver sificada sobre a espeleognese no carbontica ou no crstica na concepo original do termo, bem como as implicaes associadas (biologia, arqueologia, geoconservao, recursos hdricos, riscos geoambientais), relacionadas com esta mudana de paradigma. O primeiro destes artigos apresenta um caso incomum, a formao de cavernas em tufas, em terreno no carbontico a jusante de terreno crstico. Nesta situao particular, um elemento da espeleognese tradicional, que a precipitao dos minerais carreados pela dissoluo, permite o aparecimento de uma caverna de origem carbontica em terreno no carbontico, mostrando a importncia de se compreender que feies crsticas no se restringem rea de ocorrncia das rochas carbonticas de um dado sistema crs tico. Na sequncia, trs artigos abordando feies crsticas em formaes ferruginosas, no Quadriltero Ferrfero, em Carajs e na Bacia do Jequitinhonha, indicam o crescente reconhecimento da importncia da espeleognese nestes depsitos minerais, evidenc iada tanto pela quantidade de ocorrncias quanto pela diversidade das situaes geogrficas, evocando a necessidade de criteriosos estudos que compatibilizem o interesse econmico com a preservao dos patrimnios espeleolgico, arqueolgico, paleontolgic o, biolgico e geolgico. Os arenitos so outro litotipo que vem recebendo ateno cada vez maior de pesquisadores e gestores territoriais e de recursos hdricos. Nesta edio so apresentados trs artigos relacionados a uma das principais reas de ocorrn cia de carste em arenitos, a regio dos Campos Gerais (PR). Eles abordam tanto a espeleognese quanto questes de proteo ambiental a ela associadas. Complementam os estudos neste litotipo a caracterizao de formaes crsticas, em especial a espeleogne se, no Planalto Residual do Tocantins. Feies subterrneas podem resultar de fenmenos inesperados, como a escavao de tocas por megafauna do Pleistoceno, dando origem a cavidades que acabam alterando o comportamento do sistema natural, provocando o apar ecimento de formas tipicamente crsticas, tais como dolinas, e a captura de fluxos aquticos, provocando a evoluo do sistema rumo a uma espeleognese mista. Conclui este nmero do Espeleo Tema um estudo sobre os invertebrados terrestres que povoam cavern as quartzticas da regio de Luminrias (MG). Ele mostra que a vida tambm se adapta a ambientes subterrneos distintos dos carbonticos, implicando na necessidade de se avaliar tais ambientes com relao ocupao bitica e eventuais consequncias do uso destes ambientes. Rubens Hardt Mrio Srgio de Melo & Jol Rodet Editor es Convidado s A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.cavernas.org.br/espeleo tema.asp

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 7 CAVERNA DO RIO FRIA (SP 40) REVISITADA 100 ANOS DEPOIS DE KRONE: HIST"RIA E GEOLOGIA DE UMA CAVERNA FORMADA PELO CRESCIMENTO DE TUFA RIO FRIA CAVE (SP 40), REVISITED 100 YEARS AFTER KRONE: HISTORY AND GEOLOGY OF A CAVE FORMED BY TUFA GROWTH William Sallun Filho(1), Luis Henrique Sapiensa Almeida(2), Bruna Ferri Torresi(2), Fbio Rodrigues Nobre Gouveia(2) & Ana Laura Person(2) (1) Instituto Geolgico, Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo IG/SMA SP, So Paulo SP. (2) Graduao, Instituto de Geocincias, Universidade de So Paulo IGc/USP, So Paulo SP. Contatos: wsallun@gmail.com ; luisalmeida87@hotmail.com ; nu rb_ft@hotmail.com ; nobre00@hotmail.com ; ana.person@usp.br Resumo A Caverna do Rio Fria (SP 40) foi descoberta em 1907 por Sigismund Ernst Richard Krone, que j havia cata logado 20 cavernas desde 1896, que as procurava para estudos paleontolgicos e arqueolgicos Desde ento, a Caverna do Rio Fria ficou praticamente esquecida, com a localizao incerta. Durante estudos desenvolvidos sobre depsitos antigos e modernos de tu fas na Serra de Andr Lopes, a caverna foi reencontrada e constatou se ser uma caverna atpica, no originada por dissoluo de rochas carbonticas pr existente, como comumente observado, mas sim uma cavidade originada pelo crescimento das tufas, depsito s carbonticos que so depositados nos rios e cachoeiras, que acabaram por envolver o espao da cavidade formando, assim, a caverna. No depsito antigo de tufa (Quaternrio) afloram conglomerados, com clastos de rochas no carbonticas do embasamento prote rozico, cimentados por tufa, sobrepostos por tufas rgidas, laminadas, com grande quantidade de clastos dispersos, em geral matriz suportados, de tamanhos variados, com nveis de conglomerados cimentados. A caverna encontra se protegida, pois situa se den tro do Parque Estadual Caverna do Diabo, porm possui diversos impactos causados por antiga atividade de minerao e pela visitao atual ocasional Palavras Chave : Caverna do Rio Fria; Tufa ; Sigismund Ernst Richard Krone; Serra do Andr Lopes Abstract T he Rio Fria Cave (SP 40) was discovered in 1907 by Sigismund Ernst Richard Krone, who had already catalogued 20 caves since 1896, which he sought for paleontological and archeological studies. Since then, the Rio Fria Cave, of uncertain location, had been practically forgotten. During studies developed regarding ancient and modern tufa deposits in the Serra de Andr Lopes region, the cave was re discovered and found to be atypical, not originating from dissolution of pre existing carbonate rocks, as commonl y observed, but as a result of a cavity formed by the growth of tufas, these being carbonate materials that are deposited on rivers and waterfalls, which end up surrounding the space of the cavity, thus forming a cave. In the ancient deposit (Quaternary) t here are outcrops of conglomerates, with clasts of non carbonate rocks of the Proterozoic basement, cemented by tufa, overlain by rigid laminated tufas, with a large number of dispersed clasts, generally matrix supported and of varying size, with levels of cemented conglomerates. The cave is found to be protected, as it is situated within the Caverna do Diabo State Park, although there is evidence of various impacts caused by former mining activities and current occasional visitors Key Words : ve; Tufa; Sigismund Ernst Richard Krone; Serra do Andr Lopes 1. INTRODUO A Caverna do Rio Fria (SP 40) foi descoberta por Sigismund Ernst Richard Krone em 1907 (BRANDI, 2007) e descrita pela primeira vez na e do rio continuao dos estudos que Krone j vinha realizando h alguns anos, na qual j havia catalogado 20 cavernas (KRONE, 1898), adicionando mais 21 neste segundo trabalho. Os trabalhos de Krone caracte rizam se pelo enfoque na paleontologia e arqueologia das cavernas, sendo que essa s geralmente so

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 8 apresentadas com descrio sucinta e menes imprecisas sobre a localizao. A nica meno sobre a Caverna do Rio Fria era o trabalho de Krone (1909), e havi a uma confuso devido ao fato de duas cavernas serem do Rio Fria (SP 40), qual refere se o presente trabalho, e caverna Fria ou do Frias (SP 79), mencionada por FIGUEIREDO et al. (2007) e BRANDI (2007). Tratam se de duas grutas distintas, distantes entre si, sendo a ltima localizada na regio da Caverna do Diabo. Este fato j havia sido constatado por MISKULIN et al. (1993) que mesmo sem saber a localizao exata da Caverna do Rio Fria, concluiu que a Gr uta do Fria outra gruta devido a grande distncia que as separam. A importncia da ocorrncia da Caverna do Rio Fria deve se ao fato de ser uma caverna atpica. Enquanto praticamente todas as cavernas formarem se pela dissoluo ou eroso de uma rocha en caixante, o que leva formao dos condutos e sales, a Caverna do Rio Frias formou se pelo crescimento e envolvimento do espao interior pelas tufas, constituindo se, assim, numa caverna acrescional, primria, e no de dissoluo, secundria. Depsitos s edimentares formados por tufas representam feies construtivas associadas a sistema crsticos. A extensa deposio moderna e antiga de tufas na regio se deve a associao entre o alto teor de carbonato de clcio dissolvido na gua (ampla predominncia de recarga autognica no sistema crstico), a alta limpidez da gua (ausncia de sedimentos siliciclsticos), intensa atividade biolgica e clima favorvel (subtropical supermido). Depsitos de tufas atuais, em formao, e antigos so descritos na Serra da Bodoquena (ALMEIDA, 1965, BOGGIANI; COIMBRA, 1995; BOGGIANI et al., 2002; SALLUN FILHO; KARMANN, 2007; SALLUN FILHO et al., 2009) e Serra das Araras (MT) (CORRA; AULER, 2007). Tambm ocorrem no sudoeste da Bacia Potiguar (REYES, 2003; REYES et al., 2003), na Paraba, Cear e Pernambuco (MUNIZ e RAMIREZ, 1971; DUARTE; VASCONCELOS, 1990a, 1990b), no norte da Bahia (AULER, 1999), no Rio de Janeiro (RAMOS et al., 2005) e em Sergipe (SOUZA LIMA; FARIAS, 2007). No so muito comuns as ocorrncias de cavernas dev ido ao crescimento de tufas. Apenas duas encontram se cadastradas no Cadastro Nacional de Cavernas CNC, da Sociedade Brasileira de Espeleologia (consulta de 28/01/2011), sendo uma no Rio de Janeiro (RJ 22, Abrigo sob rocha do Caxang) e a Caverna do Rio Fria. Existem tambm cavidades formadas pelo crescimento de tufas na Serra da Bodoquena, ao longo do Rio Mimoso, porm no cadastradas. 2. HIST"RICO As cavernas e o carste do Alto Ribeira foram revelados atravs dos estudos de Krone, naturalista que no pr incpio do sculo passado investigou vrias cavernas no Alto Ribeira em busca de material paleontolgico, arqueolgico e informaes etnogrficas (KARMANN; FERRARI, 2002). O naturalista Sigismund Ernst Richard Krone (1861 1917) Major Ricardo Krone, nasci do na Alemanha veio ainda jovem para Iguape (1884), onde viveu por trinta anos atuando como farmacutico, arquelogo, paleontlogo, ornitlogo, fotgrafo, alm de ter exercido cargos pblicos na cidade (FELIZARDO, 2010). Realizou o primeiro levantamento si stemtico de cavernas em So Paulo de 1895 a 1906, compondo o primeiro cadastro de caverna conhecido no Brasil (FELIZARDO, 2010). Era contratado pelo Museu Paulista, instituio criada em 1891 como Museu do Estado ( http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br ). BRANDI (2007) faz um histrico do incio dos estudos espeleolgicos no Vale do Ribeira onde destaca que ocorreram 3 expedies, em 1896 (ou 1897, KRONE 1904) e duas em 1907 realizadas por Krone e outra por Loureno Granato em 1901. Aps a primeira expedio de Krone regio do Alto Ribeira, em 1896, publicou um artigo na revista do Museu Paulista em 1898, que impressionou o Sr. Hermann von Ihering diretor do museu, que conseguiu sensibilizar o Secretrio do Interior a realizar aes de preservao das cavernas (BRANDI, 2007). Dois anos se passaram at que o Estado anunciou um parecer indicando a necessidade de estudos e de preservao das grutas, por parte da Secretaria da Agricultura (BRANDI, 2 007). Aps este parecer Loureno Granato foi incumbido pelo Estado, em 1900, a tomar todas as providncias cabveis para fazer o levantamento da situao e extenso das terras que inclussem grutas calcreas, e em novembro daquele ano, Granato juntamente c om Krone, realizaram levantamentos iniciais necessrios a uma expedio (BRANDI, 2007). Em 1901, Granato aps extensa pesquisa saiu para explorao da regio para realizar o levantamento das terras de onde existia meno sobre a presena de grutas, descrev endo 15 grutas, sendo 4 descobertas por Krone (BRANDI, 2007).

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 9 Aps as exploraes de Krone em 1896 e Granato em 1901, Krone pretendia dar sequncia aos estudos na mesma regio e em algumas cavernas j descritas. Krone realizou duas expedies em 1907, no p rimeiro e no segundo semestre, aps 11 anos afastado devido a falta de recursos (BRANDI, 2007). Segundo BRANDI (2007) nesta explorao Krone percorreu todas as grutas que Granato descobrira em 1901, alm da regio do Rio Pardo, uma possvel indicao dos m apeamentos de 1906 da Comisso Geogrfica e Geolgica (CGG), que resultaram na descoberta de duas pequenas grutas, a do Rio Fria e do Crrego Comprido. No final do sculo XIX a Comisso Geogrfica e Geolgica (CGG), com vistas a realizar estudos naturalist as que beneficiasse a cafeicultura paulista, promoveu uma ampla explorao do territrio paulista (FITTIPALDI et al., 2006). O ento Presidente da Provncia de So Paulo, Conselheiro Joo Alfredo Corra de Oliveira, convidou o gelogo norte americano Orvil le Adelbert Derby, Diretor da Seo de Geologia do Museu Nacional, para formular um plano para a explorao do territrio paulista (FITTIPALDI et al., 2006). A primeira expedio realizada pela CGG nos rios Itapetininga e Paranapanema foi comandada pelo En genheiro Theodoro Fernandes Sampaio (FITTIPALDI et al., 2006). Em 1889, a CGG publicou seu boletim n 1, (Retrospecto Histrico dos trabalhos geographicos e geolgicos effectuados na Provincia de S. Paulo), seguiram se muitas outras expedies e publicae s de carter geogrfico, geolgico, meteorolgico, botnico, arqueolgico, etnogrfico, histrico, terminologia indgena etc. (FITTIPALDI et al., 2006). A expedio do Rio Ribeira de Iguape se iniciou em 12/06/1906 (FITTIPALDI et al., 2006), publicada post eriormente (CGG, 1914) com o relato da ocorrncia de diversas cavernas, algumas j descritas por KRONE (1898, 1909), porm sem descrev las. explorao do Rio Ribeira de Iguape pela CGG juntou se Ricardo Krone que j vinha desenvolvendo seus trabalhos na regio, e que no caso fez um extenso levantamento arqueolgico neste rio, publicados pela CGG (1914). Segundo BRANDI (2007) a participao de Krone na expedio da CGG deve ter sido apenas indireta, como um consultor devido ao seu grande conhecimento da r egio, e isto explicaria a presena deslocada de fotografias de cavernas no relatrio da CGG (1914) sem textos associados. Outro fator importante que motivou a mudana de planos na expedio de Krone em 1907 descrito pelo prprio KRONE (1909): dos trabalhos por mim contractados, fui altamente contrariado por uma occurrencia, que anteriormente no me era possivel prever : foi me vedado o ingresso em alguma cavernas, por parte dos seus proprietarios e eram estas justamente as toca de meu conhecim ento e que estavam predestinadas para o servio. Provinha esta disposio hostil aos meus projectos da esperana que esses cidados tinham de vender essas cavernas ao Governo do Estado de So Paulo, que, para sua acquisio, creara uma lei de desapropria o (n. 1083, de 30 12 1906). Em consequencia disso vi me obrigado a procurar e explorar novas cavernas, pertencente a pessoa menos interesseiras, por sua posio politica, no esperavam ser consideradas na projectada compra do governo, ou que estivessem sit uadas em terras KRONE (1909) cita erroneamente a lei n. 1083, de 30 12 1906, onde o correto seria a lei n. 1084, de 29 12 1906, publicada no Dirio Oficial do Estado em 16 01 1907. Muitos anos se passaram desde as exploraes e descobertas inic iais de Krone e Granato at a espeleologia paulista ter novas fases de exploraes e descobertas. Por todo o perodo desde o incio do sculo XX e as dcadas de 1950 e 60, muitas cavernas do Vale do Ribeira nunca foram exploradas ou mesmo visitadas, e a pr pria localizao de algumas delas foi esquecida. Com a retomada das exploraes a partir da dcada de 1950 houve um esforo para localizao das cavernas descritas por Krone, com a descoberta de dezenas de outras cavernas. Esta nova fase da espeleologia paulista se iniciou nas dcadas de 1950 e 60, passando para uma consolidao dos grupos de espeleologia na dcada de 1970, que consolidou esta atividade no estado. O Centro Excursionista Universitrio (CEU), um dos grupos pioneiros de espeleologia paulista foi muito ativo na dcada de 1970, tambm partiu das observaes de Krone e promoveu a localizao, explorao e mapeamento de muitas cavernas descobertas anteriormente. A Caverna do Rio Fria foi descoberta e descrita por KRONE (1909) e aps este trabalh o no foi mencionada por quase 70 anos. Durante estas atividades do CEU a Caverna do Rio Fria foi relocalizada, possivelmente em 1978, conforme registros prvios do Cadastro Nacional de Cavernas

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 10 da Sociedade Brasileira de Espeleologia. Durante trabalhos de mapeamento geolgico da Folha Brao por CAMPANHA et al. (1985) localizaram algumas cavernas e feies crsticas, porm sem detalhar. Mesmo assim localizaram a entrada de uma caverna, que corresponde a Caverna do Rio Fria. Neste mesmo mapeamento tambm reg istraram a presena de tufas (denominados originalmente de travertino) em alguns pontos da Serra do Andr Lopes, alm da presena de uma antiga pedreira. Em 2009 esta gruta foi redescoberta durante trabalhos de campo para estudos de tufas na Serra do Andr Lopes. 3. CONTEXTO REGIONAL A Caverna do Rio Fria localiza se no municpio de Barra do Turvo, dentro do Parque Estadual Caverna do Diabo (desmembrado do Parque Estadual de Jacupiranga), com coordenadas UTM 755190E e 7262669N (Zona 22, datum Crrego Alegr e) (Fig. 1, 2). Situa se na poro sudoeste da Serra do Andr Lopes, associado ao Ribeiro Claro, afluente do Rio Frias. As regies sudoeste do Estado de So Paulo e norte do Paran esto inseridas no extremo nordeste da faixa carbontica do Supergrupo Au ngui, que engloba diversas unidades alinhadas na direo NE SW na parte central da Faixa de Dobramentos Ribeira. Estes carbonatos condicionam o Carste do Alto Vale do Ribeira (KARMANN, 1994) que, segundo KARMANN; SANCHEZ (1986) caracterizado por feies do tipo escarpas rochosas, torres isoladas, dolinas, sumidouros e ressurgncias, com cavernas e abismos abundantes, com rios subterrneos. Os depsitos de tufas localizam se no sop da Serra do Andr Lopes, um dos diversos corpos carbonticos do Vale do Ri beira. Neste trabalho utilizamos o termo tufa, que conforme discutido por SALLUN FILHO et al. (2009), o uso dos termos controvertido. Trabalhos em portugus so publicados usando tufa, tufa calcria, tufo cal crio e travertino, para os sedimentos carbonticos continentais associados a drenagens fluviais, sendo que publicaes mais recentes vm utilizando com existe confuso com esta nomenclatura, e FORD; PEDLEY (1996) definiram o termo tufa (tufa) como sendo produto da precipitao de carbonatos em guas frias (no termais) e o termo travertino ( travertin ) restrito a depsitos termais, e o termo tuff ) a rochas vulcnicas piroclsticas (FORD; PEDLEY, 19 96). Por outro lado, alguns autores consideram o termo travetino como mais adequado para designar calcrios continentais formados em rios ou lagos (PENTECOST, 2005). Desta forma, o uso do termo tufa (em portugus) como traduo do ingls tufa empregado no Figura 1: Localizao da caverna. A Serra do Andr Lopes apresenta feio de relevo que a distingue das demais reas do Vale do Ribeira. praticamente toda constituda po r rochas em referncia ao antigo nome da Gruta do Diabo, pertencente ao Grupo Setuva do Supergrupo Aungui, caracterizados por filitos, xistos e os referidos dolomitos (CAMPANHA, 2002). O extenso corpo de dolom ito da Serra do Andr Lopes tem 23 km na direo NE SW e 4 km na sua extenso menor, com direo NW SE (Fig. 2). A Serra do Andr Lopes constitui um grande planalto carbontico com altitudes entre 500 e 1000 m, que forma relevo positivo em relao aos fili tos e xistos inferiores (Fig. 2). Essa conformao contrria ao que se observa no restante das exposies desses metassedimentos, sendo que as reas de exposio de calcrio encontram se em atitudes inferiores s de rochas no calcrias (KARMANN, 1994; K ARMANN; FERRARI, 2002). O embasamento

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 11 paleoproterozico dos metassedimentos do Supergrupo Aungui constitudo por um conjunto de rochas gnissico migmatticas, com alguns ncleos charnokticos e intercalaes de metassedimentos (CAMPANHA, 1991). O Grupo Setuva constitudo essencialmente por filitos e xistos finos, por vezes com alguns corpos menores de mrmore intercalados (CAMPANHA, 1991). Acrescenta se a essa caracterstica geomorfolgica, o fato ainda das camadas do corpo dolomtico mergulharem para o seu interior, formando uma estrutura geolgica sinformal, com eixo na direo NE, segundo a estruturao regional, o que faz com que a drenagem desse corpo seja essencialmente autognica, ou seja, com as guas provindas das chuvas percorrendo sobre os do lomitos, o que no comum para o Sistema Crstico como um todo do Vale do Ribeira, caracterizado por recargas alognicas, ou seja com guas que percorrem rochas no carbontica. As poucas reas de recarga alognica originam se de cristas no carbonticas (elevadas em relao aos mrmores) formadas pelo Grupo Setuva. A conformao acima descrita faz com que as drenagens da Serra do Andr Lopes sejam caracterizadas por um teor relativamente maior de carbonato de clcio dissolvido, o que faz com que ali ocorr a as concentraes de tufas, praticamente inexistentes em demais partes do Vale do Ribeira. A Caverna do Rio Fria desenvolve se em no Ribeiro Claro, um afluente do Rio Frias (Fig. 2). O Ribeiro Claro po ssui uma deposio ativa de tufas (a mais expressiva na Serra do Andr Lopes), bem como tufas antigas erodidas em seu leito e como depsitos de encosta na sua foz, quase no Rio Frias. Figura 2: A Mapa geolgico da rea (Modificado de CAMPANHA, 2002); B Modelo digital de terreno baseado em mapas topogrficos 1:10.000 (IGc); C Mapa hipsomtrico com as principais drenagens (baseados em mapas topogrficos 1:10.000 IGc) com destaque as bacias relacionadas Caverna do Rio Fria.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 12 No Ribeiro Claro ocorre a deposio de cachoeiras e represas de tufas e de conglomerados cimentados. A morfologia das tufas ativas, em um trecho do Ribeiro Claro, prximo ao Rio Frias, de cachoeiras e represas. Esta deposio muito extensa, observado por pelo menos 2 km e de ve abranger todo o Ribeiro do Claro, desde suas cabeceiras at sua foz, no Rio Frias. O Rio Claro nasce em reas crsticas no planalto e percorre principalmente rochas no carbonticas, com as e em alta declividade do terreno. Nas cotas mais baixas da Serra, o Rio Claro possui um canal principal, porm a juzante ele subdivide se em pelo menos trs drenagens menores, uma principal de maior vazo e duas de grande abrangncia em rea e baixa vazo. No canal principal as tufas no apresentam feies de eroso, mas sim formas arredondadas tpicas, de tamanho mtrico, e represas, em um leito fluvial de alta energia em uma encosta muito inclinada. As formas arredondadas das barragens indicam crescimento vertical ativo das tufas, com a influncia de organismos na precipitao do carbonato. No Rio Claro constatou se que as guas possuem Ph de 8,6 e as tufas ativas so constitudas essencialmente de calcita, quartzo e muscovita. Possuem um alto teor em CaO, e teores menores em MgO, SiO 2 e Al 2 O 3 Desta forma as tufas foram classificadas quimicamente como calcrios puros. Na margem direita do Ribeiro Claro prximo ao Rio Frias ocorrem extensos depsitos antigos de encosta, assentada sobre xistos do embasamento proter (Fig. 3). Diversos patamares de antigas cachoeiras esto presentes, alguns deles cortados artificialmente em antiga explorao de rocha ornamental. H inclusive uma pequena caverna primria neste depsito (Fig. 3) Este depsito possui no mnimo 6 m de altura, ocorrendo o contato com xistos do embasamento proterozico. Afloram conglomerados, clasto suportados, com clastos de rochas no carbonticas do embasamento proterozico, cimentado por tufa, sobrepostos por tu fas rgidas, laminadas, com grande quantidade de clastos dispersos, em geral matriz suportados, de tamanhos variados, com nveis de conglomerados cimentados (clasto suportados). A datao deste depsito indicou idades acima de 42.000 anos AP no topo, extra polando o limite do mtodo de radiocarbono. Este depsito possui altos teores em CaO, porm bastante variveis com a ocorrncia de teores mais baixos. Os teores de MgO e Al 2 O 3 so em geral baixos. J os teores SiO 2 so bastante variveis, de muito altos a muito baixos. Desta formam as rochas foram classificadas quimicamente como desde calcrios puros passando para calcrios impuros at conglomerados cimentados por tufas (rocha no carbontica) que ocorrem na base. Neste depsito constatou se que as tufas s o mineralogicamente constitudas essencialmente de calcita, quartzo e muscovita. 4. CAVERNA DO RIO FRIA A descoberta da Caverna do Rio Fria se deu por Krone em 1901, e foi descrita pela primeira vez por KRONE (1909). KRONE (1909) descreve a Caverna do Rio Fria em dois momentos no seu artigo, de forma simples e sucinta: Caverna do Rio Fria Seis quilometros acima da barra do Rio Fria, margem direita deste rio e apenas 20 metros de distancia. D passagem a um (pg. 153 ) o Rio Fria N.40. Esta caverna percorrida por um pequeno corrego que se frma al mesmo, pela juno das guas dos diferentes condutos, dos quais esta lapa se compe. H compartimentos ricamente ornamentados de calcitos, porm, todos de pequenas dimenses e todos convergindo para uma pequena sala, cujo pa v imento se acha profundamente (pg. 161) Por estas descries, mesmo simples, vimos que realmente a caverna localizada corresponde a Caverna do Rio Fria. Alm destas desc ries traz uma foto de um conjunto de espeleotemas, reconhecidos atualmente no salo de entrada da caverna (Fig. 4). No faz nenhuma meno a tipo de rocha na qual a caverna formada. Porm menciona 148), mas interpretamos aqui o termo cal utilizado por ele como os dolomitos de cor clara do proterozico, e no tufas. Sabe se hoje que em grande parte do Rio Claro predominam tufas e no Rio Frias depsitos de aluvio (areias e cascalhos), ambos sobre filitos e xistos. Desta forma KRONE (1909) no notou em seu trabalho que a Caverna do Rio Fria composta por tufas, depositados pelo Rio Claro.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 13 Figura 3: Tufas ativas em cachoeiras (A) e represas (B) no Rio Claro; Depsito do Frias: C Grande afloramento de tu fas antigas; D Corte artificial nas tufas feitas por antiga atividade minerria; E Pequena cavidade no depsito de tufa.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 14 Figura 4: Caverna do Rio Fria: A Entrada da caverna, com indicao do local das fotografias B e C; B Fotografia de KRONE (1909) ; C Fotografia atual do mesmo local da fotografia B de KRONE (1909), notar no centro a depredao de estalagmite, que antes fazia um par, notada na fotografia de Krone. A Caverna do Rio Fria situa se na encosta da serra, a altitude de 190 m. O Rio Claro escoa a cerca de 30 metros a leste da caverna, praticamente acima da galeria leste. Parte da gua do Rio Claro infiltra na caverna principalmente pela galeria leste, mas oeste (Fig. 5). Estes dois crregos se unem no salo principal da caverna, e escoam para exterior, onde aps cerca de 15 m a juzante, infiltra em um pequeno abismo no explorado. KRONE (1909) j havia notado estes crregos na caverna. Possui pequenas dimenses, com 80 m de desenvolvimento e 11 de desnvel. A caverna possui direo geral norte sul, que acompanha a declividade da encosta e conseqentemente o fluxo do Rio Claro (Fig. 5). O salo de entrada da caverna basicamente um salo de abatimento (Fig. 6). Porm, acreditamos que ainda tenha herdado a forma geral do conduto original. A caverna possui forma afunilada, com o teto rebaixando em direo ao fundo (Fig. 5). No salo de entrada ocorrem muitos espeleotemas (estalagmites, estalactites, cortinas e colunas) (Fig. 7). No piso do salo de entrada ocorre um pequeno depsito de gastrpodes incrustados por calcita. No fundo deste salo e no acesso para galeria leste, ocorrem algumas chamins no teto, que so condutos de forma vertical, sem conexo aparente com a superfcie, por onde goteja g ua. A galeria leste composta por um nico conduto de piso plano, coberto por escorrimentos e espeleotemas do tipo travertino, com seixos e fragmentos de espeleotemas incrustados. O teto baixo e rico em estalactites. Por esta galeria percorre a drenagem principal da caverna. A galeria oeste tambm composta por um nico conduto de piso plano, coberto por escorrimento de grande porte e espeleotemas do tipo travertino, com seixos, blocos de rocha e fragmentos de espeleotemas incrustados (Fig. 7). O teto rico em estalactites e alguns chuveiros, responsveis pela formao de um pequeno rio. Os espeleotemas possuem uma cor que varia de branca a amarelada.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 15 Figura 5: Mapa da Caverna do Rio Fria. Por toda a caverna se v pores onde a tufa est exposta, sem espeleotemas (Fig. 8). uma tufa macia, de cor amarelada, raramente estratificada, recristalizada em algumas pores, com grande quantidade de material terrgeno na forma de areia, seixos e blocos de rochas do embasamento (xistos, dolomitos, quartzi tos e filitos). A primeira vista algumas pores ricas em seixos se assemelham a um preenchimento sedimentar terrgeno posterior, mas so feies da prpria tufa. Com a dissoluo da tufa alguns seixos e blocos se desprendem do teto, se assentando no piso da caverna, por vezes sendo recobertos por calcita secundria.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 16 Figura 6: Fotografia do salo de entrada. A Caverna do Rio Fria possui algumas intervenes realizadas durante atividades de minerao, j desativada (Fig. 9). Esta antiga explotao deve ter ocorrido por volta das dcadas de 1950 60 e visava a extrao da tufa para rocha ornamental. Evidncias desta atividade esto por todo o caminho de acesso a gruta, como estruturas de concreto, cabos de ao, blocos de tufa abandonados e diversos cortes artificiais, planos, ao longo de todo o depsito (Fig. 9). A Caverna do Rio Fria foi parcialmente destruda por esta atividade, com dois cortes nas duas laterais da entrada. Restos de cabos de ao amarrados a espeleotemas ainda encontram se na caverna. O s istema de extrao utilizado na poca o de corte contnuo, onde cabos de ao sobre roldanas circulavam em um sistema fechado, passando por material abrasivo e movidos por um motor. Mesmo j cessada a atividade de minerao, a rea ainda encontra se dentr o de um ttulo minerrio em situao de disponibilidade, segundo o DNPM, sob o nmero 821041/2008 de posse de Mg Par Comrcio de Mrmores e Granitos Ltda (consulta de 20/01/2011) (Fig. 10) A Caverna do Rio Fria situa se dentro do Parque Estadual Caverna d o Diabo, portanto encontra se protegida. Na delimitao anterior, como Parque Estadual Jacupiranga, a caverna encontrava se fora do parque (Fig. 10). Mesmo estando em rea com ttulo minerrio, a caverna est protegida de atividades minerrias, pois no s o permitidas dentro de Unidades de Conservao, segundo a legislao vigente (p.ex. Lei federal 9.985, 18/07/2000 Sistema Nacional de Unidades de Conservao; Decreto federal 84.017, 21/09/1979 Regulamento dos Parque Nacionais; Decreto estadual 25.341, 04/06/1986 Regulamento dos Parques Estaduais Paulistas). Porm, existe uma minerao (MINERVALE) em atividade nas cabeceiras do Rio Claro. Mesmo com esta minerao situada fora do parque e distante da caverna, podem ocorrer impactos indiretos na forma d e impactos nas drenagens que compe a bacia do Rio Claro. Sendo assim, deve haver fiscalizao intensa para evitar o lanamento de material slido nas drenagens, o que poderia inibir ou reduzir a precipitao de tufas, ou mesmo causar assoreamento no rio e na caverna. Atualmente um empreendimento de pequeno porte, mas o controle ambiental deve ser feito, especialmente em caso de expanso. Alm disso, a estrada que conduz a minerao situa se na mesma bacia, e desta forma qualquer acidente com veculos pod eria ocasionar danos ambientais ao Rio Claro e a caverna. Apesar apesar da visitao nesta caverna no ser prevista, tem recebido visitantes ocasionais da regio. Consta do site da Prefeitura Municipal de Barra do Turvo como um atrativo turstico natural d o municpio ( http://www.barradoturvo.sp.gov.br/index.php?exibi r=secoes&ID=46 ), de forma irregular pois a caverna no possui plano de manejo. A caverna apresenta diversos sinai s de degradao por visitantes (Fig. 9), como pixaes, lixo, restos de fogueiras e claros sinais de quebra proposital de espeleotema. No salo de entrada da caverna h uma acreditamos ter sido feita pelo C EU na dcada de 1970, em referncia ao seu nmero no Cadastro Nacional de Cavidades.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 17 Figura 7: Caverna do Rio Fria: A Grande colu na/cortina no Salo de Entrada; B Es talactites no salo de entrada; C Escorrimento na galeria oeste; D Teto com estalact ites, piso por onde percorre drenagem, com blocos e seixos incrustados por calcita secundria, na galeria oeste; E Depsito de gastrpodes incrustados por calcita secundria no piso do salo de entrada. 5. CONSIDERA'ES FINAIS A Caverna do Rio Fria foi relocalizada e verificou se se tratar de uma caverna desenvolvida em tufa, assentadas sobre filitos e xistos proterozicos. De fato a caverna situa se em uma rea no crstica, apesar de estar em um depsito carbontico quaternrio, e distante do carste da Serra do Andr Lopes. A gnese da caverna e do depsito de tufas foi possvel graas ao aporte de guas provenientes de nascentes crsticas distantes. PEDLEY (1990) criou modelos para identificao de ambientes deposicionais das tufas, que incluem os dep sitos de nascentes proximais e distais, depsitos em cachoeiras, depsitos fluviais, lacustres e paludais. O Depsito do Frias constitui um depsito em cachoeiras, que segundo PEDLEY (1990) possui tipicamente acamamento inclinado, formando uma cortina de carbonato precipitado por onde ocorre o fluxo de gua, com comum formao de cavernas com espeleotemas atrs da cortina. A gnese principal da Caverna do Rio Fria se enquadra

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 18 neste modelo, sendo assim em sua maior parte uma caverna primria, singentica ao depsito. Os condutos so relquias das galerias originais, no muito modificadas por abatimento. O salo de entrada parcialmente original e foi posteriormente modificado por abatimento. Processos de dissoluo posteriores tambm ocorreram, evidenciados p.ex. pela dissoluo diferencial entre clastos/matriz nos conglomerados, mas no so considerados significativos, pois a gua do Rio Claro supersaturada em carbonato de clcio. O processo de dissoluo mais importante pelas chamins encontradas no sal o de entrada, e gerado pela infiltrao guas metericas mais cidas. A reestruturao do Parque Estadual de Jacupiranga, fez com que a Caverna do Rio Fria fosse englobada pelo limite do novo Parque Estadual Caverna do Diabo, atribuindo um nvel de prote o maior a caverna. Mesmo assim, deve se ter ateno especial nas atividades da minerao MINERVALE (a montante no Rio Claro), especialmente no lanamento de resduos slidos, como medida de proteo s tufas do Rio Claro e a Caverna do Rio Fria. Quando a e xplorao dos dolomitos por esta minerao iniciar de forma mais intensa, devem ser estabelecidas medidas de segurana e conteno de passivos ambientais nas reas de circulao de veculos e instalao de mquinas. Esta caverna frgil pela sua prpria c onstituio rochosa, e devido ao fato da caverna receber visitao espordica, sugere se que estudo da viabilidade turstica seja desenvolvido e, caso venha a ser realmente aberta a esse tipo de visitao, seria elaborado o plano de manejo espeleolgico, a ssim como prever essa visitao no plano de manejo da unidade. Figura 8: Aspectos da rocha fo rmadora da Caverna do Rio Fria: A e B Tufa com grandes blocos de rocha do embasamento, ressalta dos por dissoluo diferencial; C e D Conglomerados compostos de clastos de rochas do embasamento cimentados por tufa.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 19 Figura 9: A Bloco dimensional de tufa, cortado pela antiga atividade minerria, na trilha de acesso a caverna; Caverna do Rio Fria: B Cabo de ao da antiga atividade minerria preso a salin ci a em rocha dentro da caverna; C, D Faces cortadas pela antiga atividade minerria na parede leste e no teto, na entrada da caverna; E possivelmente feita pelo CEU Centro Excursionista Universitrio na dcad a de 1970.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 20 Figura 10: A Situao da caverna em rel ao a Unidades de Conservao; B Situao da caverna em relao aos ttulos minerrios (DNPM).

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 21 AGRADECIMENTOS FAPESP pelo financiamento das pesquisas (Proc. n 08/08583 7). Ao Parque Estadual C averna do Diabo, especialmente a Josenei Cara (gestor do parque) e a Josias Moreira (funcionrio e monitor ambiental), pelo apoio concedido. Ao Sr. Elerian e seus funcionrios da Fazenda Ribeiro do Fria pelo apoio em campo. Ao Centro de Cincias, Letras e Artes de Campinas e a Roberto Brandi pelo envio de bibliografias e ao Instituto Geogrfico e Cartogrfico IGC, pelo fornecimento de mapas topogrficos Ao(s) revisor(es) pelas sugestes apresentadas REFERNCIAS ALMEIDA, F.F.M. de 1965. Geologia da Se rra da Bodoquena (Mato Grosso), Brasil. Boletim da Diviso de Geologia e Mineralogia DNPM, 219:1 96. AULER, A.S. Karst Evolution and Palaeoclimate in Eastern Brazil 1999. Tese (Doutorado), University of Bristol, Bristol, Inglaterra. BOGGIANI, P.C.; COIMB RA, A.M. Quaternary limestones of the Pantanal Area, Brazil. Anais da Academia Brasileira de Cincias v. 67, n. 3, p. 343 349, 1995. BOGGIANI, P.C.; COIMBRA, A.M.; GESICKI, A.L.; SIAL, A.N.; FERREIRA,V.P.; RIBEIRO, F.B.; FLEXOR, J.M. Tufas Calcrias da Se rra da Bodoquena, MS: cachoeiras petrificadas ao longo dos rios. In: SCHOBBENHAUS, C.; CAMPOS, D.A.; QUEIROZ, E.T.; WINGE, M.; BERBERT BORN, M. (Eds.) Stios Geolgicos e Paleontolgicos do Brasil Braslia DF, DNPM, 2002, p. 249 259. CORRA, D.; AULER, A. S. Tufas calcrias da Serra das Araras (MT): Um notvel depsito sedimentar Quaternrio. In: ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS DO CARSTE, II, 2007. So Paulo. Resumos Expandidos e Simples So Paulo: Redespeleo, 2007. p. 11 11. BRANDI, R. Ricardo Krone e Lour eno Granato: Influncias na histria da espeleologia paulista no final do sculo XIX e incio do sculo XX. O Carste v.19, n. 2, p. 36 60, 2007. CAMPANHA, G. A. C. Tectnica Proterozica no Alto e Mdio Vale do Ribeira, Estados de So Paulo e Paran 199 1. 296 p. Tese (Doutorado em Cincias), Instituto de Geocincias, Universidade de So Paulo. CAMPANHA, G.A. O papel do sistema de zonas de cisalhamento transcorrentes na configurao da poro meridional da Faixa Ribeira 2002. 105 p. Tese (Livre Docncia) Instituto de Geocincias, Universidade de So Paulo. CAMPANHA, G.A.C.; GIMENEZ Filho, A.; CAETANO, S.L.V.; PIRES, F.A.; DANTAS, A.S.L.; TEIXEIRA, A.L., DEHIRA, L.K. Geologia das folhas Iporanga (SG 22 X B V 2) e Gruta do Diabo (SG 22 X B VI 1), Estado de So Paulo So Paulo: PROMINRIO / IPT, 1985. Relatrio 22.352. CGG Commisso Geographica e Geologica do Estado de So Paulo. Explorao do Rio Ribeira de Iguape 2a edio, So Paulo, 1914. DUARTE, L.; VASCONCELOS, M.E.C. Vegetais do Quaternrio do Bra sil. I Flrula de Russas, CE. Anais da Academia Brasileira de Cincias v. 52, n. 1, p. 37 48, 1980a. DUARTE, L.; VASCONCELOS, M.E.C. Vegetais do Quaternrio do Brasil. I Flrula de Umbuzeiro, PB, CE. Anais da Academia Brasileira de Cincias v. 52, n. 1 p. 93 180, 1980b. FELIZARDO, J. A. Cavernas em foco: Espeleologia histrica e cultural mundial Editora Bookess, 2010, 188 p.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 22 LOBO, H.A.S. Projeto Caverna do Diabo (PROCA D): Aspectos histricos (1990 2007) e resultados das expedies da terceira fase. CONGRESSO BRASILEIRO DE ESPELEOLOGIA, XXIX, 2007, Ouro Preto, MG. Anais SBE, p. 113 119. FITTIPALDI, F. C.; SANCHEZ, G. S.; SHIMADA, H.; TAVARES, R.; CHRISTOFOLETTI, S. R.; SALLUN FILHO, W. Commisso Geographica e Geologica do Estado de So Paulo, 1886 2006 (120 anos) So Paulo: Instituto Geolgico, 2006. CD ROM Multimdia. KARMANN, I. 1994. Evoluo e dinmica atual do sistema crstico do alto Vale do Rio Ribeira de Iguape, sudeste do estado de So Paulo 1994. 214 p. Tese (Doutorado), Instituto de Geocincias, Universidade de So Paulo. KARMANN, I., SANCHEZ, L.E. Speleological Provinces in Brazil. In: Congreso Internacional de Espeleologia, 9, 1986. Barcelona. Anais Barcel ona: IUS, vol.1, p. 151 153. KARMANN, I.; FERRARI, J.A. Carste e Cavernas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), SP Sistemas de cavernas com paisagens subterrneas nicas. In: SCHOBBENHAUS, C.; CAMPOS, D.A.; QUEIROZ, E.T.; WINGE, M.; BERBE RT BORN, M. (Eds.) Stios Geolgicos e Paleontolgicos do Brasil Braslia DF, DNPM, 2002, p. 401 413. KRONE, R. As grutas calcareas de Iporanga. Revista do Museu Paulista v. 3, p. 477 500, 1898. KRONE, R. Grutas Calcareas do Valle da Ribeira. Revista do Centro de Sciencias, Letras e Artes de Campinas p. 90 95, 1904. KRONE, R. Estudo sobre as cavernas do valle do rio ribeira. Arquivos do Museu Nacional v. 15, p. 139 166, 1909. MISKULIN, M.M.; ROMANINI, P.C.; AMBR"SIO, W.B.; OLIVEIRA, S.F.; AUGUSTO, I.A. VII Expedio Caverna do Diabo Relatrio indito, 1993, 11 pginas. MUNIZ, G.C.B.; RAMIREZ, L.V.O. Tufo calcrio (tufa) quaternrio com moluscos, nos estados da Paraba e Pernambuco. Anais da Academia Brasileira de Cincias v. 43 (supl.), p. 611 618, 197 1. PEDLEY, H.M. Classification and environmental models of cool freshwater tufas. Sedimentary Geology v. 68, n. 1 2, p. 143 154, 1990. PENTECOST, A. Travertine Berlin: Springer Verlag, 2005. 445 p. RAMOS, R. R. C. et al. Primeiro registro de tufas calcr ias no Estado do Rio de Janeiro. In: CONGRESSO DA ASSOCIAO BRASILEIRA DE ESTUDOS DO QUATERNRIO, X, 2005, Guarapari. Anais Guarapari: ABEQUA, 2005. v. 1, p. 1 6. REYES, Y.A. Caracterizao da geometria de depsitos sedimentares na borda sudoeste da Bac ia Potiguar 2003. 81 p. Dissertao (Mestrado), Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. REYES, Y. A.; BEZERRA, F. H. R.; LIMA FILHO, F. P. Falhas de gravidade em tufas calcrias na Bacia Potiguar, NE do Brasil. In: SIMP"SIO NACIONAL DE ESTUDOS TECTNICOS, 9, 2003, Bzios. Boletim de resumos Bzios: SBG, 2003. p. 276 279. SALLUN FILHO, W.; KARMANN, I. Geomorphological map of the Serra da Bodoquena karst, west central Brazil. Journal of maps p. 282 295, 2007. SALLUN FILHO, W.; KARMANN, I. ; BOGGIANI, P. C. ; PETRI, S. ; CRISTALLI, P. S. ; UTIDA, G. A deposio de tufas quaternrias no Estado de Mato Grosso do Sul: proposta de definio da Formao Serra da Bodoquena. Geologia USP. Srie Cientfica v. 9, p. 47 60, 2009.

