SBE Turismo e Paisagens Cársticas

Citation
SBE Turismo e Paisagens Cársticas

Material Information

Title:
SBE Turismo e Paisagens Cársticas
Series Title:
Tourism and Karst Areas
Alternate Title:
Revista Científica da Seção de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologia
Publisher:
Sociedade Brasileira de Espeleologia
Publication Date:
Language:
Portuguese

Subjects

Genre:
serial ( sobekcm )

Notes

General Note:
Capa, Expediente, Sumário, Apresentação e Editorial ARTIGOS ORIGINAISNarrativa Sobre a Efetivação de Um Parque e Algumas de Suas Humanidades Narratives on the Implementation of a Park and Some of Its Humanities Cláudio Eduardo de Castro Ana Maria Lopez Espinha "Mal Para Nós, Bom Para o Mundo?" Um Olhar Antropológico Sobre a Conservação Ambiental no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) "Its Bad for Us and Good to the World?" An Anthropological Overview About Environmental Conservation in Alto Ribeira State Park (PETAR) Pedro Castelo Branco Silveira Estudo das Transformações da Estrutura Física do Bairro da Serra, Entorno do PETAR, em Decorrência da Atividade Turística Study of Physical Structure Transformations of Serra Disctrict, PETAR Surrounding Area, in Consequence of the Tourism Activity Isabela de Fátima Fogaça Níveis de Radônio em Cavernas do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) Radon Levels in Caves of Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) Simone Alberigi Brigitte R. S. Pecequilo Espeleoturismo e Educação Ambiental no PETAR - SP Speleotourism and Environmental Education in PETAR (SP) Zysman Neiman Andréa Rabinovici Ecoturismo e Percepção de Impactos Socioambientais sob a Ótica dos Turistas no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira - PETAR Ecotourism and the Perception of Socio-Environmental Impacts From the Point of View of Tourists in the State Touristic Park of the Upper Ribeira River - PETAR Heros Augusto Santos Lobo Inclusão Social de Portadores de Necessidades Especiais (PNEs) e a Prática do Turismo em Áreas Naturais: Avaliação de Seis Cavidades Turísticas do Estado de São Paulo Social Inclusion of Individuals With Special Needs and Tourism in Natural Areas: Evaluation of Six Tourist Cavities State of São Paulo Érica Nunes, Cláudia Santos Luz, Daniela Tomochigue dos Anjos, Aymoré Cunha Gonçalves, Luiz Afonso Vaz de Figueiredo Robson Almeida Zampaulo RESUMOS DE TESES E DISSERTAÇÕESPlano de Manejo Para Cavernas Turísticas: Procedimentos Para Elaboração e Aplicabilidade Speleologycal Management Plan: Procedures For Establishment And Applicability Ricardo José Calembo Marra Caracterização do Carste da Região de Cordisburgo, Minas Gerais The Characterization of the Cordisburgo Karst Region, Minas Gerais Luiz Eduardo Panisset Travassos
Restriction:
Open Access - Permission by Publisher
Original Version:
Vol. 1, no. 1 (2008)
General Note:
See Extended description for more information.

Record Information

Source Institution:
University of South Florida Library
Holding Location:
University of South Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
K26-03696 ( USFLDC DOI )
k26.3696 ( USFLDC Handle )
8809 ( karstportal - original NodeID )
1983-473X ( ISSN )

USFLDC Membership

Aggregations:
Added automatically
Karst Information Portal

Postcard Information

Format:
serial

Downloads

This item has the following downloads:


Full Text
Description
Capa, Expediente,
Sumrio, Apresentao e Editorial
ARTIGOS ORIGINAISNarrativa Sobre a Efetivao de Um
Parque e Algumas de Suas Humanidades Narratives on the
Implementation of a Park and Some of Its Humanities Cludio
Eduardo de Castro & Ana Maria Lopez Espinha "Mal Para Ns,
Bom Para o Mundo?" Um Olhar Antropolgico Sobre a Conservao
Ambiental no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR)
"Its Bad for Us and Good to the World?" An Anthropological
Overview About Environmental Conservation in Alto Ribeira State
Park (PETAR) Pedro Castelo Branco Silveira Estudo das
Transformaes da Estrutura Fsica do Bairro da Serra, Entorno
do PETAR, em Decorrncia da Atividade Turstica Study of
Physical Structure Transformations of Serra Disctrict, PETAR
Surrounding Area, in Consequence of the Tourism Activity
Isabela de Ftima Fogaa Nveis de Radnio em Cavernas do
Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) Radon Levels
in Caves of Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR)
Simone Alberigi & Brigitte R. S. Pecequilo Espeleoturismo e
Educao Ambiental no PETAR SP Speleotourism and
Environmental Education in PETAR (SP) Zysman Neiman &
Andra Rabinovici Ecoturismo e Percepo de Impactos
Socioambientais sob a tica dos Turistas no Parque Estadual
Turstico do Alto Ribeira PETAR Ecotourism and the Perception
of Socio-Environmental Impacts From the Point of View of
Tourists in the State Touristic Park of the Upper Ribeira River
- PETAR Heros Augusto Santos Lobo Incluso Social de Portadores
de Necessidades Especiais (PNEs) e a Prtica do Turismo em
reas Naturais: Avaliao de Seis Cavidades Tursticas do
Estado de So Paulo Social Inclusion of Individuals With
Special Needs and Tourism in Natural Areas: Evaluation of Six
Tourist Cavities State of So Paulo rica Nunes, Cludia Santos
Luz, Daniela Tomochigue dos Anjos, Aymor Cunha Gonalves, Luiz
Afonso Vaz de Figueiredo & Robson Almeida Zampaulo
RESUMOS DE TESES E DISSERTAESPlano de Manejo Para
Cavernas Tursticas: Procedimentos Para Elaborao e
Aplicabilidade Speleologycal Management Plan: Procedures For
Establishment And Applicability Ricardo Jos Calembo Marra
Caracterizao do Carste da Regio de Cordisburgo, Minas Gerais
The Characterization of the Cordisburgo Karst Region, Minas
Gerais Luiz Eduardo Panisset Travassos



PAGE 1

Narrativa Sobre a Efetivao de Um Parque e Algumas de Suas Humanidades Cludio Eduardo de Castro & Ana Maria Lopez Espinha “Mal Para Ns, Bem Para o Mundo?” Um Olhar Antropolgico Sobre a Conservao Ambient al no Parque Est adual T urstico do Alto Ribeira (PET AR) Pedro Castelo Branco Silveira Estudo das T ransformaes da Estrutura Fsica do Bairro da Serra, Entorno do PET AR, em Decorrncia da Atividade T urstica Isabela de Ftima Fogaa Nveis de Radnio em Cavernas do Parque Est adual T urstico do Alto Ribeira (PET AR) Simone Alberigi & Brigitte R. S. Pecequilo Espeleoturismo e Educao Ambient al no PET AR SP Zysman Neiman & Andra Rabinovici Ecoturismo e Percepo de Imp actos Socioambient ais sob a "tica dos T urist as no Parque Est adual T urstico do Alto Ribeira PET AR Heros Augusto Santos Lobo Incluso Social de Port adores de Necessidades Especiais (PNEs) e a Prtica do T urismo em reas Naturais: A valiao de Seis Cavidades T ursticas do Est ado de So Paulo rica Nunes, Cludia Santos Luz, Daniela T omochigue dos Anjos, A ymor Cunha Gonalves, Luiz Afonso V az de Figueiredo & Robson Almeida Zamp aulo Plano de Manejo Para Cavernas T ursticas: Procedimentos Para Elaborao e Aplicabilidade Ricardo Jos Calembo Marra Caracterizao do Carste da Regio de Cordisburgo, Minas Gerais Luiz Eduardo Panisset T ravassos Artigos Originais Resumos de T eses e Dissert aes EDIO COMEMORA TIV A ESPECIAL DE LANAMENT O EDIO COMEMORA TIV A ESPECIAL DE LANAMENT O P E T A R 5 0 A n o s 5 0 A n o s R www .sbe.com.br/turismo.asp ISSN 1983-473X V olume 1 Nmero 1 Junho 2008

PAGE 2

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008.

PAGE 3

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 1 EXPEDIENTE Sociedade Brasileira de Espeleologia ( Brazilian Society of Speleology ) Diretoria 2007-2009 Presidente: Emerson Gomes Pedro Vice-presidente: Luiz Afonso Vaz de Figueiredo Tesoureira: Elvira Maria Antunes Branco 1 Secretrio: Paulo Valsecchi do Amaral 2 Secretrio: Silmar Onofre de Oliveira Conselho Deliberativo 2007-2009 ngelo Spoladore Heros Augusto Santos Lobo Paulo Rodrigo Simes Rogrio Henry Bertusso Magalhes (Presidente) Thiago Faleiros Santos Suplentes Carlos Leonardo B. Giunco Carmen Vianna Seo de Espeleoturismo – SeTur/SBE Cesar Ulisses Vieira Verssimo rica Nunes (Comisso de Espeleo-incluso) Heros Augusto Santos Lobo (Coordenador) Jos Antonio Basso Scaleante Jos Ayrton Labegallini Luiz Afonso Vaz de Figueiredo Marcelo Augusto Rasteiro Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas ( Research in Tourism and Karst Areas ) Editor-Chefe ( Editor-in-Chief ) MSc. Heros Augusto Santos Lobo Universidade Estadual Paulista “Jlio de Mesquita Filho” – IGCE/UNESP, Brasil Editor Associado ( Associated Editor ) Dr. Cesar Ulisses Vieira Verssimo Universidade Federal do Cear – UFC, Brasil Editor Executivo ( Executive Editor ) Esp. Marcelo Augusto Rasteiro Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE, Brasil Conselho Editorial ( Editorial Board ) Dr. Angel Fernndes Corts Universidad de Alicante – UA, Espanha Dr. Edvaldo Cesar Moretti Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, Brasil Dr. Jersone Tasso Moreira Silva Universidade FUMEC, Brasil Dr. Jos Alexandre de Jesus Perinotto Universidade Estadual Paulista “Jlio de Mesquita Filho” – IGCE/UNESP, Brasil MSc. Jos Antonio Basso Scaleante Pontficia Universidade Catlica de Campinas – PUCCamp, Brasil Dra. Linda Gentry El-Dash Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Brasil MSc. Luiz Afonso Vaz de Figueiredo Centro Universitrio Fundao Santo Andr – FSA, Brasil MSc. Luiz Eduardo Panisset Travassos Faculdade Promove/Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais – PUC/MG, Brasil MSc. Marconi Souza Silva Faculdade Presbiteriana Gammon – Fagammon/Centro Universitrio de Lavras – UNILAVRAS, Brasil Dr. Marcos Antonio Leite do Nascimento Servio Geolgico do Brasil – CPRM, Brasil Dr. Paulo Csar Boggiani Universidade de So Paulo – IGc/USP, Brasil Dr. Paulo dos Santos Pires Universidade do Vale do Itaja – UNIVALI, Brasil MSc. Ricardo Jos Calembo Marra Instituto Brasileiro do Meio Ambiente – IBAMA, Brasil Dr. Ricardo Ricci Uvinha Universidade de So Paulo – EACH/USP, Brasil Dr. Srgio Domingos de Oliveira Universidade Estadual Paulista “Jlio de Mesquita Filho” – UNESP/Rosana, Brasil Dra. rsula Ruchkys de Azevedo CREA-MG, Brasil Dr. William Sallun Filho Instituto Geolgico do Estado de So Paulo – IG, Brasil Dr. Zysman Neiman Universidade Federal de So Carlos – UFSCAR, Brasil Comisso de traduo ( Translation Committee ) Dra. Linda Gentry El-Dash – Ingls Esp. Gisele Neves Catarino – Espanhol

PAGE 4

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 2 SUMRIO (CONTENTS) Apresentao ( Presentation ) 3 Editorial ( Editors Page ) 4 ARTIGOS ORIGINAIS/ORIGINAL ARTICLES Narrativa Sobre a Efetivao de Um Pa rque e Algumas de Suas Humanidades Narratives on the Implementation of a Park and Some of Its Humanities Cludio Eduardo de Castro & Ana Maria Lopez Espinha 7 “Mal Para Ns, Bom Para o Mundo?” Um Olhar Antropolgico Sobre a Conservao Ambiental no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) “Its Bad for Us and Good to the World?” An Anthropological Overview About Environmental Conservation in Alto Ribeira State Park (PETAR) Pedro Castelo Branco Silveira 19 Estudo das Transformaes da Estrutura Fsica do Bairro da Serra, Entorno do PETAR, em Decorrncia da Atividade Turstica Study of Physical Structure Transformations of Serra Disctrict, PETAR Surrounding Area, in Consequence of the Tourism Activity Isabela de Ftima Fogaa 29 Nveis de Radnio em Cavernas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) Radon Levels in Caves of Parque Esta dual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) Simone Alberigi & Brigitte R. S. Pecequilo 43 Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR – SP Speleotourism and Environmental Education in PETAR (SP) Zysman Neiman & Andra Rabinovici 57 Ecoturismo e Percepo de Impactos Socioambi entais sob a "tica dos Turistas no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira – PETAR Ecotourism and the Perception of Socio-Environmental Impac ts From the Point of View of Tourists in the State Touristic Park of the Upper Ribeira River – PETAR Heros Augusto Santos Lobo 67 Incluso Social de Portadores de Necessidades Especiais (PNEs) e a Prtica do Turismo em reas Naturais: Avaliao de Seis Cavida des Tursticas do Estado de So Paulo Social Inclusion of Individuals With Special Needs and Tourism in Natural Areas: Evaluation of Six Tourist Cavities State of So Paulo rica Nunes, Cludia Santos Luz, Daniela Tomo chigue dos Anjos, Aymor Cunha Gonalves, Luiz Afonso Vaz de Figueiredo & Robson Almeida Zampaulo 77 RESUMOS DE TESES E DISSERTA'ES/ MASTER AND DOCTORAL THESIS: ABSTRACTS Plano de Manejo Para Cavernas Tursticas: Procedimentos Para Elaborao e Aplicabilidade Speleologycal Management Plan: Procedures For Establishment And Applicability Ricardo Jos Calembo Marra 89 Caracterizao do Carste da Regio de Cordisburgo, Minas Gerais The Characterization of the Cordisburgo Karst Region, Minas Gerais Luiz Eduardo Panisset Travassos 91

PAGE 5

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 3 APRESENTAO Este ano a Sociedade Brasileira de Espeleologia completar 39 anos trabalhando em prol da conservao do patrimnio espeleolgico bras ileiro e da Amrica Latina e neste momento comemorando tambm os 50 anos do Parque Esta dual Turstico do Alto do Vale do Ribeira PETAR. Portanto no poderia ser outra a escolha dest e Parque Estadual como tema central desta edio de lanamento, pois a hist ria do PETAR no pode ser contada de forma separada da histria da SBE; foi na Caverna Casa de Pedra que acont eceu o I Congresso Brasileiro de Espeleologia e a idia de se fundar a SBE por Pier re Martin, Michel Le Bret e G uy-Cristhian Colett entre outros espelelogos que dedicaram suas vidas a preserv ao das cavernas brasileiras. Aps sua fundao em 1 de novembro de 1969, a SBE vem trabalhando na regio, estando entre os principais atores no processo de implantao desta Unidade de Conservao. Os artigos foram muito bem selecionados e most ram sobre diferentes perspectivas a relao da comunidade local e dos visitantes com as cavernas do PETAR, contem plando suas influncias sobre a paisagem. Peo ateno especial para o artigo sobre Espeleo-In cluso, um tema muito importante que deve ter o apoio de toda a comunida de espeleolgica para fo mentar a adequao das Unidades de Conservao, garantindo a acessibilida de de portadores de necessidades especiais. Estamos orgulhosos desta publicao indita na histria da espeleologia mundial, que contempla trabalhos de importantes pesquisadores do cenrio nacional Estou certo de que este o caminho: explorar, pesquisar, mas principalmente, difundir o conhecimento cientfico para construo de uma viso de uso sustentvel das cavernas brasileiras, bem estar das comunidades tradicionais e do ecossi stema em que vivem. Emerson Gomes Pedro Presidente da SBE

PAGE 6

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 4 EDITORIAL com muito orgulho que a Seo de Espe leoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologia – SeTur/SBE – apresenta a revista Pe squisas em Turismo e Paisagens Crsticas. Fruto do amadurecimento das pesquisas qu e relacionam o Turismo aos terren os crsticos, bem como sua conservao e aos povos que vivem nas regies crst icas, trata-se do primeiro peridico tcnicocientfico do gnero em todo o mundo. De uma forma geral, tambm devemos a cria o desta revista aos diversos pesquisadores das reas de Turismo e Espeleologia no pas Verdadeiros lutadores, que optaram em algum momento de suas carreiras profissionais a se dedicarem a estes campos multidisciplinares e emergentes de estudo, que buscam se consolidar no cenrio cientfico mundial. Em meio aos estudos que, de forma eminente, pertencem a cada uma destas reas, vislumbramos aqueles que pertencem a ambas, quebrando as tnues barreiras do conhecimento e, por vezes, a fragmentao tpica do positivismo cientfico. Um lanamento deste porte se torna mais re levante se acompanhado de uma festa. Assim, oferecemos a todos mais um motivo de comemor aes: o cinqentenrio da criao do Parque Estadual Turstico do Alto Ribe ira – PETAR. Localizado no Sudoe ste do Estado de So Paulo, o Parque protege uma significativa parcela da Pr ovncia Espeleolgica do Aungui, uma das mais relevantes do Brasil. Alia-se a i sso a exuberncia da Floresta At lntica e a riqueza cultural dos povos da regio, deixando o luga r ainda mais nico. O ano de 2008 tem sido conturbado para o Turismo no PETAR. Em fevereiro, suas cavernas foram fechadas ao uso pblico, pela falta de um Plano de Manejo Espeleolgico – instrumento tcnico que resguarda seu uso de forma mais sustentvel. Lutas e discusses, travadas por alg uns dos autores que assina m artigos nesta primeira edio, bem como por tcnicos e pesquisadores, gestores do Parque e Unidades de Conservao vizinhas, operadores de turismo e moradores locais, se fizeram necess rias para resguardar o direito soberano do ser humano de ter acesso natureza. Findo este captulo, cujas conseqncias ainda no so plenamente conhecidas, sabe-se que muita luta ainda est por vir, de forma a consolidar de forma definitiva e inequvoca o Turismo na regio. O pargrafo acima foi um parntese necessri o – pois o momento de celebrao – apenas para posicionar o leito r quanto pertinncia de se resgatar as discusses sobre o Turismo na regio. Assim, presenteamos o PETAR com uma edio co mposta somente por artigos a ele relacionados. Abre esta edio o artigo de Castro e Espi nha, trazendo uma reflexo sobre as diferenas inerentes ao processo de transformao do e pelo Turismo na regio, que se distingue de outros lugares do pas em funo da valorizao da id entidade local – ora representada pelo monitor ambiental – e da melhoria na qualidade de vida da populao. Os autores tecem sua trama de reflexes a partir da criao do Parque, passa ndo pelos programas de formao de monitores ambientais e culminando no processo de certificao das pousadas locais. Silveira, autor do segundo artigo, nos brinda co m uma viso antropolgica do processo de conservao da Floresta Atlntica, com enfoque voltado para os bairros rurais Serra e Bombas, ambos localizadas no entorno do Parque. O autor destaca os conflitos inerentes transformao das possibilidades de uso dos recursos naturais, considerando os dife rentes interesses, individuais e coletivos, que permeiam o processo vi venciado nas comunidades estudadas. Na seqncia, Fogaa analisa a origem e a estrutura urbana do Bairro da Serra, considerando os reflexos do turismo em seu processo de transf ormao da paisagem. A autora aborda a questo desde sua origem, ligada agricultura e minera o, passando pela imposio dos limites de uso do