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S allun Filho et al Caverna do rio Fria (SP 40) revisitada 100 anos depois de K rone SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 23 SOUZA LIMA, W.; FARIAS, R.M. A flora quaternria dos travertinos de Itabaiana, Sergipe. In: PALEO 2007, 2007. Itabaiana. Resumos Itabaiana: SBP, 2007. p. 7. Fluxo editorial : R ecebido em: 0 9 0 2 .20 1 1 Corrigido em: 21.03.2011 Aprovado em: 24 0 3 .201 1 A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www. cavernas.org.br/espeleo tema.asp

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 25 NOVO STIO ESPELEOL"GICO EM SISTEMAS FERRUGINOSOS, NO VALE DO RIO PEIXE BRAVO, NORTE DE MINAS GERAIS, BRASIL NEW SPELEOLOGICAL SITE IN FERRUGINOUS SYSTEMS, RIO PEIXE BRAVO VALLEY, NORTHERN MINAS GERAIS, BRAZIL Felipe Fonseca do Carmo ( 1 ) Flvio Fonseca do Carmo ( 1 ) Andr Augusto Rodrigues Salgado ( 2 ) & Claudia Maria Jacobi (1) (1) Departamento de Biologia Geral, ICB, Universidade Federal de Minas Gerais UFMG, Belo Horizonte MG ( 2 ) Departamento de Geografia, IGC, Universidade Federal de Minas Gerais UFMG, Belo Horizonte MG Contatos: felipecave@yahoo.com.br ; carmo.flaviof@gmail.com ; geosalgado@yahoo.com.br ; jacobi@icb.ufmg.br Resumo Os afloramentos ferruginosos conhecidos como cangas esto entre os geossistemas mais ameaados do Brasil devido a sua distribuio restrita e geneticamente associada aos principais depsitos de minrio de ferro do pas. Atualmente destacam se dois complexos espeleolgicos nesse litotipo, onde j foram diagnosticadas mais de 1.500 cavidades, localizadas em Carajs (PA) e no Quadriltero Ferrfero (MG). Recentemente foi descoberto um novo stio es peleolgico distribudo ao longo do Vale do Rio Peixe Bravo, Bacia do Rio Jequitinhonha (MG). Os processos de dissoluo presentes nas cavidades e ainda atuantes nos afloramentos caracterizam este geossistema como um sistema crstico. At o momento foram o bservados cerca de 60 vestbulos de cavidades desenvolvidas em diversos litotipos ferruginosos, sendo que 21 j foram aferidas e georreferenciadas. A maioria est inserida nas encostas dos extensos plats capeados pelas cangas. Algumas cavidades apresentar am vrios sales e galerias de grande volume quando comparadas s cavernas ferruginosas j descritas. Alm da espeleometria notvel, destacam se tambm provveis registros paleontolgicos e arqueolgicos, tais como possveis icnofsseis e sulcos na rocha s emelhantes a figuras geomtricas. Esta rea reveste se de elevada relevncia ambiental para a regio, devendo ser considerada prioritria para a criao de novas unidades de conservao, em especial por abrigar um geossistema subterrneo ainda pouco conhec ido Palavras Chave : cangas; carste ferruginoso; cavernas; vale do Rio Peixe Bravo Abstract Ironstone outcrops known as cangas are among the most threatened Brazilian geosystems, due to their restricted distribution and genetic association with the main iron ore deposits in the country. Currently, two ironstone speleological complexes stand out. They are located in Carajs (PA) and Quadriltero Ferrfero (MG) regions, with more than 1,500 cavities identified. Here a new speleological site, located along t he valley of Peixe Bravo river, Jequitinhonha river basin (Minas Gerais State), is described. The dissolution processes in the cavities, and still active on the outcrops, characterize this geosystem as a karstic system, with nearly 60 vestibules of caves d eveloped in diverse iron lithotypes. Twenty one cavities have been measured and georeferenced, mainly located in the slopes of the extensive plateaus topped by cangas. Some cavities show several halls and galleries which appear large compared to the ferrug inous caves previously described. Besides the notable speleometry these caves present probable paleonthological and archaeological records, such as possible ichnofossils and grooves on the rock resembling geometrical figures. This area is of high environme ntal relevance for the region and should be a priority for the creation of new protected areas, in particular due to its poorly known underground ecosystem Key Words : ironstone outcrops, ferruginous karst, caves; Rio Peixe Bravo valley 1. INTRODUO O B rasil concentra algumas das maiores ocorrncias mundiais de formaes ferrferas (KLEIN, 2005), uma denominao genrica para rochas que exibem valores superiores a 15% de xidos de ferro (SGARBI, 2007). Nessas formaes ocorrem alguns dos maiores depsito s de minrio de ferro conhecidos, representando quase 20% das reservas globais. Esse potencial geolgico situa o

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 26 pas em segundo lugar na produo mundial desse minrio, que em 2010 foi de 370 milhes de toneladas (IBRAM, 2010). Associadas geneticamente s formaes ferrferas, e recobrindo as, encontram se as couraas ferruginosas conhecidas como cangas. Esses afloramentos ferruginosos ocorrem geralmente nas pores mais altas do relevo, sobre os principais depsitos de minrio de ferro do Brasil, notadame nte sobre aqueles localizados no Quadriltero Ferrfero/MG; na Serra de Carajs/PA; e na Morraria de Urucum/MS (DORR, 1969; WALDE, 1986). Um relevante patrimnio geoambiental, arqueolgico e biolgico ainda pouco conhecido est associado s cangas e as fo rmaes ferrferas (CARMO, 2010). Este importante patrimnio espeleolgico, que at recentemente era negligenciado, caracterizado por gnese, tipologia e mineralogia peculiares (AULER; PIL", 2005) pois, ao contrrio da maior parte das cavidades, no se d esenvolveu em rochas carbonticas. As primeiras descries de cavernas em cangas/formaes ferrferas no Brasil foram realizadas pelos naturalistas Aim Pissis e William Henwood em meados do sculo XIX (AULER; PIL", 2005). Na dcada de 1930, Anbal Mattos chamou a ateno para a ocorrncia de grutas em substratos de canga, que muitas vezes abrigavam restos de animais, sendo consideradas importantes para manuteno do registro fssil (MATTOS, 1939). Em meados da dcada de 80, iniciou se o cadastramento de ca vernas ferruginosas na Serra de Carajs/PA e deu incio aos primeiros trabalhos de bioespeleologia, alm de pesquisas arqueolgicas, realizados pelo Museu Paraense Emlio Goeldi com a participao do Grupo Espeleolgico Paraense (MOREIRA; PAIVA, 1988; PINH EIRO; MAURITY, 1988). Em Minas Gerais, as cavernas ferruginosas comearam a ganhar destaque em trabalhos cientficos nesta ltima dcada, com pesquisas em bioespeleologia (FERREIRA, 2005; SOUZA SILVA, 2008) e geoespeleologia (AULER; PIL", 2005). De acordo com o Centro Nacional de Estudos e Manejo de Cavernas (CECAV, 2011), nas localidades onde existem as formaes ferrferas h um potencial muito alto de existirem cavernas (acima de 80%). At 2005, conhecia se para o Brasil aproximadamente 300 cavernas em formaes ferrferas e cangas (AULER; PIL", 2005). Atualmente, esses litotipos abrigam quase 20% das cavidades oficialmente cadastradas no pas (PIL"; AULER, 2009). Desta forma, as cangas e as formaes ferrferas compem um geossistema ferruginoso nico q uando se consideram o potencial espeleolgico, os depsitos minerais e, por conseguinte, as presses geoeconmicas. Um estudo do Ministrio das Minas e Energia (MME, 2010), embasado no cenrio internacional favorvel ao mineralnegcio, prev que a produ o anual de minrio de ferro alcance 1,1 bilho de toneladas at 2030. Isso corresponderia, anualmente, a uma produo equivalente produo brasileira de toda a dcada de 1990. Para atingir essa meta sero investidos no setor mineral quase US$ 40 bilhes no perodo 2010 2014. Esta realidade econmica otimista, entretanto, pode gerar uma degradao ambiental com consequncias irreversveis para os geossistemas ferruginosos e o patrimnio ambiental associado. A situao se agrava quando as jazidas esto loc alizadas em regies que ainda no foram alvo de estudos espeleolgicos e ao mesmo tempo esto contempladas em polticas pblicas de explorao mineral. Esse cenrio pode ser exemplificado pelo novo Polo Mineral do Norte de Minas Gerais, cujas reservas geol gicas foram estimadas em 20 bilhes de toneladas, colocando as entre as maiores jazidas no mundo (SEDE, 2011). Essas reservas esto distribudas principalmente na regio entre os municpios de Porteirinha, Rio Pardo de Minas e Riacho dos Machados (VILELA, 1986). Auler; Pil (2005) comentam no haver meno existncia de cavernas naqueles depsitos de minrio de ferro, o que ainda uma realidade, de acordo com os bancos de dados dos registros de cavidades do CECAV (2011) e da Sociedade Brasileira de Espe leologia SBE (2010). O objetivo deste trabalho descrever um novo stio espeleolgico ferruginoso localizado no Vale do Rio Peixe Bravo, regio de Riacho dos Machados, no estado de Minas Gerais, suas potencialidades e vulnerabilidades. 2. CONTEXTO GEOGR FICO DO VALE DO RIO PEIXE BRAVO A geologia da regio deste estudo representada pelas unidades do Grupo Macabas (Supergrupo So Francisco), constitudo predominantemente por diamictitos, quartzitos e filitos. Esse Grupo compe a unidade estratigrfica r elacionada ao preenchimento do rifte neoproterozoico desenvolvido nos limites da faixa de dobramentos Araua. Duas unidades litoestratigrficas subdividem o Grupo Macabas, uma unidade basal denominada Formao Rio Peixe Bravo e uma superior denominada Fo rmao Nova Aurora (NOCE et al ., 1997; UHLEIN et al ., 2007). Esta formao caracterizada pelo enriquecimento em hematita, encerrando enormes depsitos do tipo

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 27 Rapitan (NOCE et al ., 1997). Morfologicamente, trata se de uma rea de extensas chapadas dissec adas por meio de um novo ciclo de denudao (VILELA, 1986). Localmente, o geossistema cangas/formaes ferrferas est associado ao membro Riacho Poes (Formao Nova Aurora). Essa unidade atinge uma espessura de at 600 m e constitui se, de acordo com V ilela (1986), predominantemente por diamictitos hematticos, quartzitos hematticos e xistos hematticos subordinados (VILELA, 1986). Segundo Vilela et al (1978), os diamictitos hematticos, que constituem o minrio de ferro, apresentam bandeamento e so formados por leitos de quartzo contendo cristais de hematita, que se alternam com leitos de hematita associada sericita e clorita. Grande parte de toda essa sequncia de litotipos hematticos est sob uma extensa cobertura de canga, que frequentemente at inge cerca de 30 m de espessura. Superficialmente, as cangas apresentam fragmentos detrticos de minrio rico e so compostas geralmente por limonita pura (VILELA, 1986). As altitudes dos plats de canga variam entre 850 e 950 m, ocorrendo um desnvel de at 80 m em relao s superfcies tercirias contguas. O Vale do Rio Peixe Bravo est inserido na regio do Semi rido brasileiro, caracterizado pelo dficit hdrico e isoieta das precipitaes mdias anuais de 800 mm (MIN, 2005). 3. DIAGN"STICO ESPELEOL "GICO Um diagnstico, iniciado em junho de 2010, est sendo realizado nos geossistemas ferruginosos contidos em uma rea aproximada de 500 km (entre nos municpios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Mi nas, Gro Mogol, Fruta de Leite e Serranpolis, norte de Minas Gerais (Fig.1). Extensas escarpas de cangas (Fig. 2), resultado do atual estgio de rejuvenescimento do relevo, foram observadas ao longo de um trecho de 30 km do Rio Peixe Bravo montante de sua foz no Rio Vacaria, Bacia do Rio Jequitinhonha. Nesse trecho, at o momento, foram observados cerca de 60 vestbulos de cavidades, com dimetros estimados maiores que 1 m, desenvolvidas nos geossistemas ferruginosos. A maioria desses vestbulos esto i nseridos na alta e mdia vertente das escarpas (Fig.3). Caminhamentos foram realizados em menos de 2% da rea de cangas, onde foram identificadas 21 cavernas e diagnosticados o desenvolvimento linear, utilizando o princpio da descontinuidade (RUBBIOLI; MO URA, 2005), presena de espeleotemas, litologia e estado de conservao da paisagem do entorno. Figura 1. Localizao do stio espeleolgico descrito no presente trabalho (linha pontilhada). Adaptado de Sistema Integrado de Informao Ambiental/SEMAD MG.

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 28 Figura 2. Escarpas de canga ao longo do Vale do Rio Peixe Bravo, que chegam a ultrapassar 30 metros de altura. Na parte esquerda da figura encontra se um veculo como escala. Foto: Flvio Fonseca. Figura 3. Exemplos de vestbulos visualizados em toda a regio caracterizados pelo difcil acesso. Fotos: Flvio Fonseca. A maioria das entradas das cavidades diagnosticadas situou se na base das escarpas, enquanto que num segundo grupo as entradas localizaram se nas bordas prximas superfcie do p lat de canga. Do total de cavernas identificadas, 14 (67%) apresentaram desenvolvimento linear menor que 40 m e trs (14%) maior do que 100 m (valor mximo de aproximadamente 160 m). Apesar dos registros de cavidades em formaes ferrferas com desenvolvi mentos parecidos e at de maiores propores no Quadriltero Ferrfero e em Carajs, onde se encontra a maior caverna nestes litotipos no Brasil, 372 m de projeo horizontal (PIL"; AULER, 2009), o que diferencia essa nova rea o volume das cavernas. De forma geral se tm relatado para outras regies ferruginosas cavidades muito rasas, condutos estreitos e superficiais em relao ao plat de canga (SIMMONS, 1963; PINHEIRO; MAURITY, 1988; AULER; PIL", 2005; FERREIRA, 2005; ATZINGEN et al ., 2009). No Vale d o Peixe Bravo, entretanto, a maioria das cavernas registradas se destaca pelos amplos sales e condutos. Mesmo aquelas que no ultrapassaram 40 metros de desenvolvimento linear apresentam sales que superam 6 metros de altura. Esta caracterstica fsica ta mbm pode ser relatada para a zona de entrada. As cavidades ferruginosas so conhecidas pelas suas entradas estreitas nas bordas de canga devido a processos erosivos, ou pequenas entradas verticais onde o manto da canga sofre um colapso sobre parte de um c onduto incluso, provavelmente formado por processo de dissoluo, gerando assim uma entrada (SIMMONS, 1963). Mas o que se tem observado para as cavernas recm descobertas so entradas com expressivas dimenses tanto em largura quanto altura (Fig. 4).

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 29 F igura 4. Algumas entradas registraram mais de 8 metros de altura. A seta indica uma pessoa como escala. Fotos: Flvio Fonseca. As duas maiores cavernas da regio, caverna do Lajedo I (Fig. 5) e caverna do Lajedo II (Fig. 6), com desenvolvimento de 120 e 160 metros respectivamente, encontram se em um mesmo afloramento de canga. De acordo com relatos dos moradores, estas duas cavidades se conectavam. A entrada da caverna Lajedo I se posiciona na alta vertente, enquanto que a entrada da Lajedo II se posicion a na baixa vertente, seguindo a linha de drenagem subterrnea. Ao visitar as cavidades, percebe se que vrios condutos da primeira caverna se encontram assoreados, provavelmente pela sedimentao contnua provocada por um curso r, o que poderia ter interrompido a comunicao entre as cavidades. Porm, alguns condutos de menor dimenso, no final da Lajedo I, apresentavam correntes de ar que seguiam um fluxo ascendente, indicando uma possvel ligao com a outra cavidade. Uma inves tigao geoespeleolgica e um levantamento topogrfico mais precisos ajudariam a esclarecer se realmente so duas ou se h apenas uma grande caverna. Quanto morfologia, as cavernas foram agrupadas em dois tipos, seguindo Pil; Auler (2009): cinco caverna s com padro planimtrico retilneo, formadas por um nico conduto que geralmente no ultrapassou 10 m de extenso e 13 cavernas com padro irregular e apresentando mais de um salo, todas com desenvolvimento linear superior a 10 m. Foram observados ainda trs abrigos, tendo destaque a Lapa dos Cactos com aproximadamente 28 metros (Fig. 7). A maioria das cavidades diagnosticadas desenvolveu se na interface canga/diamictito hemattico. Foram ainda observadas cavernas em xistos hematticos, em formaes ferr feras bandadas e em material intensamente alterado e enriquecido em ferro, cuja rocha me ainda no foi identificada (Tab. 1 e Fig. 8). Tabela 1. Composio qumica de rochas (determinada por fluorescncia de raios X) onde algumas cavernas esto inserida s. Valores em porcentagem SiO 2 Al 2 O 3 Fe 2 O 3 CaO MgO TiO 2 P 2 O 5 Na 2 O K 2 O MnO Xisto hemattico 0,55 0,38 99,1 <0,01 <0,1 0,12 0,02 <0,1 0,05 <0,01 Canga 8,44 2,71 80,6 0,04 <0,1 0,24 0,52 <0,1 0,03 0,03 Rocha alterada 39,1 8,12 39,5 0,06 0,21 0,41 2,24 0,1 4 0,88 0,02

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 30 Figura 5. Croqui da caverna Lajedo I. A) Indicao do amplo salo de entrada, atingindo mais de 6 metros de altura. A seta indica uma pessoa como escala. B) Pequeno conduto com fluxo de ar, indicando uma provvel ligao com outra cavidade. Fotos: Flvio Fonseca. Figura 6. Croqui da caverna Lajedo II. A) Registro de uma fratura no teto, gerando um salo com um imenso bloco abatido. B) Depsito qumico encontrado no piso da caverna, com estruturas digitiformes dimensionadas em sete centme tros de altura. Fotos: Flvio Fonseca.

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 31 Figura 7. Padres morfolgicos planimtricos das cavernas do Vale do Rio Peixe Bravo (MG). A) Padro irregular. B) Padro Retilneo. C) Abrigo. 3.1. E speleotemas Os depsitos qumicos foram observados em todas as cavid ades analisadas. A maioria desses registros tambm j foi descrita para as cavernas de Carajs e do Quadriltero Ferrfero, tais como coraloides, crostas, pingentes, escorrimentos, eflorescncias e cortinas (MAURITY; KOTSCHOUBEY, 2005; PIL"; AULER, 2005; C UNHA JR et al ., 2007; ATZINGEN et al ., 2009), sendo os coraloides e as crostas os mais frequentes. As cavidades com extenso inferior a 20 metros apresentaram basicamente espeleotemas do tipo coraloide, principalmente na zona de entrada. Nas cavernas de C arajs, Pil; Auler (2009) tambm descrevem que h maior intensidade de coraloides em locais com fluxo de ar mais acentuado e ainda propem uma gradao tipolgica de espeleotemas influenciadas por incidncia de luz, fluxo de ar e solues. Corroborando os achados desses autores para as cavernas de Carajs, em locais onde havia uma estabilidade ambiental e umidade elevada estavam presentes estruturas como escorrimento, cortinas e estruturas semelhantes a microtravertinos. Algumas deposies apresentaram for matos e texturas pouco comuns quando comparados aos registros j mencionados em cavernas ferruginosas (Fig. 9). Figura 8. A) Caverna inserida no diamictito hemattico. B) Paredes formadas por bandamentos hematticos. C) Gruta inserida na canga. D) Cave rna em rocha alterada. Fotos: Flvio Fonseca.

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 32 Figura 9. A) Espeleotema no teto da caverna. A simetria de suas estruturas se assemelha aos dentes de uma a constituio pouco comum em cavernas ferruginosas (escala 20 centmetros). C) Espeleotemas no piso da caverna semelhantes a estalagmites (escala 15 centmetros). Fotos: Flvio Fonseca. 3.2. P otencial paleontolgico e arqueolgico Sulcos na rocha distribud os em grandes reas foram observados no interior de algumas cavernas. Alguns desses assemelham se a registros de garras (icnofsseis) em paleotocas j registradas para o sul e sudeste do Brasil ( BUCHMANN et al 2009) Alm das marcas nas paredes, alguns co ndutos das cavernas poderiam ter sua origem atravs de escavaes, isso por que foi possvel observar que o seu formato circular, com ranhuras nas paredes, diferenciava se em relao aos outros condutos da mesma caverna (Fig. 10). Outro conjunto de sulcos tambm encontrado nas cavernas lembra registros arqueolgicos da arte rupestre descritos por Silva (1997), sendo representados por vrios conjuntos de grafismos geomtricos, principalmente traos paralelos em posies ritmadas (Fig. 11). Alm das ranhuras nas paredes, destacou se em algumas cavernas o acmulo de fragmentos sseos (Fig. 12), os quais ainda carecem de uma anlise acurada para definir se trata se de material fssil ou se so restos orgnicos recentes.

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 33 Figura 10. Ranhuras nas paredes pareci das com marcas de garras (escala 5 centmetros). Fotos: Flvio Fonseca. Figura 11. Traos paralelos e em disposies ritmadas (escala 10 centmetros). Fotos: Flvio Fonseca. Figura 12. Registro de possvel assembleia fssil. A) Material inconsolidad o, as setas indicam fragmentos de ossos (escala 20 centmetros). B) rea com acmulo de ossos de pequenos mamferos (escala 5 centmetros ). Fotos: Flvio Fonseca. 4. SISTEMA CRSTICO FERRUGINOSO Os extensos plats formados pelas cangas representam as parte s altas do relevo na regio estudada. Esses plats esto interconectados por vales e escarpas (Fig. 13). Macroformas caractersticas de um sistema crstico como desfiladeiros (canyons), paredes com aspecto ruiniforme e cavernas (HARDT, 2004) ocorrem frequ entemente no Vale do Rio Peixe Bravo. Pequenas depresses doliniformes foram encontradas na superfcie das cangas. No interior de algumas cavernas foram observadas cpulas de dissoluo no teto e canais desenvolvidos perpendicularmente ao plano das paredes (Fig. 14) que se assemelham aos tubos cilndricos descritos por Wray (2009). De acordo com esse autor, o conjunto de pequenos condutos cilndricos constitui uma drenagem fretica pouco documentada para quartzito e arenito. Considerando se que estas macro

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 34 e microformas so tpicas de ambientes crsticos, ou seja, ambientes onde o processo de dissoluo de fundamental relevncia na construo da morfologia da paisagem, possvel levantar a hiptese de que a dissoluo geoqumica teve papel pronunciado no modelado do relevo regional. Paralelamente, uma anlise geomorfolgica do Vale do Peixe Bravo demonstra a existncia de uma considervel rede de drenagem subterrnea ou parcialmente subterrnea. Nas cavidades diagnosticadas foram observadas drenagens subte rrneas perenes e temporrias e a presena de lagoas, o que por sua vez podem caracterizar as seguintes zonas hidrolgicas no carste, seguindo Ford; Willians (1989), modificado em Hardt; Pinto (2009): zona vadosa subcutnea e de percolao por drenagem, zo na de oscilao (epifretica) e zona fretica rasa. Figura 13 Mapa planialtimtrico do setor setentrional do vale do Rio Peixe Bravo, MG. Em destaque, a localizao das cavernas Lajedo I e II. Montante ao norte.

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 35 Figura 14. A) Rebaixamento da coura a de canga, semelhante ao processo de dolinamento. B) Zona fretica rasa. impresso no substrato. D) Dissoluo da rocha por ao da drenagem subterr nea. Feies semelhantes a microtravertinos. E) Cpulas de dissoluo no teto de algumas cavernas sinalizando uma conexo vertical com o Fotos: Fl vio Fonseca. Com base nas consideraes acima expostas e filiando se a um conceito de carste mais amplo, a exemplo daquele apresentado e discutido por Hardt et al (2009), possvel afirmar que, no mnimo, a paisagem regional apresenta elementos morfol gicos tpicos das paisagens crsticas. Ou seja, a dissoluo foi de fundamental importncia na construo da paisagem natural. Vale ressaltar que, geneticamente, esta uma caracterstica relevante da rea estudada, pois estas feies de dissoluo so mui to mais evidentes do que em outros geossistemas ferruginosos, como por exemplo, o Quadriltero Ferrfero, MG. O conceito morfolgico de carste, que independe do litotipo, sensu Hardt et al (2009), cita exemplos de carste em formaes ferrferas no Gabo. No Brasil, vrios trabalhos j descreveram feies crsticas em formaes ferrferas na Serra de Carajs (MAURITY; KOTSCHOUBEY, 2005; ATZINGEN et al ., 2009) e no Quadriltero Ferrfero (SIMMONS, 1963; PIL"; AULER, 2005; SILVA; SALGADO, 2009). 5. VULNERABILID ADES E PERSPECTIVAS A paisagem do Vale do Rio Peixe Bravo ainda no sofreu grandes intervenes humanas, ocorrendo extensas reas com vegetao em bom estado de

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Carmo et al N ovo stio espeleolgico em sistemas ferruginosos no vale do rio do ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 36 conservao (Fig. 15). Essa condio provavelmente est relacionada ao relevo bastante acidenta do e ao tipo de uso e ocupao do espao, restrito agricultura familiar em pequenas propriedades rurais. Figura 15 Rio do Peixe Bravo, municpios de Rio Pardo de Minas e Riacho dos Machados, MG. Foto: Flvio Fonseca. Entretanto, a vulnerabilidade d as localidades que contm os geossistemas ferruginosos pode ser aferida sobrepondo a distribuio dos ttulos minerrios de ferro de acordo com as fases do processo de definio e outorga da jazida, ou seja, fases de pesquisa geolgica at o requerimento e concesso da lavra. Atualmente, as reas outorgadas pelo Departamento Nacional de Produo Mineral (DNPM) s empresas mineradoras de ferro abrangem cerca de 350 km. A priori pode se estimar uma vulnerabilidade alta para as reas de cangas, pois os ttul os que esto em fase mais avanada (requerimento de lavra) recobrem uma rea de aproximadamente 80 km do geossistema ferruginoso, conforme consulta realizada em outubro de 2010 aos bancos de dados digitais do Sistema Integrado de Informao Ambiental (SIA M/SEMAD) e do DNPM (SIGMINE/DNPM Informaes Geogrficas da Minerao). Alm disso, de acordo com estudos do Plano Nacional de Minerao 2030 (MME, 2010), estima se uma vida til mxima de 29 anos para todas as reservas lavrveis de ferro conhecidas no p as. 6. CONCLUSO O Vale do Rio Peixe Bravo, considerando todo o potencial espeleolgico e mineral, representa uma oportunidade nica no que se refere perspectiva de uso racional e da repartio dos benefcios dos recursos naturais. Talvez seja o primeiro caso no pas em que o geossistema ferruginoso contendo uma megajazida ainda no explorada possa ser alvo de estudos ambientais sistemticos. Esse novo stio espeleolgico atribui alta relevncia ambiental para a regio, sendo um novo alvo para criao de reas de conservao desses sistemas ferruginosos pouco conhecidos. Logo, torna se urgente aprofundar os estudos na regio, bem como ampliar o arcabouo legal de proteo rea. AGRADECIMENTOS O Diagnstico Ambiental est sendo desenvolvido em colaborao com o Ministrio Pblico de Minas Gerais atravs da Coordenadoria Regional das Promotorias do Rio So Francisco, Sub bacia do Rio Verde Grande e Bacia do Rio Pardo (PJSF) e com o Ncleo Interinstitucional de Estudos e Aes Ambientais do Norte de Minas ( NIEA NM). Os autores agradecem Polcia Militar Ambiental do municpio de Taiobeiras (MG) pelo imprescindvel apoio logstico e a Iara Campos pela elaborao do mapa. Agradecemos a Nilson Ferreira pelas valiosas contribuies durante os trabalhos de campo Agradecemos aos dois revisores annimos pelas excelentes contribuies. Felipe Fonseca agradece CAPES pela bolsa de mestrado e U.S. Fish & Wildlife Service pelo apoio financeiro em campo REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ATZINGEN, N.; CRESCENCIO, G.; CUN HA JR, W.R. Estudos espeleolgicos na serra dos Carajs, municpio de Parauapebas PA. Boletim Tcnico n.4, p.51 73, 2009. AULER A. S.; PIL", L. B. Introduo s cavernas em minrio de ferro e canga. O Carste v.17, n.3, p.70 72, 2005. BUCHMANN, F. S.; CAR ON, F.; LOPES, R. P. Traos fsseis (paleotocas e crotovinas) da megafauna extinta no Rio grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia v.12, n.3, p. 247 256, 2009.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 41 UNIDADE ESPELEOL"GICA CARAJS: DELIMITAO DOS ENFOQUES REGIONAL E LOCAL, CONFORME METODOLOGIA DA IN 02/2009 MMA UNIDAD ESPELEOLOGICA CARAJS: LOS LMITES DE ENFOQUES REGIONALES Y LUGAR COMO LA METODOLOGA IN 02/2009 MMA Raul Fontes Valentim (1) & Joo Pau lo R. Olivito (2) (1) VALE s/a Gerencia de Espeleologia e Tecnologia Belo Horizonte MG (2) VALE s/a Ncleo de Espeleologia VALE Belo Horizonte MG Contatos: raul.valentim@vale.com ; jpr_olivito@yahoo.com.br Resumo O decreto 6640/2008 estabelece que as cavidades naturais subterrneas sejam classificadas de acordo com seu grau de relevncia a partir do nvel de importncia dos atributos de biolgicos, fs icos e socioeconmicos das cavidades avaliadas sob o enfoque regional e local, descrito pela primeira vez neste instrumento. Uma definio mais clara desses enfoques, entretanto, surge com a publicao da Instruo Normativa 02/2009 do MMA, em 21/08/2009, que regulamenta o referido decreto. Segundo a IN 02/09, a anlise sob enfoque local continuidade espacial e que contemple, no mnimo, a rea de influncia da cavidad e (§2 art. 14); j a anlise pseudocrstico (...), art. 14). A Vale, adequando se aos termos do decreto para as reas onde opera em formao ferrfera que no constituem carste clssico estabeleceu para a regio do su deste do Par a unidade espeleolgica Carajs, onde dez unidades sob o enfoque local foram definidas e denominadas de: 1 Serra Norte; 2 Serra Sul; 3 Serra da Bocaina; 4 Serra do Rabo Estrela; 5 Serra Leste; 6 Serra do Cinzento; 7 Serra Aquiri; 8 Serra de So Felix e 9 Serra Arqueada Palavras Chave : Unidade espeleolgica; unidade geomorfolgica; enfoque regional; enfoque local e Carajs Resumen El Decreto 6640/2008 establece que las cavidades subterrneas naturales se clasifican segn su grado de pertinencia con respecto al nivel de importancia de los atributos biolgicos, fsicos y socioeconmicos evaluados en el enfoque regional y local, describi por primera vez aqu Una definicin ms clara de estos enfoques viene con la publicacin de la Instruccin 02/2009 de la MMA en 08/21/2009, que regula el decreto. De acuerdo con la IN 02/09 el anlisis bajo el enfoque local considera que la "unidad geomorfolgica", como expresamente entendido que para proporcionar un espacio de continuidad y, como m nimo el rea de influencia de la cavidad (§ 2 art. 14), ya enfoque regional en el anlisis tiene en cuenta la etapa de la "unidad espeleolgico", define formalmente como "(...) homognea zona fisiogrfica que puede traer juntos formas diferentes del karst (...), pseudokarstic, delimitada por un conjunto de factores ambientales especficos para su formacin "(§ 3 arte. 14). La Vale SA, adaptndose a los trminos del decreto para operar en las reas de formacin donde el hierro que no son clsicos karst creado para la regin sudeste de Par la Unidad Espeleolgica del Carajs, donde diez unidades locales desde el enfoque se definieron y nombre : 1 Sierra Norte 2 Sierra Sur, 3 Bocaina da Serra 4 Serra do Rabo Estrella, 5 Sierra Oriental, 6 Si erra gris, 7 Aquiri Sierra; 8 Sierra de San Flix y 9 curvada sierra Palabras clave : Unidad de espeleologa; unidad geomorfolgica; el enfoque regional; el enfoque local y Carajs 1. INTRODUO O referido artigo tem por finalidade atender o decret subterrnea ser classificada de acordo com seu grau de relevncia em mximo, alto, mdio ou baixo, determinado pela anlise de atributos ecolgicos, biolgicos, geolgicos, hidrolgicos, paleontolgicos, cnicos, his trico culturais e

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 42 socioeconmicos, avaliados sob enfoque regional e A definio da unidade espeleolgica e de suas unidades geomorfolgicas subsidiam os estudos espeleolgicos, nos quais so identificad os os atributos para a classificao da relevncia de cavidades naturais subterrneas presentes nas reas de empreendimento mineral da Vale, tendo em vista que os conceitos definidos na referida instruo normativa no so facilmente aplicveis s reas co m ocorrncia de cavernas em formaes ferrferas. No decorrer do artigo ser apresentada uma proposta de unidade espeleolgica, com uma sucinta descrio fisiogrfica, onde sero abordadas questes de geologia, geomorfologia, climatologia, recursos hdrico s, vegetao, onde foram utilizados: mapas geolgicos, geomorfolgicos, hdricos, pedolgicos, topogrficos, hipsomtricos, aerofotografias e imagens de satlites (Ikonos, SPOT, LandSAT e Google Earth). O perodo de elaborao deste estudo foi de junho a n ovembro de 2009, e envolveu extensas reunies com muitos profissionais de diversas reas ligadas espeleologia os quais no poderia deixar mencion los, em ordem alfabtica: Augusto Auler Gelogo Instituto do Carste; Carlos Alberto Teles Gelogo Vale; Daniel Jose Lima De Sousa Gelogo Vale; Daniele Freitas Gonalves Geloga Vale; Daniela Gonalves Rodrigues da Silva Biloga Vale; Divino Fernando Rodrigues Fleury Gelogo Vale; Douglas Zardo Gelogo Vale; Gustavo Queiroz Rios Gelogo Vale; Hu go Marx Gonzaga Eng. Gelogo Vale; Joo Paulo R. Olivito Gelogo Vale; Jos Andrade do Nascimento Analista de Meio Ambiente Vale; Luiz Carlos Domingues Junior Gelogo Vale; Otavio Sergio Da Conceio Rosendo Gelogo Vale e Raul Fontes Valentim Ge logo Vale 2 UNIDADES ESPELEOL"GICAS A unidade espeleolgica ser utilizada como rea de enfoque regional no que se refere classificao de relevncias de cavidades naturais subterrneas. A definio de unidade espeleolgica dada pela IN MMA N 002/2 009: § 3o Entende se por unidade espeleolgica a rea com homogeneidade fisiogrfica, geralmente associada ocorrncia de rochas solveis, que pode congregar diversas formas do relevo crstico e pseudocrstico tais como dolinas, sumidouros, ressurgncias, vale cegos, lapis e cavernas, delimitada por um conjunto de fatores ambientais especficos para a sua formao. Baseado na definio acima, para o ambiente pseudocarstico de ferro, foram abordado duas unidades espeleolgicas (UE), por esse grupo de estud o: uma localizada no sul do Par, denominada UE Carajs, objeto deste artigo, e outra na poro central de Minas Gerais, conhecida como UE Quadriltero Ferrfero Conceio. Os aspectos fisiogrficos que justificam a definio da unidade espeleolgica Car ajs, bem como suas respectivas unidades geomorfolgicas, de enfoque local, sero apresentados no item 2.1. 2.1. Unidade espeleolgica de Carajs A unidade espeleolgica de Carajs situa se no sudeste do Par e compreendida pela provncia mineral de Car ajs, cujo padro de relevo marcado pela presena de serras de topos aplainados, denominados de Planaltos Residuais do Sul da Amaznia. Seus limites so os terrenos homogeneamente arrasados: a sul a depresso de Rio Maria, a norte a depresso de Bacaj, a leste a depresso Goiana Paraense; e a oeste pela depresso do Xingu. A Figura 1 ilustra a localizao da unidade espeleolgica de Carajs. Estudos espeleolgicos na regio de Carajs demonstraram grande similaridade geoespeleolgica e bioespeleolgica e ntre cavidades pertencentes a serras distintas (Golder Associates, 2009), o que refora, junto com os atributos do meio fsico que sero detalhados nos itens seguintes, a consolidao da unidade espeleolgica de Carajs. O Estudo de Similaridade, protocola do no IBAMA e ICMBio ambos de Braslia, avaliou 201 cavidades na Serra de Carajs (poro sul Serra Sul e poro norte Serra Norte), Serra do Cristalino e Serra Leste, e atestou que, em termos gerais, as cavidades mostram vasta similaridade entre si. O correm em reas com aspectos fisiogrficos semelhantes, incluindo mesma configurao geomorfolgica, mesmo domnio climtico e mesmos litotipos. Com relao aos aspectos litolgicos, as cavidades ocorrem predominantemente em formaes ferrferas, canga det rtica e rochas mficas, estas ltimas com menor freqncia. Quanto s estruturas, so importantes condicionantes na formao de cavidades os planos de bandamento da formao ferrfera e as fraturas e juntas de alvio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 43 Figura 1: Mapa da localizao da unidade espeleolgica Carajs. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio. Sedimentos clsticos e qumicos ocorrem de forma muito semelhante em todas as cavidades. Dentre os depsitos qumicos, os mais frequentes s o crostas ferruginosas e coralides, comumente originados por processos hidrogeolgicos, dos quais o gotejamento mostra se como principal. Podem ainda ocorrer surgncias perenes e temporrias, bem como a eroso fluvial e a oscilao de lagoas que, com reco rrncia, colaboram para o desenvolvimento geomorfolgico das cavidades. A grande maioria das cavidades apresenta projeo horizontal inferior a 30 m e padro morfolgico espongiforme. Os levantamentos faunsticos das cavidades da regio de Carajs tambm d emonstraram similaridade em relao s cavidades de diferentes provncias bioespeleolgicas do pas (Golder Associates, 2009). J no mbito regional da Serra dos Carajs, a similaridade na composio faunstica se acentua, incluindo gneros ou mesmo espci es ocorrendo em diferentes reas. Verificou se ainda semelhana faunstica entre cavidades de serras distintas, incluindo txons troglomrficos. 2.1.1. Geologia da regio de Carajs Em mbito regional, a unidade espeleolgica de Carajs situa se no Crton Amaznico, mais especificadamente no domnio tectnico de Carajs da provncia homnima, como pode ser visto na Figura 2. Destacaremos aqui este domnio, com nfase ao Supergrupo Itacaiunas, Grupo Gro Par, que abriga a grande maioria das cavidades em for maes ferrferas e rochas mficas desta unidade. As rochas no Domnio Carajs so predominantemente de idade Arqueana, e subordinadamente Proterozica, cobertas por formaes laterticas aluminosas tercirias e sedimentos aluviais quaternrios (Figura 3). H uma forte estruturao disposta segundo WNW ESE que condicionou a disposio do relevo dessa rea. Terrenos granito gnissicos tipo tonalito trondhjemito granodiorito (TTG) so tidos como pertencentes ao Complexo Xing (Silva et al. 1974) e considerad os como embasamento das rochas metavulcanossedimentares do Supergrupo Itacaiunas. Junto com os granitos e granodioritos arqueanos da Sute Plaqu (2,75 Ga Huhn et al.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 44 1999), formam as reas topograficamente mais dissecadas da regio, de relevos planos a colinosos. O Supergrupo Itacainas formado por seqncias vulcanossedimentares em diferentes graus metamrficos e deformacionais Grupos Igarap Salobo, Gro Par, Igarap Bahia, Igarap Pojuca e Buritirama. Estas unidades apresentam vulcanismo bsico predominante na base, com rochas sedimentares qumicas intercaladas e sobrepostas por rochas sedimentares clsticas. Dataes U Pb e Pb Pb no Supergrupo Itacainas mostram que os grupos Gro Par e Salobo apresentam idades mais antigas, em torno de 2,76 Ga enquanto que os grupos Pojuca e Bahia tm idades de 2,73 e 2,75 Ga, respectivamente. O Grupo Gro Par constitudo por uma espessa seqncia de rochas vulcnicas superiores e inferiores (Formao Parauapebas, Meireles et al. 1984), e jaspilitos com min rio de ferro (Formao Carajs, CVRD/CMM 1972). descrito como repousando discordantemente sobre os gnaisses do Complexo Xingu (Silva et al. 1974, Machado et al. 1991). A Formao Parauapebas corresponde s rochas vulcnicas mficas que ocorrem na base e topo da Formao Carajs, representando derrames baslticos, alm de rochas vulcnicas flsicas subordinadas e intruses mficas. Os basaltos superiores foram individualizados na Formao Igarap Cigarra, conforme proposta de Macambira et al. (1990). A Fo rmao Carajs contm o protominrio das jazidas de ferro de Carajs. descrita como constituda por jaspilitos, com bandamento definido pela alternncia de micro e mesobandas de xidos de ferro (hematita, magnetita e martita), jaspe (chert impregnado por hematita fina) e/ou chert branco, alm de carbonatos subordinados. As sucesses psamticas e pelticas da Formao guas Claras, depositadas em plataforma marinha progradante (Nogueira et al. 1995), recobrem os greenstone belts neoarqueanos da serra dos C arajs (Supergrupo Itacaiunas). A idade mnima de deposio desta formao dada pela intruso de diques mficos de 2,71 Ga (Mougeot et al. 1996). As rochas terrgenas da Formao guas Claras e as metavulcano sedimentares do Supergrupo Itacaiunas conform am as principais serras da regio. Figura 2: Mapa geolgico da unidade espeleolgica Carajs. Modificado de DOCEGEO (1988).

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 45 2.1.2. Geomorfologia Associados s formaes Ferrferas que recobrem parte dos topos da maioria das serras da unidade espeleol gica de Carajs, ocorrem coberturas detrtico lateriticas aluminosas, constitudas por perfis laterticos ferruginosos formados na base por horizonte mosqueado com espessuras maiores que 2 metros e recobertos por material argiloso com espessuras superiores a 2 metros e por uma carapaa ferraltica. Camadas bauxticas com at 4,5 metros de espessura podem ocorrer sobre camada de laterita ferruginosa de alta porosidade, com espessuras de at 9 metros, abaixo das quais forma se horizonte argiloso com alterao de rochas mficas. Salienta se que h uma grande variao da espessura destes horizontes pedogenticos e que nem sempre todos esto presentes. As coberturas aluviais de idade quaternria que ocorrem na regio esto associados a plancies fluviais de inund ao e terraos em geral baixos, e apresentam composies granulomtricas variveis, onde se misturam cascalhos, areias, siltes e argilas em arranjos e espessuras variadas. Quanto distribuio de cavidades nos litotipos da unidade espeleolgica de Caraj s, h um amplo predomnio nas formaes ferrferas da Formao Carajs e nos depsitos de canga que a recobrem. Com menos freqncia ocorrem tambm cavidades nas rochas mficas da Formao Parauapebas e do complexo Vermelho. Os dados geomorfolgicos apres entados neste item basearam se em estudos regionais anteriores Projeto RADAM (Silva, 1974) e Geomorfologia da Amaznia Legal (2004), alm de mapas hipsomtricos e de modelo digital de terreno gerados a partir de dados de radar da NASA (Shuttle Radar Topo graphy Mission SRTM). O primeiro deles aborda o relevo identificando unidades morfoestruturais e formas de relevo predominantes na escala 1:1.000.000. O segundo estudo regional citado, na escala 1:2.500.000, compartimentou o relevo segundo um critrio ap enas da geometria das formas e graus de dissecao desse relevo. Foram ainda considerados estudos de detalhe do relevo realizados para as Florestas Nacionais (FLONAs) de Carajs e Tapirap Aquiri, que propem uma compartimentao a partir das principais ca ractersticas topogrficas, abordando ainda aspectos da dinmica superficial relacionadas com a estabilidade das unidades frente aos processos erosivos. Dois grandes compartimentos morfoestruturais foram identificados na unidade espelolgica de Carajs: os Planaltos Residuais do Sul da Amaznia e a Depresso Interplanltica da Amaznia Meridional, conforme pode ser visto nas Figuras 3 e 4. 2.1.2 .1. Planaltos Residuais do Sul da Amaznia Este compartimento descrito como unidade regional de relevo caracter izada por macios residuais de topo plano a ondulado e conjunto de cristas e picos, envolvidos por faixas de terrenos rebaixados, com altitudes em torno de 250 e 300m. O topo dos macios residuais varia entre 500 e 600 metros, com trechos mais elevados na regio da Serra dos Carajs, onde estas chegam a 700 metros. Caracterizam se por revelar notvel amplitude dos macro relevos componentes, com desnveis superiores a 200 metros manifestando se tanto em serras ou morros marcados por acentuado grau de di ssecao, referncia diferenciadora fundamental com relao Depresso Interplanltica (Figura 3). O domnio dos Planaltos Residuais do Sul da Amaznia representado pelas serras de Carajs, Leste, Cristalino, Arqueada, dentre outras que iro definir as unidades geomorfolgicas de enfoque local. Os topos destas serras so comumente sustentados por litotipos mais resistentes, tais como meta arenitos da Formao guas Claras, formaes ferrferas, jaspilitos e rochas vulcnicas do Grupo Gro Par, alm de c rostas laterticas ferruginosas (canga). Padres distintos de dissecao dos planaltos ora condicionados por fatores estruturais, ora influenciados pela morfologia dominante, podem ser observados na Figura 6. As formas distintas de dissecao mais comuns s o as seguintes: dissecao determinada pelo aprofundamento de talvegues em relevos tabulares, geralmente formando um padro de drenagem retangular. Este padro de dissecao pode ser observado nas pores c imeiras da Serra dos Carajs, incluindo seus flancos sul (Serra Sul) e norte (Serra Norte), onde predominam amplas superfcies planas, cobertas por solos espessos, sob floresta ombrfila densa. Tais reas so caracterizadas pela presena de encostas muito abruptas marcando o contorno dos domnios planos. Nestas ocorrem escarpas erosivas, a partir de onde a eroso regressiva desmantela as superfcies tabulares. Dissecao em cristas: Forma de dissecao de macios residuais, por vales profundos, geralmente a daptados a uma rede de fraturas que apresenta uma ou duas direes preferenciais. Este padro de

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 46 dissecao pode ser observado nos rebordos dos principais alinhamentos serranos da unidade espeleolgica de Carajs e mostra se intimamente associado orienta o dos principais lineamentos estruturais observados em seu domnio. Destacam se duas formas de relevo desenvolvidas por este tipo de dissecao: Cristas estruturais e interflvios tabulares, com predomnio dos primeiros, sendo as serras Leste, do Rabo, E strela e do Cinzento exemplos; e Cristas estruturais com topos aguados, alongados, vertentes ngremes e controle de falhas geolgicas, sendo exemplo as serras do Aquiri, Arqueada e Paredo. resultantes da di ssecao de relevos bem pronunciados por uma rede de drenagem orientada, cujos afluentes apresentam ramificaes. 2.1.2 .2. Depresso Interplanltica da Amaznia Meridional Este compartimento caracterizado como uma depresso que circunda o compartimento planltico ora descrito, sendo ocupada por geoformas que se organizam em torno de dois conjuntos de morros, correspondentes aos terrenos a sul da Serra de Carajs, o outro por conjuntos de colinas, notadament e distribudos a norte da mesma serra (Figuras 4 e 5). Essas formas de relevo so predominantemente moldadas em rochas granitides (granitos e gnaisses do Complexo Xingu, entre outros), e subordinadamente em metavulcnicas e metassedimentares pr cambriana s. Apresentam um padro de dissecao pouco desenvolvido, com cotas altimtricas em torno de 200m, podendo atingir a cota de 300m em algumas reas de cabeceiras de drenagem. O substrato muito variado, composto de rochas gnissicas, granticas, anfibolt icas, charnockticas e xistos dispostos em faixas grosseiramente E W. Os solos so mais espessos, predominando latossolos ao sul deste setor sobre os granitos, gnaisses e relevos mais planos, e argissolos ao norte sobre anfibolitos, gnaisses e relevos de c olinas. aspecto de serras baixas ou cristas, geralmente isoladas, mas por vezes alinhadas. A altura dessas unidades morfolgicas situa se, em mdia, em torno de 100 metros, com encostas cncavos convexas cujas decliv idades variam de ngremes a moderadas e topos de formas extremamente variveis. Distribuem se predominantemente na poro sul da unidade espeleolgica de Carajs. A topografia plana a suave ondulada, a rede de drenagem tem uma dissecao fraca com desnv eis entre topo e fundo de vale entre 10 20m. Alguns morrotes granticos e mataces destacam se na superfcie. Os conjuntos maiores e as formas isoladas mais expressivas foram diferenciados, como exemplo o Morro do Vermelho, que abriga depsito de nquel la tertico, mas outros menores, devido escala, esto includos na unidade da Depresso. Eles se elevam entre 20 e 30 metros acima da superfcie e originam se pela eroso diferencial em ncle os granticos mais resistentes. Figura 3: No plano de fundo, a Serra de Carajs, representante da unidade dos Planatos Residuais do Sul da Amaznia e, em primeiro plano, a morfologia que caracteriza a Depresso Interplanltica da Amaznia Meridional, marcada na regio desta foto por colinas de topo plano e flanco de baixo declive.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 47 Figura 4: Macro compartimentos geomorfolgicos da UE Carajs. Figura 5: Mapa geomorfolgico da unidade espeleolgica de Carajs

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 48 pores mais aplainadas, situadas notadamente na faixa a nor te da serra dos Carajs. Com altura mdia em torno de 200 m e altitude das mais elevadas colinas atingindo a cota 300 m, elas apresentam encostas com declividades suaves e topos relativamente aplainados (Figura 3). Neste sistema, a Depresso apresenta se m ais dissecada, com desnveis topo fundo de vale entre 25 75 m, e declividades entre 8 e 45%, com a dissecao aumentando na direo de jusante do vale do Rio Itacainas. Secundariamente, h trechos planos a suave ondulados (0 8%), com desnveis topo fundo de vale inferiores a 20 metros, intercalados entre colinas. 2.1.3. Recursos hdricos A unidade espeleolgica Carajs abriga as bacias hidrogrficas dos rios Xingu a oeste e Tocantins Araguaia a leste, conforme pode ser visto na Figura 6, sendo que 2/3 da rea compreende a bacia do Rio Itacaiunas, afluente de margem esquerda do Rio Tocantins. A bacia hidrogrfica do rio Itacainas caracteriza se por uma rede hidrogrfica fortemente condicionada estruturao tectnica do local, consistindo de padro retang ular a subrretangular. subdividida nas sub bacias: Vermelho, Tapirap, Cinzento, Catat, Aquiri, Soror, Preto, Parauapebas e Itacainas, sendo as duas ltimas mais expressivas em termos de rea. A rede de drenagem condicionada principalmente pelo regi me de chuvas ocorrente na regio. A rea possui elevada variao altimtrica, correspondendo poro mais acidentada o domnio compreendido pela Serra dos Carajs e adjacncias, atingindo elevaes que variam em torno de 700 a 850 m de altitude em relao ao nvel do mar. Na poro ocidental, distribuem se os afluentes da margem direita do Rio Xingu, com destaque para o Rio Fresco. Figura 6: Mapa das bacias hidrogrficas da unidade espeleolgica de Carajs

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 49 2.1.4. Clima e Meteorologia O clima e as co ndies meteorolgicas so condicionados pela localizao geogrfica (latitude) e relevo, que, em ao conjunta com os grandes sistemas atmosfricos, controlam a distribuio pluviomtrica, evaporao, temperatura, umidade do ar e regime de ventos Segundo a classificao de Kppen, o clima da Amaznia do tipo A, ou seja, tropical mido com a temperatura mdia do ms mais frio superior a 18C, com a seguinte subclassificao para o clima da regio amaznica: a) clima tropical mido, com precipitao mdia maior ou igual a 60 mm para o ms mais seco (Af); b) clima tropical mido de mono, com precipitao excessiva durante alguns meses (Am); c) clima tropical mido, com inverno seco e precipitao mdia menor que 60 mm para o ms mais seco (Aw). A unidade e speleolgica de Carajs enquadra se na subclassificao Aw. Na estao chuvosa, os volumes mais expressivos concentram se no perodo de janeiro a maro e a precipitao mdia mensal desse intervalo da ordem de 300 mm. O perodo seco inclui os meses de ju nho, julho e agosto, cuja mdia mensal de precipitao da ordem de 30 mm (Vale, 2008). Conforme representado na Figura 7, a estao chuvosa (novembro a abril) concentra aproximadamente 80% do total anual. A estao seca (junho a setembro) apresenta mdia s mensais de 24 mm para as estaes analisadas. Considerando os valores anuais, a precipitao que ocorre no perodo de estiagem corresponde a menos de 5% da precipitao total. Conforme consta nos estudos da STCP (2003), durante os meses mais chuvosos, en tre dezembro e maro, a existncia de maior nebulosidade resulta em diminuio da insolao. Desse modo, no vero, as temperaturas so mais amenas. Da mesma forma, no perodo seco, que corresponde ao inverno, a baixa nebulosidade possibilita maior incidnc ia de radiao solar e as temperaturas so maiores. A insero da unidade espeleolgica de Carajs em uma rea sob condies climticas semelhantes refora o conceito de homogeneidade fisiogrfica, tambm observado no campo da geomorfologia, geologia, recu rsos hdricos e vegetao. Figura 7: Mdias Mensais de Precipitaes Pluviomtricas na rea de Estudo 2.1.5. Vegetao A unidade espeleolgica Carajs situa se integralmente no Bioma Amaznico, de acordo com o mapa do IBGE (2004), mais especificament e na provncia do Xingu/Madeira (Prance, 1977; Rizzini, 1979; Braga, 1979), ou, adotando se um conceito mais recente, insere subclasse de vegetao predominante desta regio a da Floresta Ombrfila, com at 4 meses secos por ano, podendo variar nas fisionomias Floresta Ombrfila Densa e Floresta Ombrfila Aberta. Estas fisionomias podem ser classificadas em formaes pela posio no relevo: Aluvial (na Floresta Densa),

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 50 Terras Baixas, Submontana e Montana (Veloso et al ., 1991). Apesar do predomnio das fisionomias florestais citadas, destaca se ainda nesta regio a ocorrncia de uma vegetao sobre um substrato hemattico (vulgarmente denominado de canga), que possui aspecto sa vnico (Porto & Silva, 1989) ou de vegetao rupestre (Silva et al., 1996). Ela possui limites bem definidos, constituindo se como um "encrave", circundado por Floresta Ombrfila, que vem sendo ocupado pela expanso das coberturas florestais do entorno, pr incipalmente a partir do Holoceno, quando do trmino da ltima glaciao, a Recentemente foi ainda observada a presena da uma fisionomia florestal com carter decidual, ocorrendo na forma de manchas ou fragmen tos de floresta sobre solos rasos e bem drenados que condicionam esta fisionomia, ainda em estudo, mas provavelmente relacionada ao substrato raso (Golder, 2008). Uma sntese dos estudos regionais mostra a ocorrncia de aproximadamente 1580 espcies vegeta is pertencentes a 130 famlias botnicas, com potencial para mais espcies, principalmente herbceas e trepadeiras, que so menos estudadas. Em relao s famlias botnicas, observa se nestes estudos uma maior riqueza de espcies em Leguminosae (259 espc ies), Sapotaceae (66), Euphorbiaceae (52), Annonaceae (47) e Burseraceae (29). 2.1.5.1. Caractersticas Gerais da Floresta Ombrfila de Carajs A Floresta Ombrfila Densa cobre cerca de 51% do mosaico de UCs de Carajs (Floresta Nacional de Carajs, APA d o Gelado, Reserva Biolgica de Itapirape Aquiri, Floresta Nacional de Itapirap e Reserva Indgena dos Xicrins) e a Floresta Ombrfila Aberta 49,1% (com exceo da APA do Gelado, j bastante antropizada). A floresta densa apresenta uma estrutura de dossel mais uniforme, mas ambas so semelhantes floristicamente (IBAMA, 2003), diferindo, principalmente, porque a floresta aberta apresenta maior espaamento entre grandes rvores, muitas espcies semidecduas, grande quantidade de lianas e a ocorrncia de muita s palmeiras (Radambrasil, 1974; Pires & Prance, 1985; Silva & Rosa, 1989; Paradella et al., 1994). A floresta aberta muito caracterstica na regio das bacias do Itacainas, Tapirap, Salobo e Cinzento (Flona do Tapirap Aquir), onde inclusive so comun s os agrupamentos de Attalea speciosa (babau) e Bertholletia excelsa (castanheira) (Pires, 1973, IBAMA, 2006). Uma caracterstica marcante da floresta aberta na regio a subformao com cips e palmeiras, principalmente na Unidade de Conservao UC vi zinha, Flona Tapirap Aquir (Pires, 1973, IBAMA, 2006). A predominncia de cips pode ser atribuda instabilidade do terreno nas escarpas, que intensifica a dinmica de clareiras e permite maior penetrao de luz, favorecendo aquelas espcies que cresce m melhor luz e se utilizam das rvores como suporte, formando verdadeiras colunas de massa vegetal (Silva, 1988; Salomo et al ., 1988; Paradella et al ., 1994; Ibama, 2003). Algumas das famlias mais ricas em espcies nos inventrios florestais e estudos fitossociolgicos da regio so: Leguminosae, Lauraceae, Sapotaceae, Burseraceae, Chrysobalanaceae e Lecythidaceae. Alguns dos gneros mais ricos nestes estudos so: Pouteria, Protium, Licania e Inga A mdia a alta riqueza nestes txons um padro na reg io amaznica (Barros, 1986; Gentry, 1986; Salomo & Lisboa, 1988; Frana, 1991; Salomo 1991; Silva et al., 1992; Ferreira & Prance, 1998; Rolim & Nascimento, 2006). Com relao s espcies arbreas, aquelas com maior densidade relativa variam conforme o trecho amostrado. Algumas das principais espcies que podem ser observadas so: Acacia polyphylla, Poecilanthe effusa, Ing edulis, Aparisthimium cordatum, Tetragastris altssima, Cenostigma tocantinum, Inga alba, Alexa grandiflora, Cordia bicolor, Jacaran da copaia, Randia armata, Pouteria spp Protium spp, Eschweilera coriacea, Minquartia guianensis Trattinickia rhoifolia, Lecythis idatimon e Rinorea guianensis Algumas das grandes rvores que podem ser observadas so: Bertholletia excelsa, Piptadenia sua veolens, Bagassa guianensis, Parkia pendula, Apuleia leiocarpa, Manilkara huberi, Dipteryx odorata, Caryocar villosum, Cedrelinga catenaeformis, Erisma uncinatum, Parkia paraensis, Theobroma speciosum Astronium lecointei e Parkia multijuga (Silva & Rosa, 1989; Silva et al., 1986; Silva et al., 1987; Salomo et al ., 1988; Morellato & Rosa, 1991; Paradella et al ., 1994; Rolim et al ., 2008) Muitas destas espcies tambm so bem comuns em vrias partes da Amaznia oriental (Dantas & Muller 1979; Rodrigues, 19 86; Salomo 1991; Soares & Carvalho, 1999; Silva, 2004; Souza et al., 2006; Rolim & Nascimento, 2007). Estas fisionomias podem ser classificadas de acordo com a posio no relevo, nas formaes: montanas, submontanas, de terras baixas e aluvial Embora a fo rmao florestal de terras baixas seja

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 51 muito comum na Amaznia (Rizzini, 1979), pouco expressiva na Flona de Carajs. A floresta submontana ocorre geralmente em reas mais escarpadas com altura mdia do dossel inferior floresta montana, que chega a 30 m nos plats mais elevados. Destas a mais distinta a floresta ombrfila aluvial, que se distribui ao longo das plancies de rios e igaraps da regio. Tambm apresenta dossel uniforme onde se destacam as palmeiras aa ( Euterpe oleracea ) e em alguns loca is o inaj ( Maximiliana maripa ), o buruti ( Mauritia flexuosa ) e o babau ( Attalea speciosa ). 2.2. reas de enfoque local na unidade espeleolgica de Carajs A delimitao das reas de enfoque local seguiu a definio da IN MMA N 2/2009, que vincula esta unidade geomorfolgica que apresente continuidade espacial, podendo abranger feies como serras, morrotes ou sistema crstico, o que for mais restritivo em termos de rea, desde que contemplada a rea de influncia da cavidade Para a definio d os limites das unidades geomorfolgicas (UG) utilizou se de mapas geomorfolgicos compatveis com as definies acima, mapas hipsomtricos gerados a partir de dados topogrficos SRTM, imagens de satlite landsat mapas geolgicos e rede hidrogrfica. As un idades geomorfolgicas da unidade espeleolgica de Carajs so representadas por serras de topo aplainado ou aguado, que correspondem ao Planalto Residual do Sul da Amaznia (Figuras 4 e 5). Os limites destas serras so dados pelo relevo de entorno arrasa do, correspondentes Depresso Interplanltica da Amaznia Meridional, ou para se privilegiar reas mais restritivas, utilizou se como critrio subdividir uma mesma serra onde esta cortada por grandes rios. Onde se desenvolve outra unidade geomorfolgic a entre elas, constituda por regies mais arrasadas da plancie de inundao, como o caso, por exemplo, da individualizao da Serra da Bocaina, que se trata da extremidade leste pelo entalhe do rio Pa rauapebas (figura 08). Nove reas de enfoque local, ou unidades geomorfolgicas (UG) foram definidas na unidade espeleolgica de Carajs, as quais apresentam cavidades desenvolvidas em formaes ferrferas e rochas associadas (canga de minrio de ferro e rochas mficas), a saber: UG Serra Norte; UG Serra Sul; UG Serra da Bocaina; UG Serra do Rabo Estrela ; UG Serra Leste; UG Serra do Cinzento; UG Aquiri; UG Serra de So Felix; e UG serra Arqueada (Figura 9). As quatro ltimas UGs apresentam potencial espe leolgico, mas ainda no h estudos que comprovem a existncia de cavidades nestas reas. Segue descrio detalhada de cada UG. Figura 8: Exemplo de descontinuidade entre duas unidades geomorfolgicas de serra: Serra Sul (fl anco sul da Serra de Carajs) e Serra da Bocaina (extremid ade leste da Serra de Carajs), com uma unidade geomorfolgica da plancie do Rio das Parauapebas entre elas. Serra Sul Serra da Bocaina Serra Norte Rio Parauapebas

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 52 I UG Serra Norte: Localiza se na poro centro leste da unidade espeleolgica Caraj s, mais especificadamente na poro norte da serra homnima (Figura 1 0 ). Engloba os depsitos de ferro de N1 a N9. conformada por relevo de serra alinhada com topo plano com orientao predominante WNW ESE. Apresentam altitudes que variam de 400 a 600 m podendo alcanar altitudes de 700 a 800 m. Estas serras so sustentadas pelos tipos litolgicos do Grupo Gro Par, onde predominam expressivos depsitos de ferro. As encostas dessas serras possuem declividades mdias (20 a 40 %) a ngremes (45 a 100 %). O limite leste desta unidade a plancie aluvial do Rio Parauapebas, enquanto o oeste o Rio Itacaiunas. Possui cerca de 76 Km de extenso, correspondendo a 1157 km de rea. II UG Serra Sul: Corresponde ao flanco sul da Serra de Carajs, recebendo a denominao local de Serra Sul devido aos depsitos de ferro que ocorrem em tal borda. Possui aproximadamente 73 Km de extenso e 845 km de rea. Engloba relevo de serra alinhada com orientao WNW ESE, com alturas que variam de 100 a 300 m, atingindo fre quentemente altitudes superiores a 600 m (Figura 1 1 ). sustentada predominantemente por litotipos do Grupo Gro Par (formao ferrfera e vulcnicas bsicas associadas), e subordinadamente por metassedimentos terrgenos da Formao guas Claras (metacong lomerados, meta arenitos arcoseanos e metassiltitos laminados). Este relevo de serra pode apresentar topo aplainado, angulares e at arredondado, e com vertentes cncavas convexas mais acentuadas na base. Os topos mais aplainados so sustentados por forma es ferrferas e canga de minrio de ferro. Os limites leste e sudoeste desta UG so, respectivamente, como na UG Serra Norte, os rios Parauapebas e Itacaiunas. III UG Serra da Bocaina O compartimento denominado de Serra da Bocaina, localizado na poro sudeste da unidade espelolgica Carajs, corresponde continuidade leste da Serra Sul, separada desta pelo entalhe fluvial do Rio Par auapebas, conforme pode ser visto nas Figuras 12 Seu limite leste dado por plancie aluvial do Rio Verde, afluente de m argem direita do Rio Parauapebas, que a separa das serras do Rabo e da Estrela. Sua fisiografia muito semelhante a da Serra Sul, com altitudes superiores a 600 m e topos planos com ocorrncias de canga latertica. Apresenta 257 km de rea e 24 km de ext enso segundo a direo E W. IV UG Serra do Rabo Estrela Localiza se na poro sudeste da unidade espeleolgica Carajs, correspondendo a extremidade leste da Serra Sul, sendo individualizada desta devido presena de uma depresso topogrfica formada pelo entalhe de Rio Verde. constituda pelas serras do Rabo, a sul, e a da Estrela, a norte, interligadas fisicamente, apesar da variao de toponmia, perfazendo 30 km de extenso segundo a direo norte sul e 197 km de rea (Figura 1 3 ). As altitudes nesta unidade variam de 350 a 900 m, apresentando desnveis de 150 a 400m em relao Depresso Interplanltica que a circunda. A morfologia predominante corresponde a topos planos a ondulados, comumente convexos (plats) com altitudes entre 650 e 900 m a lm de cristas estruturais com altitudes entre 500 e 600 m. Os vales so muito encaixados fortemente controlados por falhamentos de direo NW SE. As encostas apresentam declividades superiores a 20% e frequentemente acima de 45%. Assim como as demais UGs sustentada principalmente por rochas vulcnicas mficas e formaes ferrferas associadas ao Grupo Gro Par. V UG Serra Leste A UG Serra Leste, com 549 km de rea, situa se na poro leste da unidade espeleolgica de Carajs, a norte das cid ades de Parauapebas e Curionpolis (Figura 1 4 ). Caracterizam se por cristas estruturais NE SW que seguem por cerca de 49 km, e vales encaixados, desenvolvidos sobre rochas metavulcanossedimentares (anfibolito, serpentinito,quartzito). Ocorre ainda, com menor exp resso espacial, topos planos a ondulados recobertos por laterita, degradados pela atividade pecuria. As altitudes dos topos situam se entre 400 e 600 metros, com desnveis de at 200 metros em relao aos fundos dos vales. As vertentes so ngremes, com declividades superiores a 45%. Tem o Rio Parauapebas como seu limitante ocidental, e a Depresso Goiano Paraense no limite oriental. VI UG Serra do Cinzento Situada na parte norte da unidade espeleolgica Carajs, esta unidade apresenta 514

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 53 km de rea e composta por cristas estruturais orientadas WNW ESE com cerca de 100 km de extenso, balizadas por uma regio de cisalhamento, com alguns topos planos a ondulado s e altitudes entre 550 e 800 metros (Figura 1 5 ). A drenagem encaixada, seccionando as cri stas transversalmente, condicionando desnveis entre 150 250 metros. As vertentes so retilneas e cncavas com declividades superiores a 45%. O substrato constitudo por rochas metavulcanossedimentares como actinolita xisto e anfibolito. No interior da serra e em seu entorno afloram partes do embasamento gnissico e grantico, dissecado em formas de colinas com altitudes de 300 metros e morrotes esparsos, pertencentes Depresso Interplanltica. VII UG Aquiri Localiza se na poro oeste da unidade esp eleolgica Carajs. conformada por relevo de serras estruturadas, alinhadas na direo E W, com altitudes em torno de 400 a 500 m e topo com formas aguadas e alongadas em geral (Figura 1 6 ). O padro de vertentes ngremes e com forte controle estrutura l. Apresenta cerca de 65 km de extenso, correspondendo a uma rea de 423 km de rea. Relevos de menor amplitude, como associao de colinas e morros, predominando as colinas, ocorrem no interior e no entorno desta unidade. As serras so suportadas pelos tipos litolgicos do Grupo Gro Par, como metabasaltos e formaes ferrferas associadas, alm de metassedimentos da Formao guas Claras, como metarenitos e metassiltitos. VIII UG Serra de So Felix Situa se na extremidade ocidental da unidade espeleo lgica Carajs, 30 km a norte da cidade de So Flix do Xingu. Trata se de uma serra alinhada segundo a direo E W, com 11 km de extenso, cujo topo aplainado a ligeiramente ondulado, com altitudes alcanando de 600 a 650 m, e as encostas so ngremes, escarpadas, c om declividade variando de 45 a 60 (Figura 1 7 ). Possui 101 km de rea. A Serra de So Flix sustentada por rochas vulcnicas de natureza cida e bsica, e formaes ferrferas correlacionveis Formao Carajs. O padro de drenagem pode ser definido como dendrtico a subdendrtico, onde h o domnio de drenagens de 1 e 2 ordens. No relevo de serra predominam drenagens encaixadas com a forma do instalada na regio da Serra de So Flix faz p arte do contexto da grande bacia do mdio Rio Xingu. VIII UG Serra Arqueada A Serra Arqueada, localmente conhecida como Serra da Motuca, constitui uma expresso geomorfolgica de 102 km de rea e aproximadamente 51 km de extenso, com direo leste oest e, situada entre as serras do Ona, a sul, e do Puma, a norte. O arcabouo litolgico da serra Arqueada constitudo, em linhas gerais, por rochas vulcnicas cidas foliadas e milonitizadas, xistos e formaes ferrferas, provavelmente parte de uma seqn cia vulcanossedimentar que forma o conjunto de rochas supracrustais atribudo ao Grupo Sapucaia. Apresenta crista estrutural, com topo aguado e alongado, vertentes ngremes e com forte controle de falhas. Altitudes superiores a 600 m marcam um desnvel de mais de 300 m quando comparado com a Depresso Interplanltica que a circunda (Figura 18). Formaes ferrferas afloram no topo, junto com couraas ferruginosas (cangas). 3. CONSIDERA'ES FINAIS A unidade espeleolgica de Carajs, caracterizada por con junto de serras com topo em geral aplainado, correspondentes ao Planalto Residual da Amaznia Meridional. Tais serras apresentam altitudes entre 500 e 700 m, contrastando com a Depresso Interplanltica da Amaznia Meridional, cuja altitude est em torno d e 200 m. Nove unidades geomorfolgicas locais foram delimitadas na unidade espeleolgica de Carajs, a saber: UG Serra Norte; UG Serra Sul; UG Serra da Bocaina; UG Serra Leste; UG Cristalino; UG Serra Arqueada; UG Serra de So Felix; UG Aquiri; e UG Serra do Cinzento. atendendo o Decreto 6.640/2008 e IN MMA 02/2009. No atual cenrio, com uma produo de conhecimento acerca do conjunto espeleolgico na regio de estudo, tornam se necessrias constantes revises da proposta apresentada, pois estudos espeleol gicos, recentes comprovam similaridades geoespelelogica e bioespeleolgica em cavidades localizadas na regio de Carajs, estudadas at ento reforam a idia de unificar as unidades geomorfolgicas (Serra Sul e Serra da Bocaina) e possvel adio de out ra unidade geomorfolgica, a Serra do Pardo

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 54 Figura 09: Unidades geomorfolgicas de enfoque local: I) UG Serra Norte; II) UG Serra Sul; III) UG Serra da Bocaina; IV) UG Serra do Rabo Estrela; V) UG Serra Leste; VI) UG Serra do Cinzento; VII) UG Aquiri ; VIII) UG Serra de So Felix; e IX) UG serra Arqueada Figura 10: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra Norte. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 55 Figura 11: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra Sul. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio. Figura 12: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra da Bocaina. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serr as da regio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 56 Figura 13: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra do Rabo Estrela. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio Figura 14: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra Leste. M apa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 57 Figura 15: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra do Cinzento. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio. Figura 16: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra do Aquiri. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 58 Figura 17: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra de So Felix. Mapa hipsomtrico sobre image m de satlite destaca as principais serras da regio. Figura 18: Mapa da localizao da unidade geomorfolgica Serra Arqueada. Mapa hipsomtrico sobre imagem de satlite destaca as principais serras da regio.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 59 BIBLIOGRAFIA Alkmim, F. F., and Marshak, S. Transamazonian Orogeny in the Southern So Francisco Craton Region, Minas Gerais Brazil : evidence for Paleoproterozoic collision and collapse in the Quadriltero Ferrfero: Precambrian Research v. 90, 1998 p. 29 58. Auler, A; Rubbioli, E; Brandi, R. As Grandes Cavernas do Brasil Grupo Bambu de Pesquisas Espeleolgicas, 2001. 228 p. Auler, A.S; Pil, L.B.. Aspectos morfolgicos e evoluo de cavernas em minrio de ferro no Quadriltero Ferrfero, Minas Gerais. In: II Encontro Brasileiro de Estudos do Instituto de Geocincias, IG USP Caderno de Resumos 2007. 8 p. CPRM Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais. Geologia e Recursos Minerais do Estado do Par : Sistema de Informaes Geogrficas SIG : texto explicativo dos mapas Geolgico e Tect nico e de Recursos Minerais do Estado do Par. Organizadores: Vasquez, M. L., Rosa Costa, L. T.. Escala 1:1.000.000. Belm: CPRM, 2008. 328 p. CVRD/CMM. Distrito Ferrfero da Serra dos Carajs. In: CONGRESSO BRASILEIRO DEGEOLOGIA, 26. Resumos das Comunica es Belm: SBGNcleo Norte, 1972. v. 2, p. 78 80. DOCEGEO. Reviso litoestratigrfica da Provncia Mineral de Carajs. In: CongressoBrasileiro de Geologia Anais. Belm: CVRD/SBG, 1988. p. 11 59. Hill, C.; Forti, P. Cave Minerals of the World National Sp eleological Society. 1997. 463p. Arqueano Planalto, Regio da Serra do Rabo Carajs PA In:SIMP"SIO DE GEOLOGIA DA AMAZNIA. Resumos expandidos Manaus: SB G, 1999a. 463 466p. IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica Mapa de climas do Brasil. Escala 1:5.000.000. 2002 IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica Mapa de Biomas do Brasil. Diretoria de Geocincias. Rio de Janeiro 2004. Macambira et al. Projeto Serra Norte e Projeto Pojuca : relatrio final. Belm: SEPLAN/Docegeo/UFPA; DNPM/Docegeo/UFPA, 1990. 150 p. Machado, N.; Lindenmayer, Z.G.; Krogh, T.E. U Pb Geochronology of archean magmatism and basement reactivation in the Caraj s area, Amazon Shield, Brazil. Precambriam Research v. 49. 1991. 329 354 p Meireles et al Geologia das folhas Carajs e Rio Verde, Provncia Mineral dos Carajs, estado do Par. In: Congresso Brasileiro de Geologia. Anais Rio de Janeiro: SBG, 1984. v.5 1984. 2164 2174p. Morellato, L.P.C.; Rosa, N.A. Caracterizao de alguns tipos de vegetao na regio amaznica, Serra dos Carajs, Par, Brasil. Revista Brasileira de Botnica 1991. 14: 1 14. Mougeot et al. Geochronological constraints for the age of th e guas Claras Formation (Carajs Province, Par State, Brazil) In: Congresso Brasileiro de Geologia, 39. Resumos expandidos Salvador: SBG, 1996. v. 6, 579 581 p. Nogueira, A.C.R.; Truckenbrodt, W.; Pinheiro, R.V.L. Formao guas Claras, Prcambriano da serra do Carajs: redescrio e redefinio litoestratigrfica. Boletim do Museu Paraense Emlio Goeldi 1995 v. 7, 177 197 p.

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Valentim & Olivito Unidade e speleolgica Carajs : delimitaes dos enfoques regional... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 60 Paradella, W.R.; Silva, M.F.F.; Rosa, N.A. A geobotanical approach to the tropical rain forest environment of the Carajs Minera l Province (Amazon Region Brazil) based on digital TM and DEM data. International Journal of Remote Sensing 1994. 15(8): 1633 1648 p. Pires, J.M. Tipos de Vegetao da Amaznia In. Simes, M.F. ed. "O Museu no Ano do Sesquicentenrio". Publ. Avuls Mus. Para. Emlio Goeldi, Belm. 1973. 179 202 p. Pires, M.P.; Prance, G.T. The Vegetation Types of the Brazilian Amazon. In: Prance, G.T.; Lovejoy, T.E (eds). Key environments: Amazonia. Pergamon Press Oxford.1985 109 145 p. Porto, M.L. & Silva, M.F.F. da. T ipos de Vegetao Metalfila da rea da Serra dos Carajs e Minas Gerais. Acta Botnica Braslica 1989. Vol. 3(2): 13 21 p. Radambrasil. Projeto Radambrasil Levantamento de recursos naturais Folha SB.22 Araguaia e parte da folha SC.22 Tocantins. Rio de Janeiro. 1974 v.4 p. Radambrasil. Projeto Radambrasil Folhas SF23/24 Rio de Janeiro e Vitria: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetao e uso potencial da terra. Rio de Janeiro, 1983. 780 p. Salomo, R.P.; Silva, M.F.F.; Rosa, N.A. Inventrio ecolgi co em floresta pluvial tropical de terra firme, Serra Norte, Carajs, Par. Boletim do Museu Paraense Emlio Goeldi Botnica 1988. 4(1): 1 46 p. Santos, J.O.S. Geotectnica do Escudo das Guianas e Brasil Central. In: BIZZI, L.A. et al. (Ed.). Geologia, T ectnica e Recursos Minerais do Brasil : texto, mapas e SIG. Braslia: CPRM Servico Geolgico do Brasil, 2003. 169 226 p. Silva, G.G. et al. Departamento Nacional da Produo Mineral. Projeto Radam Folha SB. 22 Araguaia e parte da folha SC. 2 2 Tocant ins: geologia, geomorfologia, solos, vegetao e uso potencial da terra. Rio de Janeiro, 1974. il. p. I/3 I/143. Silva, M.F.F; Rosa, N.A.; Salomo, R.P. Estudos botnicos na rea do Projeto Ferro Carajs 3. Aspectos florsticos da 114, VOL. 36(1) 2006: 107 114. Silva, M.F.F; Rosa, N.A.; Oliveira, J. Estudos botnicos na rea do Projeto Ferro Carajs. 5. Aspectos florsticos da mata do rio Gelado, Par. Boletim do Museu Paraense Emlio Goeldi, Botnica 1987 3(1): 1 20 p. Silva, M.F.F.; Rosa, N.A. Anli se do estrato arbreo da vegetao sobre jazidas de cobre na Serra dos Carajs PA. Boletim do Museu Paraense Emlio Goeldi Botnica. 1985. 5(2): 175 205 p. Silva, M. F. F. & Secco, R. S. & Lobo, M. G. A. Aspectos ecolgicos da vegetao rupestre da Serr a dos Carajs (PA). Acta Amaznica 1996. 26 : 17 44 p. Veloso, HP. Rangel Filho, A.C.R. Lima, J.C. A Classificao da vegetao Brasileira adaptada a um sistema universal. IBGE 1991 Fluxo editorial : R ecebido em: 29 0 3 .20 1 1 Corrigido em: 05 .0 5 .2011 Apr ovado em: 12 0 5 .201 1 A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.cavernas.org.br/es peleo tema.asp

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 61 CARACTERIZAO DA UNIDADE ESPELOL"GICA E DAS UNIDADES GEOMORFOL"GICAS DA REGIO DO QUADRILTERO FERRFERO MG CHARACTERIZATION OF THE SPELEOLOGICAL UNIT AND OF THE GEOMORPHOLOGICAL UNITS OF THE QUADRILTERO FERRFERO REGION MG Osvaldo A. Belo de Olivei ra Joo Paulo R. Olivito & Daniela Rodrigues Silva Vale Gerncia de Espeleologia e Tecnologia, Belo Horizonte MG Contatos: osvaldo.belo@vale.com ; jpr_olivito@ yahoo.com.br ; daniela.silva@vale.com Resumo A metodologia da instruo normativa MMA 2/09, para a avaliao do grau de relevncia das cavidades naturais subterrneas nos processos de licenciamento ambiental, estabelece que a anlise da importncia dos seus atributos seja feita simultaneamente sob o enfoque regional e local, definidos como unidades espeleolgica e geomorfolgica. Para o atendimento a essa instruo, a Vale S.A. apresentou ao CECAV ICMBio as un idades espeleolgica e geomorfolgicas que subsidiaram a classificao da relevncia de cavidades naturais subterrneas presentes nas reas onde opera, na regio do Quadriltero Ferrfero MG. A delimitao dessas unidades feita com base na geologia e g eomorfologia, atravs da interpretao de mapas geolgicos, geomorfolgicos, topogrficos, hipsomtricos e imagens de satlite apresentada neste trabalho com uma primeira reviso, que nortear os processos de licenciamento ambiental nesta importante pr ovncia mineral, que no constitui um carste clssico Palavras Chave : Licenciamento ambiental; Quadriltero Ferrfero, unidade espeleolgica; unidade geomorfolgica Abstract The methodology of normative instruction MMA 2/09, to assess the degree of rele vance of the natural underground cavities in the environmental licensing process, requires that the analysis of the importance of its attributes be made simultaneously in the regional and local focuses, defined as speleological and geomorphological units. To meet this instruction, Vale S.A. presented to CECAV ICMBio the speleological and geomorphological units that supported the classification of the relevance of natural underground cavities present in the areas where it operates, in the Quadriltero Ferrf ero region MG. The delimitation of these units made on the basis of geology and geomorphology, through the interpretation of geological, geomorphological, topographical and hypsometric maps and satellite images is presented in this paper with a first review, which will guide the process of environmental licensing in this important mineral province, which is not a classic karst Key Words : Environmental licensing; Quadriltero Ferrfero; speleological unit; geomorphological unit 1. INTRODUO O Decre to 6640/2008 estabelece que as cavidades naturais subterrneas sejam classificadas de acordo com seu grau de relevncia a partir do nvel de importncia dos atributos biolgicos, fsicos e socioeconmicos das cavidades, avaliadas sobe o enfoque regional e local, enfoque estes descritos pela primeira vez naquele instrumento. Uma definio mais clara destes enfoques, entretanto, surge com a publicao da Instruo Normativa n o 02/2009 do MMA (IN), em 21/08/2009, que regulamenta o decreto supracitado. Segundo a IN, a como aquela que apresenta continuidade espacial e que contempla, no mnimo, a rea de influncia da cavidade (art. 14 §2); j a anlise sob enfoque regional com homogeneidade fisiogrfica (...) que pode congregar diversas formas de relevo crstico e pseudocrstico (...), delimitada por um conjunto de fatores ambientais (art. 14 §3). Com a publicao do Decreto 6640, em 08 de novembro de 2009, o impacto irreversvel em cavernas passou a ter uma regulamentao especfica, diferente da situao jurdica anterior

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 62 quando, pela ao do Decret o 99.556/1990, nenhum impacto a cavernas era admitido no Brasil. A aplicao do decreto por meio da metodologia definida pela IN depende da comparao de diversos atributos geolgicos e biolgicos entre as cavidades naturais subterrneas, em escala reg ional e local, tornando necessria a definio das unidades espeleolgica e geomorfolgica. No h correspondncia conceitual entre os enfoques de comparao previstos na IN e as provncias espeleolgicas, j discutidas, principalmente para o calcrio, pel a comunidade espeleolgica (Karmann e Sanchez, 1979). Portanto, propostas a serem aplicadas de maneira uniforme em todo o territrio nacional devem ser apresentadas, para que os estudos espeleolgicos vinculados aos processos de licenciamento ambiental uti lizem a mesma amostra comparativa. Importante ressaltar, porm, que a determinao dos limites geogrficos para os enfoques previstos na IN somente atingir o objetivo maior de maior compatibilidade entre os estudos produzidos nas diversas regies do Bra sil, com a disponibilizao do Cadastro Nacional de Informaes Espeleolgicas CANIE quando se tornar possvel a coleta de informaes para a composio das amostras, de acordo com o enfoque. 2. UNIDADE ESPELEOL"GICA DO QUADRILTERO FERRFERO CONCE IO O Quadriltero Ferrfero (QF) considerada uma das mais importantes provncias minerais do Brasil, devido principalmente s suas jazidas de ouro e ferro. Corresponde a uma rea de 7.200 km 2 coberta por levantamentos geolgicos sistemticos na escala 1:25.000, a partir de convnio firmado entre os governos dos EUA e do Brasil (USGS DNPM) em meados do sculo XX (Dorr,1969) levantamentos esses que servem de referncia a todos estudos posteriores. Para adequao definio de unidade espeleolgica, especificada na IN, foi estabelecida a unidade espeleolgica denominada Quadriltero Ferrfero Conceio, que engloba, no enfoque local, dez unidades geomorfolgicas, de acordo com a norma, que prescreve que as anlises de atributos das cavernas estejam vinculadas (enfoque local e regional). O termo unidade espeleolgica Quadriltero Ferrfero j havia sido estabelecido por Auler et al (2001), com base na ocorrncia de algumas cavidades em dolomitos nas formaes geolgicas Gandarela e Fecho do Funil (Dor r, 1969). Extrapolando o limite do QF para norte, com base nas caractersticas geolgicas a despeito de sua descontinuidade a unidade espeleolgica do QF Conceio compreende, alm do QF, a regio de Conceio do Mato Dentro. Sua delimitao foi defi nida com base no trabalho do USGS DNPM, que estendeu as unidades geolgicas do QF at a regio de Itabira limite do referido levantamento geolgico e em dados da CPRM (2001), que correlacionam temporalmente as rochas do QF com aquelas da regio de Conc eio do Mato Dentro um conjunto de elevaes que se estende por mais de 50 km, desde a cidade de Santo Antnio do Rio Abaixo at a localidade de So Sebastio do Bom Sucesso.(figura 1). A delimitao das reas de enfoque regional e local foi feita por profissionais da Vale e consultores com base na interpretao de mapas geolgicos, geomorfolgicos, topogrficos, hipsomtricos e imagens de satlite, alm de trabalhos publicados que evidenciam o forte controle litoestrutural e tectnico no arcabouo geom orfolgico da unidade espeleolgica QF Conceio. 2.1 Geologia O QF localiza se no centro sul do Crton do So Francisco (Almeida, 1977), uma poro antiga da crosta parcialmente coberta por sequncias, paleo e mesoproterozicas (Dorr, 1969; Marshak & Alkmim, 1989; Alkmim & Marshak, 1998). Representa uma tpica provncia metalogentica de terrenos do tipo domos e quilhas, cujas unidades estratigrficas registram complexa evoluo durante o Arqueano e o Paleoproterozico, com retrabalhamento parcial no N eoproterozico. Na regio do QF podem ser individualizadas cinco unidades: terrenos granito gnissicos arqueanos, Supergrupo Rio das Velhas, Supergrupo Minas, Grupo Itacolomi e o Supergrupo Espinhao, apresentadas na figura 2 e com algumas idades absolutas na coluna estratigrfica da figura 3. Sua denominao deve se forma quadrangular da regio, delineada pela distribuio das rochas metassedimentares do Supergrupo Minas.

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 63 Figura 1 Mapa geolgico da unidade espeleolgica QF Conceio (simplificad o de CPRM, 2001) Os terrenos arqueanos compreendem diversos complexos granito gnissicos, perifricos ao QF e no seu interior cortados por granitos arqueanos, paleoproterozicos e mesoproterozicos (Machado et al ., 1992; Noce, 1995; Dossin et al. 199 3) e rochas supracrustais do Supergrupo Rio das Velhas, constitudo por rochas metavulcnicas e metassedimentares que caracterizam o greenstone belt homnimo de idade arqueana (Dorr, 1969; Machado et al ., 1992). O Grupo Caraa formado essencialmente d e metassedimentos clsticos e subdividido em duas formaes: a Formao Moeda basal, composta por quartzitos, conglomerados e filitos quartzosos e a Formao Batatal superior que compreende filitos, metacherts e lentes de formao ferrfera. O Grupo Itabira representado por uma sequncia de metassedimentos qumicos, subdividido nas formaes Cau e Gandarela. A Formao Cau caracterizada por conter formaes ferrferas do tipo Lago Superior (itabiritos, itabiritos dolomticos, itabiritos anfibol ticos), filitos e horizontes manganesferos. A poca de deposio dessas rochas foi estimada em 2.52 Ga. por Babinski et al (1991), que consideraram uma espessura verdadeira entre 400 e 500 m. A Formao Gandarela composta de rochas carbonticas, mrm ores e filitos carbonticos. Os terrenos paleoproterozicos correspondem s rochas do Supergrupo Minas, cuja estratigrafia foi originalmente definida por quatro grandes grupos; Tamandu, Caraa, Itabira e Piracicaba, respectivamente da base para o topo (Do rr, 1969).

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 64 Figura 2 Mapa geolgico simplificado do QF modificado de Dorr (1969) O Grupo Piracicaba originalmente compreendia cinco formaes siliciclsticas, onde a Formao Fecho do Funil destaca se pela relevante contribuio de rochas carbontic as. A Formao Sabar interpretada como turbiditos do geossinclinal Minas (Dorr, 1969), com estudos posteriores, foi promovida ao Grupo Sabar (Pires, 1979; Machado et al ., 1996). O Grupo Itacolomi foi interpretado originalmente como uma sequncia molssi ca intermontana, depositada no Mesoproterozico e correlacionada ao Supergrupo Espinhao (Barbosa, 1968; Dorr, 1969). Coberturas sedimentares fanerozicas destacam se na estratigrafia da unidade espeleolgica QF Conceio, como cangas e sedimentos terr genos fluviais e lacustres, relacionados s coberturas laterticas de idade Terciria. As coberturas de canga so o principal condicionador na espeleognese associada aos depsitos de ferro latertico. No extremo norte da unidade espeleolgica QF Concei o ao longo da borda oriental do Espinhao estreitas faixas descontnuas, geralmente constitudas por rochas metamficas, metaultramficas, formaes ferrferas, xistos, e quartzitos, tm sido aventadas por diversos pesquisadores sob o ponto de vista petrogrfico, qumico e de enquadramento geolgico como possveis sequncias do tipo greenstone belts correlacionveis ao Supergrupo Rio das Velhas (Uhlein, 1982; Fogaa, 1985; Neves, 1998).

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 65 Figura 3 Coluna estratigrfica para o QF, apresentando algumas idades absolutas (Alkmim & Marshak, 1998). Associada a essas rochas ocorre uma sequncia epiclstica fina com sedimentao qumica associada (figura 4), semelhante ao Supergrupo Minas do QF (Dorr, 1969). Essas estreitas faixas descontnuas de met assedimentos se destacam no relevo e so constitudas principalmente por quartzitos, quartzitos sericticos e ferruginosos, xistos, filitos e itabiritos, com espessura estimada de 300 a 500 metros. Essa unidade, definida pela Vale como Grupo Conceio do Mato Dentro e anteriormente descrita por diversos autores, (Pflug & Renger, 1973; Uhlein, 1982; Vilela & Santos, 1983; Assis & Marini, 1983) correlacionada ao Supergrupo Minas (CPRM, 2001), apesar da descontinuidade fsica entre ambas. Do ponto de vista estrutural, o QF delineado por feies fortemente condicionadas pela tectnica, onde se destacam grandes sinclinais e anticlinais, que conformam a geometria poligonal que lhe d nome, produto de pelo menos trs eventos tectnicos compressionais (Dorr, 19 69; Noce 1995; Alkmim & Marshak, 1998). Esse registro tectnico ocorre tambm na regio de Conceio do Mato Dentro. 2.2. Geomorfologia O papel do controle estrutural e tectnico sobre a organizao geomorfolgica do QF que se estende unidade espeleo lgica representa, h dcadas, um ponto de convergncia de opinies de muitos geocientistas, que dedicaram ateno ao estudo da morfognese desta regio. A partir de Harder & Chaberlin (1915), que relacionaram a evoluo do relevo do QF com suas estrutur as geolgicas, substrato rochoso e eroso diferencial definindo trs domnios denominados de terras altas, medianas e baixas, respectivamente correspondentes a quartzitos e itabiritos, xistos e filitos e granito gnaisses, outras consideraes foram feitas sobre a sua conformao geomorfolgica todas tambm controladas por estruturas geolgicas (dobras e falhas) e pela eroso diferencial destacando se King (1956), Barbosa & Rodrigues (1965), Dorr (1969) e Barbosa (1980).

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 66 Figura 4 Mapa geolgico da r egio de Conceio do Mato Dentro (Rel. Interno Vale) Varajo (1991) verificou que a quantidade de ciclos erosivos, identificados em cada um dos trabalhos realizados anteriormente, dependia do conceito que cada autor possua a respeito de superfcie de a plainamento, bem como do intervalo altimtrico considerado. Com base em dados quantitativos, Varajo et al. (2009) sugerem que o relevo do QF um produto de constante e intenso processo erosivo onde as superfcies cimeiras interpretadas por diversos aut ores como de idade cretcea so protegidas da eroso por coberturas de canga formadas, principalmente, durante o Eoceno. O relevo se divide basicamente em dois tipos. O primeiro distinto pela continuidade e extenso da forma, alm de sua altimetria ele vada com altitudes acima de 1.200 metros e alcanando nveis superiores a 2000 metros na Serra do Caraa. Geralmente esto associados a processos estruturais de elaborao do relevo, tais como as falhas de empurro e normal e fatores litolgicos (canga, itabiritos e quartzitos). O segundo evidenciado por relevos de dissecao homognea, situado na parte central e no entorno do QF, abrangendo colinas um pouco alongadas e de topos convexos e tabulares dos complexos metamrficos grantico gnissicos (Proj eto RADAMBRASIL, 1983). Apresenta altitudes entre 750 a 950 m, onde se destacam relevos com cotas superiores nos topos de colinas e nas regies de montante das principais bacias hidrogrficas, compreendendo as unidades geomorfolgicas contidas na poro or iental e norte da unidade espeleolgica QF Conceio (figura 5). Ao norte a Serra da Serpentina com altitudes acima de 900 m (mxima de 1.175 m) constitui um conjunto geomrfico de expresso na rea, com espetacular influncia das estruturas e da nat ureza do substrato rochoso, onde so comuns formas escarpadas do tipo hogbacks relacionadas a estruturas homoclinais (figura 6), com cristas alinhadas e alongadas segundo a direo NW SE e NS sustentadas por itabiritos e/ou quartzitos.

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 67 Figura 5 Mapa hipsomtrico da unidade espeleolgica QF Conceio destacando o limite oriental da cordilheira do Espinhao A gua, como parmetro mais importante da configurao e dinmica dos ecossistemas crsticos (rochas carbonticas), tem uma representatividade espacial na unidade espeleolgica QF Conceio distinta daquela referida no glossrio da IN: Sistema crstico: conjunto de elementos interdependentes, relacionados ao da gua e seu poder corrosivo junto a rochas solveis, que do origem a sistemas d e drenagem complexos, englobando sistemas de cavernas e demais feies superficiais destes ambientes, como as dolinas, sumidouros, vales secos, macios lapiezados e outras reas de recarga. Incluem se neste conceito todas as formas geradas pela associao de guas corrosivas e rochas solveis que resultam na paisagem crstica. constitudo por suas diversas Esta definio refere se mais ao grupo de rochas carbonticas, a exemplo do Grupo Bambu, onde a influncia da gua muito mais abrangente podendo corresponder a um aqufero ou mesmo extrapolar mais de uma bacia hidrogrfica do que ao grupo de rochas laterticas que inclui o minrio de ferro e de rochas siliciclsticas que inclui os

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 68 quartzitos. Essas litologias na unidade geoespelolgica distinguem na das rochas carbonticas no s por suas estruturas, espessuras, composio, porosidade e permeabilidade como pelos padres de recarga subterrnea. Figura 6 Relevo do tipo hogback sustentado por form ao ferrfera, caracterstico das escarpas alinhadas que compem o relevo do QF e Conceio do Mato Dentro (Pico do Soldado Serra da Serpentina) Duas bacias abrangem a unidade espeleolgica do QF Conceio, a do Rio Doce a oeste e a do Rio So Franci sco a leste. O divisor de guas dessas bacias a Serra do Espinhao, que no QF se estende pelas serras das Cambotas, Gandarela, Ouro Fino e Antnio Pereira at a proximidade de Ouro Preto. Na bacia do rio So Francisco destacam se as sub bacias dos rios d as Velhas, Paraopeba e Par, enquanto que na do Rio Doce destacam se as sub bacias dos rios do Carmo, Piracicaba e Santa Brbara, no QF, e Santo Antnio e Peixe em Conceio do Mato Dentro (figura 7). 2.3. Espeleologia A delimitao da unidade espeleol gica, dentro do enfoque regional, apresentada pela Vale ao CECAV ICMBio, foi condicionada ao Supergrupo Minas (Dorr,1969) e s rochas cronocorrelatas (CPRM, 2001) que se estendem at a regio de Conceio do Mato Dentro (figura 1). Pelo conceito determinad o na IN, essa unidade poderia ser estendida at Serro e mesmo at a regio de Porteirinha, onde dezenas de cavernas foram recentemente identificadas em rochas ferrferas diamictitos hematferos .da Formao Nova Aurora, situada em cotas entre 900 e 1.07 0 metros (Carmo et al. 2010). A unidade espeleolgica do QF Conceio congrega trs formas de ocorrncias de cavernas, vinculadas a trs grupos de rochas, respectivamente em ordem de importncia (nmero de ocorrncias): laterticas, siliciclsticas e car bonticas. As rochas laterticas compreendem mais de 500 cavernas descritas em cangas, minrio de ferro, itabiritos, hematita compacta e laterita. As rochas siliciclsticas compreendem principalmente quartzitos e conglomerados, onde aproximadamente uma cen tena de cavidades conhecida, com grande potencial de novas descobertas com os programas de prospeco espeleolgica em andamento. As rochas car bonticas abrangem dolomitos e calcrios, restritas ao QF, onde apenas poucas cavidades so conhecidas. O grupo das lateritas compreende rochas cuja classificao em campo normalmente envolve denominaes s vezes pouco precisas e conflitantes, como formao ferrfera x itabirito, minrio de ferro x itabirito/canga e canga x laterita. Considera se que as rochas des se grupo tenham um teor de Fe 2 O 3 acima de 15%, onde a classificao de minrio depende principalmente de critrios qumicos, fsicos e mineralgicos. Os minrios de ferro do QF so classificados como depsitos de ferro latertico de classe mundial, cujas dataes de itabiritos e canga pelo mtodo Ar/Ar mostraram idades, principalmente, a partir do incio do Tercirio (Spier, 2005). Tais depsitos esto condicionados por fatores tectnicos, morfoclimticos e litolgicos, onde as coberturas de canga/late rita em diversos patamares altimtricos, com cotas que variam de 1.800 a 800 metros so responsveis pela existncia da maioria das cavernas nesse grupo de rochas. As cavidades naturais nesse grupo de rochas tm como principal caracterstica sua proxim idade superfcie e seu pequeno desenvolvimento, em torno de 25 metros, o que as diferem das cavernas em rochas carbonticas, que atingem um maior grau de desenvolvimento e tm maior probabilidade de apresentarem drenagens predominantemente subterrneas e portanto mais susceptveis s alteraes ambientais. As coberturas laterticas distinguem se das rochas dos grupos siliciclsticos e carbonticos por no terem sido afetadas pelos eventos tectnicos distensionais e compressionais dos ciclos Transamaznico e Brasiliano, cujas estruturas esto sempre presentes nos macios rochosos quartzticos e carbonticos, no s do QF como das principais provncias espeleolgicas do Brasil (Karmann & Sanches, 1979). As estruturas observadas nessas coberturas esto relaci onadas a reativaes de estruturas pretritas arqueanas e proterozicas.