PAGE 7

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 5 solo gerada pelas Unidades de Conservao, culm inando no Turismo como alternativa recente de sobrevivncia. O artigo assinado por Alberigi e Pecequilo muda o enf oque at ento observado nos trabalhos anteriores. Tendo por base o meio fsico, o trabalho apre senta os nveis de Radnio – um gs oriundo do decaimento do Urnio e que tem im plicaes cancergenas em alguns nveis de intensidade e tempo de exposio – das principa is cavernas tursticas do PETAR. As variaes encontradas, bastante significativ as, esto atreladas s condies c limticas e, de uma forma geral, no apresentam riscos a sade humana. Certam ente, um importante subsdio ao manejo das cavernas do Parque. Um estudo sobre psicologia comportamental em relao s formas crsticas do PETAR apresentado por Neiman e Rabinovici, alterna ndo mais uma vez o enfoque dos trabalhos ora publicados. Com enfoque centrado na educao am biental por meio do espeleoturismo, evidenciase a alterao de paradigmas, indo da compreen so dos aspectos ambientais ao estmulo s emoes, tidas como formas mais eficientes de percepo, interpretao e educao ambiental. O prximo artigo de minha autoria. Nele, apre sento a percepo dos turistas que visitam o PETAR quanto aos impactos que causam no Bairro da Serra e nas cavernas. De uma forma geral, os entrevistados acreditam que os im pactos gerados no Parque so predominantemente negativos, e na comunidade, positivos. Questes sobre a capacidade de carga, o respeito aos moradores da regio e a compreenso das necessidades dos visitantes e visitados aparecem como pano de fundo na discusso realizada. A seo de Artigos Originais encerrada com o trabalho de Nunes, Luz, Anjos, Gonalves, Figueiredo e Zampaulo. O grupo de pesquisadores avaliou as condies de acessibilidade para pessoas portadoras de necessida des especiais, mais especificamente os cadeirantes, em seis cavernas do Estado de So Paulo – qu atro delas localizadas no PETAR. Estruturas de acesso dentro e fora das cavernas foram avaliadas, demonstr ando que nenhuma das cavernas estudadas possui condies especiais para atende r o pblico em questo. O tema tr atado oportuno e necessrio, dentro de uma perspectiva de sustentabilidade so cial que deve permear o Turismo na atualidade, considerando o amplo direito de ace sso de todos s reas naturais. Esta primeira edio ainda complementada com os resumos de duas dissertaes de mestrado de membros de nosso Conselho Editorial. Marra apresenta sua proposta na forma de um Termo de Referncia para Elaborao de Planos de Manejo Espeleolgicos. Travassos faz uma anlise da regio de Cordisburgo, Minas Gera is, baseada nos conceitos clssicos de carste adaptados realidade do carste intertropical. Com este leque de temas e trabalhos de prim orosa qualidade, pretendemos demonstrar a que veio a nossa revista. Desejamos a todos uma excelente e instigante leitura! Heros Augusto Santos Lobo Editor-Chefe A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Es peleologia (SeTur/SBE). Pa ra submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp

PAGE 8

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008.

PAGE 9

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 7 NARRATIVA SOBRE A EFETIVAO DE UM PARQUE E ALGUMAS DE SUAS HUMANIDADES NARRATIVE ON THE IMPLEMENTATION OF A PARK AND SOME OF ITS HUMANITIES Claudio Eduardo de Castro (1) & Ana Maria Lopez Espinha (2) (1) Universidade Estadual do Maranho (2) CNRBMA – Conselho Nacional da Reser va da Biosfera da Mata Atlntica clanaros@yahoo.com.br Resumo O estabelecimento de uma rea de proteo integral sempre implica em conflitos entre a necessidade de preservao de reas contnuas do territrio para res guardas os ecossistemas constitu intes, este de interesse escalar pequeno e as comunidades locais, com seus cdigos sociais, identidades construdas no ‘lugar’ de grande escala. O Petar no foge regra, na complexi dade dos fatores encontrada neste caso, h algumas permanncias que o distingue, como a manuteno de sentido de pertencimento, o estabelecimento do ecoturismo como alternativa ao convvio entre plos dicotmicos que tomou forma mais no Ser que no mbito econmico. Os vnculos existentes na insero de atores externos ao processo, somados s aes empreendidas na busca de solues cabveis para a mu tao do espao, como o surgimento e implementao da monitoria ambiental, foram decisivos para a singular idade deste caso. Apesar de o municpio de Iporanga manter ndices scio-econmicos muito baixos, os envolvidos na implantao do parque obtm hoje significncia identitria, necessrias existncia de qua lidade de vida que vai al m dos ganhos econmicos. Palavras-Chave: Conflitos Ambientais; Petar; Ecoturis mo; Populaes Tradiconais; Unidades de Conservao. Abstract The establishment of an area of integral protection always implies in conflicts between the necessity of preservation of continuous areas of the territory for pr otects constituent ecosystems, th is of interest to scale small and the local communities, with its social codes, identities constructed in `place' of large scale. The Petar does not run away to the rule, how ever in the complexity of the facto rs found in this case. It has some permanences that distinguish it, as maintaining a sense of belonging, the establishment of the ecoturismo as alternative to the conviviality between dicotomic polary, whose focus is the Being more that in the economic scope. The existence of the insertion of external actors to the process, added to the actions undertaken in the possible brainstorming for the mutation of the spa ce, as the sprouting and implementation of the environmental monitoring (monitoria ambiental, in por tuguese), had been decisive for the singularity of this case. Although the city of Iporanga to keep very lo w social-economic indices, those involved in the deployment of the park obtain identity significance t oday, necessary to the existence of quality of life that goes beyond the economic profits. Key-Words: Environmental Conflicts; Petar; Ecotourism; Traditional Communities; Units of Conservation. Introduo A escolha de uma rea do territrio, seja qual for, para se fazer dela um parque antes de tudo resultado de uma necessidade humana que uma manifestao tcita da natureza clamando por preservao, ao menos at o momento da histria da humanidade que desde o incio do processo civilizatrio compreende tudo que a cerca como sendo para seu uso e satisfao. O domnio humano da natureza tem uma de suas primeiras manifestaes nos registros do livro escrito para os homens de f, talvez o mais antigo e completo registro do paradigma humano da dominao da natureza, a Bblia. No Pentateuco, o livro da gnesis unge o homem semelhana do ente criador e designa-nos para presidir aos “peixes do mar, s aves do cu, s bestas e a todos os rpteis... e vaticina crescei e multiplicai e enchei toda a terra e tende-a sujeita a vs” (Figueiredo, 1950:36-7). A criao do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) no foge regra, mas pelos seus cinqenta anos de existncia, pode esboar fases paradigmticas por que passou a sociedade envolvida em sua efetivao como Unidade de

PAGE 10

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 8 Conservao (UC). Assim o que alicera a realidade, passa pelo senso comum da cincia que apenas a poro traduzvel e visvel das teorias mutveis e refutveis donde a maior parte est na poro no visvel, no cientfica, o sustentculo da teoria, da cincia e dos fatos, est portanto nas condies temporais, momentneas e pouco cientficas (Morin, 1996:21-22). A supremacia de uma forma concreta de fato expressa a arbitrariedade da opo que rege a sociedade no momento de sua efetivao, assim o resultado final explicita as ‘novas’ formas de se pensar o espao, apresentando nos a revoluo do olhar que Kuhn (1994) vai chamar de Gestalt O que se mantm ontologicamente a inteno precpua de uso incondicional da natureza, sem pensarmos em seus ciclos, nos recursos que se esgotam ou nos ritmos de utilizao, at por que este paradigma no prevalece, nem se sabe se ele ou outro que surgir, vir prevalecer. Queremos neste incio estabelecer que os ciclos de um determinado espao advm do embate no seio da sociedade que tem em suas condies materiais e sociais os requisitos para a supremacia de uma ou outra das alterna tivas dos fatos, a teoria que melhor aproveitar as condies prosperar e que ela depende significativa e indissociavelmente “de questes sociais e polticas mais amplas” (Chalmers, 1994:156-157). Depois de cinqenta anos, o PETAR encerra em sua histria as dimenses paradigmticas duma cincia cuja escala abarca a relao global ante a dimenso da grande escala local, passando pelas escalas intermedirias representadas por associaes, organizaes ci vis, entidades nacionais e estaduais, grupos de espeleologia, onde ora umas ora outras influenciam a efetivao do espao da UC. O estabelecimento do PETAR como uma parcela do territrio do Estado de So Paulo a ser preservada foi proposta no final da dcada de cinqenta do sculo XX e no fugiu regra paradigmtica que pensava em preservar partes da natureza para desfrute social, j que vislumbrava-se a ocupao de todos os espaos pelo apetite do avano do progresso. Os parques eram necessrios ao deleite dos que apreciavam a natureza em seu estado mais ‘puro’, onde se pudessem realizar visitas, mas que a preservao s se garantia pela decretao de uma parcela do territrio dedicada a isso. Nessa fase havia a disponibilidade de reas contnuas do territrio ainda sob a hegemonia da natureza, o que no impunha sua efetividade, seno a decretao simples sem, contudo, buscar-se a sua implantao. Aqui se apresentava o embate emblemtico do avano do me rcado de consumo, do progresso generoso advindo do ‘milagre econmico’, da viso tecnicista de mundo, mas que no abarcou todos os espaos-tempo do territrio. Este tempo, hoje nostlgico a alguns que vem comunidades que viveram por dezenas, seno centenas de anos, em convvio com a natureza sem impact-la ou perturb-la severamente, no criou empecilhos decretao do parque, uma vez que nada mudara, seno a notc ia longnqua da chancela daquela poro de seu espao recebida do governador criando o Parque, o que poderia ser tomado com certo grau de importncia, mas o vazio posterior ps no esquecimento e ignorncia a questo. O territrio do sul do Estado de So Paulo era conhecido por poucos, alguns representantes comerciais, trabalhadores relacionados minerao de calcrio e chumbo, motoristas que ganhavam seu sustento indo e vindo com produtos da incipiente produo mineradora e produtos do comrcio. Os conflitos geradores de novas realidades pouco se desenvolveram nesta primeira fase dos cinqenta anos do parque: os tempos eram longos e o espao vasto, onde a comunidade ainda mantinha relao tcnica pouco avanada com o meio. Os bairros, remanescentes dos quilombos, roados, nascentes, sumidouros eram significativamente isolados, mesmo que a poucos quilmetros, criando uma identidade comunitria, dizia-se: fulano da Ona Parda, cicrano do Ivapurunduva, beltrano das Areias. As relaes permeavam-se mais pela produo coletiva e familiar que pelas trocas econmicas. Estas serviam como complemento aos ritmos ligados a terra, de relevo acentuadamente inclinado, solo raso, de floresta densa com sub-bosque, repleta de abismos, dolinamentos, buracos por onde o morro engole o rio. Felipim (2000:111-119) diz que a falta de opes torna a agricultura de subsistncia aliada ao extrativismo silvestre na forma de sobrevivncia tradicional. A existncia de um parque pouco alterou a vida local. Nesta primeira fase ainda, vive-se a descoberta de um elemento significativo para a mudana de fase que vir ocorrer na dcada de 1980: as cavernas! Pelas incurses de Michel Le Bret e Pierre Martin a espeleologia nacional vai sendo gestada paralelamente s iniciativas empreendidas em Ouro Preto no seio da universidade. So estes franceses, acompanhados por moradores do vale do rio Ribeira, especialmente do que vivem no bairro Se rra, que trazem tona o universo escondido das cavidades naturais do parque. Foi com a soma de personalidades desses

PAGE 11

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 9 dois, mais as de Joaquim Justino, Vandir, e mais tardiamente a de um mateiro feito espelelogo, seu Didi, que a espeleologia local revelou inmeros descobrimentos e avanos. Eles redescobriram as cavernas relatadas por Ricardo Krone (1898) durante o perodo de pesquisas antropolgicas entre os anos de 1895 e 1906, quando desenvolveu tambm pesquisas paleontolgicas, etnogrficas, relatando um total de 41 cavernas na regio, as primeiras a serem descritas no pas. O ‘buraco sem fim’, ‘casa do demnio’, morada de ‘monstros’ e bichos peonhentos passou a ser conhecido e menos temido, deixam de ser de domnio dos cientistas gelogos que organizavam a explorao mineral e iniciam sua vulgarizao no mbito das comunidades. Relatos importantes sobre esta fase so elaborados no livro Maravilhoso Brasil Subterrneo de Le Bret (1995), no s para o entendimento da dimenso espeleolgica, mas tambm histrica e social. A segunda fase de vida do PETAR gestionase na metade da dcada de 1970 e vem a iniciar sua efetivao com o final da demarcao dos limites da UC, uma dcada depois. Aps a consolidao da Sociedade Brasileira de Espeleologia, criada pela iniciativa dos explorador es estrangeiros, grupos de explorao de cavernas formam-se no estado e fazem do bairro Serra seu porto seguro, mais precisamente, a casa de taipa de mo cedida por Vandir e sua esposa, Dona Diva. L os poucos grupos escrevem seus relatos em um livro que sempre esteve na prateleira da cozinha, nico cmodo separado do quarto e do hall de entrada onde se empilhava a tralha daquele tempo. No limiar desta fase de convivncia profcua de temposespaos distintos os grupos dividiram reas de explorao e lanaram-se s buscas, aqui tambm os precursores dos estudos cien tficos no pas comeam a trilhar o caminho do conhecimento. A premissa maior agora a necessidade de implantao de uma UC de carter preservacionista, onde a visitao deve ser ordenada, em reas restritas. A dcada de 1980 distancia os tempos lentos e grandes espaos das comunidades de mais de um sculo vivenciando o espao, dos tempos curtos e pequenos espaos das polticas gestadas no mbito da Secretaria de Estado de Meio Ambiente. H em verdade um enfrentam ento paradigmtico: de um lado a necessidade da preservao e os pensamentos que viro culminar na Lei Nacional de Unidades de Conservao, ainda no ano 2000; de outro a incompreenso da mudana da poltica de convvio. O estabelecimento de limites remete as comunidades afetadas ao isolamento no espao, no dispondo mais de locais outrora disponveis efetivao de seu espao e temporalidade, pois pertencem a outro, sujeito abstrato, hoje intocvel. Concomitantemente h um aumento de freqncia de visitantes que usam o ba irro Serra e a rea urbana da cidade de Iporanga como base para atividades no parque: o emergente e promissor ecoturismo e turismo de aventura. Os moradores vivenciam a partir desta fase, realidades advindas de uma formao contempornea focada na cidade, influenciando na mutao das identidades aliceradas no ciclar de algumas geraes passadas. A atribuio da categoria de preservao territorialidade do parque justificvel pelo olhar da escala global, contrapondo-se ao de escala local. Este embate ser lentamente superado no incio da primeira dcada do sculo XXI, quando os benefcios econmicos e a inelutvel implantao do PETAR criam novas identidades. A sociedade di retamente afetada pela limitao do espao reage de formas as mais diversas. em 19761 que um trabalho de graduao visionrio suscita o turismo como gerador de mutaes menos degradativas s sociedades locais envolvidas na efetivao da UC. Ele tem uma viso que acompanha os rumos do ambientalismo internacional no que tange relao preservarconservar e o contexto social comunitrio. O que antes era de posse coletiva para a subsistncia, deixa de s-lo, mas encontra significado coletivo na substituio da prpria subs istncia para o modelo de mercado, ou seja, a gerao de renda atravs do turismo que usa o espao perdido. Isso d soluo questo do confronto da necessidade da preservao e da minimizao dos efeitos das mudanas sociais aceleradas causadas nesse contexto da implantao do parque. Este momento que dura mais de uma dcada vem esboar alternativa na vertente do turismo em 1995, quando pela soma de esforos de pessoas e entidades, realiza-se o primeiro curso para formar monitores que vislumbravam o acompanhamento de grupos em visita ao PETAR. Nesse quadro de esforos, surge no bairro Serra uma primeira organizao civil de interesse comunitrio a ASA (Associao Serrana Ambientalista). Ela, ainda em gestao, realizou levantamento diagnstico no bairro da Serra (ASA, 1994), que indicou que a maior fonte de renda das famlias eram os rendimentos de aposentadoria, 66%, e a parcela da populao idosa perfazia 56% do total dos moradores, indicando a precariedade das permanncias dos jovens e a insignificante gerao de renda pelo turismo que iniciava sua escalada.