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 69 Figura 7 Distribuio das bacias hidrogrficas na unidade espeleolgica do QF Conceio. No grupo de rochas siliclsticas no QF destacam se as cavernas em quartzito da Serra do Caraa, entre as quais a gruta do Centenrio, uma das maiores cavernas deste tipo de rocha no mundo, com 3.490 metros de projeo horizontal e desnvel de 481 metros, o maior do Brasil (Dutra et al ., 2002). Esse grupo de rochas tem grande potencial para a descoberta de novas cavidades, incluindo alm do Grupo Caraa, os grupos Itacolomi, Conceio do Mato Dentro e mesmo o Grupo Maquin. 3. UNIDADES GEOMORFOL"GICAS Dentro da unidade espeleolgica QF Conceio foram delimitadas pela Vale e apresentadas ao CECAV ICMBio dez unidades geomorfolgicas (figura 8), aplicando se o conceito delimitadas pela unidade geomorfolgica que apresente continuidade espacial podendo abranger feies como serras, morrotes ou sistema crstico o que for mais restritivo em termos de rea, desde que 14 §1). A delimitao dessas unidades, feita dois meses aps a publicao da IN, teve como objetivo a adequao de suas operaes, c onforme a determinao do Decreto 99.956/90, com redao dada pelo Decreto 6640/08 (art. 5 §3). A demarcao das dez unidades geomorfolgicas foi feita com base em critrio llitolgico fisiogrfico e em sua continuidade espacial, utilizando se mapas geol gico e hipsomtrico, imagens de satlite e de ortofotos de

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 70 alta resoluo e da rede hidrogrfica. Como o critrio litolgico/fisiogrfico utilizou se as rochas do Supergrupo Minas principalmente as formaes Moeda, Cau e Gandarela e como critrio de d escontinuidade a presena de plancie de inundao, com reas mais arrasadas, a exemplo dos rios Paraopebas e Velhas. As dez reas de enfoque local ou unidades geomorfolgicas, definidas conforme os critrios destacados acima foram denominadas Serra da Serpentina, Itabira, Joo Monlevade, Serra da Piedade; Quadriltero Oeste ; Serra Azul; Morrarias de Dom Bosco, Serra do Gandarela, Serra de Ouro Preto Antnio Pereira e Escarpa Oriental do Caraa (figura 8), descritas adiante. 3.1. Serra da Serpentina E sta unidade geomorfolgica (UG), com 168 km 2 de rea, localiza se no extremo norte da unidade espeleolgica QF Conceio. Trata se de um conjunto de elevaes que se estende segundo a direo NNW por 58 km, desde a cidade de Santo Antnio do Rio Abaixo a t ao norte da cidade de Conceio do Mato Dentro. Apresenta altitudes em geral acima de 900 m, com mxima de 1.175 m, contrastando com o relevo mais arrasado ao seu lado (inferior a 650 m), onde se destacam as plancies aluvionares do Rio do Peixe a leste e do Rio Santo Antnio a oeste. As formaes ferrferas ocorrem no topo da serra e/ou em sua encosta leste (figura 9). Figura 8 Localizao das unidades geomorfolgicas na unidade espeleolgica QF Conceio

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 71 Figura 9 Unidade geomorfolgica Serr a da Serpentina 3.2. Itabira Localizada a nordeste do QF encontra se em contexto geomorfolgico muito semelhante a esta ltima a UG Serra da Serpentina, com relevo mais alto, em torno de 1100 m, que ocorre isolado em meio a terrenos homogeneamente dissec ados pelos Ribeiro Jirau, Rio do Tanque e afluentes do Rio Santa Brbara, cuja altimetria est na faixa de 600 a 800 m. Tal unidade geomorfolgica apresenta 12 km de extenso e 79 km 2 de rea, sendo que apenas em sua poro leste afloram formaes ferrfe ras (figura 10). 3.3. Joo Monlevade Localiza se ao sul da UG de Itabira, num mesmo contexto geomorfolgico. Apresenta relevo em torno de 1000 m, podendo atingir 1300 m. Destaca se do relevo colinoso de entorno, mais arrasado e homogneo, com altitudes en tre 600 e 800 m. Seus limites so dados pelas plancies fluviais dos rios Piracicaba e Santa Brbara. Possui 282 km 2 de rea e cerca de 20 km de extenso. As formaes ferrferas se situam a leste desta unidade geomorfolgica (figura 11). 3.4. Serra da Pi edade Localiza se na poro norte nordeste do QF, a leste da zona urbana de Belo Horizonte e a nordeste de Sabar. Corresponde ao mesmo alinhamento da Serra do Curral, separada desta pela plancie aluvial do Rio das Velhas. Apresenta 36 km 2 de rea e cerca de 20 km de extenso segundo a direo ENE. O topo desta serra, sustentada por formaes ferrferas e canga latertica, tem altimetria variando entre 1200 a 1700 m, (figura 12). 3.5. Quadriltero Oeste Esta unidade local compreende 391 km 2 de rea e situ a se na borda oeste do QF, imediatamente a sul de Belo Horizonte, seguindo at as cidades de Jeceaba e Congonhas do Campo. Trata se uma unidade geomorfolgica de serra, com continuidade espacial, embora apresente inflexes em sua direo e variaes de top onmia Curral, Moeda e Itabirito (figura 13).

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 72 Figura 10 Unidade geomorfolgica Itabira Figura 11 Unidade geomorfolgica Joo Monlevade

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 73 Figura 12 Unidade geomorfolgica Serra da Piedade Figura 13 Unidade geomorfolgica Quadriltero Oest e

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 74 O segmento da Serra do Curral corresponde ao alinhamento de direo nordeste, na poro norte da unidade. Apresenta 47 km de extenso e seus limites so dados pelas plancies fluviais dos rios Paraopeba e das Velhas, localizados em suas extremidades sud oeste e nordeste, respectivamente. Na poro central da Serra do Curral se juntam as serras da Moeda e de Itabirito, que seguem para sul, a primeira mais a oeste e a segunda a leste. A Serra da Moeda, com 51 km de extenso, delimitada em sua poro sul, prximo cidade de Jeceaba, por rochas do embasamento num relevo mais arrasado e trabalhado pelo mesmo Rio das Velhas, em sua poro mais a montante. J a Serra de Itabirito interrompida em sua extremidade sul pelas plancies das cabeceiras do Rio das V elhas. Entre as serras da Moeda e Itabirito h uma regio quase to acidentada quanto estas, sustentadas por metassedimentos do Grupo Piracicaba, que compreende uma unidade geomorfolgica de morrotes. 3.6. Serra Azul Situada no extremo oeste do QF, corres ponde ao segmento de serra do mesmo alinhamento da Serra do Curral, separada desta em sua poro leste pela plancie aluvionar do Rio Paraopeba. Apresenta elevaes em torno de 1200 m, enquanto seu entorno em geral no passa de 800 m de altitude. Possui 50 km 2 de rea e cerca de 30 km de comprimento, alinhados segundo a direo ENE (figura 14). 3.7. Morrarias de Dom Bosco Localiza se na poro sul do QF, na regio da cidade de Miguel Burnier. Corresponde a uma rea elevada em geral acima de 1200 m, configu rando um relevo de morros que limitado a leste pela regio de planalto da Serra de Itacolomi e a oeste por relevos mais arrasados nas cabeceiras do Rio das Velhas e Rio Maranho, afluente da margem direita do Rio Paraopeba. Apresenta 17 km de extenso, a linhando se segundo a direo E W. Sua rea de 111 km 2 As pores mais altas so sustentadas por formaes ferrferas da Formao Cau e quartzitos do Grupo Piracicaba (figura 15). 3.8. Serra do Gandarela Localizada na poro nordeste do QF, coincide com estrutura geolgica do sinclinal do Gandarela. Essa unidade geomorfolgica tem 43 km de extenso ao longo de seu eixo central, alongando se segundo a direo nordeste, o que corresponde a uma rea de 217 km 2 Na sua parte central ocorre relevo mais arr asado devido ao trabalho do Rio Santa Brbara, onde ocorrem os metassedimentos do Grupo Piracicaba. A poro sudoeste da Serra do Gandarela apresenta maiores altitudes (em torno de 1600 m) quando comparada extremidade nordeste, em geral inferior a 1000 m As formaes ferrferas e cangas ocorrem no topo e nas encostas internas da serra (figura 16). 3.9. Serra de Ouro Preto Antonio Pereira Esta UG engloba as serras que delimitam a poro sul e sudeste do QF, serras de Ouro Preto e Antnio Pereira, total izando 112 km 2 de rea. A Serra de Ouro Preto segue uma direo aproximada E W, por 31 km, inflectindo para noroeste na regio de Mariana, onde ento passa a ser chamada de Serra de Antnio Pereira. Segue por 18 km segundo a direo NW, quando ento se bif urca ao se deparar com o elevado plat da Serra do Caraa, feio mais alta do QF, sustentado por quartzitos (figura 17). 3.10. Escarpa Oriental do Caraa Trata se de uma unidade de relevo de transio entre as serras alinhadas da poro leste do QF e as reas mais arrasadas de dissecao homognea. Compreende toda a encosta oriental da Serra de Antnio Pereira e do plat do Caraa, onde predominam altitudes entre 850 a 1000 m, distinguindo se da UG Serra de Ouro Preto Antonio Pereira por apresentar cri stas alinhadas cujas altitudes do topo superam 1200 m. O limite leste desta UG dado pelo relevo mais arrasado com cotas inferiores a 800 m, onde se destacam as plancies aluvionares dos rios do Norte e Carmo. Possui 268 km 2 de rea e uma extenso de 47 k m, alinhada preferencialmente segundo a direo EW (figura 18). 4. CONCLUS'ES A delimitao das dez unidades espeleolgicas e geomorfolgicas dentro do enfoque local e regional no QF atendem o Decreto 6.640/2008 e a IN MMA 02/2009. A unidade espeleolgica do QF Conceio j se destaca pelas inmeras ocorrncias de cavidades naturais subterrneas j conhecidas, e que vm sendo descobertas atravs de levantamentos espeleolgicos em andamento. Estes levantamentos promovero um maior conhecimento do patrimn io espeleolgico nacional com a consequente ampliao do universo amostral para estudos comparativos de relevncia.

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 75 Figura 14 Unidade geomorfolgica Serra Azul Figura 15 Unidade geomorfolgica Morrarias de Dom Bosco

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 76 Figura 16 Unidade geomorfo lgica Serra do Gandarela Figura 17 Unidade geomorfolgica Serra de Ouro Preto Antnio Pereira

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 77 Figura 18 Unidade geomorfolgica Escarpa Oriental do Caraa Figura 19 Unidade geomorfolgica Quadriltero Oriental

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 78 No atual cenrio, com uma pro duo de conhecimento acerca do conjunto espeleolgico na regio de estudo, tornam se necessrias constantes revises da proposta apresentada para uma melhor adequao realidade. Os autores prope uma nova configurao para a poro oriental do QF onde as unidades geomorfolgicas Serra do Gandarela, Serra de Ouro Preto Antnio Pereira e escarpa oriental do Caraa sejam agregadas em uma nica unidade geomorfolgica tambm estendida aos quartzitos da Serra do Caraa denominada de unidade geomorfolg ica Quadriltero Oriental A delimitao destas trs unidades apresentada pela Vale ao CECAV/ICMBio, considerou, apenas e parcialmente, o critrio litolgico, Formao Caue, e no a continuidade fisiogrfica das unidades da Serra do Gandarela e Serra de Ouro Preto Antnio Pereira, na qual tambm no es t inserida a Serra do Caraa (figura 19 ). A unidade Quadriltero Oriental define no QF o divisor de guas entre as bacias dos rios Doce e So Francisco. AGRADECIMENTOS A elaborao deste estudo envolve u diversas reunies com consultores do Instituto Carste Augusto Auler e Lus Beethoven Pilo e gelogos da Vale: Carlos Calle, Emlio Correa, Firmino Lima, Flvio Affonso, Gabriela Santos, Luciana Melo, Mrcio Paim e Pierre Munaro, a quem somos gratos BIBLIOGRAFIA ALKMIM, F. F. & MARSHAK, S. Transamazonian Orogeny in the Southern So Francisco Craton Region, Minas Gerais Brazil: evidence for Paleoproterozoic collision and collapse in the Quadriltero Ferrfero: Precambrian Research v. 90, p. 29 58 1998. ALMEIDA, F.F.M. O Crton do So Francisco. Revista Brasileira de Geocincias So Paulo, v.7, n.4, p. 349 364, 1977. ASSIS, L.C. & MARINI, O.J. Contribuio controvrsia da correlao Espinhao Minas. In: SIMP. GEOL. MINAS GERAIS, 2, Belo Horizon te. Anais. Belo Horizonte: SBG MG, 1983. p.361 375. AULER, A.S.; RUBBIOLI, E.; BRANDI, R. As Grandes Cavernas do Brasil 1.ed. Belo Horizonte: Grupo Bambu de Pesquisas Espeleolgicas, 2001. 228p. BABINSKI, M.; CHEMALE, F.JR.; SCHUMUS, W.R. Geocronologia Pb/Pb em rochas carbonticas do Supergrupo Minas, QF, MG, Brasil. In: Congresso Brasileiro de Geoqumica, 3, 1991, So Paulo. Anais So Paulo: SBGq. V.2, 1991. p.628 630. BARBOSA, G.V. & RODRIGUES, D.M.S. O Quadriltero Ferrfero e seus problemas geomorfo lgicos. In : Boletim Mineiro de Geografia v. 10/11, 1965. p.3 35. BARBOSA, A.L.M. Contribuies recentes geologia do Quadriltero Ferrfero. In: Editora da Escola de Minas Ouro Preto. 1968. 47 p. BARBOSA, G.V. Superfcies de eroso no Quadriltero Ferr fero. So Paulo. Revista Brasileira de Geocincias So Paulo, v.10, p.89 101, 1980. CARMO, F.F.; CARMO, F.F.; LELES, B.P.; JACOBI, M. P rimeiros registros de cavernas ferruginosas no norte de minas. SBE Notcias, Boletim eletrnico da SBE Ano 5, n.163, 2010. CPRM COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS. Carta geolgica do Brasil ao milionsimo 2001. Folhas SE 23 e SF 23. Escala 1:1.000.000. DORR, J.V.N. II. 1969. Physiographic, stratigraphic and structural development of the Quadriltero Ferrfero, Minas Gerais, Brazil. Paper USGS/Geological Survey Professional Washington, n.611 A, 1969. 110p.

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Oliveira, Olivito & Rodrigues Silva C aracterizao da uni dade espelolgica e das ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 80 SALGADO, A. A. R. Estudo da Evoluo do Quadriltero Ferrfero, MG Brasil, atravs da quantificao de processos erosivos desnudacionais 2006. Tese. (Doutorado em evoluo crustal e recursos naturais), Departamento de Geologia da Universidade Federal de Ouro Preto, Min as Gerais. SPIER, C.A. Geoqumica e gnese das formaes ferrferas bandadas e do minrio de ferro da mina de guas Claras, Quadriltero Ferrfero, MG 2005. Tese (Doutorado em geoqumica e geotectnica), Instituto de Geocincias, da Universidade de So Pa ulo, So Paulo. 298p. UHLEIN, A. Geologia e mineralizaes de cromita e itabiritos da regio de Serro MG. 1982. Tese (Mestrado), Instituto de Geocincias, Universidade de Braslia, Braslia. 189p. VARAJO, C.A.C. A questo da correlao das superfcies d e eroso do Quadriltero Ferrfero, Minas Gerais. Revista Brasileira de Geocincias So Paulo, v.21 p.138 145, 1991. VARAJO, C.A.C.; SALGADO, A.A.; VARAJO, A.F.D.C.; BRAUCHER, R.; COLIN, F.; NALINI JR, H.A. Estudo da evoluo da paisagem do Quadriltero Ferrfero (Minas Gerais, Brasil) por meio da mensurao das taxas de eroso ( 10 be) e da pedognese. Revista Brasileira de Cincias do Solo Viosa (MG), v.33, p.1409 1425, 2009. VILELA, O.V.; SANTOS, O.M. Dados preliminares sobre o depsito de minrio de ferro da Serra da Serpentina, Conceio do Mato Dentro, MG, Brasil. In: SIMP"SIO DE GEOLOGIA DE MINAS GERAIS, 1983. Belo Horizonte. Anais. Belo Horizonte: SBG/MG 1983. p. 333 346 Fluxo editorial : R ecebido em: 2 9 0 3 .20 1 1 Corrigido em: 27 .0 6 .2011 Aprovado em: 0 2 0 7 .201 1 A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.cavernas.org.br/espeleo tema.asp

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 81 CARSTE EM ROCHAS NO CARBONTICAS: O EXEMPLO DOS ARENITOS DA FORMAO FURNAS, CAMPOS GERAIS DO PARAN/BRASIL E AS IMPLICA'ES PARA A REGIO KARST IN NON CARBONATE ROCKS: EXAMPLE AND IMPLICATIONS IN THE FURNAS FORMATION SANDSTONES, CAMPOS GERAIS DO PARAN REGION, SOUTHERN BRAZIL Mrio Srgio de Melo (1) Gilson Burigo Guimares (1,2), Henrique Simo Pontes (2,4), Las Luana Massuqueto (2,3), Isabelle Pigurim (4) Hugo Queiroz Bagatim (2 ,4 ) & Paulo Csar Fonseca Giannini(5) (1) Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG, Ponta Grossa PR. (2) Grupo Universitrio de Pesquisas Espeleolgicas GUPE Ponta Grossa PR (3 ) Mestranda em Geografia da UEPG Ponta Grossa PR (4 ) Egressos do Curso de Bacharelado em Geografia da UEPG Ponta Grossa PR (5 ) Instituto de Geocin cias da Universidade de So Paulo IGc USP, So Paulo, SP Contatos: msmelo@uepg.br ; gburigo@ig.com.br ; henrique071289@yahoo. com.br ; lais500@yahoo.com.br ; isa.pigurim@hotmail.com ; hugobagatim@gmail.com ; pcg ianni@usp.br Resumo O s arenitos da Formao Furnas (Siluriano Devoniano da Bacia Sedimentar do Paran) aflorantes na regio dos Campos Gerais do Paran apresentam tpicas feies de dissoluo: furnas (dolinas), depresses midas e secas, cavernas, sum idouros e ressurgncias, relevos ruiniformes, dutos, alvolos, bacias e cpulas de dissoluo. Estas feies permitem identificar a existncia de um sistema crstico desenvolvido em rochas no carbonticas. Alm de caractersticas texturais e mineralgicas do arenito, outros fatores favorecem os processos de dissoluo e eroso subterrnea, tais como o forte gradiente hidrulico existente na rea de exposio das rochas, situadas no reverso da Escarpa Devoniana, e importantes estruturas rpteis, relacionada s com reativaes de estruturas do embasamento e com a atividade mesozoica do Arco de Ponta Grossa. O relevo crstico da Formao Furnas tem importantes implicaes: enriquece o patrimnio natural e arqueolgico e fortalece a possibilidade de iniciativas p ara a geoconservao e a educao para a sustentabilidade; controla o comportamento do Aqufero Furnas, muito utilizado principalmente em Ponta Grossa e Carambe, e coloca a necessidade de medidas para sua preservao; adverte para a possibilidade de fenm demandando programas de monitoramento preventivo. Estas caractersticas da Formao Furnas impem que ela seja adequadamente considerada na legislao e pol ticas pblicas referentes ao uso da terra nos municpios da regio Palavras Chave : carste em arenitos; Formao Furnas; carste no carbontico; gesto do patrimnio natural Abstract The sandstones of the Furnas Formation (Silurian Devonian of the Paran Sedimentary Basin) outcropping in the Campos Gerais region, state of Paran, southern Brazil, show typical dissolution features: furnas (dolines), humid and dry depressions, caves, ruiniform reliefs, pipes, sinkholes, upwellings, dissolution pans and cu pules. These features characterize the existence of a karst system developed in non carbonate rocks. Besides textural and mineralogical attributes of the sandstones, other factors favor the processes of dissolution and subterranean erosion. They are the st rong hydraulic gradient in the area, situated in the dip slope near the Devonian Escarpment, and important brittle structures, related to reactivations of basement faults and to the upwarping of the Ponta Grossa Arch in the Mesozoic. The karst relief of th e Furnas Formation has important implications: enriches the natural and archaeological heritage and favors initiatives for geoconservation and education for sustainable development; controls the behavior of the Furnas Aquifer, very exploited in the cities of Ponta Grossa and Carambe, and sets the need of policies for its preservation; warns for the risk of karst relief typical phenomena (terrain collapses and subsidences, change in water courses), demanding preventive monitoring programs. These characteris tics of the Furnas Formation must be adequately considered by the legislative and executive authorities regarding the regional land use laws and policies Key Words : karst in sandstones; Furnas Formation; non carbonate karst; natural heritage management

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 82 1. INTRODUO A regio denominada Campos Gerais do Paran situa se no reverso da Escarpa Devoniana, segundo degrau do relevo escalonado do estado do Paran. Os Campos Gerais constituem uma regio fitogeogrfica, onde dominam campos limpos associados a flor estas com araucria restritas a matas riprias e capes (MAACK, 1948, 1950 e 2002 ). O domnio de vegetao herbcea influenciado por solos rasos e pobres derivados dos arenitos da Formao Furnas, pela barreira geomorfol gica representada pela Escarpa Devoniana e pelas temperaturas relativamente mais baixas nos altos plats (at quase 1.300 metros) no reverso imediato da escarpa. Os Campos Gerais apresentam notveis feies indicativas de eroso subterrnea, destacando se as furnas, lagoas, depresses secas e midas, sumidouros, ressurgncias e cavernas. Vrios fatores convergem para o desenvolvimento destas feies: petrografia dos arenitos da Formao Furnas, que apresentam cimentao argilosa solvel; marcante deformao rptil dos arenitos; situao em regio onde o clima mido tem predominado ao longo do tempo geolgico; importantes gradientes hidrulicos favorecendo o trabalho erosivo da gua subterrnea; idade das rochas e do relevo. H dcadas o relevo tpico da Form ao Furnas nos Campos Gerais tem sugerido gnese a partir de fenmenos de dissoluo (MAACK, 1946 e 1956 ). Estudos de Maack (1970) j haviam revelado grande variao na vazo de poos tubulares profundos per furados na Formao Furnas, indicando no tratar se de um simples aqufero poroso. Estudos mais recentes tm confirmado a importncia dos fenmenos de dissoluo nos processos de eroso subterrnea dos arenitos (TAMURA, 2003 ; MELO; GIA NNINI, 2007 ). Em trabalhos ao longo da ltima dcada tem se relacionado as feies tpicas dos arenitos da Formao Furnas com patrimnio natural (MELO et al., 2007 ), recursos hdricos subterrneos (M ELO, 2009 ; BAGATIM, 2010 ; PIGURIM, 2010 ), patrimnio arqueolgico (SILVA et al., 2006 e 2007 ; PARELLADA, 2007 ), patrimnio geolgico e geoconservao (GUIMARES et al., 2009 ) e riscos geoambientais associados a potenciais abatimentos do terreno (MELO et al., 2010 ). As cidades de Ponta Grossa e Carambe, situadas nos Campos Gerais, t m seus permetros urbanos situados parcial ou totalmente sobre reas de afloramento da Formao Furnas, e possuem significativa atividade industrial e agropastoril, que potencializa o uso dos recursos hdricos subterrneos. A localizao destas cidades, a s previses de expanso dos stios urbanos, o crescente uso da gua, a necessidade de iniciativas de proteo do patrimnio natural e arqueolgico reforam a importncia do entendimento das caractersticas dos fenmenos de eroso subterrnea da Formao Fu rnas. 2. MTODOS DE ESTUDO O estudo das formas erosivas superficiais e subterrneas dos arenitos da Formao Furnas tem tido diferentes abordagens, em escalas diversas: interpretao de feies de relevo e lineamentos estruturais em fotografias areas ( escalas 1:8.000, 1:25.000 e 1:70.000), imagens de satlite LANDSAT 7 ETM e ortoimagens em escala 1:50.000; mapeamento no campo de feies superficiais de eroso e de seus fatores controladores; anlises laboratoriais de rochas sedimentares e seus mat eriais de alterao e reprecipitao (petrografia tica, microscopia eletrnica de varredura, espectrometria de energia dispersiva, difratometria de raios X); mapeamento e estudo de cavidades subterrneas; anlise de dados de poos tubulares profundos (perfil geolgico, vazo, qualidade da gua). Estas diferentes abordagens tm sido realizadas em projetos de pesquisa interinstitucionais (UEPG, USP, UFPR) que tm contemplado trabalhos de concluso de curso de alunos de Geografia da UEPG e de Geologia da USP. 3. CONTEXTO GEOL"GICO E GEOMORFOL"GICO Os Campos Gerais situam se na borda do Segundo Planalto Paranaense, no reverso imediato da Escarpa Devoniana, segundo degrau do relevo escalonado do Estado do Paran (Figura 1). Os desnveis ao longo da escarp a, que aparece em quase todo o centro leste do estado do Paran (Figura 2) variam de uma a trs centenas de metros. A unidade rochosa predominante na regio dos Campos Gerais (Figura 2) a Formao Furnas, com idade siluro devoniana (BERGAMASCHI, 1999 ), constituda dominantemente por quartzo arenitos. So estas rochas, relativamente resistentes aos processos intempricos, que sustentam a Escarpa Devoniana.

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 83 Figura 1: seo esquemtica do Estado do Paran mostrando a estrutura ge olgica e do relevo. 1) sedimentos cenozoicos da Plataforma Continental; 2) Bacia de Curitiba; 3) Grupos Bauru e Caiu ; 4) Bacia de Santos; 5) derrames baslticos; 6) rochas sedimentares paleozoicas a mesozoicas da Bacia do Paran; 7) Formao Furnas; 8) e mbasamento pr cambriano. Cidades: PAR: Paranagu; CTB: Curitiba; PGR: Ponta Grossa; GUA: Guarapuava. Escarpas: SM: Serra do Mar; DS: Escarpa Devoniana; SG: Serra Geral. Figura 2 Unidades geolgicas nos Campos Gerais do Paran. 1: Serra Geral; 2: Esc arpa Devoniana; 3: limites dos Campos Gerais; 4: Grupo Itarar; 5: Formao Ponta Grossa; 6: Formao Furnas (baseado em Maack, 1948 e MINEROPAR, 1989). Nos Campos Gerais a Formao Furnas quase sempre repousa diretamente sobre o embasamento antigo, este r epresentado por rochas gneas e metamrficas proterozoicas a cambrianas, destacando se entre elas o Grupo Itaiacoca, por conter rochas metamrficas carbonticas. Ocasionalmente abaixo da Formao Furnas ainda aparece a Formao Iap, descontnua e delgada unidade basal da Bacia do Paran na regio. Acima da Formao Furnas ocorrem ou a Formao Ponta Grossa, com a qual apresenta contato gradacional (ASSINE et al ., 1994 ) ou rochas variadas do Grupo Itarar, com as quais apresenta contato erosivo. Na maior parte das vezes os arenitos da Formao Furnas encontram se confinados entre rochas impermeveis do embasamento abaixo e da Formao Ponta Grossa acima. A Formao Furnas constituda predominantemente de quartzo arenitos cuja co mposio original variava de quartzo arenitos a subarcseos e at arcseos, sendo que a atual dominncia de quartzo resulta de processos diagenticos que transformaram os feldspatos. A composio atual inclui, entre os minerais detrticos, quartzo (97%), f eldspatos (1%), fragmentos lticos (1%) e micas (1%), alm de acessrios menos abundantes (DE ROS, 1998 ). A granulometria dos quartzo arenitos varia de areia fina a conglomertica, com predominncia de areia mdia a grossa. Junto bas e da unidade so

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 84 comuns conglomerados e arenitos conglomerticos, enquanto em direo ao topo torna se menos rara a intercalao de nveis slticos a lamticos micceos (ASSINE, 1996 ; DE ROS, 1998 ; LOBATO; BORGHI, 2005 ). Os gros dos arenitos apresentam se angulosos (Figuras 3A e 4B), em consequncia de sobrecrescimento diagentico (DE ROS, 1998 ; MELO; GIANNINI, 2007 ). Os arenitos est o dispostos em sets de espessuras de 0,5 a 5,0 metros com geometria tabular, lenticular e cuneiforme, exibindo marcante estratificao cruzada planar, tangencial na base ou acanalada (ASSINE, 1996 ). Dentro dos sets frequentemente obser va se granodecrescncia ascendente, podendo ocorrer, ocasionalmente, at termos siltosos no topo. A evoluo diagentica dos quartzo arenitos envolveu vrios fenmenos em diversas fases. Os minerais autgenos incluem principalmente quartzo, na forma de sob recrescimento, caulinita e ilita, ocorrendo tambm clorita, albita, carbonatos e anatsio (RAMOS; FORMOSO, 1975 ; DE ROS, 1998 ). A caulinita diagentica bem cristalizada, com cristais sanfonados que alcan am 10 m de comprimento (Figura 4). Tal evoluo diagentica responsvel por duas das caractersticas determinantes do comportamento dos arenitos da Formao Furnas frente aos processos intempricos e erosivos (DE ROS, 1998 ; MELO; G IANNINI, 2007 ): a porosidade mdia relativamente baixa (9%) e a intensa cimentao por caulinita (mdia de 13%). Figura 3: petrografia dos quartzo arenitos da Formao Furnas. A: gros de quartzo eudricos graas a sobr ecrescimento diagentico (qz) e preenchimento de poros intergranulares por sanfonas de caulinita diagen tica (ka). B: gros de quartzo (qz) e caulinita diagentica sanfonada (ka) possivelmente resultante de gro de feldspato transformado. Os vazios (vo) in dicam que parte da caulinita foi removida (MELO; GIANNINI, 2007 ). Figura 4: microscopia eletrnica de varredura dos quartzo arenitos da Formao Furnas. A: sanfonas de caulinita e placas de ilita diagenticas. B: cristais e udricos de quartzo com sobrecrescimento diagentico e sanfonas de caulinita (MELO, 2006 ).

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 85 As rochas dos Campos Gerais apresentam se fortemente deformadas por estruturas rpteis (falhas e fraturas com ou sem diques associados), destaca ndo se trs direes principais (ZALN et al., 1991 ): NE SW (N50 70E), paralela s estruturas do embasamento antigo, recorrentemente reativadas durante o Fanerozoico; NW SE (N45 60W), associada com a ruptura continental no Me sozoico, quando se desenvolveu na regio o Arco de Ponta Grossa, com eixo nesta direo; E W, paralela s fraturas ocenicas, desenvolvidas durante a deriva continental. Estas direes estruturais tiveram papel fundamental na circulao da gua subterrn eas e evoluo das formas erosivas das rochas dos Campos Gerais. 4. PRINCIPAIS FORMAS DE RELEVO CRSTICO NA FORMAO FURNAS A princpio houve alguma controvrsia sobre como denominar as formas de relevo observadas na Formao Furnas, resultantes da conjug ao da eroso mecnica com importante eroso qumica (corroso). Maack (1946 e 1956) j utilizara terminologia prpria de relevo crstico para denominar tais formas, empregando as 2003 ; MELO, 2006 ; MELO; GIANNINI, 2007 ; MELO et al., 2007 ; SALLUN FILHO; KARMANN, 2007 ; PONTES, 2010 ; MASSUQUETO, 2010 ), reconhecendo a importncia do processo de dissoluo mineral na gnese das formas, e compartilhando o conceito atual de cars te, conforme Wray (1997a e 1997b) tm utilizado a terminologia de formas crsticas, e ressaltado a importncia de reconhecer os fenmenos crsticos nos arenitos da Formao Furnas. As principais formas de relevo crstico observ adas nestes arenitos na regio dos Campos Gerais so descritas nos itens a seguir. 4.1 Relevo r uiniforme Os relevos ruiniformes presentes na Formao Furnas so esculturas singulares que variam de milmetros a dezenas de metros (Figura 5). Este relevo de exceo origina se do processo erosivo das guas metericas promovendo a dissoluo da rocha, por meio de juntas, fraturas e planos de estratificao Formam se inicialmente sulcos e caneluras, posteriormente lapis e finalmente torres, pinculos, fendas e labirintos, apresentando um relevo de aspecto desfeito. Ressalta se o carter diferencial da eroso quando nveis sltico argilosos esto presentes, aumentando a complexidade morfolgica destas feies. Figura 5: exemplo de relevo ruiniforme na Forma o Furnas (Canyon do Rio So Jorge, municpio de Ponta Grossa). 4.2 Furnas As furnas so dolinas de abatimento formadas pela existncia de cavidades em profundidade (MAACK, 1956; SOARES, 1989; MELO, 2006). Tais cavidades podem ser geradas pela eroso dos arenitos sob influncia do cruzamento de estruturas tectnicas (falhas e fraturas) ou podem constituir carste subjacente, neste caso em unidades carbonticas do Grupo Itaiacoca (MAACK, 1956; SALLUN FILHO; KARMANN, 2007). Destacam se as Furnas do Parque Est adual de Vila Velha, da localidade de Passo do Pupo e do Buraco do Padre, todas no Municpio de Ponta Grossa (Figura 6 ). 4.3 Depresses midas e secas As depresses (Figura 7) so feies do relevo que indicam a existncia de cavidades subterrneas em de senvolvimento. Podem representar a fase inicial da formao das furnas, ou ainda dolinas de dissoluo ou de subsidncia. A concentrao de matria orgnica nestes locais, gerando principalmente solos hidromrficos, tais como organossolos e gleissolos, em conjunto com o escoamento das guas superficiais para dentro da depresso, permitem a formao e infiltrao de cidos orgnicos, favorecendo o processo de dissoluo dos minerais da rocha em subsuperfcie.

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 86 Figura 6: uma das Furnas Gmeas da Formao Fu rnas, situadas prximo ao Pa ss o do Pupo, municpio de Ponta Grossa. Figura 7: depresso mida nas proximidades do Canyon do Rio So Jorge. 4.4 Sumidouros Nos arenitos da Formao Furnas na regio dos Campos Gerais comum a existncia de rios que apre sentam drenagem subterrnea, com frequ ncia por dezenas de metros. So exemplos o Sumidouro do Rio Quebra Pedra (PONTES et al., 2010), os sumidouros dos rios Pitangui, Itarar e do Funil (SOARES, 1989; MAACK, 2002), Sumidouro da Gruta Lajeado do Sobrado e Sumidouro do Rio Quebra Perna (MASSUQUETO, 2010; MASSUQUETO et al., 2011, neste volume). Este ltimo sumidouro apresenta um rico ambiente natural, com aspectos geomorfolgicos, espeleolgicos, geolgicos, arqueolgicos, fitogeogrficos e paleoambientais p eculiares (Figura 8). Sua gnese, bem como a dos demais sumidouros da regio, est relacionada a um conjunto de fatores, como a competente ao erosiva do rio, caractersticas da rocha (planos de estratificao e de acamamento e composio mineralgica), e struturas tectnicas (falhas, fendas e fraturas) e a proximidade com a Escarpa Devoniana, que determina um gradiente hidrulico elevado vinculado ao relevo acidentado do local (MASSUQUETO, 2010). Figura 8: Duto dos Andorinhes, Sumidouro do Rio Quebra P erna Fazenda Cristalina (Ponta Grossa Paran). 4.5 Dutos de dissoluo Dutos bem estabelecidos, com seo transversal arredondada, so comuns em sumidouros, cavernas e at mesmo em paredes rochosos em superfcie, evidenciando a ao da gua em sua f ormao. Wray (2009), em trabalhos realizados em quartzo arenitos da Austrlia, ressalta que estes dutos se organizam em redes complexas de drenagem subterrnea, assemelhando se aos ocorrentes em rochas carbonticas. Conforme apresenta Massuqueto (2010), um notvel exemplo de sistema de drenagem organizada em dutos subterrneos encontrado no Sumidouro do Rio Quebra Perna. Neste local ocorrem condutos que se ramificam em dutos menores, indicando captao de drenagem (Figura 9) (MASSUQUETO et al., 2011, n este volume). 4.6 Alvolos Os alvolos so cavidades em paredes, tetos e at mesmo em pavimentos rochosos, com formas geralmente arredondadas. Apresentam se isolados, em grupos e tambm conectados uns aos outros, com dimenses milimtricas a decimtric as (Figura 10). Melo et al. (2007) apontam que, junto com a dissoluo causada no interior do macio rochoso e o escorrimento da gua meterica nas superfcies rochosas, a ao de micro e macroorganismos tem grande influncia na formao dos alvolos, gera ndo a esfoliao do arenito, permitindo a criao de reentrncias e facilitando a ao de outros processos erosivos.

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 87 Figura 9: dutos de dissoluo Sumidouro do Rio Quebra Perna, Ponta Grossa. Figura 10: alvolos Canyon do Rio So Jorge. 4.7 Espe leotemas Na Formao Furnas os espeleotemas so localizados em cavidades e at mesmo em paredes em superfcie. Sua gnese se inicia a partir da dissoluo de minerais da rocha pela ao de guas metericas ou de infiltrao e subsequente precipitao sob condies fsico qumicas favorveis. Os espeleotemas apresentam diversos tipos e tamanhos variando de milmetros a alguns centmetros. Como exemplo, pode se mencionar o aglomerado do tipo coraloide identificado na Fenda da Freira, em Ponta Grossa (Figura 11). Alcanando at treze centmetros, so os maiores espeleotemas descobertos at o momento na Formao Furnas (PONTES, 2010). 4.8 Bacias de dissoluo Em pavimentos rochosos comum encontrar depresses circulares, elpticas e/ou irregulares, preenchi das com gua ou secas, apresentando alguns centmetros de profundidade, podendo atingir medidas superiores a um metro de extenso lateral (Figura 12). As bacias de dissoluo ( kamenitzas ) so feies caractersticas de regies crsticas. O fator prepondera nte em sua gnese a dissoluo, causada pelas guas estagnadas, enriquecidas de cido carbnico e orgnico, este proveniente de liquens e musgos que proliferam principalmente nas bordas destas bacias. Figura 11: espeleotemas de slica e caulinita Fen da da Freira, proximidades do Buraco do Padre. Considerados os maiores at o momento, estes espeleotemas atingem at 13 centmetros de comprimento. Figura 12: bacias de dissoluo Canyon do Rio So Jorge. 4.9 Cpulas de dissoluo Trata se de feie s de dissoluo do teto de cavidades subterrneas, caractersticas de dutos totalmente inundados (HARDT et al., 2009). A presena de dutos subterrneos completamente inundados faz com que a gua promova a dissoluo de minerais no teto rochoso, ensejando a ocorrncia de cpulas variando de centmetros a dezenas de centmetros de dimetro e alguns centmetros a metros de profundidade (Figura 13). O tempo de residncia, variao no regime de fluxo e aporte de gua nos dutos, associados dinmica dos processo s

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 88 de intemperismo qumico tm um papel decisivo na evoluo destas feies. Figura 13: cpulas de dissoluo Sumidouro do Rio Quebra Perna. 4.10 Cavernas A existncia de cavernas na Formao Furnas est relacionada com a ao erosiva das guas pluvi ais, fluviais e subterrneas, combinada com caractersticas da rocha (composio, textura, estruturas sedimentares) e estruturas tectnicas. As cavidades subterrneas desenvolvidas no Arenito Furnas no apresentam grandes desenvolvimentos, estendendo se no rmalmente por algumas dezenas de metros. Dentre as cavidades da regio dos Campos Gerais, destaca se a Caverna da Chamin, no Municpio de Ponta Grossa (Figura 14). Apresentando 307 metros de desenvolvimento linear, a cavidade rica em espeleotemas e abr iga singular fauna. Apesar de ser uma caverna com forte controle estrutural possui notveis feies de dissoluo da rocha, indicando processos erosivos de guas subterrneas, pluviais e fluviais (PONTES; MELO, 2011, neste volume). 5. DISSOLUO E SEUS FA TORES CONTROLADORES As feies de dissoluo so o mais evidente indcio da eroso qumica dos quartzo arenitos da Formao Furnas nos Campos Gerais. Corroborando as ideias j expressas por Maack (1946 e 1956) Tamura (2003) e Melo; Giannini (2007) consideram que a dissoluo do cimento argiloso (caulinita e ilita), promovendo a arenizao das rochas (liberao dos gros de quartzo, no sentido de Jennings, 1983 apud Doerr; Wra y, 2004 ) seja fundamental para o desenvolvimento das formas erosivas. Figura 14: tpica galeria estrutural Caverna da Chamin Canyon do Rio So Jorge. Aps estudos petrogrficos e mineralgicos das paredes rochosas em fe ies erosivas, Tamura (2003) e Melo; Giannini (2007) propuseram o esquema de transformaes minerais apresentado na Figura 15. Nele, o cimento argiloso diagentico dissolvido e reprecipitado na forma de caulinita criptocristalina ou em microfissuras ou em pequenos espeleotemas superficiais. Os principais fatores controladores dos processos erosivos nos arenitos da Formao Furnas so (MELO, 2006 ; MELO; GIANNINI, 2007 ): a petrografia dos arenitos, com cimento argiloso relativamente solvel envolvendo gros de quartzo menos solveis; as variaes texturais, mineralgicas, na porosidade e na permeabilidade nos arenitos; as estruturas sedimentares intra e interestratais nos arenitos; as estruturar rpteis (falhas e fraturas com ou sem diques associados) que cortam os arenitos; os fortes gradientes hidrulicos impostos pelo desnvel topogrfico representado pela Escarpa Devoniana; a dominncia na re gio, ao longo do Cenozoico, de climas midos, propiciando apreciveis volumes

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 89 de gua para os processos de eroso subterrnea e superficial; a existncia de relevos crsticos subjacentes s rochas da Bacia do Paran (MAACK, 1946 e 1956 ; MELO; GIANNINI, 2007 ; SALLUN FILHO; KARMANN, 2007 ), relacionados s rochas carbonticas do Grupo Itaiacoca; a antiguidade das rochas e do relevo nos Campos Gerais, favorecendo processos erosivos cumulativos, em diferentes condies paleoambientais, ao longo do Cenozoico. Figura 15. seo esquemtica atravs de placas de descamao superficial, fissura com caulinita criptocristalina e macio rochoso so de arenitos da Formao Furnas. 1: gros de quartzo; 2: cimento caulintico diagentico; 3: caulinita criptocristalina; 4: cimento silicoso (em preto) formado a partir da dissoluo da caulinita e do quartzo. Escala grfica aproximada (modificado de Melo; Giannini, 2007). 6. IM PLICA'ES DO RELEVO CRSTICO DA FORMAO FURNAS O carter crstico dos quartzo arenitos da Formao Furnas nos Campos Gerais tem uma srie de implicaes, que significam ora benefcios para a regio, potencializando oportunidades de pesquisa cientfica, se u patrimnio natural e seus recursos hdricos, ora riscos, representados pela vulnerabilidade do aqufero e possibilidade de induo de fenmenos erosivos subterrneos em reas urbanas. 6.1 Registros paleoclimticos e paleoambientais As depresses midas e secas, que formam banhados e lagoas to comuns na borda do Segundo Planalto Paranaense, correspondem a dolinas de abatimento, dissoluo, subsidncia ou carste subjacente, frequentemente preenchidas por sedimentos. Estas depresses na maior parte das ve zes constituem sistemas de escoamento relativamente fechados, no se conectando a cursos de gua superficiais. Isto faz com que os depsitos sedimentares nelas contidos sejam registros privilegiados das variaes paleoclimicas e paleoambientais. A import ncia de tais registros geolgicos ressaltada pela localizao geogrfica dos Campos Gerais, na transio entre importantes biomas, representados por campos de altitude, floresta com araucria e cerrado. Estes diferentes tipos de cobertura vegetal respond iam com avanos e recuos relativos em resposta s variaes climticas quaternrias. Os estudos do preenchimento sedimentar de lagoas e depresses dos Campos Gerais (v.g. LORSCHEITTER; TAKEDA, 1995 ; BEHLING, 1997 ; LEDRU et al 1998 ; MORO; BICUDO, 1998 ; MELO et al 2003 ; MORO et al 2004 ) j tm fornecido alguma informao utilizvel nas reco nstrues paleoclimticas, importantes para o equacionamento da ao humana nas mudanas climticas globais da atualidade. Entretanto, estes estudos incipientes esto muito aqum de sua possibilidade, e devero ainda constituir objeto de pesquisas mais sis temticas e aprofundadas. 6.2 Patrimnio natural e geoconservao A excepcionalidade do patrimnio natural dos Campos Gerais (MELO et al., 2007), bitico ou abitico, deve se em grande parte existncia das rochas da Formao Furnas, dos solos delas deri vados e especialmente da dissoluo e das formas de relevo crstico de seus quartzo arenitos. Segundo Gray (2004) o termo geolgicos (rochas, minerais, fsseis, solos), formas de relevo e processos geolg icos em operao, podendo ser empregado para descrever a variedade geolgica de uma regio, de um pas ou mesmo do planeta. Este mesmo autor adota, para o entendimento da importncia que a diversidade geolgica possui, principalmente em aes para sua cons ervao e gesto, a estratgia de explorar o significado dos diferentes valores que podem ser associados geodiversidade. Estes valores podem ser reunidos em sete grandes grupos: intrnseco, cultural, esttico, econmico, funcional, cientfico e didtico.