PAGE 12

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 10 O ecoturismo foi a vertente natural para o uso turstico do parque, pela presena de atrativos naturais (caverna, cachoeiras, trilhas das mais diversas dimenses, rios, corredeira, floresta, geologia distintiva etc) e a salutar convivncia das populaes e a preservao da biodiversidade, tambm como alternativa a curto e mdio prazos para a gerao de renda local, segundo alguns autores (Hogan, 1999; Rodriguez, 1996; Veiga, 1998). Devenport et al. (2002) ressalta que a gerao de renda advinda do ecoturismo significativa em pases em desenvolvimento que esto na faixa tropical e que o desenvolvimento deve considerar a educao, oportunidades econmicas e partilha de renda com os habitantes locais, pois estes ficaram alijados de seu modo de vida e necessitam de um olhar atento, para no se aumentar ainda mais os impactos relacionados implantao do parque. A relao do turismo com o ambiente natural d-se principalmente por meio da paisagem que se transformou em produto que levam as modificaes tanto no ambiente quanto na comunidade, inclusive gerando custos, tais como: degradao ambiental, injustias econmicas, mudanas socioculturais negativas, apesar de gerar receita e empregos (Boo, 1995:34). Para o fomento da insero das populaes locais, afetadas pela transformao dos espaos coletivos locais de uso em espao preservado coletivo universal, Faria (2001:73-4) sugere que alguns mecanismos devem ser incentivados, como: propriedade local dos atrativos, participao local nos lucros. Nas Diretrizes para uma Poltica Nacional de Ecoturismo ele tratado como sendo “ um segmento da atividade turstica que utiliza de forma sustentvel o patrimnio natural e cultural, incentiva sua conservao e busca a formao de uma conscincia ambientalista atravs da interpretao do ambiente, promovendo o bem-estar das populaes ”. Essas funes so corroboradas tambm por Veiga (1998:182) e .Adyr Balastreti Rodrigues (1996:24; 1997:28), ressaltando que deve-se implementar projetos inte grados nos nveis locais envolvendo outros participantes da economia como a agricultura, a criao, a pesca, o artesanato e comrcio, onde as atividades diversificadas dem um verdadeiro dinamismo economia local, sendo tambm prioritrio na soluo de problemas das questes fundiria e ambiental. As argumentaes quanto ao ecoturismo desguam no Petar, com seus 35.712 ha, que situase na parte alta do curso do rio Ribeira, fazendo parte da rea contnua de Mata Atlntica preservada do Brasil. A sua importncia foi realada j em 1991, quando de sua incorporao pela UNESCO como Reserva da Biosfera da Mata Atlntica, portanto, patrimnio da humanidade (So Paulo, 1998) e cobre os mares de morros dessa parte da serra de Paranapiacaba (ABSaber, 1985:6) ajudando na manuteno da grande diversidade de espcies e alimentam os “...rios que hoje embelezam o lugar, mas outrora fizeram a riqueza de alguns que procuraram por ouro e o principal deles, o Ribeira, tambm escoou a produo local at o porto de Iguape. Estas atividades envolveram homens brancos europeus aos ndios locais. O isolamento trouxe tambm os negros fugitivos do regime escravista. Nesta regio ficaram preservados inmeros remanescentes dos quilombos e a cultura de contato com os indgenas. A manifestao cultural se apresenta como um dos maiores patrimnios locais por meio de: a cermica figurativa com imagens de bonecas, galinhas, moringas zoomorfas e antropomorfas; o cip tranado; o toque da rabeca, instrumento musical feito em madeira artesanalmente; artesanato com palha de milho ; procisso na festa de Nossa Senhora do Livramento em Iporanga; a arquitetura caracterstica; a fbrica de farinha de mandioca ” (So Paulo, 2000). Um fator importante para a preservao do ambiente natural usado como suporte ao turismo dentro da U.C.’s fortalecer a regulamentao e execuo das diretrizes. Para tanto as discusses devem integrar ainda mais as multifaces que interagem no ecoturismo, indo desde a populao afetada na localidade at o promotor do turismo, passando pelas entidades pblicas ou no, os pesquisadores e cientistas, os planejadores e os usurios (Castro 2004:37). neste intuito que viremos apresentar nossas reflexes do contexto socioambiental da rea de implantao do Petar, atravs da viso de autores importantes da literatura acadmica, pesquisas de cunho qualitativo, vivncia na evoluo e implementao de aes locais, testemunhos e histria de vida de pe rsonagens envolvidos no contexto. Orientados pela busca de tcnicas as mais diversas, como a entrevista, a pesquisa bibliogrfica, fontes primrias e secundrias, anlise qualitativa dos discursos e vivncia comunitria. Procurando sempre expressar a reflexo sobre a mutao e evoluo ocorrida no espao onde se deu a implantao de uma categoria de espao planejado

PAGE 13

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 11 em escalas globais, um par que, ante a existncia de espaos em grandes escalas, as comunidades locais. A monitoria e a deflagrao do processo de mudanas pr-positivas s questes da convivncia dos espaos-tempos No ano de 1995, preocupados com a migrao dos jovens, a alterao significativa da qualidade de vida das comunidades, com a precria eficincia na gesto, conservao e manejo do parque, um somatrio de pessoas e entidades realizam o primeiro curso de treinamento bsico de monitores ambientais de Iporanga (Marinho et al., 1997). Nele, 16 membros da comunidade do bairro Serra e da rea urbana de Iporanga receberam noes de socorrismo, geologia crstica, pedologia, comunicao e expresso, acompanhamento de grupos em ambientes preservados, cooperativismo e associativismo. A experincia focava-se nas necessidades de alternativas scio-econmicas comunidade que em pouco mais de uma dcada viu seu territrio alterado, expropriado, invadido por novos significados, culturas, produtos de consumo outrora inimaginveis. O espao encurta-se e os tempos aceleram-se, a viola do anoitecer que sucedia o roado, exibe-se ao estranho que compartilha o nico estabelecimento comercial que oferece alm da cachaa, a cerveja gelada, to apreciada pelos que visitam o parque, mas distante dos convivas locais, pela fora do poder de compra. Estas comunidades eram reconhecidas no pela sua relao com o espao advinda das tcnicas e formas de apropriao do espao menos degradantes, seno reconhecidas por alguns, como Diegues (2000) que na dcada de 1990 vem firmar definitivamente a exist ncia dessas sociedades e seus modos de vida, firmando o termo etnoconservao graas ao conhecimento e manejo praticados por eles. Estas comunidades foram reconhecidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservao (Lei 9.985, SNUC) porm nenhuma garantia mais advinha, j que suas caractersticas e especificidades no foram realizadas no texto dessa lei. Isso veio ocorrer apenas em 2007, quando o decreto presidencial 6.040 de 7 de fevereiro diz em seu pargrafo terceiro: ...so grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas prprias de organizao social, que ocupam e usam territrios e recursos naturais como condio para sua reproduo cultural, social, religiosa, ancestral e econmica, utilizando conhecimentos, inovaes e prticas geradas e transmitidas pela tradio A relao do visitante com estas comunidades fortalece-se na amizade e mtuo desejo de bem estar, o que construiu a idia de efetivao de uma alternativa que conciliasse a atratividade inerente ao parque e as atividades locais, culminando na monitoria, como o primeiro ns a ser desatado na busca da convivncia do Petar com a comunidade. Anteriormente ao surgimento da monitoria no mbito do Petar, outra experincia nesse sentido j havia sido empreendida na busca de conciliar o universo local e as novas demandas. Na Fazenda Intervales, uma experincia fora empreendida para aprendizagem de conceitos e informaes que despertassem reflexes e sensibilizasse os moradores locais que acompanhavam pesquisadores, para uma insero maior da tcnica exigida atividade cientfica e ao atendimento do turismo (Leonel, 1992). Ali a realidade advinda da sociedade urbana, consolidada na cincia, depara-se com o empirismo das comunidades que produzem o espao de maneira diversa. A busca cientfica da pesquisa necessita do apoio dos saberes locais, onde a relao saber-natureza d-se com maior nfase no convvio cotidiano com a natureza, menos que seu desvendamento pela cincia. A funo buscada neste caso foi a capacitao dos ‘guias’ e ‘mateiros’ locais para melhor entendimentos das partes quanto ao objeto de pesquisa, no propriamente buscar uma melhorar nos impactos advindos do conflito entre os paradigmas consolidados nas comunidades e a nova realidade. Com o trmino do curso de monitor e a insero deles no turismo do parque, os monitores comeam a ser requisitados cada vez mais pelos ecoturistas. Os ganhos advindos dos servios prestados geram um maior dinamismo na incipiente economia local. Alguns inicia m atividades paralelas, como construo de cmodos simples para abrigar turistas, venda de produtos que satisfazem as necessidades dos visitantes, estes com hbitos focados num mundo globalizado, onde a premissa da vida o consumo, diferentemente da localidade que tem nos produtos bsicos seu maior consumo. Inicia-se uma velocidade maior nas mudanas, mas as esperanas de uma vida melhor acabam por fixar os jovens na comunidade, dadas as melhorias sociais com o advento do turismo. A populao demanda a realizao de um novo curso de monitores, que realiza-se em 1998, subsidiando a proposio de um projeto amplo, abrangendo “desde o diagnstico local elaborao de grade curricular, valores a serem buscados, didtica especfica, avaliao e re-planejamento de

PAGE 14

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 12 objetivos..., servindo assim...” (Castro, 2002:202) de norteadora das novas aes em monitoria empreendidas em localidad es onde a conservao de reas naturais intervinha de forma significativa no espao de comunidades de ritmos focados mais nas tcnicas tradicionais. Esse projeto, realizado em 2000, abrangeu os municpios de Itaoca, Apia, Guapiara, e bairros vizinhos ao parque, tambm integrantes de remane scentes de quilombos, extrativistas florestais e moradores dos ncleos mais distantes da rea do Petar, contabilizando mais de cinqenta alunos. Ao observarmos o aumento do fluxo de visitantes ao ncleo Santana do parque, onde esto disponveis maior nmero de atrativos, proximidade com o bairro Serra e a sede do municpio de Iporanga, locais que oferecem maior quantidade de servios de hospedagem, pode-se entender a crescente demanda pela formao de monitores. Nesse perodo o nmero de visitantes cresceu a uma taxa de 75%, oferecendo e demandando oportunidades e servios, respectivamente (Castro, 2004:80-81). A monitoria uma das faces das relaes de mutao ocorridas no espao geogrfico, estabelecidas com a implantao do parque, envolvendo atores os mais diversos e universos simblicos que perdem si gnificados e, num tempo, parecem impossveis de serem restabelecidos. Outras faces advieram da busca comunitria por novos vnculos acercados no ambiente antes coletivamente possudo, agora utilizado por personagens de algures, visual e simbolicamente diferentes. A comunidade que se lana na busca da construo dos vnculos mutantes encontra na valorao do outrora utilitr io da subsistncia, uma ligao que costura a sua vestimenta: este lugar que todo mundo qu v nosso... qu diz, nossa morada, aqui a gente t sempre nele, enquanto que os turista vem e vai embora...2. A identidade do pertencer ao mesmo ‘lugar’ de outrora, apesar das vicissitudes encaradas nas mudanas de funes do espao, so um ingrediente dos mais importantes para a construo das identidades novas, com novos universos simblicos que vo alm da explicao de melhoria econmica ou social. Conforme relata Souza (2001) os territrios so construdos e desconstrudos sob um campo de foras das mais variadas escalas, que com suas complexidades definem os limites e sua alteridade, ou seja: os “eus” e os “outros”. Desta forma o Petar imbricou complexidades que estimularam, atravs dos vnculos identitrios reconstrudos, a insero to almejada da comunidade local nos novos paradigmas do ecoturismo (Rodrigues, 1996; Veiga, 1998; Faria 2001). A iniciativa inicial dos primeiros monitores foi seguida por outros moradores, proliferando pousadas familiares, restaura ntes de comida caseira, bares, mercados, agncias receptivas ao turista, servios especializados visitao ao ecoturismo e turismo de aventura, servio de transporte. 29.293 34.426 39.172 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 30.000 35.000 40.000Fluxo Ncleo Santana 2000 2001 2002 Grfico 1 : Fluxo de visitas ao ncleo Santana entre 2000 e 2003. Construdo com base em informaes da administrao do Petar. Podemos entender a importncia dos servios tursticos ao analisarmos a evoluo dos empregos no setor de servios e do nmero de pousadas do municpio de Iporanga. Os empregos formais que em 1991 eram apenas em nmero de 12 (doze), evoluram desses 9,3% para 51,62% em 2003 (Santos, 2005) totalizando 222 (duzentos e vinte e dois) postos ocupados. Em 2006, esse nmero foi de 85,13% (Sead, 2007). Inexistiam pousadas no incio dos anos 90 do sculo passado, tendo apenas duas penses na rea central da cidade de precarssimas condies e as casas de taipa de mo cedidas por Dona Diva e Vandir aos espelelogos, curiosos e aventureiros que j em nmero significativo visitavam o Petar. Hoje encontra-se um nmero de 33 (trinta e trs) pousadas, sendo que 25 (vinte e cinco) delas so de propriedade de moradores locais. Dessas pousadas, 17 (dezessete) esto no Programa de Certificao em Turismo Sustentvel (PCTS) realizado pela Estao Floresta, uma empresa que desenvolve em parceria com entidades internacionais, projeto de certificao de empreendimentos sustentveis sob a tica das prticas de turismo que viabilizam melhorias socioambientais em reas de U.C. e a existncia de populao residente, cujos modos de vida vm sendo alterados significativamente pelas restries

PAGE 15

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 13 de uso e pela alternativa turstica de uso pblico (Espinha & Scaleante, 2008). Nesse relatrio, observou-se que em 12 (doze) meses, de maio de 2007 a abril de 2008, as 17 (dezessete) pousadas que se lanaram na busca de certificarem-se, evoluram quanto aos aspectos diagnosticados, que foram: gesto, ambiente, sciocultural e econmico. Essa evoluo pode ser observada no quadro abaixo. Ainda, levantou dados do nmero de pessoas envolvidas, que somente em servios de hospedagem nas 33 (trinta e trs pousadas) de 10% do total da populao municipal, que da ordem de 4.600 (quatro mil e seiscentos) moradores e que movimentaram um total de R$ 3.300.000,00 em 2003 (op cit. p.10). Outro aspecto que merece meno quanto s prticas ambientais. As pousadas que no tinham prticas adequadas de gesto, edu cao ambiental, destino de resduos, prticas conscientes quanto aos bens de consumo, energia, gua, alimentos e higiene, foram analisadas nesse perodo e demonstraram a evoluo acima. Uma funcionria de pousada declarou aos auditores: “as boas prticas e o consumo consciente aprendidos durante a implementao serviram para diminuio em 30% da conta de gua e energia em minha casa, sobrando dinheiro para outras coisas” (op cit, 20). Outros aspectos devem ser observados, como os apresentados por Santos (2005:97-115), que demonstra crescimento significativo da escolaridade nos nveis fundamental e mdio, crescimento do consumo eltrico das ligaes em comrcio, melhora na destinao do resduo slido urbano, melhorias nas condies e esgotamento sanitrios e de sade, abastecimento de gua tratada, populao urbana igualando-se rural. Apesar desse quadro, Iporanga, de form a geral, ainda mostra precariedade nos servios de sade, diminuio pequena da taxa de mortalidade infantil que mantm-se alta, em 47 0/00. Estes ndices negativos so atribudos precariedade da rea rural do municpio, que no se beneficiou dos processos ocorridos no entorno do parque, afetadas pelo que foi discutido at aqui. Nestas localidades, o abandono que veio resultar nesses ndices negativos acompanhados de melhorias gerais em outros aspectos, o resultado de polticas pblicas que no acompanharam a insero desses espaos no contexto trazido pela implementao dos paradi gmas modernizantes. A necessidade de imposio da preservao de parcelas significativas dos ambientes naturais, bens comuns da humanidade, onde populaes residem por tempos que vo alm de vrias geraes, contraps por um lado os interesses da articulao internacional e poderes nacionais, regionais, agentes polticos e de instituies, em defesa dessa preservao, por outro a defesa da amenizao dos conflitos gerados pela alterao de significados, identidades, e universo simblico da mudana do espao, agora legalmente considerados de preservao, nas vrias escalas sociais, e em especial nos moradores locais. Quadro 1 : Evoluo dos empreendimentos Pousadas da rea do Petar, quanto s adaptaes s necessidades individuais que adequao aos servios socioambientais sustentveis EVOLUO GESTO AMBIENTAL S"CIO CULTURAL ECONMICO TOTAL (em %) 160,92 88,01 82,41 70,52 91,37 Fonte: Espinha & Scaleante (2008:23) O convvio social ante o estabelecimento de novas significaes. Consideraes a cerca dos resultados da implantao do Petar e suas humanidades A histria cinqentenria de implantao do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira apresenta faces que superam as anlises dicotmicas empreendidas, polarizadas nos conflitos sociais (Rodrigues, 1996; Veiga, 1998; Castro, 2002; Santos, 2005) entre o preservar e a sociedade local, ou seja, ruptura de processos sociais onde o universo de representaes, cultura, simblico, tcnicas de apropriao do espao, identidade de lugar so bruscamente alte rados pela imposio de uma nova categoria ao espao: unidade de conservao. As comunidades inseridas no contexto das alteraes advindas da implantao do Petar inserem-se na complexidade de construo de novos significados cujos caminhos percorrem traados que ora se orientam pelas alternativas tempos longos versus tempos curtos, grandes espaos versus pequenos espaos, ora enveredam por outros caminhos que constroem identidades relacionadas ainda ao pertencer ao lugar que polariza esses tempos-espaos dicotmicos.

PAGE 16

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 14 Os indicativos socioeconmicos apresentados mostram que o municpio de Iporanga no superou ndices sociais baixssimos, onde a sade condena crianas e idosos morte pela precariedade dos servios assistenciais, porcentagem de populao rural elevada, onde a precariedade dos servios agrava ainda mais a qualidade de vida. Porm, no que tange questo dos resultados das complexidades advindas da relao parquesociedade, outros elementos vm se apresentar. O universo simblico das comunidades locais construdo por sucessivas geraes no encontra na primeira e em parte da segunda fase da implantao do parque, obstculos significativos sua reproduo e evoluo, fato que vem ocorrer aps a demarcao dos limites territoriais do Petar e advento dos tempos curtos modernizantes trazidos pela emergente atividade ecoturstica. Esta fase marcada como a geradora de conflitos, onde a polarizao dicotmica se estabelece, e cada um est de um lado da questo. As identidades coletivas desta fase contrapem a viso global de patrimnio natural necessrio s funes vitais dos ciclos do planeta e a de perda d as territorialidades (Souza, 2001) das populaes locais envolvidas. Emergem neste caminho novos atores que antes restringiam-se aos parcos pesquisadores e espelelogos que transitavam como estrangeiros pelas brenhas da floresta em busca de satisfazer sua curiosidade cientfica e aventureira. So moradores de centros urbanos distantes que constroem um universo de representaes vinculado ao lugar engendrado na relao natural, tcnica tradicional, cultura, ritmos, saberes, simbolismos, quando as motivaes de deslocamento ao parque superavam incertezas de caminhos, estradas em pssimo estado de conservao, escorregamento de massa sobre as estradas, longas caminhadas, caminhos perdidos. Com a lenta evoluo nas condies de acesso, dos meios de hospedagem, nos servios receptivos, enfim, na manuteno de espaos-tempos longos, esses atores mantiveram relao ntima com as situaes conflituosas existentes. Cabe inferir que esta relao, diferentemente de uma outra cujas referncias aliceram-se nos paradigmas modernos com nfase na renda como caminho da qualidade de vida, de espao-tempo curtos imbricou nos pe rsonagens envolvidos no surgimento da alternativa ecoturstica, conseqentemente nos vis itantes. Os universos da necessidade de manuteno do espao de preservao da territorialidade da U.C. e da territorialidade social, opostos entre si e convivendo na construo dos vnculos destes atores. Aqui quer se ressaltar a existncia de pessoas ulteriores comunidade residente que vem carregar no s por simpatia, mas por cumplicidade identitria, simblica, o modo de vida dos primeiros. Tal fato tem importncia singular na construo da vertente ecoturstica empreendida no Petar. A relao destes atores com a comunidade, por vezes cmplice, por outras conflituosa, d substncia s transformaes inevitveis que surgem com a ruptura causado pela implantao do parque. Como relatou em entrevista3 um morador do bairro Serra: ...s sabe, aqui era mato, nem esse caminho pra Santa existia, era s na minerao que dava pra trabalhar, e era difcil... p, tosse... o caminho era pelo crrego, s conhece. Hoje t bem melhor. Conversando com o Ablio, ele disse... agente pensa que tem pessoas que ajudaram muito, antes... at que muitos turistas comearam a vim, qui nem agora que tem nibus at a estrada, t mudado, tem umas pessoas que pensam s nelas, t certo, mais ento, essas pessoas ajudaram, deram opinio, parecia que eles queria que desse certo, que agente fizesse uma vida mehor. No comeo at as abelha eu criei, s lembra, at foi comigo uma veis tira o mel... Ah, v fala desse tempo, eram muitos, eles ainda vem aqui, nem tanto pra i na caverna, ficam l no bairro, vo pr rio, sempre conversam, ajudam, do carona, levam a gente quando precisa, agente tambm trata deles como um amigo daqui que mora em Itapetininga, Campinas, at outro estado.... notria e benfica a relao de significados atribudos ao visitante dessa fase, como participante na constru o cotidiana do que hoje podemos ler na localidade. A significao mais representativa talvez seja a que ocorreu no sentimento de pertencer da comunidade. Apesar das relaes tcnicas terem se alterado, de novos desafios haverem sido empreendidos, como tornarem-se prestadores de servios em substituio a um modo de vida focado na satisfao das necessidades bsicas quase que totalmente pela produo tradicional, o sentido de que o parque pertence comunidade uma marca do universo simblico. Para eles o valor dado pelos que moram fora e visitam o parque entendido como valor do que lhes pertence, como comentado em depoimento anterior. Ao observarmos o suscitado pelo que relata depoimento acima ... at que muitos turistas comearam a vim, qui nem agora que tem nibus at a estrada, t mudado... que demonstra a percepo do aumento do turismo e degradao das relaes at agora construdas, as manutenes do sentimento de pertencer e ser parte so patentes. Uma caracterstica que desprende-se das anlises a que mostra a concepo de educao

PAGE 17

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 15 ambiental nascida na implementao das novas identidades. Ela vem focar-se na relao direta com os recursos naturais que pertencem sociedade, esta com os vnculos nos recursos preservados pelo parque e constituintes da identidade. Assim o acompanhamento para a o programa de certificao das pousadas-PCTS (Espinha & Scaleante, 2008) mostra que a preocupao com adequaes ambientais liga-se mais ao Ser, este imbudo das caractersticas comentadas at aqui, e menos com a necessidade de se implement-las para um ecoturismo certificado que trar maiores ganhos. Isso se reafirma na concluso do referido relatrio que nos conta que somente 3 (trs) das pousadas sentem-se aptas certificao e desejam isso, demonstrando um olhar mais no fazer lastreado no universo de significados que nos parece ter esses significados quando em verdade eles esto na certificao que trar benefcios s pousadas. A efetivao do Petar, a grosso modo, no diferencia-se de outras realidades conflituosas de nosso tempo, apresentando ingredientes comuns em tantos casos encontrados na literatura cientfica ou no no que se refere efetivao de um parque. Sob a tica da gerao da renda e dos ndices sociais poderamos afirmar a total igualdade de condies polarizadoras que culminam na diminuio da qualidade de vida. Porm a um olhar mais atento, as complexidades mostram que as relaes contextualizadas aqui, apresentam mais que a dialtica das mudanas que engendram a supremacia do modernizante, onde a alternativa ecoturstica a sada menos danosa, porm, imbuda do elemento prevalecente, o moderno. Aqui h a permanncia de universos simblicos no pela ao exterior que media os interesses comuns de escalas pequenas ante as identidades locais, em escalas grandes, como comum acontecer, o que leva museificao e coisificao da cultura local. O Petar , pois, o resultado intrnseco de sua histria, de sua gente que no s comunidade local, de sua identidade, dos acordos simblicos, enfim, a complexidade ininteligvel, mas tangvel na humanidade vivida. Referncias Bibliogrficas AbSaber, A. 1985, p.1-35. O Ribeira de Iguape: uma setoriza o endereada ao planejamento regional. Boletim tcnico. Sudelpa, So Paulo. ASA. 1994. Levantamento scio-econmico do bairro da Serra Documento interno. Associao Serrana Ambientalista, Iporanga. Boo, E. 1995, p.35-58. O planejamento ecoturstico para reas protegidas In: Ecoturismo: Um guia para planejamento e gesto. Kreg Lindberg e D onald E Hawkins (ed.). Senac, So Paulo. Castro, C.E. 2002. Monitoria Ambiental – Um projeto de mo dupla In: Geografia, Cincia e Filosofia, Interdisciplinaridade e interfaces do conhecimento. Fuscaldo, W. C.; Ferreira, Y.N. (org). Londrina, Humanidades. Castro, C.E. 2004. O caminho entre a percepo, o impacto no solo e as metodologias de manejo. O estudo de trilhas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira – SP. Dept Geocincias, UEL, Londrina-PR. Dissertao de mestrado. Chalmers, A. 1994. A fabricao da cincia Unesp, So Paulo. Davenport, L. 2002. Et al. Ferramentas de Ecoturismo para Parques In: Tornando os parques eficientes: estratgias para conservao da natureza nos trpicos, John Terborgh et al. (org). Curitiba: Ed. da UFPR/Fund. O Boticrio. p. 305-333 Diegues, A. C. Comunidades Tradicionais e Manejo dos Recursos Naturais da Mata Atlntica Piracicaba: Nupaub / Lastrop. Espinha, A.M.L; Scaleante J. A. B. 2008. Relatrio Final para implementao do Programa de Certificao em Turismo Sustentvel (PCTS) no destino Vale do Ribeira no perodo de maio de 2007 a abril de 2008. Estao Floresta, Campinas. Faria, D. S.; Carneiro, K. S. 2001. Sustentabilidade ecolgica no turismo. UNB, Braslia.

PAGE 18

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 16 Felipim, A.P.; Resende, U.R.; Ribeiro, R.J. 2000. Agricultura de Pousio e Controle Ambiental. In: Comunidades Tradicionais e Manejo dos Recursos Naturais da Mata Atlntica, Diegues, A. C. ; Viana, V.M. ( org ). Napaub/Lastrop, So Paulo. Figueiredo, Padre A. P. de. 1950. Bblia Sagrada. Editora das Amricas, So Paulo. Hogan, D.J. ( et all ). 1999. p. 151-175. Sustentabilidade no Vale do Ribeira ( SP ): conservao ambiental e melhoria das condies de vida da populao. In: Ambiente e Sociedade, a.2, n.3 e 4, Unicamp, Campinas. Krone, R. 1898. p. 477-500. As grutas calcareas de Iporanga So Paulo: Revista do Museu Paulista, s/n. Kuhn, T. S. 1994. A estrutura das Revolues 3. ed. Perspectiva, So Paulo. Le Bret, M. 1995. Maravilhoso Brasil Subterrneo Trad. Campos, Tnia M. da C. E., Collet, G. C. Japi, Jundia. Leonel, C. et al. 1992. Capacitao de monitores de campo da fazenda Intervales In; Anais do 2 Congresso Nacional Sobre Essncias Nativas, Revista do IF, parte 4, v.4, So Paulo: IF. Lino, C. F. 1976. “ Vale do Ribeira: alternativa do Turismo”. Trabalho de graduao em Arquitetura, Universidade Mackenzie, So Paulo. Marinho. M.A. et al. 1997. A formao de monitores ambientais : estratgia para a conservao e o desenvolvimento sustentvel junto s comunidade s vizinhas ao Petar. In: anais do I Congresso Brasileiro de Unidades de Conserva o. Curitiba, Fundao Boticrio. Morin, E. 1996. Cincia com Conscincia. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro. Rodrigues, A. B. 1996. Desafio para os estudiosos de turismo. In Turismo e geografia: reflexes tericas e enfoques regionais Hucitec, So Paulo. Santos, J. J. 2005. O municpio, o patrimnio natural e a dinmica scioambiental no vale do Ribeira; o caso do municpio de Iporanga/SP. Dissertao de mestra do apresentada ao IG da Unicamp. Campinas. So Paulo, SMA. 1998. A Reserva da Biosfera da Mata Atlntica e Sua aplicao no Es tado de So Paulo So Paulo: SMA-Terra Virgem. So Paulo. 2000. Ecoturismo na Mata Atlntica, um gui a interativo sobre o Vale do Ribeira So Paulo, SMA-IF-FF. SEAD, 2007. Perfil do Municpio: Iporanga. So Paulo: Fundao Sistema Estadual de Anlise de Dados. Disponvel em: http://www.seade.gov.br/produtos/perfil/perfil.php acessado em: 04/06/2007 Souza, M. J. L. de. 2001. O territrio: sobre espao e poder. Autonomia e desenvolvimento. In CASTRO, I. E. de; GOMES, P. C. da C.; CORRA, R. L. (Orgs.). Geografia: conceitos e temas Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.77-116. Veiga, J.E.; Rodriguez e Romo, D. A. 1998, p.169-184. O Ecoturismo com estratgia de desenvolvimento regional in, “Turismo e Meio Ambiente”, vol 3, Fbio Perdigo Vasconcelos ( org. ), Fortaleza, UECE.

PAGE 19

Castro & Espinha. Narrativa sobre a efetivao de um parque e algumas de... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 17 Fluxo editorial : Recebido em: 12.05.2008 Enviado para avaliao em: 13.05.2008 Enviado para correo aos autores em: 18.06.2008 Aprovado em: 23.06.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Trabalho para obteno de graduao em arquitetura de Clayton Ferreira Lino. “ Vale do Ribeira: alternativa Turismo”. Universidade Mackenzie, So Paulo, 1976. 2 Fragmento de entrevista com monitor ambiental que prestava servio no ncleo Santana do Petar, em 2003 por ocasio de pesquisa para dissertao de mestrado, Castro, 2004. 3 Fragmento de entrevista realizada em 2003 por ocasio de estudos sobre as representaes sociais e significados simblicos das trilhas do Petar para a comunidade e us urios para a dissertao de mestrado de Castro, 2004.

PAGE 20

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008.

PAGE 21

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 19 “MAL PARA N"S, BEM PARA O MUNDO?” UM OLHAR ANTROPOL"GICO SOBRE A CO NSERVAO AMBIENTAL NO PARQUE ESTADUAL TURSTICO DO ALTO RIBE IRA (PETAR) ‘IS IT BAD FOR US AND GOOD TO THE WORLD? ’ – AN ATHROPOLOGICAL OVERVIEW ABOUT ENVIRONMENTAL CONSERVATION IN ALTO RIBEIRA STATE PARK (PETAR) Pedro Castelo Branco Silveira1 Fundao Joaquim Nabuco pedro.silveira@fundaj.gov.br Resumo O artigo trata da desconstruo da oposio entre inte resse local e interesse global nos conflitos relativos conservao da mata atlntica. Apresenta-se estudo de caso sobre duas comunidades localizadas no entorno e no interior do Parque Estadual Tu rstico do Alto Ribeira (PETAR), Ba irro da Serra e Bombas, estudadas entre os anos de 1998 e 2001. Ana lisando-se os conflitos presentes nos dois casos, que se constituram em torno da permanncia e do uso de recursos da floresta pelos grupos locais e dos quais fizeram parte diversos atores sociais, privilegia-se uma abordagem que trate de arenas ou campos de conflito em que esto em jogo mltiplos interesses, coletivos e individuais, ao invs de uma perspectiva que reduz os conflitos a uma falsa oposio entre interesses globais mais legtimos que interesses locais. Palavras-Chave: Antropologia e Meio Ambiente; Vale do Ribe ira; Conflitos Ambientais; Local e Global; Mata Atlntica. Abstract The article is about the deconstruction of the oppos ition between local and global interests in conflicts related to the conservation of the Brazilian Atlantic Rainforest. We present a case study conducted between 1998 and 2001 in two communities locate d inside and on the edge of the State Park of the Alto Ribeira River(PETAR) (Bairro da Serra and Bombas, respectively). We analyze the conflicts that in both cases are related to permanence in the area a nd the use of forest resources by local groups. We assert that it is better to deal with these conflicts as arenas or fields of mu ltiple interests, rather than taking a stand that reduces the conflicts to a false opposition between leg itimate global interests and illegitimate local ones. Key-Words: Anthropology and Environment; Ribeira River Valley; Environmental Conflicts; Local and Global; Atlantic Rainforest. Introduo: o local e o global na conservao da Mata Atlntica O objetivo deste artigo desconstruir a suposta oposio entre um interesse local e um interesse global nos conflitos relativos conservao da mata atlntica paulista. A desconstruo desta dicotomia, pelo lado terico, presta-se a lanar um olhar antropolgico sobre um tema de estudo recente, os conflitos em torno da conservao da natureza, com base em matrizes tericas que se prestam a analisar mudanas sociais. No plano poltico, o artigo pretende contribuir para o debate travado no plano das polticas pblicas e dentro do prprio movime nto ambientalista, sobre uma avaliao das estratgias atuais de conservao de florestas tropicais. Na literatura relativa conservao e uso de recursos naturais, os termos local e global so utilizados de diversas maneiras e com diversos significados. A anlise que fao aqui se refere idia de que haveria uma oposio entre interesses locais e interesses globais quando se deseja que uma rea florestal seja conservada. Os interesses locais seriam de ordem mais “egosta” e estariam relacionados ao uso dos recursos de um local sem a preocupao com a insero destes recursos em uma problemtica ambiental mundial. Os interesses globais estariam relacionados a uma viso mais ampla da questo ambiental e seria compartilhada por grupos conservacionistas interessados na preservao dos recursos de certo local considerado importante do ponto de vista ecolgico.

PAGE 22

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 20 Desta forma, teramos como representante em carne e osso do defensor do interesse local o morador das reas de remanescentes de mata atlntica, que, por sua necessidade de usar diretamente a floresta, estaria se contrapondo aos esforos globais de conser vao. O defensor do interesse global estaria representado concretamente na ao de grupos conservacionistas presentes em rgos estatais, em organizaes no governamentais ou em empr eendimentos privados. Tais grupos estariam defendendo os interesses da humanidade como um todo ou seja, a conservao da biodiversidade e dos servios ambientais que a floresta atlntica prov. A principal conseqncia moral de se considerar absoluta esta oposio simplificadora a justificao de polticas de conservao em que o interesse global sobressaia sobre o interesse local ou seja, que na defesa das questes ambientais globais muitas vezes necessrio passar por cima das questes sociais locais O ponto de vista que nos leva a negar esta oposio parte de alguns princpios que dizem respeito s relaes entre cultura, poltica e ambiente. Em primeiro luga r, tentemos analisar o que est caracterizado acima como interesse Podemos pensar o interesse como a defesa de um projeto de futuro, no caso um projeto coletivo (Sartre, 1967). Este projeto coletivo de futuro tem razes culturais, se entendermos cultura como um processo dinmico de permanncia ou mudana de estrutura e organizao social (Sahlins, 1992), cdigos de conduta (Geertz, 1978) e identidades coletivas (Barth, 1969; Cunha, 1987). Ou seja, os projetos coletivos tm razes nas experincias coletivas e individuais passadas, mas alteram-se permanentemente. Os projetos de sociedade, assim como toda a sociedade, constituem-se num processo. Tomemos como exemplo a criao de unidades de conservao ambiental. Se nos EUA do final do sculo XIX o principal argumento para a criao de um parque nacional era a preservao de momentos de apreciao esttica de um ambiente primitivo para as populaes urbanas, atualmente o projeto envolvendo a criao do mesmo tipo de estrutura institucional invariavelmente se justifica por argumentos como a conservao da biodiversidade e a manuteno de servios ambientais (Miller, 1997). De forma anloga, o projeto de reforma agrri a que manteria o modo de vida dos povos da floresta defendido pelo Conselho Nacional dos Seringueiros e liderado por Chico Mendes nos anos de 1980 transmutou-se no projeto scio-ambiental das Reservas Extrativistas, dada uma convergncia entre projetos de seringueiros e ambientalistas, naquele perodo (Cunha & Almeida, 2000). Entendemos, portanto, que diferentes demandas socialmente construdas, configuradas ou no em projetos claros (Nunes, 1989), esto constantemente em choque na sociedade contempornea. Podemos dizer, assim, que vivemos em uma sociedade que se transforma pelo conflito (Touraine, 1989). Uma maneira de analisar estes conflitos por meio da definio de atores sociais. Estes atores sociais constituem-se em grupos com projetos distintos, mas de nenhuma maneira so grupos homogneos ou mono lticos. Os projetos coletivos, da mesma forma, so compreendidos de forma diferente por diferentes indivduos, que tero aes diferenciadas nas arenas configuradas pelos conflitos. Em sntese, podemos dizer que na sociedade configuram-se arenas de conflitos em que se enfrentam atores sociais diversos (definidos pelo olhar do pesquisador), cada qual defendendo seus prprios projetos, que esto sempre em construo e desconstruo. Estes projetos so baseados no habitus de seus participantes (Bourdieu, 1992), ou seja, por uma matriz constituda pela eterna reinterpretao, na ao cotidiana, de seus valores culturais. Se falamos em conflitos relacionados a como normatizar o acesso ao que chamamos natureza aqui vale a pena acrescentar mais uma idia h muito canonizada na antropologia social, a de que as fronteiras entre o natural e social so construdas socialmente, variando em uma mesma sociedade ao longo do tempo (Thomas, 1998), ou de uma sociedade para outra (Viveiros de Castro, 1996). Alm disto, a natureza (ou como quer que se classifique o que no humano) fonte inesgotvel de analogias e metforas sobre a sociedade (Thomas, 1998). Podemos, portanto, acrescentar em nossa anlise que tanto o conservacionismo como outros projetos de relao das florestas com o futuro da humanidade refletem relaes scio-ecolgicas localizadas cultural e historicamente. Dissemos que alguns grupos conservacionistas so portadores de projetos justificados em nome de um interesse global colocando-se como porta-vozes seja de toda a humanidade, da natureza ou das geraes futuras. Sem desmerecer moralmente esta “representao nativa” enquanto utopia, o que nos parece face s linhas acima que, mais que um interesse global o projeto conservacionista defende interesses prprios dos atores, que acreditam s-lo o melhor para toda a humanidade. um projeto de sociedade, como outros existentes, formulado e defendido em geral