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 90 Todas estas modalidades de valores podem ser reconhecidas quando se analisa o sistema crstico relacionado aos quartzo arenitos da Formao Furnas (descries em diferentes setores dos Campos Gerais podem ser encontradas em MOCHIUTTI, 2009, MASSUQUETO, 20 10 e PAVO, 2010). O valor intrnseco, comumente defendido quando se discute a conservao da flora e da fauna, provavelmente o que poderia suscitar maiores dvidas, pois muitas pessoas encontram dificuldade em admitir que um arenito, um alvolo ou o pro cesso de dissoluo tenham valor existencial independente do reconhecimento pelo ser humano. J os demais valores exigem menor compromisso filosfico para sua identificao. Os registros arqueolgicos (ver item 6.3), a utilizao em rituais de umbanda na F urna do Buraco do Padre, ou mesmo as histrias populares que procuram descrever a origem de feies como as furnas ou o relevo ruiniforme, so alguns dos exemplos das implicaes culturais da interao do ser humano com o carste nos arenitos da Formao Fu rnas. Mesmo tendo um forte componente de subjetividade, sendo mais intensamente vivenciado conforme as preferncias, ndole e experincia de vida de cada indivduo, o valor esttico possui inmeros exemplos. Seja como reas de lazer, destino turstico, car tes postais, locais para a prtica de esportes na natureza (escalada, caminhada, dentre outros) ou inspirao artstica, os diferentes elementos do carste da Formao Furnas j alcanaram relevncia que ultrapassa o mbito regional. Na regio dos Campos G erais ainda no frequente a divulgao de cifras (valor econmico) quando se descreve o seu patrimnio natural, em parte pela falta de uma melhor comunicao entre a comunidade acadmica, os gestores pblicos e a sociedade em geral. No entanto esta postu ra precisa mudar radicalmente, tanto graas ordem de grandeza dos custos e benefcios financeiros envolvidos no aproveitamento de seus recursos hdricos superficiais ou subterrneos (ver item 6.4), como no caso do valor dos solos provenientes da Formao Furnas (valor econmico do epicarste), utilizados extensivamente em prticas agrcolas, de pecuria ou silvicultura. A manuteno da operao saudvel de diversos ciclos biogeoqumicos, a capacidade de funcionamento como filtros naturais por parte dos qua rtzo arenitos e solos derivados, alm do controle na existncia, extenso e distribuio de nichos ecolgicos e espcies da flora e fauna so alguns dos exemplos do valor funcional do carste da Formao Furnas. Aspectos como acesso relativamente fcil, di versidade das feies (ver item 4) e o nmero elevado de reas desprovidas de pesquisa em detalhe, reforam o alto valor didtico cientfico do carste da Formao Furnas nos Campos Gerais. Os estudos recentes decorrentes de projetos de pesquisa e trabalhos de concluso de curso (UEPG, USP, UFPR), aliados s atividades educativas e cientficas conduzidas pelo GUPE so parte do testemunho de sua importncia (TAMURA, 2003; MELO; GIANNINI, 2007; PONTES et al., 2010; dentre outros). As fronteiras cientficas rep resentadas pelo processo de dissoluo destes quartzo arenitos so praticamente ilimitadas. Por exemplo, ao contrrio do que se v em contextos similares no pas (v.g. RIBEIRO et al., 2007; CONCEIO et al., 2007a; CONCEIO et al., 2007b), a riqueza ecol gica dos ambientes rupcolas dos Campos Gerais ainda representa um aspecto de seu patrimnio natural carente de estudos aprofundados, principalmente quanto aos fatores envolvidos na diversidade biolgica das comunidades estabelecidas em afloramentos rochos os. Existem duas formas de se encarar o conceito de geoconservao (SHARPLES, 2003; GRAY, 2004; BRILHA, 2005). Uma focando sobre reas de excepcional valor (normalmente cientfico, esttico, cultural ou mesmo uma combinao deles), os chamados geosstios e que representam o que se denomina de patrimnio geolgico de uma regio. Nesta abordagem aes de divulgao e valorizao do potencial turstico, cientfico e de aproximao do pblico leigo para as geocincias tm sido desenvolvidas, tais como a prod uo de painis explicativos, folhetos, roteiros, inventrio de geosstios e diversos tipos de trabalhos acadmicos. Voltadas a todo o patrimnio geolgico dos Campos Gerais, estas aes tm espao de destaque para o relevo crstico da Formao Furnas em reas como os parques estaduais de Vila Velha e Guartel, Cachoeira do Rio So Jorge e Buraco do Padre (ver www.mineropar.pr.gov.br ; LETENSKI et al., 2009; FOLMANN, 2010; PAVO, 2010; ROCHA; GUIMARES, 2010). A segunda maneira de se por em prtica medidas de geoconservao ocorre quando se busca a proteo no apenas do que est acima da mdia, mas a totalidade da geodiversidade, numa abordagem holstica de conservao da natureza. Esta viso cientificamente m ais integradora, socialmente mais inclusiva e ambientalmente mais comprometida com a realidade. Esta postura mostra se em sintonia com desafios que busquem o

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 91 desenvolvimento regional com sustentabilidade (v.g. MELO, 2009), respeitando as caractersticas do s processos crsticos da Formao Furnas e seu papel determinante na existncia do patrimnio natural dos Campos Gerais. 6.3 Patrimnio arqueolgico A regio dos Campos Gerais rica em stios arqueolgicos de indgenas pr histricos, com vestgios repre sentados por artefatos lticos, cermica e, sobretudo, pinturas rupestres, atribudas s tradies culturais Planalto e Geomtrica (PARELLADA, 2007 ). O relevo caracterstico das rochas da Formao Furnas origina diversos tipos de fe ies que representavam elementos fisiogrficos integrados nas atividades destes indgenas. Entre, eles, pode se destacar: abrigos naturais, cujos tetos so constitudos por salincias rochosas controladas pelas estruturas sedimentares dos arenitos; este s abrigos muitas vezes contm pinturas rupestres nas paredes rochosas (v.g. SILVA et al., 2006 e 2007 ; PEREIRA, 2009 ); passos naturais em reas de relevo escarpado, influenciando rotas e locais pref erenciais para assentamentos e abrigos; armadilhas naturais, representadas por passagens e fundos de vale escarpados, que poderiam propiciar o arrebanhamento de bandos de cervdeos e outros animais. 6.4 Recursos hdricos subterrneos do Aqufero Furnas Levantamentos recentes tm apontado que na cidade de Ponta Grossa e regio os poos tubulares profundos existentes podem ter capacidade de produo maior que o volume de gua captado na bacia do Rio Pitangui fornecido pela SANEPAR Companhia de Saneament o do Paran, rgo responsvel pelo abastecimento pblico no estado (MELO, 2009 ; PIGURIM, 2010 ; BAGATIM, 2010 ). Os estudos realizados por PIGURIM (2010) mostram que (Figu ra 16): a profundidade dos poos muito varivel, de menos de 50 a mais de 500 metros; a vazo tambm muito varivel, de 0,5 m/hora at 100 m/hora; no h correlao entre profundidade e vazo. Os trabalhos de Pigurim (2010) mostraram ainda que a qualidade das guas do Aqufero Furnas frequentemente permite classific las como guas minerais, enquanto que as guas de outros corpos rochosos (embasamento, Formao Ponta Grossa, Grupo Itarar) usualmente no apresentam caracte rsticas de potabilidade, principalmente pelos altos teores de ferro, mangans e slidos dissolvidos totais. Figura 16: vazo dos poos tubulares profundos da regio de Ponta Grossa em relao profundidade perfurada (PIGURIM, 2010 ).

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 92 Os estudos realizados por Bagatim (2010) indicaram que (Figura 17): a profundidade do Aqufero Furnas varivel, refletindo deslocamentos impostos por estruturas tectnicas; os poos mostram que localmente so muito ntida s as alternncias de arenitos e folhelhos nas transies entre as formaes Furnas e Ponta as entradas de gua nos poos tubulares s vezes mostram ntida relao com descontinuidades (estruturas rpteis, contatos lito lgicos); durante as perfuraes dos poos s vezes so cavidades subterrneas. 6.5 Riscos geoambientais Os levantamentos de Bagatim (2010) mostraram uma crescente utilizao da gua subterrnea nos ltimos anos, principalmente nas cidades de Ponta Grossa e Carambe. sabido que em reas de relevo crstico tpico o bombeamento de gua pode trazer como consequncia subsidncias do terreno, tal como ocorreu na Regio Metropolitana de Cu ritiba (OLIVEIRA, 1997 ), ou colapso de dolinas, como em Cajamar, na Grande So Paulo (PRANDINI et al., 1987 ). Embora ainda no tenham sido testemunhados fenmenos de subsidncias ou colapsos em operao nos dias atuais nos Campos Gerais, o carter crstico dos arenitos da Formao Furnas e a crescente explorao da gua subterrnea constituem fatores favorveis para que tais fenmenos possam vir a acontecer, com frequncia e velocidade, comparativamente s reas de carste carbontico, ainda a serem estabelecidas. Felizmente sem consequncias mais graves, tm sido observados exemplos da mudana do curso subterrneo das guas graas eroso dos arenitos (PONTES et al., 2010 ). A s ituao da cidade de Ponta Grossa, onde a leste o permetro urbano est sobre a Formao Ponta Grossa no limite de sua passagem para a Formao Furnas (Figura 18), muito significativa. Os poos tubulares profundos da cidade atravessam a Formao Ponta Gr ossa e vo extrair gua da Formao Furnas abaixo da cidade. Figura 17: seo geolgica de Ponta Grossa interpretada a partir dos perfis geolgicos de poos tubulares profundos. 1) Grupo Itarar indiviso; 2) Formao Ponta Grossa; 3) Camadas de Transi o; 4) Formao Furnas; 5) falha inferida; 6) contato inferido; 7) Poo Tubular Profundo; I Arroio da Roda; II) Arroio do Padre; III) Arroio Olaria; IV) Rio Car Car (BAGATIM, 2010).

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 93 Figura 18: seo esquemtica da situao da cid ade de Ponta Grossa em relao ao Aqufero Furnas e Escarpa Devoniana. 1) Formao Furnas (Aqufero Furnas); 2) Formao Ponta Grossa; 3) Grupo Itarar; 4) rea de recarga do Aqufero Furnas pelas guas das chuvas; 5) sentido predominante de fluxo das g uas subterrneas;6) poos profundos (MELO, 2009 ). Os estudos de Kupcsak (2008) realizados em loteamentos na rea de expanso urbana a leste de Ponta Grossa, sobre os afloramentos da Formao Furnas, tambm mostr aram problemas ainda desconhecidos no restante da cidade, tais como surgncias de gua e reas com o nvel fretico muito superficial. 6.6 Educao para a sustentabilidade Por um lado, o carter crstico dos quartzo arenitos da Formao Furnas favorece a existncia de um excelente aqufero e de stios com importante patrimnio natural e arqueolgico. Por outro lado, os municpios da regio, principalmente Ponta Grossa e Carambe, tm diversificada atividade econmica, desde um consolidado parque industrial at intensa atividade agrosilvopastoril. As foras produtivas regionais ainda so muito conservadoras, e resistem a iniciativas que visem a diminuio dos impactos ambientais de suas atividades e a diversificao dos empreendimentos, no sentido de alterna tivas sustentveis. Diante deste quadro aparentemente contraditrio, a rede de ensino fundamental e mdio no tem logrado utilizar as caractersticas da regio para promoo da educao para a sustentabilidade, preparando as novas geraes para uma gesto integrada dos interesses econmicos, do meio ambiente, e dos interesses da sociedade como um todo (BELLO; MELO, 2006 ). 7. CONCLUS'ES E RECOMENDA'ES urgente que o poder pblico e a populao dos Campos Gerais reconheam o car ter crstico dos arenitos da Formao Furnas, com os seguintes objetivos: formular polticas pblicas e legislao que permitam a preservao do patrimnio natural e arqueolgico e dos recursos hdricos subterrneos; realizar programas de monitorament o da qualidade das guas e do desenvolvimento de processos erosivos indutores de riscos geoambientais; realizar programas na rede de ensino fundamental e mdio que promovam o conhecimento da realidade ambiental local e a educao para a sustentabilidade.

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Melo et al C arste em rochas no carbonticas : o exemplo dos arenitos... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 94 AGRADECIMENTOS Ao CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico e Fundao Araucria de Apoio ao Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico do Paran, que deram suporte realizao de projetos de pesquisa e concederam bolsas de i niciao cientfica para os alunos que participaram dos estudos realizados REFERENCIAS BIBLIOGRFICAS ASSINE, M.L. Aspectos da estratigrafia das seqncias pr carbonferas da Bacia do Paran no Brasil 1996, 207p. Tese (Doutorado em Geologia), Institut o de Geocincias da USP, So Paulo. ASSINE, M.L.; SOARES, P.C.; MILANI, .J. Seqncias tectono sedimentares mesopaleozicas da Bacia do Paran, Sul do Brasil. Revista Brasileira de Geocincias. v.24, n.2, p.77 89, 1994. BAGATIM, H.Q. Utilizao das guas subterrneas em Ponta Grossa, PR 2010. 75p. Monografia (Trabalho de Concluso de Curso de Bacharelado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade Estadual de Ponta Grossa. BEHLING, H. Late Quaternary vegetation, climate and fire history of th e Araucaria forest and campos region from Serra Campos Gerais, Paran State (South Brazil). Review of Palaeobotany and Palynology v. 97 p.109 121, 1997. BELLO, E.M.; MELO, M.S. Utilizao dos stios naturais em atividades didticas do ensino fundamental e mdio no municpio de Ponta Grossa, PR. Publicatio UEPG (Ponta Grossa), Ponta Grossa, v. 14, n. 2, p. 25 42, 2006. BERGAMASCHI, S. Anlise Estratigrfica do Siluro Devoniano (Formaes Furnas e Ponta Grossa) da Sub Bacia de Apucarana, Bacia do Paran, Br asil 1999. 167p. Tese (Doutorado em Geologia), Instituto de Geocincias da USP, So Paulo. BRILHA, J. Patrimnio Geolgico e Geoconservao : a conservao da natureza na sua vertente geolgica. Lisboa: Palimage, 2005. 183p. CONCEIO, A.A.; GIULIETTI, A. M.; MEIRELLES, S.T. Ilhas de vegetao em afloramentos de quartzito arenito no Morro do Pai Incio, Chapada Diamantina, Bahia, Brasil. Acta Botanica Brasilica : Feira de Santana, SBB, v. 21, n.2, p.335 347, 2007. CONCEIO, A.A.; PIRANI, J.R.; MEIRELLES, S. T. Floristics, structure and soil of insular vegetation in four quartzite Revista Brasileira de Botnica : So Paulo, SBB, v. 30, n.4, p.641 656. 2007. DE ROS, L.F. Heterogeneous generation and e volution of diagenetic quartzarenites in the Silurian Devonian Furnas Formation of the Paran Basin, southern Brazil. Sedimentary Geology v.116, n.1 2, p.99 128, 1998. DOERR, S.; WRAY, R.A.L. Pseudokarst. In: Encyclopaedia of Geomophology GOUDIE, A. (ed. ). London: Routledge, 2004. p.814 816. FOLMANN, A.C. Trilhas interpretativas como instrumentos de Geoturismo e Geoconservao: caso da Trilha do Salto So Jorge, nos Campos Gerais do Paran 2010, 134f. Dissertao (Mestrado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade Estadual de Ponta Grossa. GRAY, M. Geodiversity : valuing and conserving abiotic nature. Chichester: Wiley, 2004. 434 p. GUIMARES, G.B.; MELO, M.S.; MOCHIUTTI, N.F. Desafios da geoconservao nos Campos Gerais do Paran. Geol. USP Publ. espec., So Paulo, v.5, p.47 61, 2009. HARDT, R.; RODET, J.; PINTO, S.A.F.; WILLEMS, L. Exemplos brasileiros de carste em arenito: Chapada dos Guimares (MT) e Serra de Itaqueri (SP). SBE Campinas, SP. Espeleo Tema v. 20, n.1/2, p.7 23. 2009.

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 99 GEOSSTIO DO SUMIDOURO DO RIO QUEBRA PERNA (PONTA GROSSA/PR, BRASIL): RELEVANTE EXEMPLO DE SISTEMA CRSTICO NOS ARENITOS DA FORMAO FURNAS SUMIDOURO DO RIO QUEBRA PERNA GEOSITE (PONTA GROSSA CITY, PARAN STATE, BRAZIL): RELEVANT EXAMPLE OF THE KARST SYST EM IN SANDSTONES OF THE FURNAS FORMATION Las Luana Massuqueto ( 2,3 ) Gilson Burigo Guimares (1 ,2 ) & Henrique Simo Pontes ( 2,4 ) (1) Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG, Ponta Grossa PR. (2) Grupo Universitrio de Pesquisas Espeleolgicas GUPE, Pont a Grossa PR ( 3 ) Mestranda em Geografia da UEPG Ponta Grossa PR ( 4 ) Egressos do Curso de Bacharelado em Geografia da UEPG Ponta Grossa PR Contatos: lais500@yahoo.com.br ; gburigo@ig.com.br ; henrique071289@yahoo.com.br Resumo O Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna localiza se a, aproximadamente, 30 quilmetros a sudeste do centro urbano do municpio de Ponta Gro ssa (PR), sobre os arenitos da Formao Furnas (Siluriano/Devoniano). O local deve sua gnese a trs fatores principais: dissoluo da rocha atravs da ao da gua; caractersticas intrnsecas rocha, tais como a natureza e quantidade das estruturas sedi mentares e a composio dos gros e do cimento; e processos tectnicos ligados a um expressivo conjunto de falhas de direo NE SW, relacionado reativao estrutural durante a evoluo do Arco de Ponta Grossa. O geosstio um dos melhores exemplos de re levo crstico em rochas no carbonticas na regio dos Campos Gerais do Paran, fato este comprovado por seus dutos, cpulas e bacias de dissoluo, relevo ruiniforme, pequenos espeleotemas, paleoleitos e drenagem subterrnea ativa, todos indicativos de si gnificativa dissoluo dos arenitos. A criao de leis para o gerenciamento do uso e ocupao das terras sobre o relevo da Formao Furnas e para o disciplinamento do aproveitamento dos mananciais subterrneos deve ser prioridade para os rgos competentes visando conservao deste patrimnio natural Palavras Chave : Sumidouro do Rio Quebra Perna; Formao Furnas; carste em rochas siliciclsticas; Campos Gerais Abstract The Sumidouro do Rio Quebra Perna Geosite is nearly 30 kilometers southeast away fr om the urban center of the Ponta Grossa city, Paran State, and is developed on sandstones of the Silurian/Devonian Furnas properties, such as the natu re and amount of sedimentary structures and the composition of grains and cement; and tectonic processes linked to an expressive set of NE SW faults, related to the structural reactivation during the evolution of the Ponta Grossa Arch. This geosite is one of the best examples of karst in non carbonate rocks in the Campos Gerais region of Paran State, as confirmed by its tube like conduits, near circular dissolution features in the roof (cupolas) or on the floor (pans) of the sandstone outcrops and cavities ruiniform relief, small speleothems, paleochannels and active underground drainage, all indicative of significant dissolution of the sandstones. The establishment of management and land use legislation regarding the outcrop areas of the Furnas Formation rocks, beside the regulation of groundwater exploitation should be priorities, as far as must be the case to natural heritage conservation Key Words : Sumidouro do Rio Quebra Perna Geosite; Furnas Formation; karst in quartzose rocks; Campos Gerais 1. INT RODUO O Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna, situado na poro leste do municpio de Ponta Grossa/PR, a aproximadamente 30 km do centro da cidade (Figura 1), encontra se prximo ao limite do Parque Estadual de Vila Velha, inserido na APA (rea de Proteo Ambiental) da Escarpa Devoniana e no recente Parque Nacional dos Campos Gerais. O acesso ao local restrito, sendo possvel a entrada somente mediante autorizao do proprietrio da rea.

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 100 O termo geosstio, conforme descrito por Brilha (2005), re fere se a um local em que ocorre um ou mais elementos da geodiversidade (por exemplo: uma variedade de ambientes e processos geolgicos que compem a paisagem), bem delimitado geograficamente e que apresente um valor singular do ponto de vista cientfico, pedaggico, cultural, turstico ou outro. Figura 1: localizao do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna no municpio de Ponta Grossa PR O geosstio tem seu desenvolvimento nos arenitos da Formao Furnas, apresentando inmeras feies e proces sos relacionados dinmica natural da paisagem, sendo um notvel stio natural e de grande beleza cnica. Em toda a rea do geosstio notvel o forte controle de estruturas tectnicas transversais ao eixo do Arco de Ponta Grossa (NW SE). Devido a este a rqueamento crustal so comuns nesta unidade geolgica estruturas como fendas, falhas e fraturas, as quais possibilitam a existncia de sumidouros, canais Feies de relevo tipicamente relacionadas a processos de dissoluo, com drenagem subterrnea ainda ativa, colocam o local como um dos melhores exemplos de relevo crstico em rochas siliciclsticas da regio dos Campos Gerais do Paran (MASSUQUETO, 2010). A notvel singularidade que o geosstio apresenta est a ssociada aos seus processos de formao, que resultaram em uma expressiva geodiversidade. So exemplos as cavernas, paleoleitos, relevo ruiniforme, bacias de dissoluo, cpulas de dissoluo, espeleotemas, panelas, alvolos, dutos de dissoluo, cachoeira s, lapas e paredes rochosos, alm de uma excelente oportunidade de visualizao de diferentes aspectos de operao do ciclo hidrolgico. 2. MATERIAIS E MTODOS Para realizar os estudos no Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna foram utilizados os seg uintes recursos: a) Reviso bibliogrfica abrangendo diversos temas como geologia, geomorfologia, carste e processos erosivos em rochas siliciclsticas, incluindo feies crsticas na regio dos Campos Gerais do Paran. O referencial terico baseou se em p esquisas feitas em livros, artigos de revistas, resumos, anais de eventos, monografias, dissertaes, teses e pginas da Internet; b) Trabalhos de campo foram realizados para reconhecimento geral da rea, obteno de dados, execuo do levantamento topogr fico e montagem de um acervo fotogrfico com os pontos de maior relevncia do local. Levantamentos da geologia e geomorfologia objetivaram compreender a dinmica da paisagem, onde caractersticas do macio rochoso, juntamente com feies geomorfolgicas, i ndicam os processos ocorridos para a formao do geosstio; c) Os procedimentos do levantamento topogrfico nos compartimentos subterrneos encontrados no geosstio tiveram como base o trabalho de Dematteis (1975). Para as medies foram utilizadas trena m trica de 20 metros e corda sisal de aproximadamente 40 metros. As direes de lineamentos foram medidas a partir de bssola geolgica Brunton e as coordenadas obtidas atravs de um aparelho receptor GPS, modelo GARMIM II PLUS; d) A digitalizao dos dados topogrficos obtidos em campo foi executada por meio do programa livre OCAD PRO 8. O detalhamento do mapa topogrfico possui um grau avanado, apresentando graduao BCRA 5D, conforme apresentado pela BCRA ( British Cave Research Association ). 3. CARSTE E M ROCHAS NO CARBONTICAS O Rio Quebra Perna, na rea do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna, tem seu curso superficial interrompido e passa a correr subterraneamente por diferentes compartimentos morfolgicos, alm de apresentar dutos elevados seco s, comprovando que em tempos passados o

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 101 nvel do rio era mais elevado em relao ao atual. Em perodos de chuvas constantes a vazo do rio aumenta, sendo possvel temporariamente atingir estes leitos antigos, que se tornam ativos em perodos intermitentes. A existncia de rios subterrneos formando feies distintas evidencia a presena de um sistema crstico no local. Para Hardt et al. em uma determinada rea ocorrem os processos de carstificao, aparecem as formas tpicas de relevo, dando origem ao carste. Este conjunto de formas associado aos processos geradores constitui um A cincia do carste, responsvel por estudar formas e feies crsticas, teve incio durante estudos cientficos realizados na regio do Kras, entr e a antiga Iugoslvia e a Itlia. Os estudos se iniciaram sobre uma regio com formas de relevo subterrneos com cavernas e superfcies sobre rochas carbonticas (princ ipalmente calcrios). Por muito tempo a terminologia carste foi utilizada somente para rochas carbonticas (calcrios e dolomitos, por exemplo), as quais so consideradas altamente solveis, excluindo qualquer possibilidade de processos crsticos em outros tipos de rochas, como o caso dos arenitos siliciclsticos (tratados como pouco solveis). A partir da dcada de 1950, pesquisadores de diferentes partes do mundo comearam a estudar grandes relevos desenvolvidos em rochas no carbonticas, principalment e em arenitos e quartzitos, concluindo que era passvel de ocorrer carstificao em outros litotipos, como quartzo arenitos, quartzitos e at mesmo granitos (WILLEMS, 2000). No Brasil, umas das referncias mais antigas ocorrncia de carste em terrenos n o carbonticos foi feita para a regio dos Campos Gerais do Paran, local onde o Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna est inserido. Neste trabalho Maack (1956) discute a existncia de um carste de natureza climtica e estrutural em rochas arenticas Estudos mais recentes, como os trabalhos de Wray (1997; 2009), Melo et al. (2007) e Hardt et al (2009), apontam que possvel a ocorrncia de carste em rochas pouco solveis, desde que o surgimento da morfologia seja determinado eminentemente pela eros o qumica, mesmo que no seja o processo principal, mas que esta solubilidade influencie diretamente no modelado crstico, formando condutos que possibilitem uma drenagem subterrnea. Ou seja, independente da litologia, desde que os fatores formadores seja m os mesmos, o termo carste poder ser aplicado. Para a existncia de sistemas crsticos, alguns fatores so indispensveis, tais como: rochas solveis com permeabilidade de fraturas; gradiente hidrulico elevado; e o clima, relacionado com a disponibilid ade de gua, sendo mais intenso o desenvolvimento de sistemas crsticos em climas midos (KARMANN, 2000). Segundo Willems et al. (2008) o desenvolvimento de cavernas, rios subterrneos, lapis, sumidouros e demais feies em rochas consideradas pouco solv eis, cria um sistema crstico completo, sendo os processos genticos idnticos aos de rochas carbonticas, constituindo assim, sistemas crsticos em rochas siliciclsticas. A existncia ou no de um relevo crstico em determinada regio no pode ser analis ada apenas a partir de estudos sobre macrofeies. Devem ser conduzidas investigaes em diferentes escalas, abrangendo desde feies microscpicas at um contexto regional, pois todas estas formas, estudadas sistemicamente, podem comprovar a presena de u m modelado crstico na paisagem. possvel encontrar muitas dessas meso e microfeies no Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna, observadas tanto nos compartimentos morfolgicos subterrneos como em superfcie. Tais feies comprovam a dissoluo qu mica da rocha, tanto do cimento argiloso como tambm dos gros de quartzo. A presena de significativa dissoluo na gnese das formas do geosstio possibilita considerar este local como o exemplo mais notvel da existncia de um sistema crstico na regio dos Campos Gerais do Paran, desenvolvido nos arenitos da Formao Furnas. 4. GEOLOGIA E GEOMORFOLOGIA DA REA DE ESTUDO 4.1 Geologia O Geosstio Sumidouro do Rio Quebra Perna est localizado na poro leste da Bacia Sedimentar do Paran, nos arenitos d a Formao Furnas constituda dominantemente de arenitos mdios a grossos de colorao clara, feldspticos e/ou caulnicos, com gros angulosos a subangulosos, et al. 2005). A s rochas dispem se em camadas tabulares de variada espessura, com estratificaes cruzadas e plano paralelas, apresentando nveis intercalados de

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 102 material fino (silte argiloso micceo) de espessura centimtrica a decimtrica (ASSINE, 1996). Segundo Soares (1989), a disposio em que se encontram os arenitos, em bancos horizontais homogneos, facilita a infiltrao de guas atravs dos planos de estratificao e incrementa a circulao de gua em subsuperfcie. A origem dessa eroso em profundidade est tam bm relacionada a diaclasamentos (SOARES, 1989). Os arenitos da Formao Furnas possuem permeabilidade localmente elevada e corpo rochoso bastante fraturado, sendo que tais caractersticas propiciam a penetrao de guas pluviais e fluviais para setores em subsuperfcie, causando a dissoluo dos gros de quartzo e principalmente do cimento caulintico. 4.2 Geomorfologia A geomorfologia do local de estudo marcada por paredes rochosos escarpados, abrigos e lapas, blocos com aparente falhamento, fendas e fraturas e feies exocrsticas apresentando relevo ruiniforme, sulcos, lapis, panelas, bacias de dissoluo e alvolos. Em subsuperfcie as caractersticas geomorfolgicas so marcadas por um terreno complexo, com um sistema de condutos subterrneos resp onsvel por uma drenagem ativa. Estes condutos so representados por cavernas, paleoleitos e dutos de dissoluo, exibindo variadas feies endocrsticas como cpulas de dissoluo, espeleotemas, panelas e outras formas causadas pelos processos qumicos e fsicos das guas fluviais e subterrneas, bem como pela ao de microorganismos, capazes de auxiliar na fragilizao de paredes e tetos rochosos, facilitando a ao erosiva da gua. 4.2.1 Arco de Ponta Grossa e Zona de Falha Taxaquara Itapirapu A rea d esta pesquisa est situada em uma regio marcada por estruturas tectnicas, controladas por duas direes principais: NE SW, uma zona de falhas paralelas a estruturas do Embasamento da Bacia do Paran e NW SE, relacionadas ao Arco de Ponta Grossa. As fenda s existentes no geosstio, encaixadas em estruturas de direo NE SW, alinham se a algumas das furnas encontradas no municpio de Ponta Grossa (Furnas de Vila Velha, Buraco do Padre, Gmeas e Grande). Segundo Melo e Giannini entre as furnas e formas associadas e estrutura rpteis de direo NE SW, relacionadas reativao da zona de falha de Taxaquara Itapirapu, que marca profundamente a Ponta Grossa refletem estruturas do embasamento, bastante antigas, marcando tambm as rochas sobrejacentes, conforme observado na Formao Furnas. O Arco de Ponta Grossa um arqueamento crustal de direo NW SE relacionado ao eixo abortado da trplice separao do continente Sul Americano c om o Africano, que teve seu pice regionalmente no Perodo Cretceo da Era Mesozoica. Com o estgio inicial da abertura do Oceano Atlntico Sul ergueu se um domo, em forma de meia elipse, na regio em que atualmente encontra se uma expressiva reentrncia n a rea de exposio das rochas da Bacia do Paran. Foi nesta poca que ocorreu um grande derrame de lava basltica, conhecido como Magmatismo Serra Geral (ZALN, 1990, apud KENE, 2009). Segundo Melo (2000) este arqueamento crustal o responsvel por algu mas das feies geolgicas e geomorfolgicas mais notveis do flanco leste da Bacia Sedimentar do Paran. 5. COMPARTIMENTOS MORFOL"GICOS DO GEOSSTIO DO SUMIDOURO DO RIO QUEBRA PERNA O geosstio em questo possui um significativo potencial espeleolgico e nvolvendo feies singulares. So encontradas no local, cavidades subterrneas, dutos de dissoluo, paleoleitos, galerias tipicamente estruturais, passagem entre planos de acamamentos e abrigos (lapas). A seguir apresenta se uma descrio dos diferentes c ompartimentos morfolgicos do geosstio. 5.1 Fendas As fendas existentes na rea do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna controlam diretamente as formas de relevo e o traado do rio, sendo fundamentais para a existncia da drenagem subterrnea. So paralelas entre si e transversais ao eixo do Arco de Ponta Grossa, com direes variando entre N35E e N42E. O incio do sistema subterrneo do Sumidouro do Rio Quebra Perna se d quando o rio, de mesmo nome, penetra em forma de cachoeira na p rimeira fend a, denominada como (F1) (Figura 02). Prximo ao sop desta cachoeira, a aproximadamente 25 metros de distncia no rumo NE, encontra se o sumidouro do rio. Em perodos de seca, com baixa

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 103 turbidez da gua, possvel observar exatamente o local onde o rio de saparece. A partir deste trecho, o rio flui por um duto no conhecido, sem possibilidade de acesso, at atingir a segunda fenda do sistema (F2). Atravs de uma cavidade com estrutura linear esculpida pela ao da gua (Duto dos Andorinhes) o rio alcana a terceira fenda (F3). Neste ponto, aps uma pequena queda, a gua segue pelo compartimento localizado entre planos de acamamento do arenito, atingindo a quarta e ltima fenda (F4). Seguindo aproximadamente 30 metros jusante, o rio precipita novamente, fo rmando uma bela cachoeira com um pequeno lago e balnerio na base. Todos esses processos resultam em uma riqueza estrutural, geomorfolgica e geolgica, com o diferencial de proporcionar a visualizao de aspectos do interior do corpo rochoso. Para Marques Neto (2008) a existncia de estruturas tectnicas influencia diretamente na evoluo do relevo crstico, condicionando o gradiente hidrulico e assim o funcionamento do sistema hidrolgico. A presena das fendas na rea do geosstio possibilita o desenvol vimento de galerias com notvel alargamento devido a ao erosiva das guas fluviais e subterrneas. Alguns desmoronamentos de blocos entulham a parte superior das fendas, sendo possvel consider las como cavernas. 5.2 Abrigo da Perereca O Abrigo da Pere reca encontra se no incio da segunda fenda (F2), possuindo 12 metros de extenso, 14 metros de largura (entrada) e altura variando de 1 metro no ponto mais alto a cerca de 40 cm no mais baixo. A gnese do abrigo est relacionada a um antigo duto de sada de gua, encaixado em plano de estratificao e influenciado pela textura dos arenitos. Neste local notvel a presena de muitos alvolos, que variam de milmetros a dezenas de centmetros. Em todo o teto do abrigo tambm so encontrados microespeleotem as, comprovando o papel tanto erosivo como de precipitao exercido pela gua no corpo rochoso. Figura 2: mapa topogrfico do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 104 5.3 Galeria Quebra Perna A Galeria Quebra Perna (Figura 3) uma rota alternat iva de acesso ao Duto dos Andorinhes. Encaixada na terceira fenda (F3), na direo N45E, trata se de uma poro da cavidade que teve sua gnese a partir do fraturamento do corpo rochoso, seguida pelo alargamento posterior pela ao erosiva da gua. Possu i 22 metros de extenso, com altura de aproximadamente 3,5 metros. As laterais so alargadas e a presena de cpulas de dissoluo evidencia que esta galeria em algum perodo j foi totalmente inundada. Mesmo tratando se de um compartimento com forte contr ole estrutural, a presena de espeleotemas e alvolos comprova a significativa dissoluo da rocha e a sua exposio subarea. Atualmente, a existncia de gua no local deve se infiltrao que escorre pelas paredes, deixando o sempre mido. Conta tambm com presena constante de sedimentos inconsolidados, resultante do intemperismo e eroso do macio circundante. 5.4 Galeria dos Paneles uma galeria estrutural, onde a ao da gua foi tambm decisiva para sua formao. Possui um notvel alargamento na parte superior, prxima ao teto, em camadas mais finas do arenito. Tal feio, juntamente com panelas de mais de um metro de profundidade, dutos de dissoluo, cpulas de dissoluo e espeleotemas (corais de slica, estalactites, estalagmites, microtraver tinos e cascatas de rocha), comprova uma forte ao da gua, desenvolvendo formas tpicas de sistemas crsticos. 5.5 Paleoleitos Os paleoleitos no Geosstio Sumidouro do Rio Quebra Perna so dutos de dissoluo, com formato arredondado, onde em tempos pre tritos houve um fluxo contnuo de gua, subterrnea e fluvial. Na rea de estudo, so encontrados dois paleoleitos. O primeiro (Figura 4) localiza se entre a primeira e a segunda fenda, possuindo nove metros de comprimento por cinco metros de largura e al tura de aproximadamente trs metros. O segundo paleoleito encontra se prximo ressurgncia do rio, com oito metros de comprimento, cerca de quatro metros de largura e altura de 2,9 metros. A distncia entre esses dois compartimentos de aproximadamente 120 metros. A gnese dos paleoleitos est relacionada com a ao erosiva do rio, ocasionando a dissoluo do cimento caulintico dos arenitos e a liberao dos gros de quartzo, que so removidos por eroso mecnica, num processo denominado por Jennings (1 983) e Melo e Giannini (2007) como arenizao. H indcios de que estes paleoleitos possam ser remanescentes de dutos formados por guas subterrneas, em perodos no qual o nvel fretico estava acima do atual. Posteriormente, o rio encaixou se nestes duto s pr estabelecidos e continuou com o processo erosivo da rocha, alargando e aumentando o canal subterrneo. Para relao ao leito atual do rio, sugerem paleoleitos de Os paleoleitos so praticamente paralelos ao eixo do Arco de Ponta Grossa, possuem um formato arredondado, com presena de cpulas de dissoluo, atestando que j foram totalmente inundados. Nestes locais so encontrados alvolos e panelas (marmitas), algu mas chegando a medidas superiores a um metro de profundidade, sendo parcialmente preenchidas por sedimentos arenosos, trazidos pelas guas do rio, em pocas de elevados ndices pluviomtricos. As paredes polidas tambm comprovam a ao das guas nestes amb ientes. Figura 3: vista da entrada da Galeria Quebra Perna, posicionada na terceira fenda do local. 5.6 Duto dos Andorinhes O compartimento Duto dos Andorinhes (Figura 5) um duto de dissoluo situado entre a segunda e a terceira fenda, com seo t ransversal arredondada, possuindo vinte metros de extenso, largura variando entre seis e dez metros e trs metros de altura no ponto mais alto. A ao da gua neste compartimento constante, desde sua formao at os dias atuais, fato observado a partir da presena de paredes polidas, alvolos, teto com cpulas de dissoluo e panelas com mais de um metro de profundidade, prximo ao

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 105 trecho final do duto. Sua gnese est relacionada s estruturas sedimentares e ao desgaste erosivo das guas do rio em nvei s mais finos dos arenitos. Prximo ao incio deste duto de dissoluo onde se encontra o reaparecimento do rio, ainda na segunda fenda (F2) do sistema. importante ressaltar que no se trata da ressurgncia do rio, que ocorre somente quando o curso hdr ico sai do interior do corpo rochoso, mas sim de um ponto onde retorna a possibilidade de visualizao do rio. Este local de reaparecimento do rio na fenda visvel quando a turbidez da gua est baixa, tornando se transparente e facilitando a visibilidad e, ocorrendo principalmente em pocas de estiagem. Aps o reaparecimento, o rio segue pelo duto de dissoluo at alcanar a terceira fenda (F3) na prximo compartimento, at a sua ressurgncia. Figura 4: paleoleito localizado entre fendas. 5.7 Compartimento Final O ltimo compartimento morfolgico do sistema conecta a terceira fenda com a quarta (Figura 6). Possui uma forma retangular, com 19 metros de extenso, 13 metros de largura na sua faixa maior e um metro e sessenta de altura. Este compartimento tem seu teto e sua base localizados entre dois planos de acamamento do arenito, fato que facilitou a sua formao. A gnese deste ltimo compartimento morfolgico est relacionada principalmente com estrut uras sedimentares (planos de acamamentos) e ao erosiva das guas do rio. notvel o polimento da rocha em toda extenso deste trecho, fato que revela uma intensa fora erosiva da gua no local. Paredes e tetos polidos, assim como a ausncia de espeleo temas, so provas de que h uma drenagem subterrnea ativa encaixada neste compartimento h um tempo muito recente. Figura 5: Duto dos Andorinhes duto de dissoluo com drenagem ainda ativa. Figura 6: Compartimento Final a foto mostra a entrada d o Rio Quebra Perna nesta cavidade. Conforme apontam Massuqueto e Guimares (2010), a sada do rio aps este compartimento a ressurgncia do Rio Quebra Perna, finalizando o percurso subterrneo (Figura 7). Na sequncia o rio corre sobre um lajeado, na qu arta fenda do sistema e por cerca de 35 metros, at formar uma cachoeira, com cerca de 10 metros de altura por 10 metros de largura, com um balnerio na base. Este balnerio, em pocas de elevado ndice pluviomtrico, tende a desaparecer sob as guas do ri o. 6. FEI'ES DE DISSOLUO ENCONTRADAS NO GEOSSTIO DO SUMIDOURO DO RIO QUEBRA PERNA 6.1 Espeleotemas Espeleotemas so depsitos minerais encontrados em cavernas e por vezes em superfcie, formados atravs de um processo iniciado pela dissoluo de miner ais das rochas pela gua, transporte do material em soluo por via de fraturas e precipitao em ambientes favorveis. Estas feies so comumente encontradas em cavernas

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 106 calcrias, onde podem alcanar dezenas de metros de comprimento. Os espeleotemas nos arenitos da Formao Furnas no so de grande expresso, apresentando alguns milmetros ou centmetros de comprimento e formatos variados (Figura 8). Sua ocorrncia torna se mais notvel em fraturas e nos planos de estratificao do arenito, sendo possve l encontr los em quase todos os compartimentos subterrneos do geosstio. espeleotemas constitudos predominantemente de slica, mostram que a dissoluo e reprecipitao dos Estes mesmos autores ressaltam que os espeleotemas mais comuns na Formao Furnas so aqueles conhecidos como coraloides ou pipocas, tambm referidos como couves flores, devido a semelhana com o vegetal. Feies do tipo cascata de rocha e microtravertinos (Figura 9) foram encontradas na Galeria dos Paneles. 6.2 Alvolos Os alvolos so cavidades em paredes, tetos e at mesmo em pavimentos rochosos. Sua gnese ocorre a partir da ao de guas pluviais que escorrem pelas paredes, causando a desagregao dos gros devido dissoluo do cimento e dos gros do arenito. A presena de micro e macro organismos tambm influencia na origem destas feies, pois auxiliam na escamao da rocha, facilitando a percolao da gua. Estas feies possuem formas arredond adas, podendo ocorrer interligadas. 6.3 Bacias de dissoluo As bacias de dissoluo, tambm conhecidas como kamenitzas so depresses encontradas em superfcies rochosas, com formatos arredondados, elpticos e irregulares (Figura 10). Formam se a partir da dissoluo da rocha, principalmente pela ao de guas pluviais estagnadas, as quais por um perodo indeterminado de tempo so enriquecidas por cido carbnico e orgnico, derivados de micro organismos existentes nas bordas destas feies. Com a contin uidade do processo, a dissoluo leva ao aprofundamento destas depresses. Em perodos de baixo volume pluviomtrico possvel notar o acmulo de sedimentos no interior das mesmas. Figura 7: Compartimento Final a foto mostra a sada do Rio Quebra P erna (indicado pela seta), tratando se assim da ressurgncia do rio.

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 107 Figura 8: espeleotema nos arenitos da Formao Furnas Figu ra 9: espeleotema do tipo micro travertinos Figura 10: bacia de dissoluo 6.4 Cpulas de dissoluo So feies enco ntradas no teto das cavidades subterrneas, formadas a partir da dissoluo da rocha (Figura 11). Variam de centmetros a dezenas de centmetros, tanto nas dimenses horizontal como vertical, caracterizando condutos totalmente inundados por um determinado perodo de tempo. A presena de espeleotemas dentro destas feies indica que o duto deixa de estar completamente inundado e que a dissoluo de minerais da rocha continua pela percolao de guas pluviais que infiltram pelas fraturas, ocorrendo assim a de posio mineral e formao dos espeleotemas (HARDT et al 2009). Figura 11: cpula de dissoluo localizada na Galeria Quebra Perna 6.5 Panelas Tambm conhecidas como marmitas, as panelas so feies profundas e arredondadas, formadas a partir da ao erosiva das guas fluviais. Tal processo, denominado de evulso consiste no desgaste ocasionado pelo atrito mecnico, ou seja, os gros carregados pelas guas do rio entram em atrito com a rocha, onde comeam a escavar, criando assim depresses que poster iormente transformam se em panelas. importante ressaltar que mesmo tratando se de eroso mecnica, a dissoluo tambm ocorre na gnese destas formas, principalmente do cimento caulintico, ocasionando a desagregao do arenito (uma situao de areniza o, nos termos de Jennings, 1983). No geosstio esta feio encontrada nos seguintes pontos: Paleoleitos (Figura 12), Duto dos Andorinhes e Galeria dos Paneles. 6.6 Dutos de dissoluo Em toda a rea do geosstio foram encontrados nove dutos de dissolu o (Figura 13), sendo que sete deles no esto contidos nos compartimentos morfolgicos do Sistema Crstico do Sumidouro do Rio Quebra Perna. Estes se situam num paredo rochoso, sendo que o maior possui 3,80 metros de extenso, 0,70 metros de largura e 0 ,25 metros de altura, enquanto o menor possui 0,85 m de extenso. Estes dutos tendem a se dispor em nveis com maior participao de componentes

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 108 sltico argilosos entremeados ao arenito. Conforme penetram para o interior do corpo rochoso suas dimenses dim inuem. Figura 12: panela encontrada dentro de um dos paleoleitos (Foto: Heder Leandro Rocha). Figura 13: duto de dissoluo Destaca se a presena de um duto acessvel com 4 metros de extenso (Figura 14), localizado dentro da segunda fenda do siste ma crstico do geosstio. Posteriormente esse duto divide se em outros dois com traados sinuosos e contornos arredondados, alm da presena de cpula de dissoluo e espeleotemas variando de milmetros a alguns centmetros de comprimento. A presena deste s dutos est intimamente ligada com a circulao organizada de fluidos, distribudos em sistemas e subsistemas, com ordem de grandeza no qual dutos menores se juntam para formarem um canal de maior expresso. Wray (2009) afirma que dutos deste tipo em aren itos no so apenas lineares e isolados, mas sim parte de um complexo sistema de drenagem, onde uma srie de dutos menores se une para formar um grande duto. A ocorrncia deste mesmo padro no geosstio atesta que as guas subterrneas da Formao Furnas c irculam no somente por meio de fraturas, mas por condutos bem estabelecidos e organizados, similares aos de regies carbonticas. 6.7 Relevo Ruiniforme Os relevos ruiniformes impressionam pelo aspecto cnico, sendo considerados relevos de exceo. So f eies originadas a partir da dissoluo da rocha por meio de fissuras e fraturas, que variam de centmetros a dezenas de metros de altura. A primeira etapa para a implantao deste tipo de relevo a formao de sulcos e caneluras, sua evoluo leva aos l apis, e posteriormente torres, pinculos, fendas e labirintos. So feies excepcionais, que evidenciam o processo de carstificao nos arenitos da Formao Furnas, encontrando se fartamente desenvolvido na rea do geosstio (Figura 15). Figura 14: dut o de dissoluo bifurcado, encontrado no interior da segunda fenda do sistema. Figura 15: relevo ruiniforme 7. CONSIDERA'ES FINAIS O Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna possui inmeras feies singulares, que esto associadas ao processo de dis soluo das rochas da

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 109 Formao Furnas. Espeleotemas, dutos, bacias e cpulas de dissoluo, paleoleitos, sumidouros e ressurgncias, relevo ruiniforme, confirmam que se trata de um ambiente crstico, onde o processo de dissoluo significativo no modelad o do relevo. A origem deste sistema crstico est relacionada s caractersticas da rocha (composio mineral, textura, estruturas sedimentares), elevado gradiente hidrulico ocasionado pelos desnveis topogrficos, estruturas tectnicas (falhas, fendas, fraturas, juntas) relacionadas com o Arco de Ponta Grossa e a Zona de Falha Taxaquara Itapirapu, permitindo permeabilidade por fraturas na rocha, alm da prpria disponibilidade de gua. A conservao e a proteo do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna se fazem necessrias devido a um alto interesse espeleolgico, geolgico, geomorfolgico e ecolgico que o local como um todo apresenta. de grande importncia destacar que este geosstio um dos mais notveis exemplos que confirmam a existncia de um sistema crstico desenvolvido nos arenitos da Formao Furnas, na regio dos Campos Gerais do Paran. A constatao da existncia de carste em uma das principais unidades geolgicas regionais confirma a necessidade de mudanas no gerenciamento do uso d a terra, assim como nos critrios de explotao das guas subterrneas do Aqufero Furnas. Estas caractersticas de relevo crstico implicam em problemas diversos, caso no sejam realizadas medidas preventivas, tais como degradao dos mananciais subterrn eos, abatimentos do terreno e perdas significativas de outros elementos da paisagem, biticos e abiticos. A GRADECIMENTOS Aos membros do Grupo Universitrio de Pesquisas Espeleolgicas (GUPE) pelo apoio durante os trabalhos de campo REFERENCIAS BIBLIOG RFICAS ASSINE, M. L. Aspectos da estratigrafia das seqncias pr carbonferas da Bacia do Paran no Brasil. 1996, 207p. Tese (Doutorado em Geologia), Instituto de Geocincias da USP, So Paulo. BRILHA, J. Patrimnio Geolgico e Geoconservao: a conserva o da natureza na sua vertente geolgica. Lisboa: Palimage, 2005. 183p. DEMATTEIS, G.. Manual de la Espeleologia. Editorial Labor S.A., Barcelona, 1975. HARDT, R.; RODET, J.; PINTO, S.A.F.; WILLEMS, L.. Exemplos brasileiros de carste em arenito: Chapada dos Guimares (MT) e Serra de Itaqueri (SP). SBE Campinas, SP. Espeleo Tema v. 20, n.1/2, p.7 23. 2009. KARMANN, I. Ciclo da gua: gua subterrnea e sua ao geolgica. In : TEIXEIRA, W.; TOLEDO, M.C.M.; FAIRCHILD, T.R.; TAIOLI, F. Decifrando a Terra. S o Paulo: Oficina de textos, 2000. Reimpresso, 2001. p. 113 138. KENE, R. Estrutura do relevo da Regio de Pira da Serra, PR 2009. 77p. Monografia (Trabalho de Concluso de Curso de Bacharelado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade E stadual de Ponta Grossa. JENNINGS, J.N. Sandstone pseudokarst or karst? In: Young, R. W.; Nanson,G. C. Aspects of Australian Sandstone Landscapes Wollongong: Australian and New Zealand Geomorphology Group Special Publication n1., 1983. MAACK, R. Fenmeno s carstiformes de natureza climtica e estrutural de arenitos do Estado do Paran. Arquivos de Biologia e Tecnologia 11 : 151 162, 1956. MARQUES NETO, R.. Evoluo de cavernas em quartzito e processos crsticos em So Thom das Letras MG: contribuio ao estudo de sistemas crsticos em rochas siliciclsticas Geosul Florianpolis, v.23, n.45, p. 105 121, jan./jun. 2008. MASSUQUETO, L.L.; GUIMARES, G.B. Espeleognese dos compartimentos morfolgicos do Geosstio do Sumidouro do Rio Quebra Perna (Ponta Gro ssa PR). In : SIMP"SIO SUL