PAGE 23

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 21 por atores sociais com seu habitus formulado no contexto dos centros urbanos, ou seja, sem uma histria de vida relaci onada ao uso direto das florestas. O projeto conservacionista tem se estabelecido em uma posio privilegiada de poder nos ltimos anos, quando a questo da conservao da biodiversidade e do uso racional dos recursos naturais ganhou legitimidade na arena da poltica internacional (Barretto Filho, 2001). Se este projeto se ope ao projeto do desenvolvimentismo inconseqente, muitas vezes pode se chocar com projetos e interesses de outros grupos que, tambm marginalizados pelos projetos desenvolvimentistas, tem uma relao de uso direto sobre as florestas. Vejamos agora um estudo de caso que nos ajuda a pensar a relao entre pr ocessos sociais concretos e estes embates de interesses. O caso do PETAR O estudo de caso que apresentamos aqui baseado em a uma pesquisa antropolgica realizada entre os anos de 1998 e 2001 como parte do grupo de pesquisa coordenado por Lcia Ferreira (NEPAM/ Unicamp) no projeto interdisciplinar “Floresta e Mar: usos e conflitos no Vale do Ribeira e Litoral Sul de So Paulo”. Refere-se arena de conflitos configurada em torno de uma rea florestal montanhosa do Vale do Ribeira, no municpio de Iporanga, sul do estado de So Paulo. A regio historicamente habitada principalmente por descendentes de escravos, indgenas e colonizadores que chegaram regio no sculo XVI, quando Iporanga viveu um curto ciclo econmico de garimpo de ouro (Figueiredo, 2000) Os moradores da regio organizaram-se em ncleos frouxos de povoamento fortemente ligados por laos de parentesco, chamados posteriormente de bairros O modo de vida dos moradores pode ser definido como agro-extra tivista, extremamente dependente da floresta. Era praticada a agricultura itinerante ou roa de capuava (Petrone, 1961; Adams, 2000), que depende da abertura de pequenas clareiras na mata para o plantio de uma rotao de culturas que inclui principalmente o arroz, o feijo e o milho. Criavam-se de forma extensiva porcos, galinhas e outros animais domsticos, alimentados pela roa e pela floresta. Outras formas de relao material com a floresta circundante eram a retirada de madeira para uso domstico (lenha, construes), caa, coleta de frutos (muitas vezes plantados pelos antigos moradores) e de plantas teis, como as de uso medicinal. A paisagem da regio constitua-se, portanto, em um mosaico de reas em uso, reas de floresta em regenerao e reas de floresta pouco alterada. Mesmo que o Vale do Ribeira (principalmente o Alto Vale) tenha participado de forma apenas marginal do processo de urbanizao e industrializao do estado de So Paulo (Vieira & Mirabelli, 1989) e que o modo de vida dos moradores tenha sido historicamente compatvel com a permanncia de uma paisagem florestal, ainda assim no se pode analisar a realidade social da regio sem levar em conta a interao dos moradores com o restante do pas. De princpio, a produo de arroz, para os moradores da beira do Rio Ribeira, e de porcos para a regio abrangida por este estudo de caso, era vendida para regies fora do Vale. A economia dos moradores da regio, portanto, sempre dependeu, por um lado, da relao agro-extrativista com a floresta, e, por outro, de aquisio de dinheiro para obteno de itens no produzidos localmente. certo que a auto-suficincia dos moradores era muito maior dcadas atrs do que atualmente, tendo sido aumentada, hoje, a necessidade de dinheiro. No sculo XX, alguns empreendimentos capitalistas chegam regio, como companhias mineradoras de chumbo e calcrio e fazendas de gado. Por um lado estes empreendimentos criaram conflitos fundirios com habitantes locais, j que a forma de apropriao e herana da floresta era baseada no uso e no na propriedade da terra (Paoliello, 1999). Por outro lado, geraram empregos para alguns membros das famlias agro-extrativistas. Outro empreendimento importante na regio que teve a mesma funo foi o corte de palmito da palmeira juara ( Euterpe edulis ), tornado ilegal e agenciado principalmente por atores sociais externos. Este cenrio apontava para o desalojamento definitivo da floresta e ta mbm para uma gradual expropriao das terras historicamente ocupadas pelos habitantes locais, sujeitando-os condio de mo de obra assalariada ou migrao. Entretanto entram a novos atores sociais para modificar a histria do local. A regio do Alto Ribeira onde se configuram os conflitos apresentados aqui a que contm a maior concentrao de cavernas calcrias do estado e que faz parte da maior rea contnua de mata atlntica remanescente. Alm de alguns empreendimentos minerrios existia na regio, na dcada de 1950, uma sede do Instituto Geolgico e Geogrfico, rgo do Governo do Estado encarregado de pesquisas sobre minerais. Tnhamos ento em 1958 uma arena de conflitos constituda pelos seguintes atores sociais:

PAGE 24

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 22 a) Grandes empreendedores com interesses capitalistas que tentavam com pouco sucesso explorar a regio; b) Pesquisadores da rea geolgica que militavam pela proteo das inmeras cavernas da regio, com o apoio de atores da imprensa; c) Atores do governo estadual, ligados ao ento governador Jnio Quadros com projetos de desenvolvimento turstico em um paraso ecolgico e/ou com interesse de resguardar recursos florestais no modelo americano de Parques Nacionais. Este embate transformou pouco mais de 37 000 hectares de uma regio de florestas, repleta de moradores sem o ttulo da terra, e comprada ou grilada por empreendedores externos, no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira, o PETAR. A questo em jogo era transformar o local em rea protegida voltada ao turismo de habitantes da cidade, a princpio com uma base estatal de infraestrutura. O turismo incluiria caa e pesca, ou seja, uso direto da floresta (Figueiredo, 2000; Silveira, 2001). Os moradores da regio e o poder municipal parecem ter tido pouco poder de participao nesta arena. A criao do PETAR, na realidade, trouxe poucas modificaes ao cotidiano dos moradores, pois o parque permaneceu sem implantao por mais de 20 anos. No incio dos anos de 1980, uma nova arena de conflitos se configurou no Alto Ribeira. Ela inclua novos atores sociais que se relacionavam com a regio: a) Espelelogos (explora dores de cavernas), organizados em torno de grupos espeleolgicos e da Sociedade Brasileira de Espeleologia, SBE. Partiu destes atores sociais a reivindicao de que o PETAR fosse de fato implantado, e que as matas e as cavernas fossem resguardadas; b) Funcionrios da Superintendncia de Desenvolvimento do Litoral Paulista (SUDELPA), ligados ao ento governador Franco Montoro, que tinham como objetivo a implantao das diversas unidades de conservao ambiental do Vale do Ribeira criadas ao longo do tempo, sendo o PETAR uma rea-piloto; c) Novos empreendedores (madeireiras, mineradoras e outros) instalados ou com objetivos de se instalarem na regio; d) O poder municipal, alinhado com os empreendedores e com atores envolvidos com o corte de palmito; e) Moradores, sentindo-se ameaados ao mesmo tempo pelos empreendime ntos e pelo parque, mas de forma geral alinhando-se contra a implantao do Parque. Neste perodo um personagem fundamental no desfecho dos acontecimentos foi Clayton Lino, arquiteto, espelelogo e hoje personalidade importante no cenrio do ambientalismo brasileiro. Lino conseguiu articular a implantao do PETAR liderando a equipe da SUDELPA, tendo forte influncia entre os espelelogos e proximidade com os moradores do local que se tornou o centro do turismo na regio, o Bairro da Serra. O desfecho destes conflitos foi a implantao do PETAR, a paralisao de todos os grandes empreendimentos e o estabelecimento do ecoturismo como projeto de desenvolvimento para a regio. Os moradores almejavam a continuidade de sua economia agro-extrativista e a demandavam atividades que gerassem sa lrio a parte da famlia, em uma relao de assistencialismo e clientelismo com o poder pblico municipal. Com a implantao do PETAR, os moradores da regio no foram retirados, mas tiveram que readaptar seus projetos e organizao social nova realidade que se apresentava. Vejamos agora como este processo se deu em dois bairros de Iporanga, ambos localizados na regio sul do PETAR. Ambos partiram de realidades scio-ambientais semelhantes e realizaram trajetrias bem diferentes nos ltimos anos face ao modo como se colocaram nos conflitos. O Bairro da Serra O Bairro da Serra era, no perodo da pesquisa, uma aglomerao de mais ou menos 110 casas espalhadas pelo vale do Rio Betari, beirando a estrada que liga Iporanga ao municpio de Apia, construda na dcada de 1930. Na proximidade do bairro encontravam-se dezenas de cavernas que so visitadas por turistas freqentemente. O bairro localiza-se no entorno do PETAR, sendo cercado por ele por todos os lados menos um. Se no perodo da criao do PETAR o centro das atenes foi a regio de Caboclos, no norte do parque, no perodo da implantao o Bairro da Serra tornou-se o palco principal da arena de conflitos e do projeto de desenvolvimento do turismo. Foi no Bairro da Serra que comearam a aportar os primeiros espelelogos, na dcada de 1960. A caverna Santana, hoje a principal atrao turstica da regio, fica a aproximadamente 10 km do bairro. Foi no crculo de espelelogos que freqentavam o Bairro da Serra que surgiu a Sociedade Brasileira de Espeleologia. Foi l tambm

PAGE 25

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 23 que os primeiros moradores do local passaram a receber turistas em suas casas e gui-los na mata. A rea do bairro que ficou fora do parque no permite a perpetuao de um modo de vida agro-extrativista. As mineradoras e outros empreendimentos fecharam as portas. A fiscalizao passou a ser intensiva no local e os turistas comear am a chegar cada vez com mais freqncia. Alguns dos moradores que tinham mais proximidade com os agentes externos foram contratados como funcionri os da caverna Santana. Os moradores viram-se, portanto, obrigados a assumir o turismo como projeto de futuro, viver na economia clandestina do palmito ou migrar. Como conseqncia de tudo isso, o projeto do desenvolvimento do turismo se imps de forma inexorvel aos moradores do Bairro da Serra. Os anos de 1990 viram a transformao de alguns turistas em moradores do Bairro da Serra. Estes novos moradores juntamente com turistas que tinham proximidade com os moradores antigos fundaram a Associao Serrana Ambientalista (ASA), que incorporou com o tempo membros das famlias antigas do bairro, principalmente jovens. A ASA transformou-se em importante instrumento de reivindicao do Bairro da Serra, sendo a responsvel pela articulao do primeiro curso de monitores ambientais, que tinha como objetivo a capacitao dos jovens da regio para o trabalho com os turistas. A ASA tornou-se representante oficial do bairro da Serra em diversas instncias de deciso municipal, regional e estadual. V-se ento que a pauta das negociaes entre Estado e moradores, permeada pela participao de espelelogos, operadores de ecoturismo e ONGs, deu-se em torno de como o turismo pode resolver os conflitos criados pela implantao do PETAR. H, entretanto, no Bairro da Serra, um grande descontentamento dos moradores com as mudanas sociais ocorridas. Este descontentamento passa por duas vertentes: a primeira relacionada a uma interrupo nas formas cost umeiras de sociabilidade, baseadas na agricultura, caa e outras atividades agro-extrativistas. A sociabilidade criada pelo turismo cria outros parmetros de status social e conecta os moradores ao universo urbano-industrial dos turistas, fato que pode ser percebido de forma evidente na crescente urbanizao do local. Gerou-se na fala dos moradores uma nostalgia pelo tempo dos antigos que era tomado como referncia para criao de uma identidade de morador tradicional na reivindicao de direitos (Silveira, 2007). Como grande parte dos moradores fiel h algumas dcadas da igreja evanglica Congregao Crist do Brasil, muitas vezes a situao de mudanas de valores em que os moradores esto colocados relacionada ao Apocalipse, e a adeso doutrina da Igreja aparece como forma de salvao. A segunda vertente de descontentamento tem ares mais concretos: refere-se ao fato de que o projeto turstico apresenta-se como soluo inacabada no Bairro da Serra. Primeiro porque um consenso entre moradores e atores externos que o turismo j chegou ao seu limite de intensidade suportvel no Bairro da Serra, e mesmo assim no capaz de oferecer emprego a todos os moradores. Desta forma, ainda grande o movimento de sada e retorno dos moradores, rumo a centros urbanos como Sorocaba, So Paulo, Campinas ou Itu. Em segundo lugar, porque economia do turismo como nica opo gerou um agigantamento da estratificao social no Bairro da Serra, sendo que os mais pobres no tm mais a roa como supridora da alimentao familiar. Em terceiro lugar, porque os impactos relativos rpi da urbanizao do bairro tm trazido conflitos com a administrao do PETAR, a cargo do Instituto Florestal, um rgo da Secretaria Estadual do Me io Ambiente, que tm tentado controlar a todo custo as construes no bairro. Apesar de tudo isto, no havia, no perodo abrangido pela pesquisa, outra forma possvel de negociao de conflitos no Bairro da Serra que no passasse pelo projeto turstico. O Bairro da Serra, na verdade, considerado exemplo de ecoturismo bem desenvolvido no Vale do Ribeira, por conta da atuao dos moradores como donos de pousadas ou monitores ambientais. Bombas Bombas localiza-se a poucos quilmetros do Bairro da Serra, mas o acesso ao local difcil. S se alcana Bombas por uma trilha e no se demora menos de uma hora para alcanar a primeira casa quando se parte da estrada. Em 2001 eram 13 casas espalhadas ao longo de uma regio montanhosa de aproximadamente 2000 hectares, completamente includa no permetro do PETAR. Constitui dois ncleos de povoamento mais demarcados, chamados pelos moradores de Bombas (propriamente dita) e Cotia conforme a proximidade com os crregos homnimos. Nas descries municipais constam os nomes Bombas de Baixo e Bombas de Cima respectivamente. As cas as so de pau-a-pique, espalhadas pelo mosaico de florestas secundrias e florestas conservadas, no se encontrando vestgios de urbanizao. A trajetria dos moradores de Bombas bem diversa da dos moradores do Bairro da Serra. Mesmo aps a implantao do PETAR, dado o

PAGE 26

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 24 difcil acesso, o menor interesse turstico na regio e a complexa situao fundiria, Bombas no teve incentivos ao turismo nem foi alvo de fiscalizao rigorosa. Se o Bairro da Serra encaixou-se perfeitamente no projeto do ecoturismo com base local, Bombas tem permanecido relativamente marginal a este processo. A “soluo” que tem sido proposta para Bombas na ao dos atores sociais presentes na atual arena do PETAR o que se poderia chamar de no-soluo ou seja, dado o campo das possibilidades instrumentais (Sartre, 1967) atualmente configurado, o caminho encontrado para mitigar os conflitos o de se manter os moradores numa situao de clandestinidade permissiva, respeitando sua presena, mas criando empecilhos para as atividades agro-extrativistas em um cdigo informal de c onduta construdo ao longo dos conflitos. Dada esta situao concreta, os processos sociais ocorridos em Bombas podem ser sistematizados da seguinte forma: a) A venda de arroz, feijo e porcos tornou-se mais difcil na regio por conta da dificuldade de concorrncia com produtos vindos de fora do municpio, tendo desaparecido as rotas de comrcio destes itens com mercados externos; b) As necessidades de itens industrializados aumentaram para os moradores, sendo que o poder aquisitivo continuou baixo. c) Grande parte dos moradores migrou, para trabalharem principalmente como meeiros nas plantaes de tomate das regies prximas, ou nas reas urbanas dos m unicpios de Apia e Iporanga. d) Alguns moradores se envolveram com a extrao clandestina do palmito como forma de gerao de renda auxiliar famlia. Atualmente esta atividade encontra-se praticamente invivel pela pequena quantidade de palmeiras adultas que restaram no bairro. e) Para os moradores que no migraram ou que retornaram, a diminuio da populao gerou dificuldades nas redes de trabalho, que envolvem mutires ( puxires ou reunidas ) e troca de servios ( troca de dias ). A principal forma de trabalho na roa hoje a que utiliza apenas a mo de obra domstica, impossibilitando uma produo satisfatria para os agricultores. f) As sucessivas sadas e voltas dos moradores geraram grilagem de terras por agentes externos e conflitos entre os moradores aparentados por conta da venda de terrenos a terceiros. Por conta da existncia do parque, os agentes externos no puderam ocupar a regio. Os moradores restantes continuam, dessa forma, habitando a rea historicamente ocupada por seus antepassados. g) Os jovens que desejam estudar alm da quinta srie ou trabalhar com o turismo mudam-se para a sede do municpio ou para o Bairro da Serra. Em sntese, os habitant es atuais de Bombas so aqueles que resistiram migrao ou que migraram e retornaram por no encontrar condies de vida adequadas fora do bairro. Alguns insistiram na agricultura contando com uma ou duas aposentadorias rurais como renda da casa. Outros so ex-plantadores de tomate que retornaram, ou excortadores de palmito. Todos vivem de uma economia agro-extrativista realizada em uma escala inferior ao que consideram ideal. A ttulo de analogia, poderamos dizer que so os remanescentes de um bairro localizado nos remanescentes da mata atlntica. Os atuais moradores, entretanto, manifestam a vontade de permanecer. A ausncia de progresso aliada dificuldade prtica de se criar novas formas de organizao social com base nas formas antigas causa, do ponto de vista emocional, um sentimento de desnimo nos moradores, tornando Bombas um territrio marginal, povoado por pessoas clandestinas em sua prpria terra. Ocorreu assim em Bombas um processo que dificulta a reproduo das formas costumeiras de sociabilidade e produo. A impossibilidade de pactuar acordos, dada a arena configurada, coloca os moradores em uma situao de clandestinidade, com impactos em sua qualidade de vida dos moradores e expectativa de futuro. O processo incentiva tambm uma relativa anomia com relao ao uso da floresta, pois as regras costumeiras so desconsideradas pelos gestores da conservao por se oporem legislao do Parque. No existe esp ao poltico para pactuar novas regras de uso. No campo de possibilidades configurado no perodo da pesquisa, o nico projeto que aparece vivel para os moradores a reivindicao do territrio historicamente ocupado por conta do reconhecimento de Bombas como comunidade remanescente de quilombo, como tem ocorrido com outros bairros de Iporanga com apoio do Instituto de Terras (Itesp), rgo ligado Secretaria Estadual de Justia (SJDC, 2000). Este reconhecimento, segundo precedentes legais, provavelmente implica o recuo das divisas do PETAR. Os moradores de fato solicitaram o reconhecimento no ano 2002, tendo sido produzido um relatrio tcnico-cientfico a respeito (Silveira, 2003) indicando que a

PAGE 27

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 25 comunidade se enquadra nos critrios legais para o reconhecimento2. Resta saber que nesta nova configurao institucional haveria interlocutores, entre os atores externos, para que a soluoquilombo se torne sustentvel. Interesse local versus interesse global ou simplesmente uma arena de conflitos? No estudo de caso apresentado vemos claramente que existem grupos sociais em ao com interesses diversos. Por um lado temos dois projetos modernizadores, um baseado na obteno de matrias-primas como minrios e madeira para alimentar a expanso urbano-industrial do estado. O outro projeto modernizador baseado na idia de que necessria a excluso da rea de remanescente florestal do desenvolvimento urbano-industrial insustentvel e nela incluir atividades de gerao de capital que no impliquem no uso direto da floresta, aparecendo o turismo como a soluo ideal. Vimos que no desenrolar do hi strico dos conflitos o segundo projeto tem obtido uma posio de poder sobre o primeiro. Assim foi possvel a implantao do parque turstico. Os atores responsveis pelo projeto desenvolvimentista so em preendedores que no tm uma relao de vivncia na regio e que empreendem atividades em outros locais. So empresrios que entendem a regio como geradora de capital. O conjunto dos atores sociais responsveis por levar o projeto turstico diverso, e conta com espelelogos que passaram a ser operadores de ecoturismo, funcionrios do Estado e, mais recentemente, moradores do Bairro da Serra e outras reas de Iporanga que se viram historicamente desprovidos do direito de desenvolver atividades agro-extrativistas O PETAR leva gravado em seu nome a marca de um projeto claro de futuro para a regio (“parque turstico”). Os atores que militaram por este projeto so aqueles que desenvolveram uma relao afetiva com as cavernas e florestas do Alto Ribeira, tendo como objetivo resguardar a integridade de seu paraso. Este o caso dos espelelogos na poca da implantao do PETAR (anos de 1980) e de profissionais da rea geolgica que trabalhavam na regio, na poca da criao do parque (anos de 1950). Este projeto conservacionista modernizador sustentou-se politicamente por dois motivos: primeiro porque era consoante com os debates travados na arena da poltica internacional, que traziam o argumento do interesse global ; em segundo lugar, porque nos dois momentos, da criao e da implantao do PETAR, os atores sociais responsveis pelo projeto do parque turstico tinham influncia considervel nos governos estaduais. Os atores no-moradores envolvidos no projeto do parque turstico tm de forma geral seus valores culturais formados em um contexto de degradao ambiental urbana. A floresta seria a anttese concreta de uma urbanidade insustentvel, o que justifica sua transformao em rea intocvel. O parque turstico pode ser, portanto, justificado como a defesa do direito das populaes urbanas de ter a floresta como referncia para uma alternativa urbanidade, mais do que a defesa de um interesse global. Por isto mesmo dada grande nfase, entre os que defendem este projeto hegemnico, ao trabalho de estudo do meio (Mendona e Neiman, 2002) que realizado no PETAR, por diversos grupos, com crianas e jovens das escolas particulares da capital e de grandes cidades do interior de So Paulo. Quanto aos moradores, vimos que h uma heterogeneidade de situaes e trajetrias. Os que se alinham com o projeto do parque turstico, no caso de parte dos moradores do Bairro da Serra e da sede do municpio, tm nele um a justificao diversa da dos atores externos: fica claro que a via turstica a nica maneira de pactuar solues e fixar os moradores regio natal. A convivncia com o turismo incorporada ao habitus dos jovens monitores e dos donos de pousadas, que muitas vezes passam a apresentar posies ambguas nas falas, valorizando o passado, mas defendendo a inexorabilidade do futuro. Comparo a situao do Bairro da Serra do macaco do conto “Relato a uma Academia”, de Kafka, que aprisionado na frica e trazido Europa. Percebendo que sua nica sada de futuro vivel transfigurar-se em ser humano, passa a imitar os marinheiros do na vio e logo vira um astro do teatro de variedades. Da sua posio de humano incompleto, mas bem sucedido, passa a desdenhar sua antiga condio de macaco, justificando o processo repressivo pelo qual passou. Ou seja, somente da posio de “domesticados” pelo turismo que os moradores tm conseguido se impor como interlocutores na arena de conflitos. As realidades para as quais o turismo no pode ser fornecido como moeda de troca pelo antigo modo de vida, como o caso dos moradores de Bombas e de parte dos moradores do Bairro da Serra, so encaradas na arena dos conflitos como becos sem sada. Isto ocorre porque os moradores com cdigos de conduta que partem do princpio de que a floresta existe para ser usada (e que certas prticas a tornam perene, e outras a destroem) no foram capazes de construir, face s situaes de

PAGE 28

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 26 poder configuradas nas arenas de conflito, um projeto coletivo alternativo de futuro para a regio que pudesse entrar em dilogo com as polticas provenientes das arenas internacionais. Neste sentido os moradores da regio repetidamente definem-se como pequenos e oposio aos grandes portadores de projetos modernizadores, sejam eles interessados em conservar ou em destruir a floresta. Caminhos Utilizamos no decorrer deste artigo, ao analisar as condies concretas em que a arena de conflitos se configura, o conceito de campo de possibilidades instrumentais definido por Sartre (1967). Podemos entender que mudanas neste campo de possibilidades instrumentais tornam vivel a proposta de novos projetos coletivos e a transformao dos velhos projetos, constituindo novas arenas de disputa. Atualmente um dos dete rminantes simblicos da manuteno da posio de poder do conservacionismo sem presena humana uma confuso entre escala e interesse, ou seja, a idia de que o olhar numa escala maior ( global ) mais abrangente do que o olhar em uma escala mais reduzida ( local ). Assim, os que olham em uma escala global teriam a soluo correta para os problemas, pois defenderiam os interesses de toda a humanidade ( interesses globais ). A falha epistemolgica est justamente na desconsiderao das experincias localizadas como relevantes para encontrar solues de sust entabilidade, isto , a necessidade do cruzamento de olhares em diferentes escalas para se construir o que se deseja um olhar global. Este olhar global, necessidade construda na modernidade, talvez no tenha condies de se concretizar de forma absoluta, a no ser como uma multiplicidade de olhares globais que podem ser conflitantes entre si. Se tomarmos por princpio que no h uma dicotomia entre interesses globais e interesses locais na arena da institucionalizao da conservao na regio do PETAR, desvenda-se uma realidade em que os antigos habitantes da regio de florestas no tm conseguido estabelecer um dilogo poltico com outros atores sociais em uma posio de poder confortvel. A reverso no balano de poder desta arena se daria pela incl uso de duas condies ao campo de possibilidades instrumentais: a) A reviso do sistema de institucionalizao do controle da floresta, que reverta a condio de clandestinidade das ativ idades agro-extrativistas numa chave de busca de sustentabilidade, que poderia ser obtida pela reclassificao das reas habitadas do PETAR em categorias como reservas extrativistas, quilombos ou mesmo reas de proteo ambiental e baseadas em planos de uso definidos coletivamente, e no em controle policial das atividades; b) O aumento do poder de mediao das polticas ambientais por instituies locais legtimas, pela abertura de espaos de dilogo que escapem da soluo parque turstico e de relaes clientelistas e assistencialistas com relao aos moradores. Se um dilogo poltico legtimo no ocorre, outras formas de dilogo tm ocorrido nas relaes subjetivas entre indivduos e grupos que participam dos conflitos. Um exemplo interessante a forma como espelelogos e moradores do Bairro da Serra tm construdo conjuntamente conhecimentos sobre a atividade de explorao de cavernas, pondo em dilogo as experincias do ator externo com as experincias do morador. Este conhecimento hbrido constitudo em uma rela o de poder equilibrada e tem sido til para o desenvolvimento da espeleologia no PETAR. Proponho aqui que este tipo de hibridizao de saberes pode ser institucionalizado como forma de definio de critrios de gesto da floresta. Autores como Escobar & Pedrosa (1996) e Cunha & Almeida (2002) tm propostas semelhantes, aplicvei s respectivamente aos seringueiros do Acre e a populaes negras do Pacfico Colombiano. Escobar & Pedrosa (1996) afirmam que no existe uma grande alternativa para a realidade que estuda, mas que o alternativo construdo diariamente pela experincia cotidiana dos povoadores das reas fl orestais, ativistas e outros atores sociais. Parte dos espelelogos, operadores de turismo e turistas de longa convivncia com o PETAR tm tentado interagir de forma construtiva com os moradores da regio, alguns de forma assistencialista, outro procurando interaes de outra ordem. Geralmente estas interaes so voltadas escola do Bairro da Serra e aos monitores ambientais. Isto significa que h entre atores externos a compreenso da situao complexa em que os moradores esto envolvidos e uma predisposio a atuar conjuntamente, havendo-se condies favorveis. Por outro lado, em conversas com moradores das florestas de Iporanga, em diversos momentos aparecem esboos de propostas de uso sustentvel da floresta baseadas em suas prprias experincias. Estas propostas no se constituem em um projeto coletivo por no encontrar interlocutores entre

PAGE 29

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 27 aqueles que pretendem que a floresta seja conservada. Sendo assim, o perigo que se abate sobre os remanescentes da Mata Atlntica do Alto Ribeira que a representao de que os moradores so destruidores da floresta se materialize como realidade cruel, como j ocorre no caso do corte clandestino do palmito juara. Sem dilogo com atores ambientalistas para alm do turismo, os atores desenvolvimentistas constituem-se em interlocutores para projetos de futuro de moradores excludos do turismo. A reeleio em Iporanga, em 2001, de um prefeito caado por corrupo, justifica-se em grande parte por este apresentar uma plataforma desenvolvimentista e avessa ao ambientalismo. Concluses Neste artigo procurei mostrar que os conflitos relativos ao uso e conservao das florestas do Alto Vale do Ribeira no se resumem a uma oposio entre interesse local versus interesse global mas a uma arena de conflitos em que interagem atores sociais com projetos de futuro prprios, baseados em valores e ticas construdos socialmente. Os diferentes interesses devem ser vistos no como uma escala de valor moral, mas como projetos que se fazem e refazem, tentando assumirem-se como realidade futura. O estudo de caso apresentado mostra como um projeto coletivo, o do parque turstico, formulado em uma matriz cultural urbana, obteve meios materiais para impor-se como realidade nas arenas de conflito constitudas. Neste contexto os moradores da regio no foram capazes de estabelecer um dilogo em condies equivalentes de poder para construo de um projeto coletivo alternativo ao projeto imposto. Se o movimento ambientalista, nas arenas da poltica internacional, aponta para a necessidade de construo de uma viso de cunho global para as questes ambientais contemporneas, o que considerado local no pode ser o oposto do global e sim parte constituinte deste. Estratgias globais de conservao da natureza precisam levar em conta que as florestas do Alto Ribeira foram e so elementos fundamentais para a reproduo social de grupos at recentemente marginais modernidade insustentvel. Talvez possamos definir a um outro conceito de global na conservao das florestas: o global seria ento o fruto do dilogo, que pode sim ser conflituoso, entre saberes e fazeres diversos (Avanzi et al 2001), na construo de uma utpica e desconhecida sociedade sustentvel, em que os habitantes da floresta tm tanto a contribuir quanto os cientistas, polticos e outros atores sociais. Agradecimentos Uma verso preliminar deste artigo foi apresentada no Ciclo de Seminrios do Ncleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), em setembro de 2002. Agradeo aos comentrios dos colegas do Nepam, em especial aos colegas do Projeto “Floresta e Mar”. Agradeo tambm FAPESP, CAPES e FAEPEX/Unicamp pelo suporte financeiro para realizao da pesquisa. Agradeo ainda a Mauro Almeida (IFCH/Unicamp) pela leitura atenta e comentrios. Agradeo aos moradores, profissionais e visitantes do PETAR que participaram da pesquisa e, por fim, s sugestes do revisor annimo. Referncias Bibliogrficas Adams, C., 2000. As roas e o manejo da Mata Atlntica pelos caiaras: uma reviso. Interciencia, 25 (3). Avanzi, M.R.; Costa Pinto, A. B.; Nonato, R. C.; Oliv eira, V. G.; Oliveira, C; Speglich, E. e Wunder, A., 2001. Reflexes Metodolgicas sobre a construo co letiva de conhecimento em educao ambiental. In: Da Mata, S. F.; Gavazza, S.; Almeida, M.C.M. e Barros, R.P.: Educao Ambiental: Projetivas do Sculo. MZ editora, Rio de Janeiro. Barretto Filho, H. T., 2001. Da nao ao planeta atravs da natu reza: uma abordagem antropolgica das unidades de conservao de proteo integral na Amaznia brasileira. Tese de doutorado, Programa de Ps-graduao em Antropologia So cial, Universidade de So Paulo. Barth, F., 1969. Grupos tnicos e suas fronteiras. In: Poutignat, Phillipe e Streiff-Fenart, 1998. Teorias da Etnicidade. Unesp, So Paulo. Bourdieu, P., 1992. Economia das trocas simblicas. Perspectiva, So Paulo. Cunha, M. C., 1987. Antropologia do Brasil: mito, histria, etnicidade Brasiliense, So Paulo. 176 pp., 2a edio.

PAGE 30

Silveira. “Mal para ns, bem para o mundo?” um olhar antropolgico sobre... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 28 Cunha, M. C. e Almeida, M.W. B., 2000. Traditiona l people, indigenous people and conservation in Amazon. Daedalus 129 (2). Cunha, M. e Almeida, M. W. B., 2002. Enciclopdia da Floresta. Cia das Letras, So Paulo. 1a edio. Escobar, A. e Pedrosa, A. (org), 1996. Pacfico: desarollo o diversidad? Colmbia, CEREC/ Ecofondo, 377 pp. Figueiredo, L. A. V., 2000. “ O meio ambiente prejudicou a gente ...”polticas pblicas e representaes sociais de preservao e desenvolvimento. Dissertao de Mestrado em Educao, FE/ Unicamp, Campinas, SP. Geertz, C., 1978. A interpretao das culturas. Jorge Zahar, Rio de Janeiro. Mendona, R. & Neiman, Z., 2002. sombra das rvores: transdisciplinaridade e Educao Ambiental em atividade extra-classe Chronos, So Paulo. Miller, K., 1997. Evoluo do conceito de reas de pr oteooportunidades para o sculo XXI. Curitiba/PR, I Congresso Brasileiro de Unidades de ConservaoAnais, vol.1 p. 3-21. Petrone, P., 1961.Notas sobre os sistemas de cultura na Baixada do Ribeira, SP. Boletim Paulista de Geografia 39 Sartre J.P., 1967. Questo de mtodo. Difuso Europia do Livro, So Paulo. 150 pp. Sahlins, M. 1992. Ilhas de Histria. Jorge Zahar, Rio de Janeiro. 220 pp. Secretaria da Justia e Defesa da Cidadania, 2000. Negros do Ribeira: reconheci mento tnico e conquista do territrio So Paulo, Cadernos do ITESP, v. 3, 2a edio. Silveira, P. C. B., 2001. Povo da terra, terra do parque: presena humana e conservao de florestas no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR). Dissertao de Mestrado em Antropologia Social, IFCH/ Unicamp, Campinas, SP. Silveira, P. C. B., 2003. Relatrio tcnico-cientfico sobre os remanescentes de quilombo de Bombas, Iporanga-SP. Instituto de Terras Jos Gomes da Silva (mimeo). Silveira, P. C. B., 2007. Conflitos scio-ambientais e mobilizao de identidades: um estudo de caso na Mata Atlntica Trabalho apresentado no 31o Reunio da ANPOCS, Caxambu-MG. Thomas, K., 1998. O homem e o mundo natural Companhia das Letras, So Paulo, SP. Vieira, V. L. e Mirabelli, M., 1989. Ocupao e povoamento do Vale do Ribeira. Srie Educao Ambiental, v. 3, Secretaria Estadual do Meio AmbienteSP, 40 pp. Fluxo editorial : Recebido em: 19.04.2008 Enviado para avaliao em: 21.04.2008 Enviado para correo ao autor em: 20.05.2008 Aprovado em: 09.06.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Doutor em Cincias Sociais. 2 At o final de 2007 a situao de Bombas como quilombo reconhecido legalmente ainda no havia sido regularizada.

PAGE 31

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 29 ESTUDO DAS TRANSFORMA'ES DA ESTRUTURA FSICA DO BAIRRO DA SERRA, ENTORNO DO PETAR, EM DECORRN CIA DA ATIVIDADE TURSTICA1 STUDY OF THE PHYSICAL STRUCTURE TRANSFORMATIONS OF SERRA DISTRICT, PETAR SURROUNDING AREA, IN CONSEQUE NCE OF THE TOURISM ACTIVITY Isabela de Ftima Fogaa2 Universidade Estadual Paulista UNESP isafog@hotmail.com Resumo O artigo aqui apresentado tem como objetivo geral anali sar a origem e a evoluo da estrutura urbana do bairro da Serra, no municpio de Iporanga, estado de So Paulo, cons iderando os reflexos da atividade turstica neste processo. Esse bairro, que se localiza em me io a remanescentes de Mata Atlntica, teve suas origens ligadas agricultura de subsistncia e e xplorao de minrios. Desde a segunda metade do sculo XX, todavia, se constitui em entorno de uma Unidade de Conservao, razo pela qual sofre restries no uso e na ocupao do solo o que condicionou o turism o como sua principal atividade econmica. Como metodologia para o desenvolvimento de sta pesquisa optou-se por um estudo de caso, com enfoque na anlise qualitativa. Como resultados, pde-se verificar que o tu rismo exerce grande influncia tanto nas relaes sociais dos moradores, quanto na estrutura fsica do bai rro; neste ltimo principalmente devido s divisas que a atividade proporciona comunidade. igualmente visve l a alterao da estrutura original da paisagem em decorrncia de novos valores assimilados por aquela co munidade, valores estes parcialmente trazidos pelo turismo. Palavras-Chave: Turismo; Bairro da Serra; Impactos; Paisagem; Urbanizao. Abstract The general objective of this paper is to analyze th e beginning and evolution of Serra DistrictÂ’s urban structure, considering the tourism activity reflections on this process. The Serra District is located on Iporanga City in So Paulo State, at Atlantic Ra in Forest, and its origins remain from subsistence agriculture and mining exploration. However, since the second half of 20th century, this area is the surrounding of a Conservation Unity, the main reason b ecause it has been suffering restrictions on soil use and occupation, which turned tourism in its main ec onomic activity. As methodology for the realization of this research, a case study was perfor med, with focus on a qualitative analysi s. As results, it was possible to verify that the tourism has been in fluencing the local communities relationship and the physical structure of the area, where this last one principally because of in come benefits that the tourismÂ’s activities reverts to local community. It is also visible the changes in an orig inal view structure because of the new values that the community has gotten, values partially brought for the tourism. Key-Words: Tourism; Serra District, Imp acts; Landscape; Urbanization. Introduo O Bairro da Serra est localizado no municpio de Iporanga/SP e faz limite com a regio sul do Parque Estadual Tu rstico do Alto Ribeira (PETAR)3, constituindo-se na comunidade mais prxima ao parque, particularmente do ncleo Santana4, o ncleo mais visitado e estruturado para a visitao do mesmo, e, tambm, do ncleo Ouro Grosso, bastante visitado por pesquisadores. Sua origem ligada agricultura de subsistncia em terras co letivas, em que somente havia as posses, ou seja, ningum contava com titulao de suas terras. Serviu como rea de abastecimento de alimentos aos garimpos prximos ao rio Ribeira de Iguape, na regio onde hoje se encontra o municpio de Iporanga e seu entorno e, em um segundo momento, como local de pouso e descanso para as tropas que levavam o restante do ouro de Apia para Iporanga, de onde seguia viagem, via o Rio Ribeira, para a atual Iguape, onde se encontrava o porto. Mais tarde, este mesmo caminho era utilizado para transportar o chumbo das mineradoras que se instalaram prximas ao bairro da Serra, nas quais grande parte de sua populao trabalhava, com exceo de moradores que