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Massuqueto Guimares & Pontes Geosstio do Sumidouro do Rio Q u ebra Perna... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 110 BRASILEIRO DE ESPELE OLOGIA 2, 2010, Ponta Grossa. Anais Ponta Grossa: SBE/GUPE, 2010. p.81 94. MASSUQUETO, L.L. O sistema crstico do Sumidouro do Rio Quebra Perna (Ponta Grossa PR): caracterizao da geodiversidade e de seu s valores 2010. 81p. Monografia (Trabalho de Concluso de Curso de Bacharelado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade Estadual de Ponta Grossa. MELO, M.S. 2000. Canyon do Guartel. In : SCHOBBENHAUS, C.; CAMPOS, D.A.; QUEIROZ, E.T.; WINGE M.; BERBERT BORN, M. (Ed.) Stios Geolgicos e Paleontolgicos do Brasil. Publicado na Internet em 22/01/2000 no endereo: www.unb.br/ig/sigep/sitio094/sitio094.htm MELO, M.S.; LOPES, M.C.; BOSKA, M.A. 2005. Furna do Buraco do Padre, Formao Furnas, PR Feies de eroso subterrnea em arenitos devonianos da Bacia do Paran In : WINGE, M.; SCHOBBENHAUS, C.; BERBERT BORN, M.; QUEIROZ, E.T.; CAMPOS, D.A.; SOUZA, C.R.G.; FERNANDES, A.C.S. ( Ed s. ) Stios Geolgicos e Paleontolgicos do Brasil. Publicado na Internet em 08/10/2005 no endereo www.unb.br/ig/sigep/sitio110/sitio110.pdf MELO, M.S. & GIANNINI, P.C.F. Sandstone dissolutio n landforms in the Furnas Formation, Southern Brazil Earth Surface Processes and Landforms v. 32, p. 2149 2164, 2007. MELO, M.S.; GUIMARES, G.B.; RAMOS, A.F.R.; PRIETO, C.C. Relevo e hidrografia dos Campos Gerais. In: MELO, M.S.; MORO, R.S.; GUIMARES, G.B. (Orgs.). Patrimnio natural dos Campos Gerais do Paran Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2007, p. 49 58. PONTES, H.S; MELO, M.S.. Processos erosivos superficiais e subterrneos em arenitos da Formao Furnas na regio dos Campos Gerais do Paran. In : E NCONTRO ANUAL DE INI CIAO CIENTFICA 18, 2009, Londrina. Anais Londrina: UEL/UEM/UEPG/UNIOESTE/UNICENTRO, 2009. Disp onvel em www.eaic.uel.br/artigos/CD/3705.pdf Acesso em: 19 mar. 2011. SANTAN A, A. C.; MELO, M. S. Sumidouro do Rio Quebra Perna, Ponta Grossa, PR: um complexo de informaes geogrficas In : JORNADA CIENTFICA DE GEOGRAFIA, 3, 2001, Ponta Grossa. Boletim de resumos Ponta Grossa: UEPG, 2001. p. 70 72. SOARES, O. Furnas dos Campos Gerais, Paran. Curitiba: Scientia et Labor, 1989. XVII, 82 p. WILLEMS, L. Phnomnes karstiques en roches silicates non carbonates. Cas des grs, des micaschistes, ds gneiss et des granites en Afrique sahlienne et quatoriale Thse de doctorat, 257 p ., 145 figs., 137 photos, Universit de Lige, Belgique., Juillet 2000. WILLEMS, L.; RODET, J.; POUCLET, A.; MELO, S.; RODET, M. J.; COMPRE, P. H.; HATERT, F.; AULER,A.S.. Karsts in sandstones and quartzites of Minas Gerais, Brazil. Cadernos Lab. Xeolxic o de Laxe Corua Vol. 33, pp. 127 138, 2008. WRAY, R.A.L. Quartzite dissolution: karst or pseudokarst? Cave and Karst Science, 24 (2), p. 81 86, 1997. WRAY, R. A. L. Phreatic drainage conduits within quartz sandstone: Evidence from the Jurassic Precipic e Sandstone, Carnarvon Range, Queensland, Australia Geomorphology 110, p. 203 211, 2009 Fluxo editorial : R ecebido em: 2 1 0 3 .20 1 1 Corrigido em: 0 1 .0 6 .2011 Aprovado em: 0 1 0 7 .201 1 A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espel eologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.cavernas.org.br/espeleo tema.asp

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 111 CAVERNA DA CHAMIN, PONTA GROSSA, PR, BRASIL: POTENCIAL ESPELEOL"GICO, RECURSOS HDRICOS SUBTERRNEOS E RISCOS GEOAMBIENTAIS CHAMIN (CHIMNEY) CAVE, PONTA GROSSA CITY, SOUTHERN BRAZIL: SPELEOLOGICAL POTENTIAL, GROUNDWATER RESOURCES AND GEOLOGICAL HAZARD H enrique Simo Pontes (1) & Mrio Srgio de Melo (2) (1) Grupo Universitrio de Pesquisas Espeleolgicas GUPE Ponta Grossa PR (2) Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG Ponta Grossa PR Contatos: henrique071289@yahoo.com.br ; msmelo@uepg.br Resumo A Caverna da Chamin uma notvel feio do relevo da Formao Furnas, situada no Canyon do Rio So Jorge, na poro centro norte do Municpio de Ponta Grossa. Cons iderada, atualmente, uma das maiores cavidades arenticas do sul do Brasil, apresentando 307 metros de desenvolvimento linear, tem sua gnese relacionada a estruturas tectnicas ligadas ao arqueamento crustal regional, denominado Arco de Ponta Grossa, e a fenmenos intempricos subsequentes. A cavidade apresenta elevado nmero de pequenos espeleotemas (at cerca de 10 cm) com formatos variados, indicando que, a par do controle estrutural, ocorre significativa dissoluo da rocha. Alm dos componentes abiti cos a caverna abriga expressiva fauna, que tambm participa da eroso biolgica do arenito. Os pequenos filetes de gua que ocorrem em seu interior, alguns perenes, alimentados por nascentes que escoam para dentro da caverna, outros temporrios, formados n os perodos de elevados ndices pluviomtricos, controlam diretamente o microclima da cavidade. A Caverna da Chamin um exemplo da diversidade abitica e bitica presente nas cavidades subterrneas da regio. Estudos espeleolgicos desenvolvidos nestes a mbientes devero apoiar alternativas sustentveis de uso visando a conservao do patrimnio espeleolgico regional, a proteo de mananciais subterrneos e a preveno de fenmenos geolgicos de risco Palavras Chave : Caverna da Chamin; carste em arenit o; recursos hdricos subterrneos; riscos geoambientais; Formao Furnas Abstract The Chamin (Chimney) Cave is a remarkable landform in the Furnas Formation, placed in the Canyon of the So Jorge River, situated in the center north of the Municipality of Ponta Grossa. It has 307 meters in linear development and is currently considered as one of the largest sandstone cavities in southern Brazil. Its genesis is related to tectonic structures linked to the crustal upwarping named Ponta Grossa Arch, with subs equent weathering phenomena. The cave shows a high number of small speleothems (up to about 10 cm) with varied formats, indicating that, in addition to the structural control, rock dissolution is a significant the erosion of the sandstone. Small water streams in the cave, some of them perennial and others seasonal, control the cavernicolous microclimate. The Chamin Cave is an example of abiotic and biotic diversity found in the cavities of the region. Speleolo gical studies in these environments should support sustainable alternatives of land use for the conservation of the regional geological heritage, protection of underground water and prevention of geological hazard Key Words : Chamin Cave; sandstone karst; groundwater resources; geological hazard; Furnas Formation 1. INTRODUO A Caverna da Chamin um notvel stio que apresenta forte controle de estruturas tectnicas, mas com significativa ao erosiva das guas subterrneas, fluviais e pluviais em sua gnese. Situada na poro nordeste de Ponta Grossa PR no Canyon do rio So Jorge, a cavidade possui belas feies formadas a partir da dissoluo dos arenitos da Formao Furnas. Esta unidade geolgica da Bacia Sedimentar do Paran apresenta formas ero sivas singulares: as furnas (poos de abatimento, cavernas verticais), que ocorrem principalmente na regio do Parque Estadual de Vila Velha e proximidades; sumidouros e ressurgncias; lagoas; depresses midas e secas;

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 112 tneis; caneluras e lapis (MAACK 19 56 MELO et al. 2007 ). Tambm nesta rocha, ocorrem cavernas de desenvolvimento horizontal e semi vertical, com gnese relacionada aos processos tectnicos, estruturas sedimentares e processos erosivos. Os arenitos da F ormao Furnas so submetidos no somente eroso mecnica, mas tambm eroso qumica, decorrente, sobretudo da dissoluo do cimento caulintico e consequente arenizao das rochas sedimentares (MELO e GIANNINI, 2007 ). Os esp eleotemas, constitudos predominantemente de caulinita e slica, mostram que a dissoluo e reprecipitao dos minerais do arenito so significativas (PONTES e MELO, 2009). Portanto, ocorre nos arenitos notvel dissoluo do cimento caulintico e tambm do quartzo. Wray (1997) apresenta que relevos crsticos so aqueles em que, em sua gnese, tm participao significativa os processos de dissoluo. Isto implica em considerar como crsticas as feies dos arenitos da Formao Furnas. H tempos atrs se ini ciaram os estudos em rochas carbonticas na Europa. Os termos da cincia do carste foram restritamente utilizados para rochas carbonticas, tratando como pseudocrsticos os relevos em rochas silicosas, no ocorrendo estudos aprofundados sobre os relevos de dissoluo nestas rochas. Pelo fato da dissoluo da slica ser um processo lento, muitos autores negaram a possibilidade de formas crsticas nas rochas Alguns autores, como Bigarella et al. (2007), advogam o uso do termo pseudocarste para as feies da Formao Furnas (MELO e GIANNINI, 2007). Muitos autores restringem o uso do termo pseudocrsticos os relevos de rochas siliciclsticas, relacionando a ocorrn cia de carste restritamente s rochas carbonticas (WRAY, 1997). Carste est relacionado com eficiente dissoluo da rocha e drenagem subterrnea, mesmo que este processo de dissoluo seja mais lento e menor em relao a rochas carbonticas. Evidncias d e dissoluo do cimento caulintico e do quartzo e a presena de espeleotemas, relevos ruiniformes, furnas, bacias e cpulas de dissoluo e outras feies do relevo, principalmente a presena de drenagens criptorreicas em arenitos da Formao Furnas, torn am evidente a carstificao nesta rocha. notvel que os processos de dissoluo dos arenitos da Formao Furnas concentram se em estruturas tectnicas, em parte atribudas aos processos do Arco de Ponta Grossa. Estas estruturas rpteis possibilitam a exi stncia descontinuidades que auxiliam no processo de infiltrao da gua pluvial e fluvial no corpo rochoso provocando a dissoluo da caulinita e do quartzo, escavando cavidades subterrneas e possibilitando a precipitao dos minerais em soluo em ambie ntes favorveis no interior das cavidades. H poucas pesquisas sobre as cavernas em arenitos da Formao Furnas, principalmente por serem cavidades que no apresentam os mesmos portes de ornamentaes e de desenvolvimento horizontal se comparadas com as c avernas desenvolvidas em rochas carbonticas, principalmente os metacalcrios e dolomitos do Grupo Itaiacoca localizados no Primeiro Planalto Paranaense. Os principais trabalhos espeleolgicos na Formao Furnas do nfase s furnas (cavernas verticais), n o abordando as cavernas horizontais e semi verticais. O presente trabalho apresenta um estudo do potencial espeleolgico da Caverna da Chamin, incluindo fatores abiticos e biticos. Procura relacionar a gnese e evoluo da caverna com o potencial hdr ico subterrneo da regio e com os riscos geoambientais passveis de ocorrncia. O objetivo principal tange a reunir os fatores que indicam a existncia de um endocarste e exocarste na regio, contribuindo nos estudos espeleolgicos em rochas siliciclstic as e na confirmao da existncia do sistema crstico da Formao Furnas nos Campos Gerais do Paran. 2. LOCALIZAO A Caverna da Chamin est localizada no Canyon do Rio So Jorge, margem direita do rio, nas coordenadas UTM 595.225,43 E 7.231.183,96 N, poro centro norte do Municpio de Ponta Grossa Paran, a cerca de 18 km a nordeste do centro urbano (Figura 1). A caverna se encontra nas proximidades do Reservatrio de Alagados, no reverso imediato da Escarpa Devoniana, degrau topogrfico que marc a a transio do Primeiro para o Segundo Planalto do Estado do Paran. Prximo Caverna da Chamin uma bela cachoeira precipita atravs de uma fenda NE SW, transversal direo do canyon A rea do Salto Santa Brbara do Rio So Jorge foi instituda com o Parque Municipal desde 1992, est dentro dos limites da APA (rea de Proteo Ambiental) da Escarpa Devoniana, tambm criada em 1992, e do recm criado Parque Nacional dos Campos Gerais (2006), ainda no implantado (MASSUQUETO et al., 2009).

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 113 Figura 1: localizao do Canyon do Rio So Jorge, situado no reverso imediato da Escarpa Devoniana, Segundo Planalto Paranaense. Legenda: 1: permetro urbano de Ponta Grossa; 2: Represa de Alagados; 3: Caverna da Chamin; 4: Escarpa Devoniana e 5: permetro do Muni cpio de Ponta Grossa. O principal acesso ao canyon realizado, a partir do centro de Ponta Grossa, pela Avenida General Carlos Cavalcanti. Aps a rotatria localizada em frente ao Campus Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa, segue se a Rua Valrio Rouchi em direo ao Jardim Residencial San Martin. Em seguida o curso se faz atravs da Estrada Arichernes Carlos Gobbo. Antes de chegar ao Reservatrio de Alagados possvel observar uma placa sinalizando a outra estrada que d acesso ao Canyon do Rio So Jorge. No canyon o acesso at a Caverna da Chamin realizado atravs de trilhas em campo aberto e pela mata. 3. MTODOS E TCNICAS Os estudos realizados na Caverna da Chamin visaram detalhar o levantamento da cavidade subterrnea para escla recer sua gnese e evoluo, e relacion las com o patrimnio natural, os mananciais subterrneos e os riscos geoambientais. Para alcanar tais objetivos, a metodologia se baseou na seguinte estrutura: Reviso bibliogrfica sobre os temas; Trabalho de campo para levantamento de dados espeleolgicos da Caverna da Chamin e feies crsticas superficiais Levantamento topogrfico da cavidade; Produo de um histograma de rosceas, baseado no trabalho de Karmann (1986), para compreenso da frequncia e tendncia de direes de estruturas tectnicas (fendas e fraturas) presentes na caverna; Mapas desenvolvidos em ambiente SIG.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 114 A tcnica para levantamento da topografia da caverna teve como base bibliogrfica o trabalho de Dematteis (1975). Algumas ferr amentas utilizadas durante este trabalho foram: aparelho receptor GPS, modelo GARMIN II PLUS; trena mtrica de 20 metros; bssola geolgica tipo Brunton; Programa de uso livre OCAD PRO 8 para a digitalizao dos dados topogrficos; Software Arc View 3.2a utilizado no laboratrio de Geoprocessamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa; Ortoimagem SPOT 5 cedida pelo SEDU/PARANACIDADE. 4. ASPECTOS FSICOS DA REA DE ESTUDO 4.1 Geologia Nas proximidades do Salto Santa Brbara do Canyon do Rio So Jorge possvel observar o contato de trs unidades rochosas: Formao Furnas, Formao Iap (ASSINE et al.,1998) e o Complexo Grantico Cunhaporanga (embasamento Proterozico) segundo Guimares (2000) apud Massuqueto (2003); Massuqueto et al. (2009). So raros os locais que fornecem esta peculiaridade geolgica, principalmente pelos diamictitos da Formao Iap, pois so poucos os afloramentos desta rocha em todo o flanco sudeste da Bacia do Paran. Este contato de trs unidades geolgicas eleva a importncia d o local, tornando o palco de pesquisas de cientistas de todo o Brasil e ponto de muitos trabalhos de campo principalmente alunos de geologia e geografia. O Canyon do Rio So Jorge est localizado no reverso imediato da Escarpa Devoniana, por isso a unidade geolgica predominante na rea de estudo a Formao Furnas, composta predominantemente por arenitos quartzosos de variada granulometria caracterizados por camadas tabulares cuja espessura total na rea aflorante atinge at 250 metros, valor registrado n o canyon do Iap no Guartel, Municpio de Tibagi por Assine (1996). A deposio dos arenitos da Formao Furnas ocorreu desde o final do Siluriano at o incio do Devoniano, entre 395 e 421 milhes de anos (GUIMARES et al., 2007). Esta unidade geolgica da borda leste da Bacia Sedimentar do Paran constituda dominantemente de arenitos quartzosos possuindo cimento caulintico. Os arenitos esto dispostos em sets de espessuras de 0,5 a 5 metros com geometria tabular, lenticular e cuneiforme, exibindo ma rcante estratificao cruzada planar, tangencial na base ou acanalada (ASSINE, 1996). Na regio dos Campos Gerais a Formao Furnas pode ser dividida em trs unidades distintas, unidade inferior, mdia e superior (ASSINE, 1996). Na rea do Canyon do Rio S o Jorge, aparecem as unidades inferior e mdia da Formao Furnas, destacando se os nveis conglomerticos da unidade inferior presentes na base do paredo rochoso prximo cachoeira. 4.2 Geomorfologia A Escarpa Devoniana uma notvel feio do relevo s ustentada pelos arenitos da Formao Furnas que se estende em toda poro oriental do Estado do Paran e sul do Estado de So Paulo. A Caverna da Chamin localiza se no reverso imediato deste degrau topogrfico que marca o limite entre o Primeiro e Segundo Planalto Paranaense e apresenta uma linha irregular devido a recortes decorrentes de falhas e fraturas originando canyons e anfiteatros (SOUZA e SOUZA, 2004). O Canyon do Rio So Jorge, localizado na poro centro norte do Municpio de Ponta Grossa, um dos principais pontos tursticos da cidade. Possui uma extenso aproximada de 1,5 quilmetros e desnveis que ultrapassam 100 metros. Estando encaixado em uma estrutura de direo NW SE, relacionada com o Arco de Ponta Grossa, o canyon est situado no rev erso imediato da Escarpa Devoniana, prximo Represa de Alagados. Alm do interesse turstico, apresenta grande potencial cientfico envolvendo principalmente seus aspectos geomorfolgicos, espeleolgicos, geolgicos, biolgicos e arqueolgicos. Como apre senta Massuqueto et al. (2009) as feies geomorfolgicas de maior destaque no rio So Jorge, alm da cachoeira, so as escarpas, canyons cavernas e fendas (Figura 2). Figura 2: vista da Cachoeira de Santa Brbara no Canyon do Rio So Jorge a partir do mirante prximo da Caverna da Chamin. Foto: F.M. Schamne.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 115 O Municpio de Ponta Grossa e outros da regio, localizados prximos borda do Segundo Planalto Paranaense, possuem caractersticas peculiares devido s grandes fraturas e falhas existente nos are nitos da Formao Furnas. Zaln et al. (1990) ressaltam que estas estruturas na rocha so resultado de um processo de soerguimento da crosta, denominado Arco de Ponta Grossa, ativado durante todo o Paleozico, mas palco de intensos processos durante o Meso zico. O Arco de Ponta Grossa um eixo de quebra abortado, relacionado com a trplice partio do grande continente Gondwana, durante a separao dos continentes Sul Americano com o Africano. Este eixo de quebra ocasionou grandes falhas distribudas para lelamente e com direo predominante NW SE, estas falhas so denominadas de Zona de falha Curitiba Maring (ZALN et al., 1990). A rea de estudo apresenta acentuada influncia deste tectonismo que afetou a regio durante o Mesozico, sendo possvel notar diversos lineamentos estruturais marcantes no relevo (figura 3). Figura 3: concentrao de canyons e fendas relacionados com lineamentos estruturais que se iniciam na poro sudeste e prolongam se para a poro noroeste da carta, com aproximadamente 7 km de extenso. A direo NW SE indica que so estruturas tectnicas relacionadas com o Arco de Ponta Grossa.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 116 4.3 Hidrografia O Rio So Jorge em seu curso inferior, prximo rea de estudo, corre sobre lajeados apresentando algumas corredeiras e pequeno s saltos. Ao adentrar o canyon por meio de fenda de direo NE SW, transversal direo do Arco de Ponta Grossa, o rio precipita formando uma queda denominada Salto (ou Cachoeira) Santa Brbara de aproximadamente 20 metros, sendo este o principal atrativo do local, muito procurado por visitantes de vrias regies. Aps a queda, o Rio So Jorge segue dentro do canyon encaixado em meio a densa vegetao com araucria. Em toda a rea do canyon e principalmente nas proximidades da Caverna da Chamin, existem d iversos canais de gua, oriundos de nascentes, algumas temporrias, alimentadas por perodos de intensas chuvas, outras perenes. Estes pequenos corpos hdricos permitem a existncia de campos midos, presentes nas baixadas e em encostas ngremes. 4.4 Clim a A rea de estudo est localizada em uma regio onde o clima, dentro da classificao de Kppen, conhecido como Cfb, correspondendo ao clima temperado propriamente dito, com temperatura mdia no ms mais frio abaixo de 18 (mesotrmico), com veres fres cos, temperatura mdia no ms mais quente abaixo de 22 e sem estao seca definida (IAPAR, 2000 apud Cruz 2007). Segundo Maack (2002) apud Cruz (2007) a Escarpa Devoniana funciona como uma barreira orogrfica, possibilitando o aumento de chuvas nas reas de seu entorno, podendo atingir de 100 a 300 mm anuais a mais do que no Primeiro Planalto e na regio urbana de Ponta Grossa. A elevada disponibilidade de gua na rea da pesquisa fator crucial para o desenvolvimento das feies de dissoluo da rocha, t anto em superfcie quanto no interior da cavidade. 5. POTENCIAL ESPELEOL"GICO DA CAVERNA DA CHAMIN 5.1 Descrio Geral A Caverna da Chamin totalmente desenvolvida em arenitos da Formao Furnas, prximo da transio entre a Unidade Inferior e a Unid ade Mdia, conforme descreve Assine (1996). Esta transio observada pela presena de nveis de arenito conglomertico, caractersticos da Unidade Inferior, j a Unidade Mdia da Formao Furnas identificada na caverna pela presena de nveis silto arg ilosos e de icnofsseis. Outro fator que indica a localizao da cavidade na transio entre as duas unidades o desnvel em relao ao contato com o embasamento. A cavidade est situada a aproximadamente 300 metros do Salto Santa Brbara do Rio So Jorg e, na margem direita do canyon do Rio So Jorge. No h nenhum controle na visitao ao local, resultando em diversos impactos ambientais. Apesar da caverna estar localizada em ponto distante da poro mais visitada, a mesma j possui alguns danos causados pela ao antrpica, tais como o abandono de resduos slidos e a quebra de espeleotemas. Os ambientes mais conservados da cavidade constituem aqueles onde o acesso dificultado por fatores diversos, como fraturas apertadas, galerias com presena de bloc os o acesso s possvel com equipamentos e aplicao de tcnicas verticais. Apresentando 307 metros de desenvolvimento linear e 35 metros de desnvel, conforme apresentam Pontes e Massuqueto (2010) e send o umas das maiores cavernas do Sul do Brasil desenvolvida em arenito, a Caverna da Chamin (figuras 4 e 5), alm de possuir trechos predominantemente horizontais, semi verticais e verticais, predominantemente seca, possui apenas dois pequenos canais de gua em um de seus compartimentos. A cavidade apresenta notvel beleza cnica e se revela um impressionante ambiente para estudos diversos, envolvendo diferentes reas do conhecimento. Trata se de um bom local para observar os processos e feies diversas, os quais evidenciam a ocorrncia de significativo processo de dissoluo do arenito. Morfologicamente a caverna pode ser dividida em trs compartimentos de acordo com caractersticas distintas. Para facilitar na descrio e identificao dos compartimentos foram adicionados nomes para cada um, sendo eles: Compartimento Z do Caixo, Compartimento Chamin e Compartimento Fenda Nova (figuras 6 e 7). Estes trechos possuem tipos de desenvolvimento diferenciados entre si (vertical, semi vertical, horizontal), a lm de apresentarem diferentes tipos de galerias, estruturas, feies e formatos.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 117 Figuras 4 e 5 : aspecto geral da Caverna da Chamin (Figura 5 Foto: F.M. Schamne ) Figura 6: m argem direita do Canyon do Rio So Jorge, localizao da Caverna da C hamin. E m amarelo: Compartimento Z do Caixo; vermelho: C ompartimento Chamin; azul: Compartimento Fenda Nova. As setas indicam os acessos aos compartimentos.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 118 Figura 7: l evantamento topogrfico da Caverna da Chamin. 5.2 Estruturas Tectnicas Na Cav erna da Chamin se destacam duas direes principais: N10W e N35W. Estas duas estruturas so marcantes, alm de serem as maiores, notavelmente, controlam a formao da cavidade. Estas estruturas so formadas pela influncia de um feixe de falhas presente na regio de direo predominante N45W (ver figura 3) na qual est encaixado o Canyon do Rio So Jorge. Alm das duas estruturas principais outras ramificaes foram encontradas, passagens apertadas foram formadas por estruturas de quebra do corpo rochos o e quedas de blocos. Estas ramificaes esto espalhadas pela cavidade subterrnea, sendo controladas por vrias direes, estas diferentes da estrutura principal. Nota se que a caverna um sistema de fendas, possuindo uma estrutura principal e vrias ra mificaes (PONTES, 2009). O histograma de roscea apresenta 35 medidas realizadas no interior da caverna, mostrando as estruturas e suas direes (figura 8). O resultado aponta que as duas principais estruturas da caverna esto nas direes N10W e N35W, apresentando um total de sete medidas para cada uma destas. Uma terceira tendncia de direo aponta para N45E, com um total de seis medidas, indica a presena significativa de estruturas transversais ao Arco de Ponta Grossa. Estas fendas e fraturas de d ireo NE SW so bastante comuns na rea, sua gnese pode ser relacionada com a influncia de estruturas presentes em rochas subjacentes e suas reativaes, indicando que tais estruturas so refletidas nos arenitos da Formao Furnas e possivelmente em out ras rochas sobrepostas ao embasamento. Outras 15 fraturas foram medidas mostrando as seguintes direes: N75E; N60E; N30E; N15E; N60W; N75W e N85W. Estas estruturas apresentam menor expresso em largura, altura e comprimento, so visveis no interi or da caverna no sendo possvel identific las em superfcie. A identificao e medio de 35 fendas e fraturas, estas distribudas em toda a caverna e encaixadas em dez direes diferentes, mostra tratar se de um corpo rochoso fortemente fraturado. Este fraturamento forma o intrincado sistema de passagens subterrneas com controle estrutural observado na Caverna da Chamin. Em uma escala de maior detalhe, ressalta ainda a existncia de micro fraturas e fissuras de escala microscpica

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 119 espalhadas pela rocha Esta caracterstica indica alta permeabilidade de fratura, fcil entrada de gua no corpo rochoso, presena de escoamento subterrneo de guas pluviais e fluviais, formao de cavidades, dissoluo da rocha, abatimentos e colapsos, alm de influenciar na modelagem do relevo em superfcie. Figura 8: histograma de roscea indicando fraturas presentes na Caverna da Chamin. 5.3 ESPELEOTEMAS Vrios espeleotemas foram encontrados na caverna, apesar de pequenos so bastante significativos, principalmente po r sua ocorrncia nos arenitos da Formao Furnas (Figuras 9 e 10). A precipitao de minerais atravs do processo de infiltrao, dissoluo e deposio difcil de ser encontrada nesta rocha, mas em locais onde a umidade preservada, notam se espeleotem as milimtricos a centimtricos no interior de cavernas ou at mesmo em planos de estratificao do arenito em exposies na superfcie (PONTES, 2009). Melo et al. (2007), afirmam que algumas feies de relevo tpicas da regio dos Campos Gerais do Paran indicam significativos processos de dissoluo de minerais constituintes da rocha, a par da eroso mecnica dos gros: sumidouros, furnas, depresses e cavernas seriam alguns exemplos destas feies. Os espeleotemas encontrados na Caverna da Chamin eviden ciam a dissoluo principalmente do cimento caulintico e do quartzo, fazendo com que o termo carste no seja restritamente relacionado ao tipo de rocha, mas sim com a presena da dissoluo, fato evidente nos arenitos da Formao Furnas. A presena de esp eleotemas compostos sobretudo de caulinita e slica indica que ocorre carstificao nos arenitos da Formao Furnas, sendo um dos melhores exemplos de feies tpicas de carste no carbontico. A Caverna da Chamin o exemplo mais notvel de presena de e speleotemas no s pela quantidade deles ali existente, mas tambm pela variedade, no que se refere forma destas precipitaes minerais. A formao dos espeleotemas est relacionada com diversos fatores. O agente principal da formao destas feies a gua levemente acidificada, contendo cido carbnico e tambm cidos orgnicos. Queixo e Moinho (1991) e Ganor e Lasaga (2005) apud Melo e Giannini (2007) apresentam que a dissoluo do cimento caulintico aumenta com a presena de cidos orgnicos, princ ipalmente cido oxlico (H 2 C 2 O 4 ), provenientes de atividade microbiana e/ou decomposio de matria orgnica. J para a dissoluo do quartzo, Wray (1997), ressalta que o pH da gua um fator condicionante, pois ocorre a dissoluo da slica em condies hipercidas. Vale ressaltar que diversos estudos apresentam que a dissoluo da slica ocorre em condies alcalinas e no cidas, contrapondo se ao estudo apresentado por Wray (1997). Figura 9 : e speleotema coralide comum de ser encontrado na Caverna d a Chamin Galeria principal Compartimento Chamin Figura 10: e speleotema coralide comum de ser encontrado na Caverna da Chamin Galeria principal Compartimento Chamin.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 120 Ainda no h estudos detalhados sobre a ao qumica das guas nos arenitos d a Formao Furnas, sendo de grande necessidade a execuo de mais estudos para compreender os fatores envolvidos no processo de formao dos espeleotemas. O que foi realizado nesta pesquisa trata se de anlises de trabalhos clssicos sobre a dissoluo de minerais, principalmente o quartzo, este considerado como um dos minerais ultraestveis. Melo (2010) relata que alm da natureza dos arenitos, ou seja, sua composio mineral, as estruturas rpteis tambm tm um papel controlador no desenvolvimento dos pr ocessos erosivos superficiais e subterrneos. As descontinuidades presentes na Caverna da Chamin permitem a infiltrao concentrada da gua nestes locais, possibilitando marcante dissoluo do arenito e quantidade expressiva de espeleotemas. Nota se que e m certos locais os espeleotemas se dispem alinhados e orientados paralelamente de acordo com a estratificao dos arenitos, indicando que os planos de estratificao e de acamamento contribuem significativamente para a infiltrao da gua e consequente di ssoluo da rocha e precipitao de minerais. Alm destas caractersticas, o microclima do ambiente caverncola influencia na formao destas feies, pois correntes de ar podem impedir que as gotas de gua fiquem pendentes no teto, impedindo assim, o pro cesso de precipitao do mineral em soluo. A temperatura da cavidade tambm um fator essencial para a formao dos espeleotemas. Tal fato evidencia a importncia de estudos de impacto em ambientes caverncolas, pois comum ocorrer a condensao da umi dade do ar em cavernas abertas visitao, principalmente quando da presena de grupos com nmeros de pessoas acima do suportvel, sendo que estes episdios podem modificar significativamente na formao de espeleotemas, bem como gerar outros impactos neg ativos. 5.4 Espeleognese A Chamin, apesar de apresentar significativa dissoluo em sua formao, considerada uma caverna estrutural, ou seja, suas galerias mostram forte controle pelas estruturas tectnicas que fraturaram todo o corpo rochoso. A ca vidade est encaixada em duas direes principais N10W e N35W, onde um afastamento dos blocos rochosos resultou em uma grande fenda que posteriormente sofreu alargamento erosivo e quedas de bloco do topo e paredes, proporcionando a formao da caverna. C onforme aponta o trabalho de Pontes e Massuqueto (2010) a caverna da Chamin, como outras cavidades estruturais da Formao Furnas, enquadra se na proposta de classificao de cavernas no carbonticas de Finlayson apresentada no trabalho de Esch (1991) ap ud Hardt (2003). Esta classe considera cavernas em juntas, dividida em juntas abertas e juntas fechadas, conforme apresentada em Hardt (2003): seriam formadas em juntas com o topo aberto para o exterior e este estaria preenchido por detritos. No caso de juntas fechadas, a cavidade estaria totalmente inserida entre juntas, eventualmente com algum acesso ao exterior devido a uma falha ou fratura que 2003, p. 53). A Caverna da Cham in composta por juntas abertas e fechadas e sua gnese est relacionada principalmente sua localizao geogrfica. A proximidade da Escarpa Devoniana ressalto topogrfico que marca a transio do Primeiro para o Segundo Planalto Paranaense possibi lita a existncia de canyons Devido ao fato do Canyon do Rio So Jorge estar situado em falha geolgica NW SE, diversas fendas e fraturas, transversais e paralelas estrutura principal de falha, retalham o corpo rochoso, possibilitando a existncia de in meras cavidades subterrneas. notvel a presena de carstificao na rocha, alargando as aberturas, que se soma ao importante controle estrutural na gnese da cavidade. As ornamentaes presentes nas cavernas (espeleotemas diversos) tambm comprovam a ao, mais recente, da gua no corpo rochoso por meio de fraturas e micro fissuras, realizando a dissoluo do arenito, principalmente da caulinita e tambm do quartzo. Alm dos espeleotemas, pequenos canais de gua que percorrem parte da caverna realizam constantemente o alargamento de fendas e fraturas. Esta alta densidade de fraturas facilita a entrada de gua no corpo rochoso, que por sua vez possibilita a dissoluo do cimento e arenizao da rocha por guas acidificadas, causando a desagregao e ins tabilidade do macio e criando a possibilidade de ocorrncia de desmoronamentos. Ao verificar as caractersticas presentes na caverna, so sugeridas cinco fases para a formao da mesma: 1 Soerguimento regional: o Arco de Ponta Grossa soergueu toda a re gio gerando grandes falhas, fraturas e diques, possibilitando alta permeabilidade por fraturas nos arenitos da

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 121 Formao Furnas. Estas estruturas tectnicas geradas pelo arqueamento da crosta permitiram que vrios rios encaixassem seus cursos e entalhassem vales e canyons profundos, muitas vezes, atingindo as rochas do embasamento. Estes canyons esto distribudos por toda a linha da Escarpa Devoniana, uma escarpa de cuesta, apresentando localmente controle estrutural, propiciando desnveis topogrficos e g radiente hidrulico acentuado. 2 Ao das guas subterrneas Esta permeabilidade por fratura (e tambm intergranular) do arenito possibilitou a ao erosiva das guas subterrneas, em um determinado momento no qual o nvel fretico estava acima do at ual, sendo capaz de alargar pores vazias da rocha, ampliando estruturas e criando outros canais e passagens. 3 Formao de fendas distribudas em canyons : com o rebaixamento do nvel fretico e a ao de processos erosivos exgenos estes vazios na roc ha (cavernas) aparecerem em superfcie, gerando grandes fendas (juntas abertas). Mesmo sabendo que estas quebras de menor expresso na rocha tenham sido geradas pelo arqueamento regional, o processo de alargamento pela ao das guas subterrneas tambm significativo. Atualmente, observa se claramente que estas estruturas tectnicas, moldadas pela ao hdrica, passaram por transformaes mais recentes, como por exemplo, acomodamento gravitacional dos blocos antes perturbados pelo tectonismo e processos e rosivos. Estes processos encobertaram as formas e feies crsticas mais antigas. 4 Desabamento e entulhamento da poro superior e no interior das fendas: as fendas so caracterizadas como uma distenso do corpo rochoso aberta para o exterior. Processo s intempricos atuantes nas linhas de fraqueza da rocha e a ao da gravidade geram o desabamento de blocos e transporte de sedimentos que entulham a poro superior das fendas e tambm seu interior. Este entulhamento desenvolve um teto que bloqueia a entr ada de luz, permitindo considerar como cavernas em junta aberta (fendas) de acordo com a proposta de Finlayson (ESCH, 1991 apud. HARDT, 2003). As cavernas enquadradas nesta proposta tm forte controle estrutural, mas no descartada a ao da dissoluo, principalmente no alargamento das galerias, dutos e sales. evidente que as estruturas sedimentares como os planos de estratificao e de acamamento dos arenitos so essenciais na formao destas cavidades. Por apresentar quebras e desmoronamentos de blo cos do teto e paredes, as feies que evidenciam processos crsticos so encobertadas e a caverna apresenta paredes mais irregulares, dando um aspecto unicamente estrutural gnese da caverna. 5 Processos crsticos (atuais) no interior das cavernas: a pesar de serem cavernas que apresentam marcante controle estrutural, ou seja, sua gnese devida, principalmente, aos processos tectnicos, os processos crsticos ocorreram desde o incio, com a ao das guas subterrneas. Atualmente, as guas pluviais e interior da cavidade) penetram no corpo rochoso atravs dos planos de estratificao e fraturas, causando a dissoluo da rocha, alargando passagens e formando singulares incrustaes minerais. A gua que se inf iltra na rocha causa a dissoluo qumica de minerais, como tambm a desagregao mecnica dos gros (arenizao) conforme apresenta Jennings (1983). Ressalta se que o processo de carstificao da rocha ocorre a partir do momento em que h disponibilidade de gua e rocha com permeabilidade intergranular e/ou por fraturas, lembrando que a composio mineralgica do arenito torna se fundamental. 5.5 Meio Bitico O meio bitico da Caverna da Chamin bastante singular e ainda pouco conhecido, assim como de o utras cavernas arenticas, pois h poucos estudos biolgicos nestes ambientes caverncolas. A presena de micro e macro organismos pode influenciar significativamente na eroso da rocha. Conforme apresenta Bouillon (1972) notvel que a presena de bactr ias acentua a decomposio das rochas deixando paredes de grutas completamente pelas bactrias facilita a eroso e contribui para o desmoronamento das grutas. Melo e Giannini (2007) e Pontes e Melo (2009) ap ontam a ao de microorganismos na formao de diversas feies erosivas na Formao Furnas, pois participam da esfoliao do arenito, permitindo a criao de reentrncias e facilitando a ao de outros processos erosivos. Na Caverna da Chamin nota se a p resena de micro organismos agindo em paredes, ocasionando a desagregao e esfoliao da rocha. Esta ao erosiva biolgica acrescentada com a ao da gua que escorre pelas paredes da caverna, causando quedas de blocos rochosos. Outro fator crucial se refere matria orgnica presente em superfcie, acima da caverna, pois possibilita a formao de

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 122 cidos orgnicos, capazes de dissolver os minerais que compem o arenito. Conforme aponta Willens (2000) micro organismos (bactrias) e demais organismos viv os (algas e liquens) podem produzir cidos orgnicos (como por exemplo o cido oxlico) e, em certos casos, cidos inorgnicos (por exemplo o cido sulfrico), capazes de corroer a rocha em superfcie ou em profundidades de at centenas de metros. Algumas observaes realizadas na Caverna da Chamin indicaram que colnias de micro organismos podem atingir vrios centmetros para dentro da rocha e por toda a parede, ocasionando rapidamente o enfraquecimento do arenito, fazendo que o mesmo se solte em placas verticais, indicando no se tratar dos planos de estratificao ou acamamento. A mesofauna presente na Caverna da Chamin apresenta grande importncia e diversidade, destacando se algumas espcies como: grilos caverncolas, os famosos opilies, barbeiro Z eluros (Figura 11), dentre outros. Figura 11: Barbeiro Zeluros, inseto comum nas cavernas arenticas da regio Compartimento Z do Caixo da Caverna da Chamin. Um dos bichos mais peculiares da Caverna da Chamin (indicado na legenda da figura 7) a larva denominada como vaga lume caverncola (Figura 12). Segundo Pontes e Massuqueto (2010) esta larva foi descrita pela primeira vez nas cavidades arenticas da regio e trata se, possivelmente, da larva de um mosquito (ainda no identificado) que possu i bioluminescncia, fazendo com que uma cpsula localizada em sua parte posterior, literalmente acenda uma luz verde azulada, atravs de uma reao qumica. Quando em grandes populaes, esta bioluminescncia produz cenas espetaculares no interior de caver nas, como as larvas com esta mesma caracterstica registradas em cavernas da Nova Zelndia e Austrlia (MERRITT e BAKER, 2001). lume larva com pouco mais de 1 cm) Compartime nto Z do Caixo da Caverna da Chamin. 5.6 Microclima Por estar localizado em uma regio com significativa disponibilidade hdrica a Caverna da Chamin serve como um ponto de entrada para as guas pluviais e fluviais, uma parte das quais se infiltra no a renito, dissolve a rocha e forma espeleotemas, enquanto a outra poro escorre pelas paredes causando o alargamento das fendas e fraturas. Esta gua percorre certos trechos, principalmente no Compartimento Fenda Nova (Figura 7), onde o fluxo constante, p ois alimentado por pequenas nascentes, at desaparecer em pequenas passagens formadas entre blocos de rocha amontoados. Supostamente, esta gua drena por meio de dutos estruturais e de dissoluo em direo ao Rio So Jorge, no vale do canyon formando s istemas de drenagens considerados como acesso, conforme ressalta Marques Neto (2008). Esta presena de lminas de gua em alguns pontos da caverna influencia diretamente na temperatura do ambiente caver ncola. No foram registradas temperaturas com equipamentos de medio, mas nas observaes constantemente realizadas nos trabalhos de campo, os quais ocorreram durante o ms de janeiro de 2009 a outubro de 2010, atravs de sensao trmica percebeu se tem peratura relativamente baixa nestes ambientes com presena de gua, chegando ao ponto de gerar elevado desconforto ao visitante. Nos locais onde no ocorre lmina de gua e as infiltraes so menores a temperatura amena e agradvel, independente da temp eratura em superfcie. Nota se a influncia da corrente de ar prximo s entradas e sadas da caverna, modificando a

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 123 temperatura nestes locais. primordial atentar s caractersticas micro climticas da caverna, pois este um fator crucial para a existn cia de determinados organismos, para a eroso da rocha, bem como influencia na formao de espeleotemas. Estudos mais detalhados sobre microclima em ambientes caverncolas arenticos devem ser realizados para ampliar a compreenso deste sistema crstico, o nde todos os elementos so conectados e interdependentes. 6. MEDIDAS DE PROTEO A Formao Furnas uma unidade rochosa considerada um aqufero estrutural e crstico, constituindo o manancial de guas subterrneas da regio e exercendo o papel de impor tante alimentador da drenagem superficial. O estudo desta unidade geolgica tem revelado caractersticas singulares, entre elas o comportamento crstico, que devem ser levadas em considerao nas polticas pblicas e durante o planejamento ambiental e urba no das cidades da regio. Observa se rpida expanso urbana sobre esta unidade rochosa e crescente extrao de gua do Aqufero Furnas, tornando se de suma importncia a realizao de pesquisas que contribuam para o melhor gerenciamento e conservao do pa trimnio e dos recursos naturais regionais. Segundo Pigurim (2010), o Aquifero Furnas apresenta guas de qualidade, podendo ser classificadas como guas minerais. Toda a rea de afloramento da Formao Furnas no Municpio de Ponta Grossa rea de recarga deste aqufero considerado crstico e estrutural (MELO, 2009), ou seja, toda esta rea deve ter prioridade para preservao. O uso das guas subterrneas no Aqufero Furnas deve ser controlado por rgos responsveis, para que no ocorra extrao predatri a, podendo tambm influir na configurao do relevo, ocasionando abatimentos. Segundo o trabalho de Bagatim (2010), estudo dos poos tubulares no Municpio de Ponta Grossa mostra que o aqufero furnas varivel, apresentando descontinuidades (estruturas r pteis e sedimentares), como tambm trechos de vazios, caracterizando a presena de cavidades subterrneas. Empreendimentos que apresentem riscos de impactos ambientais no devem ser instalados sobre o sistema crstico dos arenitos da Formao Furnas, poi s por se tratar de uma rea de recarga de aqufero, altamente permevel, no se pode correr riscos de contaminao das guas subterrneas e superficiais. Alm dos impactos causados no meio abitico, necessrio salientar sobre os riscos que o meio bitico presente no s em superfcie como tambm em subsuperfcie, est sujeito a correr. Como este trabalho aponta, h muitos insetos e outros animais que utilizam as cavernas como refgio ou at mesmo para se alimentarem, atentando que na Caverna da Chamin o correm espcies no identificadas de insetos, alguns considerados animais troglfilos, os quais dependem da caverna em parte de suas vidas para se desenvolverem e sobreviverem. necessrio ressaltar a importncia tanto da biodiversidade (insetos, plantas, micro organismos), mas tambm da geodiversidade (gua, solo, rocha, ar) presente no endocarste e exocarste da Formao Furnas. Uma das caractersticas que devem ser ressaltadas neste trabalho, refere se ao conjunto de falhas, fendas e fraturas presentes n a regio e que foram melhor visualizadas na Caverna da Chamin. Em locais onde ocorrem estruturas rpteis, de escala que varia de uma a vrias centenas de metros, h tambm vrias outras estruturas de menor porte que recortam o corpo rochoso para todas as direes, lembrando que estas estruturas, sejam fendas, fraturas e at mesmo as cavernas estruturais, geram espaos vazios que com o tempo podem vir a ocasionar desmoronamentos internos, sendo possvel influir no relevo em superfcie. Estes aspectos aponta m para a possibilidade de riscos geoambientais, tais como os abatimentos de terreno, comuns de acontecerem em reas carbonticas. A partir das caractersticas singulares que este relevo crstico apresenta, sugerem se algumas medidas de proteo nos Municp ios dos Campos Gerais do Paran que apresentem reas de afloramento da Formao Furnas: Gerenciamento da explorao e uso dos mananciais subterrneos e superficiais; Controle da expanso urbana sobre o relevo da Formao Furnas; Proibio da instala o de empreendimentos do setor privado e/ou pblico que apresentem atividades de risco ao ambiente (aterros, indstria qumica, explorao mineral, etc); Divulgao da geoconservao (conservao do patrimnio geolgico, hidrolgico e pedolgico) para a sociedade, comunidade cientfica e rgos pblicos e privados; Realizao de atividades de cunho cientfico, educacional e ambiental; Mudanas nas polticas pblicas, com o intuito de obter leis embasadas nas caractersticas do relevo da Formao Furna s;

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 124 Reforo na proteo do relevo crstico (superficial e subterrneo) da Formao Furnas nos Planos Diretores Municipais. 7. CONSIDERA'ES FINAIS A Caverna da Chamin essencialmente estrutural, mas claramente reafeioada por processos crsticos. A re a de estudo apenas uma pequena poro de um vasto territrio, no qual ocorre carstificao. Ainda h muitas cavernas a serem encontradas em arenitos da Formao Furnas, apresentando um variado repertrio de estudos a serem realizados, abordando temas com o ocorrncias de drenagem subterrnea, avaliao ecolgica das cavernas arenticas, mapeamentos espeleolgicos, avaliao do aqufero, riscos de subsidncias e colapsos, entre outras pesquisas. Estes locais possuem feies diversas, ainda pouco estudadas na regio, como os espeleotemas e dutos de dissoluo, os quais apresentam grande relevncia para a compreenso dos processos erosivos ocorrentes nos arenitos e consequentemente para o melhor entendimento da geomorfognese regional. necessria a realiza o de trabalhos, nas mais diversas reas do conhecimento, com o intuito de melhorar a gesto destes locais, alertando aos rgos gestores e fiscalizadores sobre as singularidades e os processos ocorrentes nestes ambientes, juntamente com seu reflexo na con figurao do relevo e em toda a paisagem. Conclui se que o relevo da Formao Furnas apresenta caractersticas de um relevo crstico, apresentando formas e processos semelhantes aos ocorrentes em rochas carbonticas, como calcrios e dolomitos, embora com intensidade e velocidade diferentes. As polticas pblicas devem ser reavaliadas e reestruturadas a partir das caractersticas naturais que a paisagem regional apresenta, sendo assim, a gesto do territrio no relevo em questo deve ser criteriosamente co ntrolada, a fim de proteger os recursos naturais e prevenir possveis acidentes geoambientais. AGRADECIMENTOS Aos amigos do Grupo Universitrio de Pesquisas Espeleolgicas (GUPE), aos Mestrandos Las Luana Massuqueto e Heder Leandro Rocha, e ao Professor Dr. Gilson Burigo Guimares por todas as ajudas nos trabalhos de campo e durante a construo deste estudo. Sinceros agradecimentos a Fbio Luiz Batista Barros (Binho) por nos mostrar a caverna e aos revisores pelas sugestes que contriburam para a constr uo do texto final REFERENCIAS BIBLIOGRFICAS ASSINE, M. L. Aspectos da estratigrafia das seqncias pr carbonferas da Bacia do Paran no Brasil. Tese de doutorado. Programa de Ps Graduao em Geologia Sedimentar, So Paulo, 1996. ASSINE, M.L.F.; A LVARENGA, C.J.S.; PERINOTTO, J.A.J. 1998. Formao Iap: glaciao continental no limite ordoviciano/siluriano da Bacia do Paran. Revista Brasileira de Geocincias, So Paulo, v.28, n.1, p.51 60. BAGATIM, H.Q. Utilizao das guas subterrneas em Ponta Gr ossa, PR 2010. 75p. Monografia (Trabalho de Concluso de Curso de Bacharelado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade Estadual de Ponta Grossa. BIGARELLA, J. J.; BECKER, R. D.; SANTOS, G. F. Ao do intemperismo qumico sobre as rochas. I n. Estrutura e origem das paisagens tropicais e subtropicais 2 ed. Florianpolis: Ed. da UFSC, 2007. Cap. 3, p. 110 190. BOUILLON, M.. A Espeleogenese. In: Descoberta do Mundo Subterrneo. Lisboa: Edio Livros do Brasil, 1972. p. 133 193. CRUZ, G. C. F .. Alguns aspectos do clima dos Campos Gerais. In: MELO, M. S.; MORO, R. S.; GUIMARES, G. B. Patrimnio natural dos Campos Gerais do Paran. 1. ed. Ponta Grossa: UEPG, 2007. cap. 5. p. 59 72. DEMATTEIS, G.. Manual de la Espeleologia. Editorial Labor S.A ., Barcelona, 1975.

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Pontes & Melo Caverna da Chamin, Ponta Grossa, PR Brasil SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 126 PONTES, H.S. Caverna da Chamin, Ponta Grossa, Paran exemplo de relevo crstico na F ormao Furnas 2010, 92p. Monografia (Trabalho de Concluso de Curso de Bacharelado em Geografia), Departamento de Geocincias, Universidade Estadual de Ponta Grossa PONTES, H.S., MASSUQUETO, L.L.. Levantamento espeleolgico preliminar das cavernas arent icas do Canyon do Rio So Jorge, Ponta Grossa PR. Anais do II Simpsio Sul Brasileiro de Espeleologia, Ponta Grossa PR 2010, p. 53 68. PONTES, H.S; MELO, M.S.. Processos erosivos superficiais e subterrneos em arenitos da Formao Furnas na regio do s Campos Gerais do Paran. Anais do XVIII EAIC 30 de setembro 2 de outubro de 2009, Londrina PR. SOUZA, C.R.G.; SOUZA, A.P.. O Escarpamento Estrutural Furnas, SP/PR. Raro stio geomorfolgico brasileiro. In. SCHOBBENHAUS, C.; CAMPOS, D.A.; QUEIROZ, E.T.; WINGE, M.; BERBERT BORN, M. (Eds.), Stios Geolgicos e Paleontolgicos do Brasil SIGEP 2004, p. 299 306. WILLEMS, L. (2000). Phnomnes karstiques en roches silicates non carbonates. Cas des grs, des micaschistes, ds gneiss et des granites en Afrique sahlienne et quatoriale Thse de doctorat, 257 p., 145 figs., 137 photos, Universit de Lige, Belgique., Juillet 2000. WRAY, R.A.L. Quartzite dissolution: karst or pseudokarst? In. Cave and Karst Science 24 (2), 1997, 81 8 ZALN, P. V.; WOLFF, S.; CONCEIO, J. C. J; MARQUES, A.; ASTOLFI, M. A. M.; VIEIRA, I. S.; APPI, V. T.; ZANOTTO, O. A. Bacia do Paran. In: GABAGLIA, G. P. R.; MILANI, E. J. Origem e evoluo de Bacias Sedimentares. 2. ed. Rio de Janeiro: Gvea, 1990. cap. Bacia do Paran. p 135 168 Fluxo editorial : R ecebido em: 18 0 3 .20 1 1 Corrigido em: 05 .0 5 .2011 Aprovado em: 09 0 6 .201 1 A revista Espeleo Tema uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.cavernas.org.br/espeleo tema.asp

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 127 CAVERNAS EM ARENITO NO PLANALTO RESIDUAL DO TOCANTINS SANDSTONE CAVES IN THE PLANALTO RESIDUAL DO TOCANTINS Fernando Morais (1) & Saulo da Rocha (2) (1) Gegrafo, Professor Adjunto da Universidade Federal do Tocantins UFT Porto Nacional TO (2) Gegrafo, Acadmico da Universidade Federal do Tocantins UFT Porto Nacional TO Contatos: morais@uft.edu.br ; oluasgeo@hotmail.com Resumo A maioria dos estudos de cunho espele olgico adota reas de rochas carbonticas como alvo de investigao. Isso pode ser explicado pelo fato destas rochas perfazerem aproximadamente 17 20% das reas continentais da Terra. Por isso, ainda so poucos os exemplos de estudos de feies crsticas desenvolvidas em rochas no carbonticas. Assim, o presente trabalho tem por objetivo a caracterizao espeleogentica de feies crsticas geradas em rochas siliciclsticas do Planalto Residual do Tocantins da bacia sedimentar do Parnaba. Alm de refleti r sobre a evoluo geolgica das cavernas ali desenvolvidas. De maneira geral, observaes de campo comparadas com a reviso de literatura acerca do tema sustentam a proposio de que as cavidades desenvolvidas nas escarpas dessa grande feio geomorfolgi ca so seguramente de natureza crstica. Observou se ainda, que as cavernas dessa regio possuem sua gnese ligada a uma fase inicial de circulao forada, seguida de circulao livre Palavras Chave : Geomorfologia Crstica ; Arenito ; Tocantins Abstract Most of the speleological studies adopt places of carbonate rocks as investigation object. That can be explained by the fact of these rocks compose approximately 17 20% of the continental areas of the Earth. Therefore, they are still few the examples of st udies of karst features developed in non carbonate rocks. In that inclination, the present work had for goal the speleological characterization of karst features generated in siliciclastics rocks of the Planalto Residual do Tocantins of the Parnaba Sedime ntary Basin. Besides contemplating there about the geological evolution of the caves developed. In a general way, field observations compared with the literature revision concerning the theme they sustain the proposition that the cavities developed in the scarps of that large geomorphologic feature are surely of karstic nature. It was still observed, that the caves of that area possess your genesis linked to an initial phase of forced water circulation, followed by free circulation Key Words : Karst Geomorp holog y; Sandstone; Tocantins State 1. INTRODUO O termo carste tem sua origem relacionada ao relevo desenvolvido a partir de dissoluo de rochas carbonticas (GAMS, 1993; FORD e WILLIAMS, 2007). Contudo, h algumas dcadas formas tipicamente crsticas comearam a ser observadas em macios no carbonticos (WERNIK et al. 1976; HARDT, 2004; MELO; GIANNINI, 2007). Tais feies foram denominadas pseudocrsticas, pois no apresentavam, inicialmente, indcios de dissoluo qumica. Segundo Guerra e Guerra (1 997), o termo pseudocarste utilizado para caracterizar formas de relevo desenvolvidas em rochas no carbonticas, e foi bastante utilizado no Brasil, assim como em outros lugares no mundo, para descrever feies situadas em arenitos e quartzitos, alm da quelas em terrenos laterticos. Entretanto, h algumas dcadas os estudos de geomorfologia do carste vm evoluindo bastante, e vrios autores j argumentam que feies desenvolvidas em arenito podem ser designadas crsticas (VITEK, 1983; WRAY, 1997; HARDT, 2004; THIRY, 2007, WILLEMS et al. 2008; WRAY, 2009), embora a magnitude dos processos sejam diferentes. Considerando que a gnese da maioria das cavernas em arenito, de uma forma ou de outra, envolve a dissoluo de material, a utilizao do termo pseudo carste, em funo da carncia de um modelo morfogentico, tornar se ia uma impropriedade. Neste sentido, o conceito de carste evoluiu com o passar do tempo, e atualmente o termo pode ser aplicado a um sistema integrado com transferncia de massa, que apres ente uma permeabilidade estrutural dominada por condutos

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 128 resultantes da dissoluo da rocha, e organizado de forma a facilitar a circulao de fluidos (KLIMCHOULK e FORD, 2000). Mesmo possuindo um grande potencial para ocorrncia de cavernas em rochas no carbonticas, o Estado do Tocantins possui poucas feies desta natureza cadastradas no CNC (Cadastro Nacional de Cavidades/SBE), evidenciando a carncia de estudos espeleolgicos nesta poro do Brasil. Com intuito de colaborar para a evoluo do conhecim ento acerca dos processos espeleogenticos em rochas no carbonticas, o presente trabalho teve como principal objetivo, dar continuidade aos trabalhos iniciados por Morais e Souza (2009) acerca da caracterizao espeleolgica de cavernas arenticas do Pla nalto Residual do Tocantins (Figura 1). Alm de refletir sobre a evoluo geolgica das cavernas identificadas na rea de estudo. Figura 1 Planalto Residual do Tocantins, representado pela rea de maior elevao a leste do rio Tocantins na poro cen tral da figura (IBGE, 2006).

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 129 2. REA ESTUDADA As feies estudadas desenvolvem se sobre rochas arenticas da Bacia do Parnaba, que, por sua vez, composta por coberturas Cenozicas, Complexos Metamrficos e Faixa de dobramentos do Proterozico Mdio a S uperior. Esta bacia caracterizada por uma deposio predominantemente siliciclstica, alm de ocorrncias de calcrio, anidrita, slex, diabsio e basalto, que ocorrem de forma subordinada (G"ES e FEIJ", 1994). As feies estudadas pertencem ao Grupo Can ind, que localmente representado por arenitos de granulometria fina a grossa, siltitos foliceos ferruginosos, argilitos, nveis conglomerticos e microconglomerticos subordinados, todos pertencentes Formao Pimenteiras, que juntamente com as Forma es Cabeas e Long constituem o citado grupo (RADAMBRASIL, 1981). Os arenitos da Formao Pimenteiras so de idade givetiana frasiana (Devoniano), apresentam granulometria muito fina, e possuem sua gnese ligada a um ambiente nertico de plataforma domina da por tempestades (G"ES e FEIJ", 1994). A geomorfologia da rea dominada por feies do Planalto Residual do Tocantins, que composto por trs compartimentos de relevo, que recebem as denominaes locais de Serras do Lajeado e do Carmo, Serra Malhada Alta e Serra Maria Antnia (BRASIL, 1981). O clima predominantemente mido submido com moderada deficincia hdrica, com mdia anual de precipitao de 1500 1600 mm/ano e temperatura mdia anual variando de 26 28C. No tocante vegetao, as reas em que se encontram as cavidades estudadas pertencem ao bioma Cerrado, com predomnio de vegetao semidecidual com presena de babauais (SEPLAN, 2005). 3. MATERIAL E MTODOS Para o desenvolvimento do estudo, primeiramente, foi feita uma consulta junto popula o local, visando coleta de informaes acerca da existncia de cavidades situadas nas dependncias do Planalto Residual do Tocantins. Depois, foram realizadas atividades de campo, que constituram prospeco, mapeamento e caracterizao das cavidades. Pa ra tal, adotou se o mtodo de trena e bssola com grau de preciso BCRA 4C. A caracterizao das cavidades se deu atravs do preenchimento de fichas segundo os procedimentos propostos por Dias (2003). A ficha elaborada por esse autor visa o detalhamento da s caractersticas espeleomtricas (medidas dos condutos e sales, altura do macio, dentre outras), condies hidrolgicas e hidrogeolgicas, aspectos bioespeleolgicos, paleontolgicos, arqueolgicos e condies de conservao da cavidade e seu entorno. A lm de esboo sobre os condicionantes geolgicos intervenientes na formao e desenvolvimento das feies. Ao final dos trabalhos de campo, foi sistematizada a anlise integrada dos dados coletados e elaborados mapas espeleolgicos das cavernas, alm de co nsideraes sobre a espeleognese das mesmas. 4. RESULTADOS E DISCUSSO Durante os trabalhos de campo foram visitadas e mapeadas dez cavidades situadas no Planalto Residual do Tocantins (Quadro 1). Morais e Souza (2009) apresentam uma descrio inicial das c avidades denominadas Gruta da Fazenda do Raimundo, Gruta do Sr. Mundico, Gruta Faz. Ivoneide e Gruta Faz. Sra. Terezinha. Assim, so aqui feitas consideraes com maior detalhamento das cavernas mapeadas aps a publicao dos trabalhos de Morais e Souza (2 009), sendo feitas ainda algumas consideraes de cunho geral acerca das cavidades j descritas por esses autores. Figura 2 Carta estratigrfica do Grupo Canind, Bacia Sedimentar do Parnaba (ANP, 2002).

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 130 Q uadro 1 Cavidades mapeadas na rea de es tudo. CAVERNA MUNICPIO COORDENADAS DESENVOLVIMENTO Gruta do Sr. Mundico Palmas 82m Gruta do Raimundo Palmas 105m Gruta Fazenda Sra. Terezinha Palmas 39,1m Gruta Fazenda Evoneide Palmas S 1 33,1m Gruta do Impressionado Palmas 6 6 9m Caverna do Evilson Palmas 29,10m Gruta da Paca Porto Nacional 27m Caverna da Fumaa Miracema do Tocantins S0940'32,4" W483 5'31,1" 176.79m Gruta do Desenho Monte do Carmo Dados no coletados 15m Furna da Ona Monte do Carmo Dados no coletados 21,95m A Gruta do Impressionado (Figura 3) possui 9 metros de desenvolvimento e projeo horizontal. Trata se de um pequeno abrigo sem espeleotemas ou outras feies ou outras feies espeleolgicas que chamam ateno, mas que ganha importncia quando observada sua proximidade de um grande painel de pinturas rupestres ornamentado por ilustraes que, quando comparadas quelas mostrad as por Prous (1992), podem ser atribudas s tradies So Francisco e Nordeste, com pinturas de antropomorfos e zoomorfos associadas a formas geomtricas (Figuras 4 e 5). Mesmo no tendo sido feitas escavaes, esta feio apresenta um potencial arqueolg ico, tendo em vista que o nico abrigo prximo do citado painel de arte rupestre. Nas paredes dessa cavidade, observam se processos de arenizao atuando de maneira diferencial nas camadas da rocha. Situada a aproximadamente 20 metros da margem esquerda do ribeiro Taquaruu Grande no distrito de Taquaruu, municpio de Palmas, a Caverna do Evilson (Figura 6) constituda por trs condutos subparalelos. Mesmo no tendo sido observadas fraturas no teto e no piso desta cavidade, a partir do seu padro de d esenvolvimento, pode se inferir que a mesma possui sua gnese associada ao controle estrutural seguido do controle escultural, caracterizado pelo rebaixamento do nvel de base local atravs da escavao do vale do ribeiro Taquaruu Grande. Prximo a caver na, em direo montante situa se a cachoeira do Evilson, um dos pontos tursticos mais visitados do distrito de Taquaruu, que constitui a principal rea turstica do municpio de Palmas. Pela sua proximidade com essa cachoeira e seu fcil acesso, a Cave rna do Evilson, apesar de pequena e pouco ornamentada, apresenta bom potencial para visitao controlada e em grupos reduzidos. Figura 3 Gruta do Impressionado. Constituda por um nico conduto em forma de semi elipse horizontal, Furna da Ona (Figur a 7)

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 131 parece ter sido formada por processos espeleogenticos controlados pelo fluxo subsuperficial lateral, controlado pelo gradiente hidrulico da encosta na qual esta feio se instalou. Esta feio no apresenta significativos espeleotemas, mas possui em suas paredes incrustaes alumino ferruginosas que podem ajudar na interpretao de variaes paleoambientais. Figura 4 Detalhes de pinturas rupestres prximo Gruta do Impressionado. (FOTO: Fernando Morais). Figura 5 Painel de pinturas rupestr es prximo Gruta do Impressionado. (FOTO: Fernando Morais). A Gruta da Paca constituda por um nico conduto com 27 m de projeo horizontal com seo transversal predominantemente elipsoidal horizontal. Essa feio possui sua gnese controlada por fl uxos subsuperficiais. Tal controle pode foi constatado a partir da observao de nascente no final da cavidade. O desenvolvimento atual desta feio tambm dominado por fluxo hdrico, denunciado pela ocorrncia de seixos rolados por toda a cavidade, alm da presena de pequeno escoamento superficial perene no piso da cavidade. Thiry (2007) ressalta que a percolao lateral da gua subsuperficial condicionada pela variao na permeabilidade dos estratos e a ocorrncia de zonas de menor resistncia nos plan os de estratificao constituem um condicionante ao desenvolvimento de feies cavernosas em arenito. Neste sentido, acredita se que a gnese dessa gruta se deu no contado entre a camada mais porosa e permevel (arenito conglomertico) e outra constituda por sedimentos mais finos (argilito) que, com o auxilio do gradiente hidrulico, foraram a gua seguir para a escarpa da feio cuestiforme em direo ao sop da encosta. Nessa gruta pode se observar a ocorrncia de pequenas estalactites de colorao ocre (Figura 8), evidenciando o processo de dissoluo. Figura 6 Caverna do Evilson. A Caverna da Fumaa (Figura 9) foi descoberta ou tomou notoriedade a partir da reclamao da populao de um assentamento a 40 km da cidade de Miracema do Tocantins. No dia 07 de maio de 2010, componentes do Tocantins Espeleo Grupo TEG, grupo de espeleologia ligado Universidade Federal do Tocantins UFT, foram solicitados a ajudar tentar explicar as possveis cavidade e m arenito prximo ao assentamento Brejinho. Chegando ao local, foi possvel notar que se tratava de um incndio em um grande depsito de guano. A rea isolada e interditada pelo Instituto Natureza do Tocantins NATURATINS para evitar acidente com a popula

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 132 Figura 7 Furna da Ona. Depois de quase dez meses, a caverna foi ento mapeada, podendo assim ser descrita: Trata se de uma feio condicionada por grandes fraturas, sendo a mais significativa desenvolvida na direo NE SW que condicion ou o desenvolvimento do conduto principal da cavidade. A feio foi escava no arenito, tendo seu teto suportado por um estrato mais resistente (siltito). Pelo fato de ter se observado uma nascente a aproximadamente 10 metros a jusante da boca da caverna, p ode se inferir que esta possui sua gnese condicionada pelos mesmos processos que deram origem a Gruta da Paca, descrita anteriormente Figura 8 Estalactites no carbonticas. (FOTO: Fernando Morais). Figura 9 Caverna da Fumaa.

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 133 Uma caracter stica que chama a ateno nesta Bell holes p. 78) podem ser denominados como cylindrical, cigar shaped, blind cavities extending vertically upwards into the roofs of caves, generally less than 1 m in diameter and 2 m in height Para estes autores, diferentemente das cpulas de dissoluo, estas feies no possui correlao com circulao hdrica, sendo formadas posteriormente abertura das galerias. James (2006) atr ibui a formao destas feies atuao do intemperismo qumico atravs da corroso por condensao. Nas paredes da caverna, tambm foi possvel notar a atuao do processo arenizao, que remove o cimento da rocha encaixante, alargando as galerias subter rneas (CARREO e URBANI, 2004; WRAY, 2009). Esta cavidade possui considervel concentrao de guano que constitui um empecilho visitao sem equipamentos de proteo. Como conseqncia do incndio ocorrido em maio de 2010, foi possvel notar uma grande quantidade de animais mortos no interior da cavidade (centenas de morcegos, milhares de baratas, alm de outros animais menores). A Gruta do Desenho, situada no municpio de Monte do Carmo, constitui uma pequena cavidade que, a exemplo da Gruta do Impressi onado, ganha importncia a partir da observao do seu potencial arqueolgico, demonstrado pela ocorrncia de pictografias de formas geomtricas, alm de amoladores Essa caverna se desenvolve em um nico conduto e condicionada pelos planos de acamamento da rocha arentica. No tocante sua gnese, esta se assemelha quela da Gruta do Impressionado, tendo os processos de incaso como os atuais condicionantes geolgicos do seu desenvolvimento. 5. ESPELEOTEMAS E OUTRAS FEI'ES No tocante ocorrncia de espel eotemas em cavernas desenvolvidas em rochas no carbonticas, existe na literatura uma considervel gama de trabalhos enfocando a gnese e a tipologia destas feies endocrsticas. A maioria destes trabalhos se dedica ao entendimento da transformao por s olubilizao do quartzo em opala A (WHITE et al ., 1967; CARREO e URBANI, 2004; URBANI et al. 2005; AUBRECHT et al. 2008). Young et al. (2009) faz uma discusso mais generalizada sobre espeleotemas em ambientes arenticos, mostrando a participao da mat ria orgnica na formao de cidos, na solubilizao de ferro e dissoluo de gros de quartzo. Outros autores se dedicam ainda ao entendimento da formao de espeleotemas menos citados na literatura, tais como os de areia e argila (GRIMES, 1998). Quase t odos os trabalhos voltados para a investigao da gnese dos espeleotemas consultados fazem uso de aparatos tecnolgicos como aparelhos de raios x e microscpio eletrnico de varredura para sustentar suas hipteses (ex. CARREO e URBANI, 2004; URBAN et al, 2007; CIOCCALE et al. 2008). Como no foi possvel no escopo desta pesquisa se utilizar da mesma estrutura tecnolgica, sero aqui feitos apenas pequenos apontamentos acerca dos tipos de espeleotemas ocorrentes nas cavernas mapeadas. Em todas as grutas foi possvel observar a presena de carapaas (ferruginosas?) recobrindo algumas partes das paredes das cavidades (Figura 10a). Segundo Young et al. (2009), tais carapaas so produtos da precipitao de xidos e hidrxidos de ferro e alumnio mobilizados do arenito (por processo de seepage ) e depositados nas paredes dos condutos subterrneos. As formas de deposio mais caractersticas das cavernas carbonticas so as estalactites, podendo, s vezes, apresentar grandes dimenses. No caso das cavernas em a renito, este tipo de feio deposicional costuma apresentar pequenas dimenses, no ultrapassando o decmetro (Figura 8). Contudo, no que diz respeito sua significncia para o entendimento dos processos espeleogenticos, estas pequenas feies so de gra nde importncia. Ainda que pouco estudadas no Brasil, as estalactites em cavernas arenticas tem sido alvo de estudos no exterior, e podem ajudar na reconstruo at mesmo das condies paleoclimticas; principalmente onde no h grande disponibilidade de espeleotemas carbonticos de boa qualidade para serem datados. Na rea estudada, foi possvel perceber a presena de pequenas estalactites nas cavernas com presena de gua (Gruta do Sr. Mundico, Gruta do Raimundo, Gruta Fazenda Sra. Terezinha, Gruta Fazen da Evoneide, Gruta da Paca), alm das cavernas da Fumaa e do Evilson. Em algumas cavernas foi possvel notar a ocorrncia de feies do tipo wall pocket e cpulas de dissoluo (Figuras 10b). De acordo com Wray (2009), a forma semi circular destas feies sugere que as mesmas foram formadas sob condies freticas. O mesmo autor sugere ainda que, pelo fato da dissoluo ser uma componente crtica na formao destas feies, as mesmas podem ser caracterizadas como crsticas.

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 134 Figura 10 Feies ob servadas nas cavernas estudadas; a) Crostas, b) Cpula de dissoluo no teto de gruta. (FOTOS: Fernando Morais). 6. CONSIDERA'ES FINAIS As caractersticas geoespeleolgicas das cavidades do Planalto Residual do Tocantins corroboram as observaes de Eszterh s (2007), de que as cavernas em arenito podem resultar de vrios processos, tais como: intemperismo qumico, eroso (corraso), fragmentao da rocha, movimentos de massa gravitacionais. Segundo Krauskopf (1972), a solubilidade do quartzo cresce em condi es alcalinas. Porm, durante a solubilizao da slica, gerado o cido silcio, que com seu aumento torna as condies ambientais mais cidas, barrando a continuidade do processo. Com efeito, mesmo que a dissoluo esteja presente entre os processos que deflagram o desenvolvimento das formas cavernosas, ela no pode ser vista como o nico fator responsvel pela gnese dessas feies. Mas como ressaltam Jennings (1983) e Young (1986), pelo fato da dissoluo do cimento do arenito funcionar como uma igni o para o desenvolvimento destas feies, a denominao carste mais apropriada que pseudocarste para estas feies geomorfolgicas. A ocorrncia cavernas em grandes estruturas geomorfolgicas como planaltos residuais de bacias sedimentares no uma pecul iaridade do Estado do que montes de arenitos Devonianos costumam mostrar desfeitos por ravinas e corredores subterrneos ardt (2003), vale ressaltar aqui a distino entre feio crstica e relevo crstico. Enquanto aquela se refere a uma ocorrncia individual em um conjunto de outras formas associadas a processos genticos caractersticos, este se refere a uma rea predomin ada por feies de natureza crstica. O presente estudo visou evidenciar processos de carstificao em rochas arenticas da Bacia do Parnaba. Observaes de campo comparadas com uma reviso de literatura acerca do tema auxiliaram na proposio de que as c avidades do Planalto Residual do Tocantins so de natureza crstica. De maneira geral, possvel afirmar de todas as grutas visitadas so epigenticas, ou seja, foram desenvolvidas aps a formao da rocha hospedeira. Foram observados controles estruturai s no desenvolvimento das cavidades, explicitados a partir da coincidncia entre os planos de estratificao do macio rochoso e o plano de desenvolvimento das mesmas. Conclui se que as cavidades possuem sua gnese ligada a uma fase inicial de circulao fo rada de gua, seguida de circulao fluvial. a ) b ))

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Morais & Rocha Cavernas em arenito no planalto r esidual do Tocantins SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 135 Em todas as feies foram observadas carapaas (ferruginosas?), que constituem ndicos de dissoluo, tendo em vista que o material proveniente da rocha encaixante (arenito), que possui lentes ferruginosas. F inalmente, ressalta se a necessidade de exploraes na regio central do Estado do Tocantins, visando o mapeamento e cadastramento de novas cavidades, visando evidenciar mais ainda o potencial que rochas no carbonticas daquela regio apresentam para o de senv olvimento de feies crsticas. AGRADECIMENTOS O presente estudo foi desenvolvido com auxlio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico CNPq na forma de bolsa de produtividade em pesquisa, processo n 314759/2009 3. Os autores agradecem ainda aos integrantes do Tocantins Espeleogrupo TEG pela ajuda nos trabalhos de campo REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS Topografias Ruiniformes no Brasil. Geomorfologia, Instituto de Geografia, Universidade de So Paulo, Boletim 50 14p. 1977. ANP. CARTA ESTATIGRFICA DA BACIA DO PARNABA. Brasil, 2002. Disponvel em: http://www.anp.gov.br/brasil rounds/round4/ativ idades_exploratorias/cartas_secoes/cartas/ce_parnaiba.pdf AUBRECHT, R. et al. cave: Cueva Charles Brewer, Chimant Plateau, Venezuela. Sedimentary Geology. v.203, p.181 195 2008. BRASIL, Ministrio das Minas e Energia. Secretaria Geral. Projeto RADAMBRASIL Folha SC. 22. Tocantins: Geologia, geomorfologia, pedologia, vegetao e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: 1981. 524p. CARREO, R.; URBANI, F. Observaciones sobre las espeleotemas del sistema Roraima sur. Bol. Soc. Venezoelana Espeleologa 38: 28 33. 2004. DIAS M. S. Ficha de caracterizao de cavidades. In: Congresso Brasileiro de Espeleologia, 27, Januria. Anais... 2003. pp. 151 160. ESZTERHS, I. Genetic examp les of the sandstone caves in Hungary. Nature Conservation 63, 13 21, 2007. FORD, D.; WILLIAMS, P. W. Karst Hydrogeology and Geomorphology London: John Wiley & Sons Ltd., 2007. Karst (kras). Environmental Geology 21: 110 114, 1993. G"ES, A.M.O.; FEIJ", F. Bacia do Parnaba. Boletim de Geocincias da Petrobrs Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 57 67, jan./mar.1994. GRIMES, K. G. Sand Speleothems: an Australian example. Helictite. v .36 (1), p.11 16, 1998. GUERRA, A.T.; GUERRA, A. J. T. Novo dicionrio geolgico geomorfolgico Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, 648p. HARDT, R. Carste: Um conceito em evoluo. In: SEMINRIO DE P"S GRADUAO EM GEOGRAFIA DA UNESP RIO CLARO, 3. Rio Claro. Anais, 2003, p. 8 10.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 139 KARSTIC FEATURES GENERATED FROM LARGE PALAEOVERTEBRATE TUNNELS IN SOUTHERN BRAZIL CARACTERSTICAS KRSTICAS GENERADAS A PARTIR DE GRAN TNELES DE PALEOVERTEBRADOS EN EL SUR DE BRASIL Heinrich Theodor Frank (1), Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann (2), Leonardo Gonalves de Lima (1 ), Felipe Caron (1), Renato Pereira Lopes (3) & Milene Fornari (4 ) Projeto Paleotocas (1) Instituto de Geocincias, Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRS Porto Alegre RS (2) Laboratrio de Paleontologia e Estratigrafi a, Universidade Estadual Paulista UNESP, So Vicente SP (3) Universidade Federal do Rio Grande FURG Rio Grande RS ( 4 ) Universidade de So Paulo USP So Paulo SP Contatos: heinrich.frank@ufrgs. br ; paleonchico@yahoo.com.br ; caronfelipe@yahoo.com ; paleonardo_7@hotmail.com ; paleonto_furg@yahoo.com.br ; milenefornari@yahoo.com.br Abstract In Southern Brazil, large palaeovertebrates like giant armadillos (Dasypodidae, etc) and ground sloths (Mylodontidae, Megathe riidae) from the Pleistocene Megafauna excavated tunnels for shelter. Most tunnels have diameters between 0.8 and 1.3 meters and 30 until 100 meters in length. The longest tunnels, however, reach lengths of more than 40 meters, widths of up to 4 meters and heights of 2 meters. Destruction of these tunnels by geologic processes generates a set of features that are characteristic of karst geomorphology (e.g., dolines). If the tunnels do not become clogged by sediments that are washed in from outside, they con stitute short underground waterways. The action of flowing waters inside the tunnels may collapse its roofs, widen its walls, and erode its floors, forming caves. If the tunnel is located in a depth of only a few meters, the collapse features surface and f orm sinkholes, vertical shafts, and dolines. Such features have been observed related to tunnels excavated in sedimentary terrains (sandstones) and in regions with weathered igneous rocks (granites and basalts). Despite the absence of any soluble minerals in these rocks, these karst like processes and features will occur in localized spots is such terrains, often forming aligned features that reflect the tunnel underneath Key Words : palaeovertebrates; tunnels; palaeoburrows; crotovines; karst Resum en En el sur de Brasil, gran paleovertebrados como armadillos gigantes (Dasypodidae, etc) y perezosos terrestres (Mylodontidae, Megatheriidae) de la megafauna del Pleistoceno excavaran tneles en busca de refugio. La mayora de los tneles tienen un dimetro ent re 0,8 y 1,3 metros y longitudes de 30 metros, hasta 100 metros. Los mayores tneles, sin embargo, alcanzan una longitud de ms de 40 metros, una anchura de hasta 4 metros y una altura de 2 metros. La destruccin de estos tneles por los procesos geolgico s genera un conjunto de rasgos que son caractersticos de la geomorfologa krstica (por ejemplo, dolinas). Si los tneles no se obstruyen por los sedimentos que son arrastrados desde el exterior, constituyen cortos ros subterrneos. La accin de las agua s que fluyen dentro de los tneles puede derrumbarse sus techos, ampliar sus paredes, y erosionar sus suelos, formando cuevas. Si el tnel est situado en una profundidad de slo de unos pocos metros, las formas de colapso aparecen en la superficie, con la formacin de sumideros, ejes verticales y dolinas. Estas caractersticas se han observado en materia de tneles excavados en terrenos sedimentarios (areniscas) y en regiones con rocas gneas (granitos y basaltos). A pesar de la ausencia de minerales solub les en estas rocas, estos procesos caractersticos de karst se producirn en puntos localizados en estos terrenos, a menudo formando formas alineadas que reflejan el tnel por debajo Palabras Clave : paleovertebrados; tneles, paleocuevas; crotovinas; kars t 1. INTRODUCTION When rocks composed entirely or partially by soluble minerals are subjected to dissolution, a very distinctive set of superficial and/or underground features develop, like foibes, flutes, runnels, clints, grikes, caves, dolines, cenote s, vertical shafts and others. Most common are such features on carbonate

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 140 rocks attacked by mildly acidic meteoric waters. The study of these features started with Cvijic (1893), who presented the landforms of the Dinaric Kras ermanicised to dissolutional phenomena worldwide (Sweeting, 1972; Jennings, 1985; Ford; Williams, 2007). Karst landforms are known from all continents except Antarctica. In Brazil, for example, carbonate a nd non carbonate karst terrains cover 5 to 7% of the surface of the country (Auler; Farrant, 1996). Being a geomorphologic concept, karst is not bound solely to carbonate rocks like limestones, dolomites and marbles, the most common lithotypes with karst l andforms. Extensive karst in gypsum is known from the Ukraine and from the USA (e.g. Klimchouk et al., 1996; Johnson, 2008) and karst in halite develops in outcropping evaporitic rocks (e.g. Cooper, 2002). Erosion of thick layers of sandstone also produces karst (e.g. Shade, 2002). Less understood processes develop karst forms in granites (e.g. Willems et al., 2002, Psotka; Stanik, 2006) and on the surfaces of quartzites and basalts, which may present the typical dissolution karst features known Special situations concerning the development of characteristic karst forms like caves and collapse features (dolines) may occur in glaciers when melting produces underground hollow spaces. The same occur in basaltic lava flows that preserved empty lava tubes, the former lava feeders to the lava flow front. The lava tubes form tubular caves, often with some roof collapsing (skylights). Mechanical washout (piping) in sedimentary clastic strata also results in underground waterways and associated collapse f eatures, developing a set of karstic features. Many authors call these features This contribution presents a very special situation concerning the development of karstic featur es. We present and discuss karst formed in sandstones and weathered plutonic rocks starting from tunnels dug by palaeovertebrates. In the same way as in soluble rocks and lava tubes, these tunnels constitute the first stage for the development of caves and associated collapse features. 2. PALAEOVERTEBRATE TUNNELS Features found exclusively in South America, to our knowledge, are tunnels dug by extinct mammals of the Pleistocene Megafauna. From Argentina, some descriptions are available from the region bet ween the cities of Miramar and Mar del Plata (Quintana, 1992; Zrate et al., 1998; Vizcano et al., 2001; Dondas et al., 2009). In Brazil, Padberg Drenkpol (1933), Chmyz; Sauner (1971) and Rohr (1971) presented pioneering data. The latter two classified th Brazilian archaeological literature Recently, however, a great amount of new occurrences has been found (e.g., Buchmann et al., 2003, 2008, 2009; Lopes et al., 2009; Frank e t al., 2010a, 2010b, 2010c, 2010d). Up to now, this new dataset comprises more than 120 sites with tunnels. Each site hosts between one and 30 tunnels, summing 310 tunnels, 200 of them clogged with sediments. These palaeovertebrate tunnels, also called pal aeoburrows, are classified as ichnofossils of the Domichnia type (Fig. 1). Most often, only remnants of the original underground shelters, composed of a network of criss crossing tunnels and chambers, are found. Many of the tunnels are completely filled wi th sediments that have been washed in after the abandoning of the tunnel by the digging mammal. Such filled tunnels are called crotovines (Fig. 1 C). Diameters of the tunnels range between 0.8 and 4.2 meters. Three distinct sizes have been recognized unti l now: the narrowest tunnels show a width of 0.8 meters (Fig. 1 A). The most common tunnels have widths that range between 1.1 1.4 meters (Fig. 1 B). Very rare are the so called megatunnels, whose widths surpass 2.0 meters, up to 4.2 meters (Fig. 1 D). M any of the open tunnels show digging and contact marks on the walls and the roof (Fig. 2) As the tunnels usually are only remnants, the lengths may be anything between a few meters and more than 100 meters. Smaller tunnels branching out from larger ones a re common. The narrower tunnels may display vertical displacements of more than 4 meters, the wider tunnels are mostly horizontal. The tunnels were dug in any material than hard rock: unconsolidated sediments, weathered and unweathered sedimentary rocks, a nd weathered igneous plutonic and volcanic rocks. They occur in any altitude from almost sea level to more than 1,400.00 meters. Regionally, palaeovertebrate tunnels seem to be scarce in the Brazilian territory, but are abundant in the southernmost states of Rio Grande do Sul and Santa Catarina. In these two states, however, density is far from uniform: whereas in some regions only one tunnel is found every 100 or 200 km 2 in other regions almost every hill hosts a set of tunnels.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 141 Fig. 1: Typical open palaeovertebrate tunnels of the narrowest type (A), medium sized (B) and a megatunnel (D). A completely filled tunnel (crotovine) is shown in C. Scale 30 cm. Fig. 2: Digging marks on the walls of palaeovertebrate tunnels. Scales 30 cm The builders of the tunnels probably are giant armadillos (e.g. Pampatherium Holmesina Propraopus ) and ground sloths (e.g. Megatherium Eremotherium Glossotherium Lestodon Mylodon Catonyx ) (Fig. 3). It seems that the narrowest tunnels ( ~0.8 m) are from the armadil los, the wider tunnels from different genera of ground sloths, whose body masses range between 0.8 and 5.0 tons (Faria & Vizcano, 1995). 3. STUDY AREA Limited by logistical reasons, the search for paleovertebrate tunnels embraced only the four southernm ost Brazilian states (Fig. 4 A). As already stated, only two states (Rio Grande do Sul and Santa Catarina) host a large number of tunnels. The karstic features that will be presented and discussed here have been found related to tunnels in the metropolitan region of the city of Porto Alegre, in the state of Rio Grande do Sul (Fig. 4 B). Geologically, the region comprises, in the South, low (< 300 m) hills of the very complex Precambrian basement, constituted by the 550 M.y. Dom Feliciano Granitic Suite and the 609 M.y. Pinheiro Machado Granitic Gneissic Complex, coarse grained granites and gneiss that outcrop on the top of the hills but develop a deep (> 10m) quartzose clayey weathering mantle in interhill regions.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 142 Fig. 3: The builders of the palaeoverte brate tunnels probably are giant armadillos and ground sloths, like the ones pictured here. Drawings of R.P. Lopes, not to scale. To the North, the sedimentary sequence of the large intracratonic Paran basin (Upper Ordovician Cretaceous) (Milani et al. 1998) form W E trending strips of successively younger strata. The sedimentary rocks (mudstones, fine grained sandstones, etc) of the Permian Formations have been grouped in a single unit in the geological map of Fig. 4. Of interest in this contribution, however, is the Late Jurassic Early Cretaceous aeolian continental sandstone of the Botucatu Formation (Scherer, 2000). This medium to coarse grained reddish rock is the relict of a 1.5 million km 2 arid continental area who covered not only the entire Paran basin, but extended beyond its limits. Some layers of this sandstone underwent diagenetic silicification, forming silcretes that sustain the relief this sandstone is the characteristic large scale aeolian cross bedding (Fig. 5A) who dictates the forms of the outcrops, its economic usage (e.g. sidewalk flags) and, to some extent, the internal shape of the palaeovertebrate tunnels there excavated. The limits of the sedimentary units presented in the geological map of Fig. 4, however, are far from conclusive due the smooth relief and the thick weathering mantle of this area. In addition, the rocks do not contain any macrofossils, some units are composed of very similar lithotypes and most of the area i s heavily urbanized. Fig. 4: Location of the study area and simplified geological map of the region. As urban areas cover most of the area, the cities have been omitted from the map. Numbers r efer to the described locations (see text). The plutonic and the sedimentary rocks of the study area are crossed by several rivers, whose floodplains where formatted by the Pleistocene Holocene sea level changes and related coastal barriers formed along the Atlantic Ocean coast (Villwock et al., 1986). These sandy clayey sediments are covered by recent alluvium. Holocene alluvial fans are abundant in the study area, bordering the outcrop areas with higher relief of all rocks. The sediments of these fans

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 143 (sandstones, mudstones and conglomerates) are always related to the nearby host rock: in the South, the fans contain sediments related to the granitic gnaissic rocks of the basement. To the North, clayey sediments, sands, and gravel related to the Early Cretaceous volcanic Serra Geral Formation (Paran Etendeka Contin ental Flood Basalt Province) compose the fans. Whereas the sand and mudstones most often are difficult to distinguish from other units, the conglomerates with its huge ( up to 0.9 m) basaltic clasts are very conspicuous. 4. METHODS Successful palaeove rtebrate tunnel prospecting starts with own fieldwork, but relies heavily on a set of initiatives whose main goal is to achieve public understanding of science. Even dealing with a public unaware of the existence of tunnels dug by extinct large mammals, mo re than a half of the tunnel occurrences, including some very important ones, have been communicated by interested people. This people take notice of this subject through newspaper reports, our internet site ( www.ufrgs.br/paleotocas ), and pamphlets that were distributed by the team. Besides, several tunnels have been identified through digital prospecting of Control Program and by park rangers of protected lands are tunnels. When collapse features indicated a tunnel underneath, the tunnels were found with an auger, lowering a probe with a headlight and a webcam connected to a notebook to shoot pictures of the tunnel (Fig. 6) The collecting of data concerning the tunnels obeys a methodic scheme. Coordinates and altitude are taken with a precision Global Position System (GPS) device. The geomorphologic insertion and the host rock are analyzed, than the state of preserva tion is described, especially concerning the infilling of later sediments (kind, amount, layered or not). On completely filled tunnels, only width and height are measured. If open, the length, width and height (every 50 or 100 cm) and vertical displacement are measured. Digging and contact marks on the walls and roof are pictured and silicone molds are made. During this step, care is taken to minimize the unavoidable health and life risks. Even without any fossil found inside until now, this possibility alw ays is considered. When necessary and possible, the landowner is contacted and requested to help preserving the tunnel. 5. KARSTIC FEATURES RELATED TO PALAEOVERTEBRATE TUNNELS Despite the occurrence of palaeovertebrate tunnels in all kind of materials exc ept unweathered rocks, karstic features are not associated to most of the tunnels. If the rock is very stable or covered by a layer of resistant rock, the tunnel stay preserved open without any karstic feature. In fine grained sedimentary rocks, on the oth er hand, the tunnels usually are found completely filled with sediments, which are probably derived from the weathering mantle. However, palaeovertebrate tunnels excavated in sandstones and in weathered plutonic rocks present karstic features, which are de scribed and discussed below. Fig. 5: (A) Large scale aeolian cross strata in sandstones of the Botucatu Formation. (B) One of the innumerable hollows that can be found on the vertical cliffs of Botucatu sandstone. 5.1 K arstic features in sandstones Sa ndstones may present hollow spaces that may be oriented horizontally or vertically. Horizontally oriented hollows can be found easily on the abundant vertical walls of sandstones of the Botucatu Formation in the study area (Fig. 5B). These walls show off o n the sides of the hills and

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 144 may reach several tens of meters in height. They only form when the sandstones are slightly silicified by faulting and/or diagenetic processes. The hollows exhibit a wide range of forms and sizes that are somewhat similar to so me of the karst features described from granitic rocks. The origin of these hollows, in many cases, is difficult to explain and may be related to the action of wind and water thorough time on exposed sandstones with lithification inhomogeneities. This cont ribution, however, will deal only with the vertically oriented hollows that may be classified as karstic features. Karstic features in sandstones were found, until now, in a region in the municipality of So Leopoldo, close to the Sapucaia hill (Fig. 4, nu mber 1). The area, of one square kilometer, encompasses the properties of Jrgen Strauch and Alberto Cassel, centered at 29 o 4826S, 51 o 0518``W. The region is composed of sandstones of the Botucatu Formation, mined in large scale for more than a century In the property of Jrgen Strauch, two eyewitnesses have told us about the existence of a paleovertebrate tunnel some 50 years ago. Both eyewitnesses played, as teenagers, inside the tunnel that was up to 1.5 meters hig h and about 15 meters long, with openings at both ends. One of them, Alberto Cassel, formerly the owner of the land, closed the openings with tree trunks and earth 45 years ago, while plowing the field with a tractor. Then the land, a gentle NW facing hill side, was used as a wheat and soybean field, do not showing any holes or craters. Jrgen Strauch bought the property 40 years ago and stopped planting, so that the land was undisturbed during this period, developing an open forest composed of eucalyptus tr ees and native shrubs. Exactly at the place indicated by Alberto Cassel as of being of the former paleovertebrate tunnel, we found five more or less aligned funnel shaped craters and an outlet (Figs. 7, 8). The craters and the outlet do not existed at fir st, as confirmed by Alberto Cassel. Each crater shows a small ( < 40 cm) hole at the bottom. The distance between the first crater and the outlet is of about 53 meters. Family Strauch told us that a water jet emerges from the outlet after heavy rains. Our attempts to reopen the tunnel entrance downhill were unsuccessful, even using a backhoe. Several tens of boreholes, up to 5 meters deep, were made between the craters with an auger, trying to find tunnels underneath. A few ones hit tunnels at a depth of 2 .5 3.2 meters, compatible with the depth of the original palaeovertebrate tunnel. Pictures obtained with the probe (Fig. 9) show highly irregular tunnels, some 50 cm wide and 70 cm high, whose shape has nothing in common with palaeovertebrate tunnels. Th e tunnels do not connect the craters in a straight line, quite the contrary, they are sinuous, and branching, sometimes running parallel to the level curves. Fig. 6: Investigation of deep tunnels was carried out with boreholes made with an auger. When a tunnel is found, a probe with a headlight and a webcam connected to a laptop is lowered in the borehole to shot pictures.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 145 The tunnels are located well beneath the upper 1.5 meter thick layer of former agricultural land, composed of more or less loose sand s. Downward the clay content of the sand increases. At the level of the tunnels, the decomposed sandstone, with a high clay content, is very compact and difficult to cross with the auger. Only one more isolated crater was found on another site in this prop erty, but was not investigated yet. At a whole, craters are not a regional feature at this hillside nor on the neighboring hills. Fig. 7: Plan view of the crater sequence found on the Jrgen Strauch property. Squares indicate location of the boreholes. The altitude difference between the outlet and crater 5 is of about 7 meters. In the property of Alberto Cassel, the investigation of the craters is much easier because the land is not more used for crop or tree planting, but only as pasture. Craters of d ifferent sizes appear at several spots. For presentation reasons, they can be grouped in two size classes: small and big (Figs. 10, 11). Small craters refer to collapse features with diameters of up to 2.0 meters and depths of, at most, 1.0 meter. Such cr aters align in a very conspicuous manner on two spots. The first spot shows seven craters aligned over 27 meters (Fig. 10), the second spot has five craters along a distance of 10 meters. Deviations of the craters from a straight line connecting the first and the last craters are small, of less than 1.5 meter. Most intriguing is their occurrence on sometimes almost horizontal surfaces. A set of boreholes was made between the small craters of the second spot, showing that the craters are not straightly conne cted to a single tunnel running underneath, but are related to a branching system of short narrow tunnels that sometimes are parallel to the level curves. These craters, accordingly to the testimony of the landowners, are long lived. Even filled with earth several times, they open again after some time. Fig. 8: Craters of the Strauch property. Top: crater 4 has a diameter of only 30 cm. Bottom: the biggest crater is crater 5 (outlined). The tunnel at its base connects to the outlet, more than 50 meters a way. Big craters are much wider and deeper than the small ones (Table 1 and Fig. 11). Testimony of Alberto Cassel demonstrates that the craters only developed after the land rests from intensive farming. Two crater alignments were identified (Table 1), bo th converging to a small stream. Partially clogged tunnels with evident collapse features of the roof link the craters underneath (Fig. 11). Borings at this site showed that loose, former agricultural, soil occurred to a depth of more than one meter, follo wed by decomposed sandstone still with its typical reddish color and with increasing

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 146 clay content downwards. At a depth of 4.0 meters, a layer of highly water saturated sands with a thickness of about 30 cm overlays the sound sandstone rock. The tunnels ar e located in the sound sandstone, at a depth of more than 5 meters. The sandstone itself exhibits a medium lithification degree, turning it possible to traverse it very slowly with the 7cm wide auger. Fig. 9: Pictures of the tunnels linking the craters of the Strauch property. Picture at the bottom shows the auger inside one of the tunnels and illustrates the difficulty to hit the narrow tunnels at 3 meters depth. Fig. 10: Small craters of the Cassel property. Top: Seven craters (arrows) aligned over 2 7 meters on an almost horizontal surface. Bottom: The smallest craters are the size of a cap. 5.2 K arstic features in weathered plutonic rocks Research of karstic features in weathered plutonic rocks was concentrated in the municipalities of Porto Alegre and Viamo. New occurrences in the neighboring municipality of

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 147 Guaba will be investigated soon. On the tops of the hills, unweathered plutonic rocks crop out, without the occurrence of any palaeovertebrate tunnel and related karstic features. However, in interhill terrains of smooth relief, where the granitic and gnaissic rocks are deeply (>10m) weathered, palaeovertebrate tunnels are much more common than thought. In the Saint Hilaire Park (Viamo), for example, the density is of at least a tunnel every 2 00 hectares. Most of the tunnels are deeply hidden in the forest and only have been found with the guidance of park rangers and agents of the State Rabies Control Program. Tunnels in these terrains always are of the narrowest type, with original diameters of about 80 cm (Fig. 12A). Most of them nowadays do not show the typical profile of a palaeovertebrate tunnel due to erosion of the floor, collapse of parts of the walls and the roof and clogging by washed in sediments. They never show digging marks on the roof and the walls. The length is always of more than 50 meters; 100 meters are common. The entrance of the tunnels usually face the small streams between the hills, the end is somewhere uphill. The slow destruction of these palaeovertebrate tunnels by ge ological processes follows a very typical scheme (Fig. 13 top). The set of 16 tunnels found until now (Table 2) allows the presentation of the main characteristics of this scheme. Karstic features related to these tunnels may be very big and can be class ified in two types: holes and craters. Holes are cylindrical vertical openings with diameters of up to one meter and depths of up to two meters, always connected to the tunnel in depth (Fig. 13 A, B). These features show almost vertical walls. Craters ar e openings that may reach diameters of more than 10 meters and depths of more than 4 meters (Fig. 13 C, D). Usually, on the downhill facing side of the craters, a tunnel remnant is found, that may be more or less clogged by sediments or eroded. When clog ged, only a small ( < 30 cm) hole is found, where the rainwater leaves the crater. If eroded and collapsed, the tunnel remnant may reach heights of up to 2.2 meters. An example of this type is the tunnel at Refgio Farm (Viamo), which allows walking upri ght inside for more than 50 meters (Fig. 12B). Testimony of several people demonstrated that this tunnel is open and visited by curious people for more than 50 years, a situation also found for other tunnels of this type. Typically, several craters of diff erent sizes may align along a single tunnel, until reaching a small outlet near of a stream (Fig. 13 top) Fig. 11: Big craters of the Cassel property. Top and middle: craters may be 2.0 meters deep. Bottom: more than 4.5 meters deep, in the sound san dstone, half clogged tunnels with collapse features show off. Very often, the sediments of the craters and holes fill the hollows completely, and the only hint of the former (now clogged) single tunnel or tunnel system underneath is a series of craters an d/or holes of different sizes that appear randomly distributed in an area of less than a hectare.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 148 5.3 K arstic features in weathered volcanic rocks Examples of karstic features can be found also in altered volcanic (basaltic) rocks of the lava flows of the Cretaceous Serra Geral Formation (Paran Etendeka Continental Flood Basalt Province). Chmyz; Sauner (1971), for example, describe a horizontal tunnel in the state of Paran (near of the city of Campina da Lagoa), linked to the surface by 3 vertical holes, each one 1.2 meters wide and 2.0 meters deep. Recent (Feb/2011) investigation of this site (24 o 3928.52S, 52 o 5011.78W), however, concluded that these holes are no longer open. Nowadays, the only hint of the tunnel is a spring on the hillside whose wa ter suddenly disappears, reappearing more than 100 meters downhill. Table 1: Widths and depths of the big craters on the two alignments at the Cassel Property Alignment One NW SE 43.0 m long First crater Second crater Width (m) 2.3 x 3.0 5.3 x 3.1 Depth (m) 0.5 2.0 Distance from the outlet (m) 35 43 Alignment Two N S 17.0 m long Single crater Width (m) 3.3 x 3.6 Depth (m) 1.6 Distance from the outlet (m) 17 6. DISCUSSION At first, it have to be considered if the craters shown in t his contribution are really related to palaeovertebrate tunnels or related to the action of underground water and/or burrows made by present day organisms. The action of flowing underground water may result in tunnel erosion (piping) and seepage erosion. Tunnel erosion is the removal of subsurface soils in pipe like erosional channels (Boucher, 1990, 2004). It develops under a wide range of physico chemical conditions in highly erodible and therefore dispersive geologic materials (Masannat, 1980). Piping m ay develop, for example, in terrains whose high content of salts induce to sodicity problems, in terrains composed of loose particles (e.g., volcanic tuffs, loess) or when a more resistant rock layer overlays a less resistant rock layer. The resultant tunn els may be wide ( up to 4m) but always are located at shallow depths, usually of less than 1.0 meter, rarely up to 2.4 meters (Boucher, 2002). Along the tunnels, vertical collapse features (sinkholes) develop, which may coalesce to form open gullies. F ig. 12: Images of palaeovertebrate tunnels in terrains of weathered plutonic rocks. A: Tunnel with the typical original profile, slightly eroded on the floor. Width ~80 cm. B: A heavily modified tunnel through erosion on the floor and collapsing of the wal ls and the roof

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 149 Seepage erosion (or sapping) is the process of lateral subsurface transport of non cohesive sediments by liquefaction of the particles, usually out of steep walls with exposed sediments like streambanks and riverbanks. The prerequisite for seepage erosion is the existence of more or less horizontal water restricting horizons (e.g., less permeable clay layers) located above the water table (Fox et al., 2006). Such horizons induce large hydraulic gradients towards stream channels. Due to seep age erosion, the banks usually undergo rapid slope failures. Fig. 13: Aspects of the karstic features related to palaeovertebrate tunnels in weathered plutonic rocks. Top: Idealized cross section of a palaevertebrate tunnel in weathered plutonic rocks showing the crater alignment and the outlet near the stream. Not to scale. A person standing in the hole is 1.84m tall. C D: Big sized and long lived craters that are usually found related to these occurrences.