PAGE 32

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 30 continuavam com suas roas, dos palmiteiros ou mateiros, que extraiam vegetais e madeira diretamente da floresta, e dos poucos garimpeiros, que buscavam seus minrios em pequena escala no Rio Betari, rio que cruza o bairro. Entretanto, a partir da metade da dcada de 80 por ocasio da real implantao do PETAR, criado em 1958, mas apenas demar cado e “tirado do papel” em 1986, foram impostas ao bairro diversas restries ambientais que proibiram e, ainda, probem o desenvolvimento de atividades exploratrias dos recursos naturais e minerais, suas antigas atividades econmicas, fazendo do turismo uma das nicas atividades passveis de serem desenvolvidas para a gerao de renda e para o sustento de sua comunidade local. Santos (1997a) diz que o espao formado por dois sistemas, os sistemas de objetos que condicionam a forma como se do as aes e o sistema de aes que, por sua vez, leva criao de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes. Assim, o espao uma construo histrica e sua formao essencialmente dinmica, ou seja, ir sofrer modificaes de acordo com as necessidades e condies em que vivem as pessoas que nele habitam. No Bairro da Serra, esta relao de sistemas algo bastante claro, pois a existncia de um patrimnio natural e espeleolgico significativo condicionou aes no sentido da conservao e resguardo do mesmo; no entanto, dentro desta condio de rea protegida, a comunidade que ali residia envolvida em uma estrutura de explorao dos recursos naturais para sua sobrevivncia, obrigou-se a buscar outras formas de garantir seu sustento por meio da utilizao deste patrimnio, inserindo assim a questo do desenvolvimento da atividade turstica. J a atividade turstica, por sua vez, tambm teve participao significativa neste processo da relao dos sistemas de objetos e aes e vice-versa, uma vez que para sua implementao houve a necessidade de serem criados objetos novos e adaptados alguns j existentes, assim modificando quase que totalmente a paisagem deste bairro. Ou seja, o espao natural, apesar de j possuir algumas adaptaes, mas ainda com predominncia do natural sobre o cultural, sofreu maiores alteraes para apresentar condies vitais sobrevivncia da comunidade ali existente dentro da nova realidade em que se encontravam, e por ter se tornado uma rea turstica, tambm das comunidades que vm de outras regies para desta rea usufruir. Assim, para entender a dinmica do processo de mudana desta estrutura, este artigo se prope a analisar a evoluo da estrutura urbana do bairro da Serra e o delineamento da influncia do fenmeno turstico neste processo de mudana de paisagem e de forma de viver desta comunidade. Utilizou-se de uma anlise qualitativa constituda pela interpretao causal ou condicional e pelos elementos e categorias de anlise do espao propostas por Milton Santos. Tambm, em uma amostragem noprobabilstica, esta investigao, valeu-se de entrevistas com prestadores de servios tursticos do bairro, representantes da comunidade, no necessariamente participantes da atividade turstica, mas que vivem ou viveram no bairro durante muitos anos e presenciaram o surgimento da atividade turstica e as conseqncias que a mesma trouxe sua paisagem e relaes sociais, estudiosos da regio e representantes de entidades ligadas problemtica, com o intuito de que todo o universo dos envolvidos fosse investigado, alm da tcnica de observao semi-participante por parte da autora. Referencial terico Para entender a dinmica do espao, em especial do espao turstico, Rodrigues (1997) sugere as categorias de anlise espacial propostas por Milton Santos em sua obra “Espao e Mtodo” e que tambm, neste trabalho, foram entendidas como as que melhor se aplicavam a anlise dos dados, uma vez que, aps relacionar os elementos que compem o espao (homem, firmas, instituies, infra-estrutura e meio ecol gico), o autor apresenta as quatro categorias de anlise do espao (forma, funo, estrutura e processo), destacando a interao tanto destes elementos quanto das categorias analticas, o que se aplica realidade objeto desta investigao. Logo, quanto aos elementos do espao, Santos (1997b:6) define os homens como elementos, “seja na qualidade de fornecedores de trabalho, seja na de candidatos a isso”. Suas demandas, enquanto membros da sociedade, so respondidas, em parte, pelas firmas, que “tm como funo a produo de bens, servios e idias” e, em parte, pelas instituies que “produzem normas, ordens e legitimaes”. O meio ecolgico definido como “o conjunto de complexos territrios que constituem a base fsica do trabalho humano” e as infra-estruturas, como “o trabalho humano materializado e geografizado na forma de casas, plantaes, caminhos, etc”.

PAGE 33

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 31 A primeira presena do homem um fator novo na diversificao da natureza, pois ela atribui s coisas um valor, acrescentando ao processo de mudana um dado social. Num primeiro momento, ainda no dotado de prteses que aumentam seu poder transformador e sua mobilidade, o homem criador, mas subordinado. Depois, as invenes tcnicas vo aumentando o poder de interveno e a autonomia relativa do homem, ao mesmo tempo em que se vai ampliando a parte da ‘diversificao da natureza’ socialmente construda (Santos, 1997a:105106) Santos (1997b:7) destaca, ainda, que “atravs do estudo das interaes, recuperamos a totalidade social, isto , o espao como um todo e, igualmente, a sociedade como um todo. Pois cada ao no constitui um dado independ ente, mas um resultado do prprio processo social”. Em outro momento, este autor tambm evidencia que “sempre que a sociedade (a totalidade so cial) sofre uma mudana, as formas ou objetos geogrficos (tanto os novos como os velhos) assumem novas funes; a totalidade da mutao cria uma nova organizao espacial” (Santos, 1997b:49). E quanto anlise destas mudanas, lembra que: so tanto espaciais como econmicas, culturais e polticas, pode ser feita, [...], de um ponto de vista das diversas instncias da produo, isto , da produo propriamente dita, da circulao, da distribuio e do consumo, mas tambm pode tomar como parmetro outras categorias, por exemplo, as consagradas estruturas da sociedade, isto , a estrutura poltica, a est rutura econmica, a estrutura culturalideolgica, qual acrescentamos o que chamamos de estrutura espacial. A anlise pode, tambm, adotar como ponto de partida uma outra srie de categorias: a estrutura, o processo, a funo e a forma (Santos, 1997b:47). Assim, Santos (1997b:50) prope as quatro categorias de anlise do espao, nas quais define Forma como “o aspecto visvel de uma coisa. Refere-se, [...], ao arranj o ordenado de objetos, a um padro”, governadas pelo presente, o padro desta forma que, por mais negado no futuro, sempre a integrar. Funo, como a “atividade esperada que uma forma, pessoa, instituio ou coisa” exera (Santos, 1997b:50). Estas duas categorias so bastante afetadas segundo seu idealizador pelos movimentos da totalidade social e transformaes das sociedades, pois, para atender s normas necessrias dessas, os processos se modificam e tais formas ganham novas funes, bem como se alteram ou mudam de valor (Rodrigues, 1997). Fator bastante comum em destinaes tursticas e bastante evidente na rea objeto de estudo desta pesquisa, por ter passado de uma rea de explorao dos recursos naturais para uma rea de preservao. Estrutura como “o modo de organizao ou construo” de todas as partes de um todo (Santos, 1997b:50), ou seja, base para elaborao de anlises, pois, “da conta do dinamismo espacial presente, expressando a rede de relaes” (Rodrigues, 1997:74). E por fim, Processo como a ao que influencia todas as outras categorias, pois implica “conceito de tempo (continuidade) e mudanas”; so “aes contnuas, desenvolvendo-se em direo a um resultado qualquer” (Santos, 1997b:50). Logo, “num dado tempo, num momento discreto, esses ingredientes analticos podem ser vistos em termos de forma, funo e estrutura. Mas, ao longo do tempo, deve-se acrescentar a idia de processo, agindo e reagindo sobre os contedos desse espao”, portanto, evidencia que “as formas e artefatos de uma paisagem so resultado de processos ocorridos na estrutura subjacente” (Santos, 1997b:51). Verifica-se que aplicadas anlise do espao turstico as teorias propostas por Santos para o estudo da estrutura scio-espacial daro conta de apreender o dinamismo existente em sua complexidade, tanto no que se refere identificao dos elementos do espao em questo e sua interao, onde at um determinado perodo da histria os elementos homem, firma, infra-estrutura e meio ambiente no refletiam quase nenhuma relao com o elemento instituio e em que o relacionamento homem e meio ambiente, somando o elemento infraestrutura nesta relao, era algo muito forte, quanto na aplicao das categorias de anlise (forma, funo, estrutura e processo) propriamente ditas. Uma vez que, diante das transformaes que esta localidade vem sofrendo desde que se tornou rea de proteo ambiental – portanto impedida de desenvolver as atividades que durante toda sua histria vinha desenvolvendo, baseadas na explorao de recursos minerais e vegetais desta regio – uma nova estrutura entra em vigor com novas formas e funes s formas pr-existentes, agora voltadas ao turismo.

PAGE 34

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 32 Anlise da origem e evoluo do bairro da Serra e a insero da atividade turstica – Resultados e discusses. O bairro da Serra sofreu grandes influncias da explorao de minrios, pois prximo, e at mesmo em seus limites, se instalaram mineradoras como Lageado e Furnas. Estas mineradoras, por sua vez, tambm originaram aglomeraes humanas, fundaram bairros que serviram de moradias para seus funcionrios, mas que, no entanto, com a falncia, devido exausto dos recursos, aproximadamente na dcada de 60, e proibies de funcionamento das mesmas aps transformao de partes de suas reas em Unidade de conservao (UC), foram tambm se desestruturando e sua populao migrando para outras regies, principalmente para o bair ro da Serra e para outros municpios em busca de oportunidades de trabalho. Os trabalhadores que migraram para o bairro da Serra tambm exerceram grande participao e influncias na configurao atual do bairro. Diante do quadro de uma regio quase que totalmente constituda de rea de proteo, a soluo encontrada pelos migrante s que no bairro da Serra se fixaram foi se dedicar direta ou indiretamente, em um primeiro momento, agricultura e, depois da demarcao do parque, ao turismo, como monitores ambientais ou prestadores de servios, que vo desde servios de manuteno (como pedreiros, limpeza de terrenos, etc) ou cozinheiras, arrumadeiras e faxineiras. Alguns moradores continuaram com suas roas, mas em terrenos um pouco mais distantes do bairro da Serra. O bairro da Serra em sua origem se estruturava por um pequeno plo de cristalizao (Lino, 1978a:68), definido pela Casa Grande que pertencia famlia Mota (Dona Prudncia Maria Rodrigues e seu esposo, Antonio da Mota, conhecidos como fundadores do bairro). Localizouse prximo ao rio Betari em uma das reas mais planas de seu vale, ou seja, rea que naturalmente apresentava condies de habitabilidade, de se instalar pouco a pouco uma aglomerao humana, fator que pode ser confirmado com os stios arqueolgicos (como instrumentos que provavelmente povos indgenas, como os carijs, utilizavam em seu dia-a-dia), constatando que sua ocupao bastante antiga. Constituiu-se com predominncia de casas de pau-a-pique, umas cobertas com sap e outras com telhas do tipo “feitas nas cochas” (Figura 1) confeccionadas artesanalmente em olarias prximas ao bairro, que foram se estabelecendo de forma espontnea, diferentemente dos bairros originados em funo da minerao que possuam um padro construtivo, geralmente em tbuas de madeira e alvenaria de tijolos, em um sistema de zoneamento funcional e hierrquico5. Figura 1 : Moradia Rural do Bairro da Serra. FONTE: Lino, C. Alto Vale do Ribeira arquitetura e paisagem. v.2. So Paulo: CONDEPHAAT,1978a. Segundo Lino (1978a:70), o bairro da Serra se classificava em um bairro ”com aglomerao central, mas com predominncia da disperso construtiva no entorno desta” aglomerao. Ou seja, junto casa grande havia um aglomerado de outras moradias, geralmente pertencentes mesma famlia, mas havia tambm casas dispersas pelo bairro que eram ligadas por caminhos (trilhas) que, mais tarde, deram origem s ruas e projetos de ruas; uma vez que, ainda, no h ruas estabelecidas na margem esquerda do rio Betari, que divide o bairro, e, mesmo, na margem direita no h uma definio de critrio de arruamento. A disposio das casas no terreno tinha uma organizao rural muito marcada, na “casa grande”, por exemplo, alm da moradia, havia tambm corpos geminados para um trfico de farinha6, curtume, e senzala para os escravos negros (Lino, 1980). As outras casas, que depois foram surgindo no bairro, tambm possuam o quintal como algo bastante importante, ou seja: a casa rural se caracteriza pela distribuio de funes (especialmente as de servios) em vrias construes independentes, dentro de um mesmo “espao ocupacional”.[...]. Poderamos analisar este espao ocupacional (ou terreiro), como um conjunto de 4 reas interligadas pela casa propriamente dita. A rea 1, rea frontal da casa, funciona como local de recepo e de lazer[...] de uso coletivo. Ali brincam as crianas, conversam os adultos, chegam os visitantes e descansam, nos fins da tarde, os moradores. [...] A rea 2, nos ‘fundos’ da casa, dedicada aos servios; [...], a rea mais utilizada do ‘terreiro’. L esto o banheiro, o tanque, o forno, o quaradouro, a bica d’gua, o galinheiro, o trfico de farinha [...], as tarimbas, o paiol e o engenho para alimentao dos pintos (curral de pintos). As reas laterais

PAGE 35

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 33 da casa, normalmente, se alteram como depsito de lenha, materiais de construo e pequena horta ou ‘quintalzinho’. So reas de menos circulao. [...]. Esse conjunto todo se dispe seguindo, basicamente, as reas planas, estrada e caminhos vicinais e os recursos hdricos [...] (Lino, 1980:30-34). Outro fator que influe nciou na configurao inicial do bairro da Serra foi a existncia de cruzamentos de trilhas e as passagens e pouso de tropas pelo mesmo, pois o caminho, que veio a se tornar a estrada vicinal que liga Iporanga e Apia, cruzava o bairro. Essas tropas, inicialmente transportando minrio (especialmente o chumbo de Iporanga) moviment avam um grupo humano relativamente grande que estabelecia uma dinmica comercial nos pontos de parada para pouso e descanso. Estes pontos de parada normalmente coincidem com locais onde j houvessem posseiros instalados, ativando-se neles uma pequena venda e, os freqentes alambiques, trficos de farinha e moendas para fabrico de rapadura. [...]. Neste ltimo caso so exemplares os casos de bairros estabelecidos ao longo do rio Betari (Serra dos Mota, Passagem do meio, Bairro Betari, etc) que no princpio se criaram baseados em capuavas e no crescimento familiar e s se desenvolveram devido ao contnuo movimento das tropas (sic) (Lino, 1978a:73). A estrutura familiar prevalecia no bairro, tendo como exemplo a famlia Mota, em uma miscigenao com a famlia Andrade que tambm vivia prximo rea, das quais descende quase que toda a populao que ali vivia e que ainda, em maioria, vive. Todo o material de que necessitavam para sobreviver era retirado da natureza; suas casas, como demonstrado, eram construdas com materiais da floresta, e da terra, seus mveis, tambm, eram transformao da natureza, sua alimentao dependia da gua, do solo, da vegetao e da fauna que ali existia, at seus instrumentos de trabalho eram tambm fornecidos pela fauna ali presente; a limpeza e o lazer eram diretamente ligados gua entre outras necessidades que eram supridas pelos elementos da natureza. importante destacar que a relao de troca existente at ento era baseada quase que exclusivamente no escambo, ou seja, troca de mercadorias sem necessariamente o uso de moeda. O uso da moeda e o trabalho assalariado comearam a se manifestar na regio somente com a instalao das mineradoras. Assim, as tropas que faziam as trocas tiveram papel fundamental na distribuio e troca de mercadorias e nas relaes sociais destas comunidades. A instalao de mineradoras na regio causou mudanas brutais no quadro econmico e cultural do bairro, pois instaurou o trabalho assalariado. No entanto, at hoje o sistema de escambo, mesmo que tmido, ainda existe no bairro da Serra; comum um vizinho ou parente trocar com o outro sua produo, mesmo como um ato de amizade, mas que ainda mantm a forma tradicional de viver. importante tambm evidenciar que a abertura da estrada, que liga Iporanga a Apia em 1935, trouxe grandes impactos ao bairro da Serra. Esta estrada indicada por todos os entrevistados no como uma “porta de entrada” de pessoas, melhoria na qualidade de vida e at turistas regio, mas como uma “porta de sada” da populao local que, diante de maiores facilidades de locomoo e das “modernidades” que iniciaram seu aparecimento por ali, comearam a visualizar oportunidades fora do bairro e migraram para outras cidades maiores, na maioria para o trabalho em grandes plantaes ou para a construo civil. Esse processo de migra o trouxe um perodo de grande decadncia econmica ao bairro, pois a pequena agricultura que existia diminuiu ainda mais, levando sua populao degradao social e moral. Processo que somente foi amenizado com a instalao de igrejas evanglicas no bairro, que buscou organizar a comunidade. A instalao de luz eltrica em 1977 tambm possibilitou que os moradores tivessem mais conforto em suas casas e acesso a maiores informaes como o rdio e, em alguns casos, a televiso, mas a maior procura foi por produtos eletrodomsticos como secador de cabelo, que facilitava a vida de mulheres evanglicas que cultivavam longos cabelos. No entanto, estes acontecimentos e novas possibilidades, que o bairro passou a ter acesso, no alteraram de forma significativa seu modo de viver, pois a maioria da comunidade no sofreu estes reflexos. Os reflexos da atividade turstica, entretanto, e principalmente da demarcao do parque no final da dcada de 1980 trouxeram conseqncias irreversveis praticamente totalidade da comunidade. Antes da insero do turismo, a paisagem que se via no bairro da Serra eram casas de pau-a-pique cobertas com sap ou telhas de barro envoltas por plantaes diversas, uma vez que a agricultura era a base de subsistncia desta comunidade.