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 150 Table 2: Location of the palaeovertebrate tunnels and associated collapse features found until now in the municipalities of Porto Alegre and Viamo, in the state of Rio Grande do Sul. Nr Name Latitude S Longitude W Length (m) Number of collapse features 01 Beco do David 1 30 05 13.00 51 08 50.00 27 1 02 Beco do David 2 30 05 13.00 51 08 50.00 45 > 5 03 Beco do David 3 30 05 13.00 51 08 50.00 ? > 1 04 Morro da Agronomia 30 04 32.00 51 08 28.00 > 5 > 4 05 Parque St Hilaire (Figu eira Bonita) 30 05 40.21 51 06 12.72 ~ 80 >3 06 Parque St. Hilaire (Estrada do Viveiro) 30 05 47.70 51 06 23.50 ~ 100 > 5 07 Parque Saint Hilaire (Afogada) 30 05 20.70 51 06 06.80 ? 3 08 Parque Saint Hilaire (Muitos Buracos) 30 05 15.40 51 06 04.60 > 30 > 12 09 Parque Saint Hilaire (Dos Orixs) 30 05 37.91 51 05 35.56 ~ 45 2 10 Parque Saint Hilaire (Da Picada) 30 05 45.20 51 05 45.60 ~ 37 > 2 11 Beco do Malacara 30 04 34.52 51 00 40.39 > 55 2 12 Beco dos Cunha 30 06 13.43 51 02 33.50 > 30 3 13 Fazen da Refgio 30 07 23.00 51 03 44.00 > 60 2 14 Campo de Aviao 30 06 16,53 51 03 20,66 > 30 2 15 Stio do Alessandro 30 08 39.03 51 02 37.82 > 20 2 16 Stio do Joo Carlos 30 09 51.73 50 59 43.89 > 20 1 These two processes do not apply to the above pr esented areas with karstic features. Both lithotypes with karstic features of the study area (sandstones and weathered plutonic rocks) are homogeneous and strongly cohesive due to high percentages of clay minerals or a medium lithification degree. Soluble minerals, open gullies at the surface and impermeable horizons are absent; the horizon of the water table is located well beneath the tunnels. In addition, karstic features in such lithotypes are very rare, being spotted only in some locations. We have exa mined, through the last years, hundreds of huge anthropogenic outcrops (excavations) both in sandstones and in weathered plutonic rocks. At those outcrops, we have never seen tunnels and craters as found in the study area, suggesting that these features do not constitute a possible geological weathering process in such terrains, whatever the slope of the hillsides. Therefore, they have to relate to a very special origin. The possibility to link the karstic features to former burrows of present day organisms also have been considered. In this region, burrows made by several organisms can be found: some ant species, a species of small owl, woodpeckers, termites, and armadillos. Ant nests constitute elliptical hollow spaces with a width of 40 cm and a height of 25 30 cm, which occur to depths of up to three meters. The hollows are connected to neighboring hollows of the same type and to the surface by very tiny tubes. Owl burrows are very short and superficial, with depths of less than 40 cm. Woodpeckers excavat e 10 15cm wide horizontal burrows on vertical outcrops, whereas termites may build up a deep (6m) network of hollows and large (50cm) but low (5cm) interlinking tunnels. This system of chambers and tunnels usually cover several hundred square meters. Tunne ls of modern armadillos, on the other hand, never are dug vertically down the terrain, because rainwater will turn the shelters immediately uninhabitable, filling them with water. None of these actual burrows seems to relate to the described karstic featur es. The development of the karstic features from palaeovertebrate tunnels, on the other hand, explains these features in a very convincing manner. The depth of the original tunnels and its original shapes, despite the absence of digging marks on the walls and the roof, identify the tunnels as such. The development of the karstic features occurs with the biogenic impact on the tunnels. The existence of an underground tunnel, whatever its

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Frank et al K arstic features generated from large palaeovertebra te tunnels ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 151 size and origin, represent a weak point in the structure of the lithoty pe at this particular place. When the root of a shrub or a tree hit the roof of a tunnel, for example, a link to the surface is formed and, after the death of the plant, water uses the way of the root to penetrate into the tunnel. In several palaeovertebra te tunnels, we have seen water dripping or even draining from roots that hang from the roofs. After the constitution of this waterway, erosion widens it with time, forming a cylindrical hole or a crater. If the plant is very big (e.g., a tree), not only a single way down is opened, but the entire structure of the whole rock above the paleovertebrate tunnel is completely destroyed (broken) by the network of strong and long roots. With time, the weight of the tree collapses the broken rock into the tunnels a nd meteoric water washes the detritus down the tunnel, opening craters. The trees than remains somehow crater, as seen in several spots in the Saint Hilaire Park. Erosion widens the craters and the tunnels become partially or entirely clogged with sediments. This seems to be the main process for the formation of karst like features at these spots. The absence of such features in terrains of mudstones and shales suggest that the impermeable clays prevent the formation of craters. Some spots of the karstic features suggest the parallel action of tunnel erosion, despite several characteristics of both described lithotypes that hamper this process. Ongoing research aims to clarify and detail the action of the tun nel destroying processes, based on a larger number of occurrences and more different lithotypes. 7. CONCLUSIONS The presence of palaeovertebrate tunnels in Southern Brazil, excavated in many different kinds of geologic materials, induces the generation of karst like features when inorganic processes and biogenic action (e.g. tree roots) slowly destroy these tunnels through time. Karstic features align over the former tunnels and are composed mainly of craters of different sizes, with diameters of up to 10 meters and depths of up to 4 meters. Sometimes the former palaeovertebrate tunnel is unrecognizable due to collapsing and clogging, being identified only through the existence of several holes and craters on hillsides of very gentle slopes. The action of t unnel erosion (piping) associated to some of the tunnel destroying processes is very probable; its extent will be studied with more research on these features. ACKNOWLEDGMENTS We thank Alberto and Ivoni Cassel and Jrgen and Ursula Strauch for the access to the karstic features in sandstones. It is impossible to list the many dozens of people that allow research on karstic features in weathered plutonic rocks we thank them all. Thanks also to Claudenir Lourenato for his fieldwork investigating the site of the tunnel of Campina da Lagoa, despite the presence of several rattlesnakes. Research partially funded by Project CNPq 401772/2010 1 REFERENCES AULER, A.; FARRANT, A.R. A Brief Introduction to Karst and Caves in Brazil. In: PROCEEDINGS OF THE UNIVE RSITY OF BRISTOL SPE LAEOLOGICAL SOCIETY 1996, v.20, n.3, p.187 200. BOUCHER, S.C. Field tunnel erosion, its characteristics and amelioration. Monash University: Clayton/Department of Conservation and Environment: East Melbourne, 1990, 64 p. BOUCHER, S.C. The initiation and development of tunnel erosion near Costerfield, Victoria 2002. PhD thesis, School of Geography and Environmental Science, Monash University, Clayton, Australia. Unpublished. BOUCHER, S.C. Tunnel erosion Ed.: Goudie, I.A.S. Routledge: London, 2004, pp. 1073 1074. BUCHMANN, F.S.C.; CA RON, F; LOPES, R.P.; TOMAZELLI, L.J Traos fsseis (paleotocas e crotovinas) da megafauna extinta no Rio Grande do Sul, Brasil. In: CONGRESSO DA ASSOCIAO BRASILEIR A DE E STUDOS DO QUATERNRI O 9, Recife, PE, Brasil. Anais, 2003, 1 CD ROM.

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 155 COMUNIDADES DE INVERTEBRADOS TERRESTRES DE TRS CAVERNAS QUARTZTICAS NO VALE DO MANDEMBE, LUMINRIAS, MG TERRESTRIAL INVERTEBRATE COMMUNITIES OF THREE QUARTZITE CAVES IN THE VALE DO MANDEMBE, LUMINRIAS, MG Marconi Souza Silva (1), Jos Carlos Nicolau(1,2 ) & Rodrigo Lopes Ferreira (3 ) (1) Ncleo de Pesquisa em Cincias Biolgicas, Centro Universitrio de Lavras UNILAVRAS Lavras MG ( 2 ) Fundao Educacional de Lavras Lavras MG. ( 3 ) Departamento de Biologia/Setor de Zoologia Universidade Federal de Lavr as UFLA Lavras MG Contatos: marconisouza@unilavras.edu.br ; drops@ufla.br Resumo O presente trabalho avaliou a composio, riqueza, abundncia, diversidade, do minncia, e similaridade entre as comunidades de invertebrados terrestres em trs cavernas quartzticas localizadas no Vale do Mandembe, Luminrias, Sul de Minas Gerais. Foram observados 3.985 invertebrados distribudos em 104 espcies de pelo menos 50 fam lias. A gruta do Lobo apresentou a maior riqueza (58 spp), seguida pela gruta do Campo I (35) e da gruta do Mandembe (31). A ordem mais rica foi Diptera (29 spp.), seguida por Araneae (20), Acari (10), Coleoptera (10) Lepidoptera (7), Collembola, (6) e Ps ocoptera (4). Os valores de similaridade quantitativa entre as comunidades foram baixos (< 10%). A diversidade foi maior na gruta do Lobo (H= 1,18), seguida da gruta do Mandembe (H= 0,85) e gruta do Campo I (H= 0,61). A dominncia foi maior na gruta do Mandembe (0,48), seguida da gruta do Campo I (0,41) e gruta do Lobo (0,32). O diversidade foi alto (77,11). Apesar de no ter sido encontrada nenhuma espcie troglomrfica, as cavernas deste estudo apresentam uma expressiva singularidade, pelo fato de possuram uma elevada riqueza, diversidade e baixos valores de similaridade da fauna de invertebrados. Alm disto, ocorrem condies ecolgicas heterogneas, principalmente em termos de estrutura trfica e disponibili dade de microhabitats (presena distinta de guano de andorinho e de morcegos hematfago, cursos de gua, matria orgnica vegetal, razes e blocos cados nas diferentes cavernas) que podem ser facilmente afetadas por uma visitao desordenada Palavras C have : Diversidade; Fauna; Invertebrados; Quartzito; Estrutura de comunidades Abstract The present work evaluated the composition, richness, abundance, diversity, dominance, and similarity of the terrestrial invertebrate communities in three quartzite cave s located in Vale do Mandembe, Luminarias, South of Minas Gerais. In the caves 3,985 invertebrates were observed, distributed in 104 species of at least 50 families. The Lobo cave presented the highest richness (58 spp.), followed by Campo I cave (35) and the Mandembe cave (31). The richest order was Diptera (29 spp.), followed by Araneae (20), Acari (10), Coleoptera (10) Lepidoptera (7), Collembola, (6) and Psocoptera (4). The quantitative similarity values among the communities were low (< 10%). The diver sity was higher in the Lobo cave (H = 1.18), followed by Mandembe cave (H = 0.85) and the Campo I cave (H = 0.61). The dominance was higher in the Mandembe cave (0.48), followed by Campo I cave (0.41) and Lobo cave (0.32). The species turnover measured diversity was high (77.11). In spite of not finding any troglomorphic species, the caves of this study are quite unique, by the fact of presenting a high richness, diversity and low invertebrate fauna similarity values. Furthermore, heterogen eous ecological conditions occur, mainly in terms of trophic structure and microhabitat availability (distinct presence of swift and hematophagous bat guano, water courses, organic plant matter, roots and fallen blocks in the different caves) that can be e asily affected by disordered visitation Key Words : Diversity; Biospeleology; Quartzite; Community structure

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 156 1. INTRODUO Mesmo em menor extenso que as carbonticas, o Brasil possui amplas reas compostas por rochas ferruginosas, quartzticas, grantic as e arenticas, propcias espeleognese. Atualmente, no Brasil, so conhecidas mais de 3.500 cavernas carbonticas, 1.000 cavernas ferruginosas, 200 cavernas quartzticas, 200 cavernas arenticas e 100 cavernas em outros tipos de rochas, sendo alto o po tencial de ocorrncia de cavernas nestes tipos de rochas (Auler 2006) A fauna caverncola brasileira comeou a ser relativamente bem estudada a partir da dcada de 80 (Dessen et al 1980, Chaimowicz 1984, Godoy 1986, Trajano & Gnaspini Neto 1986, Trajano 1987, Trajano & Moreira 1991, Gnaspini Neto & Trajano 1994, Trajano 2000). Poucas cavernas, entretanto, foram estudadas de forma a avaliar a estrutura das comunidades de forma mais ampla (Ferreira & Pompeu 1997; Ferreira & Martins 1998, Ferreira 2004, Prou s et. al 2004, Ferreira 2005, Souza Silva 2008, Souza Silva & Ferreira 2009, Ferreira et al 2010). Grande parte do conhecimento da fauna caverncola brasileira oriunda de estudos realizados em cavernas calcrias (Trajano & Moreira, 1991, Gnaspini Neto & Trajano 1994, Ferreira 2004, Prous et al 2004, Pinto da Rocha 1995, Souza Silva 2008, Souza Silva & Ferreira 2009, Souza Silva et al 2011). Embora se soubesse da existncia de cavidades em rochas no carbonticas no Brasil, suas dimenses, em geral reduzi das, levavam a um desinteresse do ponto de vista bioespeleolgico. Apesar disso, algumas poucas cavernas em quartzito, arenito, canga ferruginosa e granito tiveram as suas comunidades de invertebrados avaliadas (Trajano & Moreira, 1991, Gnaspini Neto & Tra jano 1994, Trajano et al 2002, Zeppelini Filho et al 2003, Ferreira 2004, Ferreira 2005, Bueno Silva 2008, Souza Silva 2008). Estudos preliminares realizados em poucas cavernas siliciclsticas mostraram que tais sistemas mantm ricas e abundantes comunidad es de invertebrados com composies similares s de cavernas calcrias (Ferreira 2004, Bueno Silva 2008, Souza Silva 2008). O presente trabalho buscou avaliar as comunidades de invertebrados presentes em trs cavernas quartzticas no municpio de Luminria s, Minas Gerais. Para tal foram elaboradas as seguintes questes: 1. Qual a composio, riqueza, abundncia, diversidade, dominncia, e similaridade entre as comunidades de invertebrados presentes em trs cavernas quartzticas no municpio de Luminrias? 2. Quai s as alteraes antrpicas presentes em trs cavernas quartzticas no municpio de Luminrias, MG? 2 METODOLOGIA 2.1 rea de estudo O estudo foi desenvolvido em trs cavernas quartzticas localizadas no vale do Mandembe, municpio de Luminrias, Sul de Minas Gerais (figura 1). A gruta do Campo I (SBE MG 1373) tem 60,6 metros de extenso e localiza se a uma altitude de 1299 metros. Possui uma nica entrada e um pequeno curso de gua em seu interior (S 2132, 20/W4448, 15). A gruta do Mandembe (SBE MG 139 0) tem 244,6 metros de extenso e localiza se a uma altitude de 1292 metros. Possui 2 entradas opostas, e dois cursos de gua em seu interior (S 2132,38,1/W 4447,57,3). A gruta do Lobo (SBE MG 1343) uma caverna seca, com 122 metros de extenso e 2 entr adas (S 2132, 20/W 4448,15). Possui o piso formado essencialmente de blocos abatidos. O clima, segundo a classificao de Kppen, do tipo Cwb com vero mido e inverno seco apresentando temperaturas mdias anuais de 19,61C e precipitao mdia anual d e 1529,7 mm (Prefeitura Municipal de Luminrias, 2005). A vegetao local abrange tipos fisionmicos enquadrados em Floresta Estacional Semidecidual Aluvial (mata ciliar) e Montana (mata de encosta), Cerrado, Campo de Altitude e Campo Rupreste (campo limpo e campo sujo) (Oliveira Filho & Fluminhan Filho 1999). A regio sul do Estado de Minas Gerais, em especial os municpios de Luminrias, So Thom das Letras e Carrancas, destacam se pela localizao em uma rea de rochas quartzticas com um potencial bioe speleolgico ainda pouco estudado (Bueno Silva 2008). Atualmente, esto cadastradas nove cavernas no municpio de Luminrias (SBE 2011). Os municpios de Luminrias, So Thom das Letras e Carrancas so apontados como reas potencialmente importantes para a conservao da biodiversidade de invertebrados em Minas Gerais (Machado & Ferreira 2005, Ferreira et al 2009). Estes municpios encontram se sob intensas atividades antrpicas de turismo e explorao mineral do quartzito, impondo potenciais ameaas ao am biente de cavernas.

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 157 Figura 1. Distribuio das cavernas Gruta do Campo I (1), Gruta do Lobo (2), e Gruta do Mandembe (3), ao longo do vale do Mandembe, Luminrias, MG. So evidenciadas trilhas e mineraes (branco), construes (c) e mata preservada nos arredores das cavernas (manchas escuras). Imagem Google Earth. Luminrias est estrategicamente situada entre os municpios de Lavras (36 km) e So Thom das Letras (49 km), no sul das Minas Gerais. Dotada de um grande potencial natural e cultural e com ambos ainda preservados, a mesma vem se destacando como um dos mais novos redutos do Ecoturismo de Minas Gerais. Compondo e se confirmando como uma das cidades carro chefe do Circuito Turstico participao de m ais dez comunidades), no ano de 2006 o municpio conseguiu tambm sua incluso no Programa Estrada Real. Com um grande nmero de cachoeiras, lindas cavernas de quartzito e rios com corredeiras, o municpio se mostra com total vocao para a prtica de espo rtes de aventura como o Espeleoturismo de Aventura, Boiacross, Rapel, o Trekking, entre outras (Souza 2011). 2.2 P rocedimentos de coleta Os invertebrados nas cavernas foram previamente identificados em campo e tiveram alguns de seus espcimes manualmente coletados com auxlio de pinas e pincis umedecidos em lcool 70%. Cada espcie identificada no campo recebia um nmero distintivo, sendo sua abundncia plotada no mapa da caverna, segundo metodologia proposta por Ferreira (2004). Durante as coletas, for am priorizados microhabitats como troncos, depsitos de guano, espaos sob rochas e locais midos. Em laboratrio, os invertebrados foram identificados at o nvel taxonmico acessvel e separados em morfo espcies a partir da definio de tipos morfolgic os (morfotipos) e posteriormente reagrupados de acordo com as referncias de campo (Oliver & Baettie 1996). A abundncia geral de cada morfo espcie foi obtida atravs da contagem dos indivduos includos em cada croqui. Usos e alteraes ambientais nas ca vernas e entorno foram avaliados durante as visitas, segundo metodologia proposta por Souza Silva (2008). 2.3 Anlise de dados Os valores de diversidade comunidades de invertebrados associadas a cada caverna foram calculados atravs do ndice Shannon Weaver (Magurran 2004). A diversidade presena e ausncia, atravs do ndice de Harrison (199 2), modificado de Wittaker (1960), com a finalidade de comparar amostras de diferentes Harrison 1]/(N 1)}*100). Onde S nmero de amostras. Esta medida varia de 0 (nenhum turnover) at 100 (cada amostra tem um nico conjunto de espcies) (Magurran 1955, Magurran 2004, Koleff et al 2003). O ndice de dominncia de Berger Parker foi utilizado para acessar a importncia relativa de espcies

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 158 dominantes nas comunidades (Magurran 2004). A curv a cumulativa de espcies, utilizando a rarefao, que ilustra a razo com que as espcies so adicionadas na amostra, tambm foi calculada. A similaridade quantitativa da fauna entre as cavernas foi obtida atravs do ndice de Jaccard (Magurran 2004). O pr ograma utilizado para as anlises foi o PAST (Hammer et al 2001). 3 RESULTADOS Foi observado, nas trs cavernas, um total de 3.794 invertebrados distribudos em 104 espcies pertencentes pelo menos 50 famlias (tabela 1). A gruta do Lobo apresentou a m aior riqueza de invertebrados (58 spp. e 804 indivduos), seguida da gruta do Campo I (35 spp. e 2395 indivduos) e da gruta do Mandembe (31 spp. e 505 indivduos). A ordem mais rica foi Diptera (28 spp.), seguida de Araneae (19 spp.), Acari (10 spp.), Col eoptera (9 spp.), Hymenoptera (7 spp.), Collembola (6 spp.) e Lepidoptera (6 spp.) A ordem mais abundante tambm foi Diptera (2678 ind.) seguida de Acari (386 ind.), Collembola (131 ind.), Hymenoptera (126 ind.), Araneae (107 ind.), Coleoptera (73 ind.), O piliones (64 ind.) (2 ind.) (figura 2). Figura 2. Porcentagens das riqueza e abundncias dos invertebrados coletados em trs cavernas quartzticas no Vale do Mandembe, Luminrias, MG Na gruta do Lobo foram encontradas 15 ordens de invertebrados, sendo as mais ricas Araneae (15 spp.) e Diptera (12 spp.) e as mais abundantes Diptera (487 ind.) e Acari (69 ind.). Na gruta do Campo I foram encontradas 15 ordens de invertebrados, sendo as mais ricas Araneae (06 spp.) e Collembola (06 spp.) e as mais abundant es Diptera (2001 ind.) e Collembola (131 ind.). Finalmente, na gruta do Mandembe, foram encontradas 08 ordens de invertebrados, sendo as mais ricas Diptera (11 spp.), Araneae (05 spp.), Coleoptera (05 spp.) e Acari (05 spp.). As mais abundantes foram Acari (313 ind.) e Diptera (190 ind.) (figura 3). As famlias observadas nos respectivos txons foram: Diplopoda (Pseudonannoleniidae), Isopoda (Porcellionidae), Opiliones (Gonyleptidae), Pseudoscorpiones (Chernetidae), Acari (Anoetidae, Anystidae, Ascidae, Are ynetidae, Ixodidae, Laelapidae, Macrochelidae, Macronyssidae, Raghididae e Veigaiidae), Araneae (Araneidae, Ctenidae, Pholcidae, Theridiosomatidae, Salticidae, Shymphytognatidae, Theridiidae e Trechaleidae), Coleoptera (Carabidae, Cholevidae, Pselaphidae, Staphylinidae e Tenebrionidae), Diptera (Calliphoridae, Ceratopognidae, Chironomidae, Culicidae, Dixidae, Drosophilidae, Keroplatidae, Muscidae, Mycethophilidae, Phoridae, Psychodidae, Simulidae e Tipulidae), Ensifera (Phalangopsidae), Heteroptera (Ploiari dae e Reduviidae), Homoptera (Cicadellidae e Cixidae), Hymenoptera (Formicidae e Brachonidae), Isoptera (Termitiidae), Lepidoptera (Noctuidae e Tineidae) (tabela 1). No foi observado nenhum organismo com caractersticas troglomrficas. Em relao s carac tersticas trficas, foi observado que na gruta do Lobo os recursos orgnicos so transportados por animais ( Desmodus rotundus e Streptoprocne sp.) e depositados na parte mediana e final da caverna. Ao longo da gruta foram observados pequenos depsitos de guano de morcegos hematfagos e um grande depsito ao final do conduto, abaixo de uma grande colnia de D. rotundus Nestes depsitos foram observados indivduos de Drosophilidae (adultos e larvas). Nos condutos prximos entrada foi observada a presena de tamandu), mas nestes no havia fauna associada. Na gruta do Mandembe foi observada uma pequena colnia (4 indivduos) de morcegos carnvoros ( Chrotopterus auritus ) Entretanto, no havia depsitos de guano dest a espcie na caverna. Nos corpos de gua foram observados biofilmes alaranjados que provavelmente so oriundos do crescimento de ferrobactrias. Foi observada a presena de guano de Andorinhes ( Streptoprocne sp) em vrios locais da caverna. Nestes depsit os foram coletados principalmente caros (Macrochelidae, Ascidae, Ereynetidae e Anoetidae),

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 159 dpteros (Phoridae, Psychodidade, Chironomidade e Drosophilidae) e colepteros (Staphylinidae e Carabidae). Na gruta do campo I foi observado, ao fundo da caverna, uma grande colnia de Desmodus rotundus e um grande depsito de guano destes morcegos. Tal depsito apresentava a borda pulvurulenta (guano envelhecido) e a parte central mais pastosa (guano recm depositado). Neste depsito havia milhares de larvas e adul tos de dpteros (Drosphilidae), alm de lepidpteros (Tineidae) e pseudoescorpies (Chernetidae) associados. Alm disto, foram observadas, nas proximidades da entrada, material vegetal (possivelmente veiculado pelo vento ou enxurradas), razes da vegetao externa e uma carcaa de morcego. A no estabilizao da curva de rarefao indica que a riqueza das comunidades de invertebrados nas cavernas representada por um nmero maior de espcies do que o observado (figura 4). Os valores de similaridade quantit ativa das comunidades de invertebrados entre as trs cavernas foram baixos (< 10%) (figura 5). A diversidade alfa foi maior na gruta do Lobo (H= 1,18), seguida da gruta do Mandembe (H= 0,85) e gruta do Campo I (H= 0,61). A dominncia foi maior na gruta do Mandembe (0,48), seguida da gruta do Campo I (0,41) e gruta do Lobo (0,32) diversidade encontrada foi de 77, 11. Os impactos observados no entorno (250 m) das cavidades foram pastagens, vestgios de queimadas e trilhas. Entretanto, a 500 metros destas cavernas existem construes (casas) e atividades de minerao (figura 1). No interior das cavidades foram detectadas alteraes oriundas de visitao (trilha e pisoteamento, principalmente na gruta do Mandembe). Alm disto, a gruta do Mande mbe passa por inundaes durante fortes chuvas na regio que pode atuar lixiviando os recursos orgnicos da caverna. Figura 3. Porcentagens das riqueza e abundncias dos invertebrados coletados nas grutas do Lobo, Campo I e Mandembe, Vale do Mandembe, Luminrias, MG

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 160 Tabela 1. Composio, riqueza e abundncia dos e invertebrados em trs cavernas quartzticas coletados nas grutas do Lobo, Campo I e Mandembe, Vale do Mandembe, Luminrias, MG. Riqueza (S), abundncia (A) Ordens Famlias Gnero ou espci es Lobo Campo Mandembe S A S A S A Acari Anoetidae 1 1 Anystidae 1 2 1 1 Ascidae 1 5 Areynetidae 1 1 Ixodidae 1 1 Laelapidae 1 50 1 1 Macrochelidae 1 305 Macronyssidae 1 17 Raghididae 1 1 Ve igaiidae 1 1 Araneae NI 4 5 Araneidae 1 1 Ctenidae Enoploctenus sp e Isoctenus sp 2 22 2 7 Pholcidae Mesabolivar sp 1 2 1 43 2 12 Theridiosomatidae Plato sp 1 2 Salticidae 1 2 Shymphytognatidae 1 1 Theridiidae Theridion sp 5 5 2 2 2 2 Trechaleidae Trechalea sp 1 1 Coleoptera Carabidae 1 4 Cholevidae 1 2 NI 3 8 Pselaphidae 1 2 Staphylinidae 1 9 1 41 1 2 Tenebrionidae 1 5 Collembola NI 6 131 Diplopoda Pseudonannole niidae Pseudonannolene sp 5 24 1 2 Diptera NI 2 400 2 2000 1 33 Calliphoridae 1 1 Ceratopognidae 1 100 Chironomidae 1 40 Culicidae Culex sp 1 25 Dixidae 1 2 Drosophilidae Drosophila sp 1 35 1 4 Keroplatidae 1 1 Muscidae 1 1 Mycethophilidae 2 7 NI 3 4 Phoridae Conicera sp 3 3 Psychodidae 1 1 Simulidae 1 1 Tipulidae 2 20 Blattodea NI 1 35 1 2 1 9 Ensifera Phalangopsidae Endecous sp 2 20 1 5 1 13 Heteroptera Pl oiaridae 1 9 Reduviidae Zelurus sp 1 13 1 6 Heteroptera NI 1 1 Homoptera Cicadellidae 1 1 Cixiidae 1 1 1 9 Hymenoptera Formicidae Atta sp 3 13 3 100 Brachonidae 1 13 Isopoda Porcellionidae Trichorhina sp 1 2 Isopt era Termitiidae 1 3 Lepidoptera Noctuidae Latebraria sp. 2 30 1 1 NI 1 1 Tineidae 1 1 1 12 Opiliones Cosmetidae/Gonyleptidae Acutisoma longipes/Mitogoniella taquara 1 7 1 17 2 40 Pseudoscorpiones Chernetidae 1 1 1 1 Psocoptera NI 3 27 58 804 35 2395 31 595

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 161 Tabela 2. Dominncia, diversidade, abundncia e riqueza dos invertebrados coletados em trs cavernas quartzticas no Vale do Mandembe, Luminrias MG Lobo Campo I Mandembe Dominncia 0,32 0,418 0,487 Diversidade 1,1 87 0,614 0,853 Abundncia 938 2421 626 Riqueza total 60 37 33 Extenso (m) 122 60,6 244,6 Figura 4. Curva de rarefao dos invertebrados coletados em trs cavernas quartzticas no Vale do Mandembe, Luminrias, MG. Figura 5. Similaridade da faun a de invertebrados coletados em trs cavernas quartzticas no Vale do Mandembe, Luminrias

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 162 4 DISCUSSO No Brasil estudos relacionados biologia de cavernas quartzticas ainda so escassos e foram realizados em apenas algumas cavernas presentes nos esta dos de Bahia e Minas Gerais (Gnaspini Neto & Trajano 1994; Pinto da Rocha 1995, Ferreira 2004, Bueno Silva 2008, Souza Silva 2008). Ao longo do mundo somente, Sharratt et al (2000) avaliou ecologicamente cavernas quartzticas. Infelizmente, a comparao da composio, riqueza e diversidade da fauna das cavernas deste estudo com dados levantados por Gnaspini Neto & Trajano (1994) e Pinto da Rocha (1995) infactvel. A metodologia empregada por estes autores aparentemente no resultou em uma amostragem efica z da fauna (em decorrncia do nmero reduzido de espcies evidenciadas). Alm disso, tais autores no apresentaram quaisquer informaes referentes diversidade e dominncia encontradas nestas cavernas. Destaca se que os trabalhos supracitados foram dese nvolvidos h quase duas dcadas, em um cenrio onde o principal objetivo era o de se realizar levantamentos primrios. No entanto, na atualidade, fundamental que se passe a incluir anlises ecolgicas mais consistentes quando se objetiva realizar qualque r caracterizao mnima de uma comunidade subterrnea. Ferreira (2004) e Souza Silva (2008) relatam valores de riqueza bastante variveis para cavernas quartzticas no Sul de Minas Gerais. Entretanto, parece existir uma relao de aumento da riqueza de esp cie com o aumento da extenso das cavernas quartzticas (Souza Silva 2008). Ferreira (2004) estudando quatro cavernas quartzticas no estado de Minas Gerais (grutas Carimbado e Sobradinho em So Thom das Letras, gruta da Toca em Carrancas e gruta do Muro Perdido em Guap), encontrou riqueza mdia de 26,75 spp. ( 1,25) e diversidade mdia de 2,06 ( 0,13). Souza Silva (2008) estudou 14 cavernas quartzticas no estado de Minas Gerais e encontrou riqueza mdia de 45 spp. ( 25) e diversidade mdia de 2,5 ( 0,3). Sharratt et al (2000) estudou 31 cavernas quartzticas na pennsula de Cape na frica do Sul e encontrou 85 spp. Neste estudo, a riqueza mdia foi de 41, 3 spp., e somente a gruta do Lobo obteve valor de riqueza superior a 45 espcies. No entanto, a diversidade mdia foi de foi de 0,88 spp. Cavernas distintas podem apresentar valores de riqueza e diversidade consideravelmente diferentes mesmo se utilizando esforos amostrais semelhantes. Segundo Ferreira (2005) e Souza Silva (2008), estas diferenas podem dever se a diversos fatores, como a extenso linear das cavernas, suas condies trficas e o grau de alteraes antrpicas sofridas. Alm disso, variaes no nmero de espcies so comuns mesmo em cavernas de litologias distintas. Cavernas ferrugino sas em Minas Gerais, por exemplo, apresentam riquezas variando desde 24 at 69 espcies (Ferreira 2005). Zampaulo (2010) coletando em 282 cavernas carbonticas na provncia Arcos Pains Dorespolis, em Minas Gerais, encontrou uma riqueza mdia de 35 spp. ( 19,1) e diversidade mdia de 2,46 ( 0,51). A maior riqueza de invertebrados encontrada na gruta do Lobo pode se dever maior extenso da mesma, quando comparada s demais cavernas. Apesar da gruta do Mandembe possuir uma maior extenso comparada gruta do Lobo, ela possui grande parte do seu piso submerso, fato que reduz a disponibilidade de habitats para invertebrados terrestres. A relao de aumento da riqueza com o aumento da projeo linear das cavernas est provavelmente relacionada a um aumento na disponibilidade de espao (microhabitats) para a fauna. Cavernas maiores tendem a ser geomorfologicamente mais heterogneas, o que provavelmente resulta em um aumento da quantidade de microhabitats (Ferreira 2004). Bueno Silva (2008), estudando comunidade s de invertebrados aquticos no riacho da gruta Mandembe, encontrou 112 espcies. Somando as s 33 espcies de invertebrados terrestres encontradas neste estudo, observa se um nmero muito superior (145 spp.) mdia encontrada por Souza Silva (2008) para cavernas quartzticas. Destaca se que Bueno Silva (2008) realizou amostragens mensais nesta caverna durante seis meses, o que resultou na elevada riqueza observada. Tal fato revela a importncia dos riachos que nascem na superfcie e adentram no subterrne o, na manuteno da biodiversidade em algumas das cavernas estudadas. Souza Silva (2003), estudando a dinmica trfica de cavernas calcrias, tambm encontrou uma maior riqueza da fauna de invertebrados aquticos em relao terrestre. Principalmente ao nvel de ordens e famlias, existem grandes semelhanas na composio da fauna de invertebrados observados neste trabalho com a fauna apresentada pelos estudos realizados em

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 163 cavernas quartzticas no pas ( Gnaspini Neto & Trajano 1994; Ferreira 2004, Souza Silva 2008). Os Principais gneros observados neste estudo so bastante ubquos em cavernas brasileiras (co mo Enoploctenus sp, Isoctenus sp, Mesabolivar sp., Pseudonannolene sp, Drosophila sp., Conicera sp., Endecous sp, Zelurus sp, Mitogoniella sp e Acust isoma sp) e at mesmo em cavernas de outras litologias (Souza Silva 2008). Estas ocorrncias podem dever se ao fato de organismos pertencentes a estes grupos serem amplamente distribudos e apresentarem hbitos alimentares detritvoros ou predadores genera listas, possibilitando colonizar cavernas, as utilizando como abrigo e/ou encontrado alimento e fundando populaes residentes (Souza Silva 2008). O efeito da dominncia de algumas espcies nas cavernas amostradas pode se dever influncia direta das con dies trficas de cada sistema. Em cavernas com uma grande disponibilidade de guano, comunidades associadas a estes recursos podem ter algumas espcies muito abundantes e consequentemente promover uma reduo nos valores de diversidade e similaridade quan titativa e aumento nos valores de dominncia (como exemplo: Acari, larvas de Diptera, Collembola, Ensifera e Coleoptera). Uma vez que se optou por trabalhar com coletas nicas em cada caverna, os modelos obtidos pelas curvas cumulativas de espcies e raref ao j eram esperados. A tendncia a no estabilizao das curvas de rarefao para as cavernas pode dever se provavelmente ao fato que a heterogeneidade de microhabitats nas mesmas dificulta a coleta de algumas espcies. Provavelmente a presena de fissu ras, blocos abatidos e corpos de gua, permitem que algumas espcies no sejam acessadas pelo mtodo de coleta visual (figura 4). esperado que ambientes heterogneos apresentem uma alta diversidade de espcies, abrigadas em micro e meso habitats (Palmer et al. 2002). Caso tivessem sido realizadas mais coletas em cada caverna, o nmero de espcies poderia ter sido maior, e os modelos gerados poderiam ter alcanado uma assntota. No entanto, mesmo em estudos que consideraram um grande universo amostral, a a ssntota no foi atingida. Zampaulo (2010), coletando em 296 cavernas, com metodologia similar a deste nosso estudo, na provncia Arcos Pains, tambm no atingiu a assntota. Por fim, importante destacar que coletas sequenciais ou exaustivas em ambientes caverncolas podem causar impactos irreversveis fauna (Ferreira 2004). O alto valor de diversidade encontrado demonstra as grandes diferenas observadas na composio das comunidades das trs cavernas e revela que cavernas prximas no necessariament e possuem comunidades semelhantes. Variaes na estrutura fsica e trfica podem determinar enormes diferenas na composio das comunidades de invertebrados de cavernas (Ferreira 2003). Souza Silva et al (2011) coletando em cavernas quartzticas geografic amente distantes encontrou um valor de beta diversidade (54.74) menor do que encontrado para as 3 cavernas do vale do mandembe. O dendrograma de similaridade mostra que a gruta do campo I apresenta se como a mais distinta faunisticamente e a gruta do Lobo e Mandembe mostraram se prximas em composio faunstica, embora fisicamente distantes. Tal fato indica a importncia das matas que acompanham o vale, unindo as cavernas do Lobo e Mandembe (figura 3), invertebrad os, possibilitando um fluxo mais intenso destes organismos entre cavernas distantes (mas conectadas por estas florestas) do que entre cavernas vegetao. Ferreira (2003) discute que a maior similaridade da fauna d as cavernas Janelo e Brejal, cortadas pelo rio Peruau, pode dever se presena de matas ciliares pereniflias no rio Peruau que migrao de invertebrados. Tal conectividade pode possibilitar um fluxo mais intens o de organismos entre as cavernas distantes (mas conectadas por estas florestas) do que entre cavernas prximas e As poucas alteraes ambientais observadas no interior das cavernas podem decorrer da pequena exten so das mesmas, associadas suas reduzidas belezas cnicas (excetuando se a gruta do Mandembe). Tais caractersticas tornam estas cavernas pouco atrativas, o que pode estar contribuindo para a sua preservao. Entretanto, a tradio pecuria e de minera o da regio colocam em risco as drenagens subterrneas e a vegetao de entorno das cavernas. Segundo Carvallho e colaboradores (2007), no municpio de Luminrias, somente a gruta do Mandembe e a gruta Grande apresentam potencial espeleoturstico em funo da esttica, presena de corpo de gua, facilidade dos caminhamentos em seu interior e formaes raras. Em geral, cavernas ou regies com elevada beleza cnica, recebem um grande nmero de visitantes, encontrando se em risco pelo uso desordenado e sem pla nejamento (Souza Silva 2008). Entretanto, mesmo cavernas sem

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Souza Silva, Nicolau & Ferreira C omunidades de invertebrados terrestres de trs ... SBE Campinas, SP | Espeleo Tema v. 22, n.1. 2011 164 expressividade cnica podem se encontrar ameaadas por atividades agropecurias e/ou extrativistas (Souza Silva 2008). No foram encontradas espcies troglomrficas em nenhuma das trs cavernas e studadas. Este fato pode dever se pequena extenso das cavernas aliada provvel baixa disponibilidade de espaos subterrneos sub perficiais (MSS). Mesmo em cavernas de pequenas extenses, pode se encontrar espcies troglbias se a existncia de meso e micro cespacos subterrneos permitiram o isolamento de populaes hipgeas (Ferreira 2005, Souza Silva et al 2011). Atualmente para o Brasil so relatadas aproximadamente 13 espcies troglomrficas em cavernas quartzticas, distribudas na Chapada Diaman tina na Bahia (04 spp.) e Parque Estadual de Ibitipoca (09 spp.) em Minas Gerais, Brasil (Souza Silva 2008, Trajano & Bichuette 2010). Sharratt et al (2000) estudando cavernas quartzticas na pennsula de Cape na frica do Sul e encontrou 13 espcies trogl omrficas distribudas em 31 cavernas de tamanho diferenciados. 5 CONSIDERA'ES FINAIS Apesar de no ter sido encontrada nenhuma espcie troglomrfica, as cavernas deste estudo possuem uma expressiva singularidade, pelo fato de apresentarem uma elevada r iqueza, diversidade e baixos valores de similaridade da fauna de invertebrados. Alm disto, ocorrem condies ecolgicas heterogneas, principalmente em termos de estrutura trfica e disponibilidade de microhabitats (presena distinta de guano de andorinh o e de morcegos hematfago, cursos de gua, matria orgnica vegetal, razes e blocos cados nas diferentes cavernas) que podem ser facilmente afetadas com alteraes no entorno e/ou visitao desordenada e sem o devido plano de manejo. AGRADECIMENTOS Da niele C. Pompeu, Cristhiane C. S. Liria, Leopoldo, F. O. Bernardi, Thais Giovanini, Marcela Alves, a prefeitura de Luminrias, SBE e CECAV. A Coordenadoria de Pesquisa do Centro Universitrio de Lavras (UNILAVRAS). Ao laboratrio de Zoologia e a Coordena o dos cursos de Cincias Biolgicas Bacharelado e Licenciatura (UNILAVRAS) pelo suporte logstico REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS Ashmole, N.P. 1994. Colonization of the underground environment in volcanic islands. Memoires de Bioespologie 20 1 11. Auler A. S. 2006. Relevncia de cavidades naturais subterrneas: contextualizao, impactos e aspectos jurdicos. Relatrio tcnico, Ministrio de Minas Energia (MME) Braslia,166pp. www.mme.gov.br Bueno Silva A. P. 2008. E nriquecimento trfico em ambientes subterrneos e suas aplicaes para a conservao da biodiversidade de invertebrados aquticos Dissertao de mestrado. Universidade Federal de Lavras/Ps Graduao em Ecologia aplicada 122 pp. Carvalho, V.C., Correa da Silva, M.A. & D. V. Oliveira 2007. Potencialidades espeleoturisticas da rea carstica do municpio de Luminrias (MG, Brasil), Revista de Turismo Y Patrimnio Cultural 3(5):383 390 Chaimowicz.F. 1984. Levantamento bioespeleolgico em algumas grutas de Mi nas Gerais. Espeleo tema 14:97 107. Culver, D. C., M. C. Christman, I. Sereg, P. Trontelj & B sket. 2004 The Location of Terrestrial Species Rich Caves in a Cave Rich Area. Subterranean Biology 2: 27 32. Dessen. E.M B.Eston V. R. Silva M. S. M.Temperi ni Beck T.& Trajano, E.1980. Levantamento preliminar da fauna de cavernas de algumas regies do Brasil. Cincia e Cultura 32(6):714 725. Ferreira R. L & Martins R. P. 1998. Diversity and distribution of spider associated with bat guano piles in Morrinho c ave (Bahia state, Brazil). Diversity and distribution (1998)4,235 241.

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