PAGE 36

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 34 Lino, que viveu na rea no final e incio das dcadas de 70 e 80, respectivamente, e participou de todo o processo de demarcao do parque, relata que, nesta poca, em que ali vivia, no havia lotes; havia uma rea de moradia e nas montanhas em volta tanto diretamente no vale do Betari, quanto em reas adjacentes, havia reas de plantio que func ionavam em sistema de terras coletivas: eles plantavam por um perodo aqui, depois cortavam outras reas e mudavam suas plantaes, deixando a primeira descansar, num sistema rural de estrutura familiar, sem associaes ou um lder; era tudo coletivo, sem cerca alguma. O que havia ali eram, em parte, terras devolutas, outra parte desde 1958 declaradas como parque, mas absolutamente, nunca tinha sido feito nada pelo parque, havia a notcia de que o governo tinha algo na rea, mas a comunidade praticamente desconhecia isso, o parque no fazia parte do dia-a-dia da comunidade. A estrada era de pssimas condies e entre Eldorado e Iporanga tambm no havia asfalto, dificultando ainda mais o acesso, portanto naquela poca no havia turismo quase que nenhum (sic) (Informao Verbal)7. importante registrar que, apesar de como foi relatado, no terem aconteci do grandes alteraes na estrutura desta comunidade at a demarcao do parque em 1986, desde a dcada de 1960, espelelogos j freqentavam o bairro da Serra em busca de conhecimento e aventuras nas cavernas; isso pde ser verificado em entrevistas feitas com o proprietrio da primeira pousada do bairro o senhor Vandir8, hoje, uma das maiores e melhor sucedidas, a Pousada da Diva, e, tambm, na seguinte passagem de Silveira (2001:65). Os espelilogos franceses que se hospedavam no Bairro da Serra logo travaram contato com alguns poucos moradores locais. Uma casa de pau-a-pique construda no terreiro do casal Vandir e Diva de Andrade passou a ser uma hospedaria. Alguns outros moradores, mateiros experientes, passaram a ser guias, trabalhando junto com os espelilogos na identificao e explorao de cavernas. Estes moradores acabaram por pegar gosto pela atividade espeliolgica e passaram inclusive a fazer parte de grupos de espeliologia que surgiram na poca. Em 1964, no prprio Bairro da Serra, realizou-se o primeiro Congresso brasileiro de Espeliologia [...] (sic). Ou seja, o movimento de visitantes, mesmo que timidamente, j vinha influenciando esta comunidade, mas a real efetivao desta influncia s pde ser sentida, com ma is intensidade, a partir da demarcao do parque. Assim, ao aplicar a teoria proposta por Milton Santos ao quadro estrutural, que at o momento foi descrito, ou seja, refletir sobre os elementos que formam este espao e as categorias de anlise do mesmo, percebe-se, at ento, a grandiosidade da relao do elemento homem com o elemento meio ecolgico; esse, o meio ecolgico, apresenta tudo que o homem; que se constitu i aqui do mateiro que explora a floresta em busca do palmito, do agricultor com sua agricultura de subsistncia, cujo excedente era trocado por outros suprimentos necessrios sua sobrevivncia, e do mineiro que, apesar de j assalariado, ainda no abandonara suas atividades agrcolas de subsistncia; precisava para explorar e sobreviver. Percebe-se tambm que, nesta estrutura, o relacionamento com o elemento firma, comeara a existir, mas no como um elemento que produzia bens e servios para a utilizao destes homens, mas sim como uma forma de explorao do meio ecolgico do qual estes homens, mesmo por meio das mineradoras, tiravam seu sustento, ou seja, a relao firma, meio ecolgico e homem tambm era bastante ntima, e o destaque ainda se baseava no meio ecolgico. Corroborando com isso, a relao homem e infra-estrutura tambm era focada naquele elemento – meio ecolgico pois tornava-se difcil dissocilos, uma vez que a infra-estrutura existente se resumia em casas de moradia levantadas a pau-apique com fossas negras para os resduos, construdas quase que por instinto, pois no havia nenhum suporte tcnico que orientasse essa comunidade. O lixo era enterrado ou incinerado j que quase totalmente orgnico, ou seja, materiais para a constituio desta infra-estrutura eram retirados da prpria natureza ou, em outros casos, a natureza se configurava praticamente como a “infraestrutura existente”. Os acessos eram feitos por trilhas, mudando um pouco este quadro com a abertura de uma estrada vicinal em 1935 e abrindo precedente para a instalao de gua encanada na dcada de 409 e, tardiamente, luz eltrica em 1977, o que se pode considerar a maior interferncia no quadro precedente insero do turismo a essa realidade. Quanto relao com o elemento instituio, antes da demarcao do parque, era quase inexistente, pois neste perodo, ali “no havia norma

PAGE 37

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 35 alguma”, ou os que ali hab itavam no as conheciam. Ningum era dono de nada, ou seja, chegavam a um terreno, ali se fixavam, construam suas casas, faziam suas roas e permaneciam por anos e anos, utilizando-se destas terras como bem entendessem e desejassem sem que algum reclamasse. No entanto, desde a dcada de 1940, mesmo que a populao que ali habitava no soubesse ou imaginasse, membros de firmas e instituies, que freqentavam a regio, j manifestavam preocupaes com a mesma. Preocupaes que vieram a ocasionar a transformao de partes da regio em Unidade de Conservao no final da dcada de 50. Todavia, como tambm j se apresentou, a transformao da rea do bairro em UC por um perodo de aproximadamente 25 anos no alterou em praticamente nada a estrutura em que vivia a comunidade do bairro da Se rra e firmas que ali ou na regio atuavam na explorao de minrio. Somente aps a metade da dcada de 80, mais precisamente durante e aps a delimitao do PETAR, a forma como esta comunidade vivia e atuao de empresas, que exploravam recursos naturais na regio, sofreram interferncias que alteraram por completo a estrutura que constitua aquele espao. Assim, por ocasio da demarcao do parque, mudanas mais rpidas comearam a acontecer; diversos conflitos se sucederam; principalmente, pela questo de posse das terras, uma vez que ningum possua documentao de posse das mesmas. Silveira (2001:70) relata que “no perodo as aes da polcia florestal comearam a se intensificar em Iporanga. Fecharam as mineraes, fecharam-se as fbricas de palmito da regio. Os nicos empregos assalariados que restaram na cidade foram os cargos pblicos e incipiente comrcio”. Com a populao do bairro da Serra este processo foi ainda mais doloroso, pois a minerao Furnas que, apesar de falida, havia sido vendida a outro empresrio, alegava ser dona de todas as terras do bairro da Serra e segundo Lino relatou em entrevista, “havia tambm pessoas que se diziam herdeiras das terras de grandes proprietrios que grilaram terras por l, mas basicamente havia as posses dos moradores, ningum possua ttulos e no havia uma diviso fsica” (Informao verbal). Esse quadro, descrito acima, obrigou a equipe que ento demarcava o parque a tomar providncias no sentido de ajudar a comunidade local, elaborando junto aos mesmos um processo coletivo de usucapio e fazendo um “acordo de cavalheiros”, ou seja, informal, pelo qual uma parte das terras do bairro, nas que havia casas de moradia e uma pequena parte de rea de plantao, que pertenciam ao parque, seria “desafetada”10 para que todos colaborassem com o processo e assim fosse resolvida parte da questo fundiria do parque (Silveira, 2001). Este processo veio se estendendo at o segundo semestre do ano de 2005, ou seja, aproximadamente, 20 anos, quando ento o bairro da Serra deixou de fazer parte do parque. 11 importante analisar essa questo da mudana de terras coletivas para lotes titulados, pois foi fundamental na nova estrutura organizacional do espao. Em uma nova estrutura, de rea protegida e entorno, em que apesar de ter suas terras tituladas, mas que, no entanto, no lhes dava o direito de utiliz-las como bem entendessem, a comunidade do bairro da Serra tinha como opo o turismo e o estmulo da equipe de implantao e administrao do parque para o desenvolvimento do mesmo, por meio da divulgao da atividade, uma sada na gerao de renda e sustento daquela populao. No entanto, como se observou no discurso de muitos moradores entrevistados e j relatados aqui, os mesmos no possuam fundos para investir na atividade, uma vez que, como evidenciado, praticamente s havia no bairro o sistema de escambo, sendo mnimo o trabalho assalariado e negociaes monetrias. E este fator somado a, muitas vezes, no-credibilidade no turismo, uma atividade que no fazia parte do cotidiano da maioria, ou, mesmo, em um momento de incerteza sobre o que iria acontecer, e, tambm, como foi relatado por Lino em entrevista, questo da vontade de mudar de vida com aquele dinheiro, proveniente da venda dos terrenos, que fora dali no teria tanto valor, mas que eles nunca tinham possudo o que lhes dava a expectativa de uma vida melhor em outros lugares, levou muitos moradores a vender suas terras a pessoas de fora da regio, principalmente as posses. A chegada repentina de tantos turistas, como se pode imaginar, trouxe inmeras conseqncias para os moradores do Bairro da Serra. Uma das primeiras foi a venda das terras. Com os ttulos regularizados, no incio do boom do turismo, muitos moradores venderam seus terrenos para pessoas de fora, pessoas estas com interesses diversos: uns com inteno de morar no local, a maioria de fazer casas de veraneio, e uma minoria, ainda com inteno de montar negcios no local. (Silveira, 2001:73) Silveira (2001:73-74) ainda completa destacando que “o termo consagrado hoje no Bairro

PAGE 38

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 36 para caracterizar essas primeiras transaes, [...], preo de banana ” destacando que “este processo no ocorreu nos bairros onde o turismo no estava presente”. perceptvel no discurso de uma empresria que investiu no bairro que na poca em que a mesma adquiriu seu terreno e montou uma pousada (1989), os lotes, aproximadamente de 900 m, eram vendidos por valores muito baixos e que, por volta de 1992, em que a procura comeou a ser muito grande, o m passou a ser mais caro que na Avenida Paulista na capital do Es tado. Houve tambm a venda do mesmo terreno para duas ou mais pessoas, o que trouxe alguns conflitos que somente foram resolvidos com a interveno repressiva do parque12. O processo de venda de terrenos fica muito claro quando se observa a rea do bairro que est na margem direita do rio Betari, em que destacada a concentrao de aproxi madamente 29%, 636.944,57 m, das terras consideradas dentro dos limites do bairro da Serra pelo Instituto de Terras de So Paulo (ITESP), 2089.641,00 m, distribudas em sete glebas e nas mos de quatro proprietrios ou grupos de associados, todos residentes em outros municpios, e que guardam um histrico de visitao como espelelogos e pesquisadores da regio no perodo de parcelamento dos terrenos, um deles proprietrio da pousada mais luxuosa do bairro; e o restante dividido em glebas de 38,70 a 48.000,00 m, predominando as de menores tamanhos. Na rea que est na margem esquerda do rio Betari, os terrenos perm aneceram em maiores tamanhos e pode-se encontrar diversos moradores nativos com glebas superiores a 50.000,00 m. Neste lado do bairro, este processo, de concentrao de terras nas mos de pessoa s externas comunidade do bairro da Serra, no aconteceu provavelmente pela inexistncia de infra-estrutura bsica, como acessos, assunto que ser mais bem apresentado no decorrer do trabalho. Este processo de parcelamento e venda dos terrenos causou um grande mal-estar entre parque e comunidade, pois fez com que administradores e Instituto Florestal (IF), diante da situao e da ameaa de urbanizao da parte do bairro, que ainda oficialmente fazia parte do parque, rea que possua a maior quantidade de terra ainda no construda e negociada com pessoas de fora do bairro, se vissem obrigados a manifestar-se contra tal situao, ignorando o acordo informal feito por ocasio da demarcao do parque. Assim, muitas obras que haviam sido comeadas foram embargadas e, com isso, muitos empreendedores de outras regies desistiram do negcio. O que “[...] deflagrou um enorme conflito entre a administrao do PETAR e diversos outros atores que vinham sendo parceiros do Instituto Florestal e que se viram prejudicados pelo embargo repentino” (Silveira, 2001:194). Embora acordos tenham sido negociados, nenhum foi concretizado, o que ocasionou grande influncia na paisagem do bairro, pois, ainda hoje, pode-se verificar construes iniciadas e abandonadas, inclusive construes que parecem ter sido idealizadas para ocuparem a funo de meios de hospedagem, o que causa um aspecto de feira e desorganizao espacial. Para agravar ainda mais a situao, muitas destas construes esto atualmente sendo ocupadas como moradias improvisadas o que prejudica os aspectos paisagsticos do bairro. Aquela mesma empresr ia, que relatou sobre a relao das vendas de terrenos, teve uma obra de expanso de seu empreendimento embargada por dez anos, o que lhe ocasionou um prejuzo diante da concorrncia que se localizava em rea que no pertencia ao parque, pois suas instalaes no eram mais suficientes e, em seu julgamento, no atendiam todas as aspiraes de seus clientes, que, no entanto, no puderam ser melhoradas. Todavia, esta empresria compartilha da idia de que algo deveria mesmo te r sido feito para conter aquela situao, pois ao question-la sobre quais os motivos que, na poca levaram estes moradores venda de seus terrenos, refe rida empresria destaca que era curioso ver casas de pau-a-pique com antenas parablicas e muitos automveis parados no bairro, pois a primeira coisa que compravam com o dinheiro da venda dos terre nos era uma televiso e um automvel, ainda que no fossem habilitados para dirigir, ou seja, vendiam seus terrenos para adquirir coisas que no faziam parte de seu cotidiano e, que por isso, muitas vezes at desnecessrias. Logo, em uma nova estrutura, agora com o elemento instituio presente ditando a regra na qual o meio natural deve ser protegido, e em que sua funo de provedor do sustento e de todas as necessidades daquela comunidade, por meio da explorao de seus recursos, deve ser substituda por outra funo, no caso a preservao e uso turstico, novos modos de viver se manifestaram e novas formas precisaram ser criadas para atender a estas novas necessidades que surgiram. O homem, j no mais o mateiro, agricultor ou minerador, agora sua atividade deve ser o turismo que lhe oferece a funo de monitor ambiental, proprietrio de meio de hospedagem, cozinheira, quituteira, funcionrio do parque, entre outras; novidades que so duramente “digeridas“ pelo mesmo.

PAGE 39

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 37 As divisas advindas desta nova funo ou, mesmo, da venda de seus terrenos, o faz adquirir novos objetos e os que j possua deixa de ter o mesmo valor ou so adaptados para suas novas necessidades. Firmas em busca destas divisas geradas pelo turismo comeam a ser implantadas e at mesmo a concorrncia entre elas comea a aparecer; e a infra-estrutura, que at ento era suprida pelo prprio meio ambiente, passa a ser insuficiente, tanto ao novo paradigma ideolgico, da busca do conforto pela negao do antigo, adotados pelo homem, quanto pelas necessidades reais da nova estrutura que se desenhava. Portanto, a partir da dcada de 80, o turismo comea a se desenvolver de forma desordenada e se concentra no bairro da Serra, uma vez que se constitui na rea mais prxima ao ncleo Santana, considerado o ncleo tur stico de melhor infraestrutura do parque, mesmo que em ranchos de paua-pique como j apresentado. O rancho de pau-a-pique do senhor Vandir, morador local que, desde 1968 era utilizado para hospedar espelelogos, tendo sido at rancho sede da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), sofreu estruturaes at que foi inaugurado, aproximadamente no final da dcada de 80 e incio de 90, com um edifcio de alvenaria especialmente construdo com a funo de pousada, transformando-se em “Pou sada da Diva”. Esta pousada, hoje, pode ser considerada, diante do quadro regional, um complexo hoteleiro contando com seis blocos de hospedagem, com capacidade para hospedar 180 pessoas, um grande refeitrio e cozinha bastante equipada, e uma rea de entretenimento com mesas de bilhar. Em 1989 inaugura-se a segunda pousada, Pousada Rancho da Serra, de propriedade de uma biloga de So Paulo que, sentindo carncia em meios de hospedagem para seus alunos na Serra, aproveitou a oportunidade de negcio. Em 1992, uma pousada mais luxuosa inaugurada no bairro, Pousada das Cavernas, apresentando equipamentos como sauna, piscina natural, minibar, entre outros; estruturas bastante desconhecidas aos moradores locais, mas que trouxe um pblico mais exigente tambm para o PETAR. Assim, o fluxo de turista aumentava a cada dia e os visitantes chegavam a pedir pouso ou pelo menos o quintal de moradores locais para que pudessem acampar em feriados e fins de semana. Com isso o nmero de pousadas e reas para campings foram aumentando e a estrutura fsica destas casas tambm se alterando para atender s necessidades dos visitantes, muito bem acolhidos pela comunidade, j que se constituam, em praticamente, suas nicas fontes de renda. A Pousada Idati foi um destes casos: a proprietria vivia em uma casa de madeira com a famlia e comeou, aproximadamente, h nove anos uma construo em alvenaria, j neste novo contexto em que o bairro vivia e as construes mais tpicas da regio estavam sendo substitudas por alvenaria, que seria sua nova moradia; mas em um feriado prolongado, entretanto, em que as pousadas, at ento existentes no bairro, no foram suficientes para alojar todos os visitantes, alguns turistas pediram a ela para acamparem em seu quintal e outros para se alojarem em sua construo, assim levando-a a perceber uma oportunidade de negcio13. Dona Idati continuou vivendo na casa de madeira com a famlia, onde adaptou um refeitrio, e deixou a casa de alvenaria para as instalaes da pousada, construiu outras instalaes tambm para receber visitantes. Assim, atualmente, o bairro da Serra pode ser considerado a rea que mais concentra servios tursticos prximo ao PETAR e, por isso, atende ao maior nmero de visitantes, principalmente aps o fechamento da rea de camping do parque em 2003. importante destacar que este processo de mudana, da explorao dos recursos naturais para preservao destes e uso turstico, no alterou somente a paisagem, e que essa mudana de paisagem no se desenvolveu isoladamente; o homem social tambm se modificou, influenciando assim sua paisagem. O mateiro e mineiro, que conheciam a rea como ningum, se tornam funcionrios do parque ou monitores ambientais (guia de turismo), suas esposas cozinham ou trabalham como faxineiras nas pousadas, o agricultor abriu um bar, aos poucos foi se estruturando um pequeno comrcio no bairro; os que no trabalhavam diretamente com o turismo e no se mudaram para outras cidades – processo que j vinha acontecendo mesmo antes da criao e delimitao do parque, mas que se intensificou com as restries ambientais – partiram para a construo civil, construram pousadas e novas casas. Segundo Silveira (2001:184), muitos destes moradores hoje so funcionrios do PETAR. Por meio do turismo conseguiram um status social, ou “acumular capital simblico” [...] de uma maneira que talvez no conseguiriam se o bairro permanecesse com caractersticas agrcolas. Maria Slvia14, historiadora que representa uma das organizaes do bairro, freqentava o mesmo desde 1985, a fixa ndo residncia em 1989, afirma ter sido por meio da vinda de turistas e das

PAGE 40

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 38 divisas que geram este movimento, que muitos moradores acabaram modificando suas casas. Os mateiros e agricultores transformaram-se em monitores ambientais; antes, ganhavam uma quantia como R$10,00 para carpir uma quarta ou uma lomba, hoje, ganham R$ 50,00 at R$ 80,00, por dia, e se trabalhar na sexta, sbado e domingo acabam tendo um ganho razovel perto do que ganhavam antes, que era praticamente nada, podendo assim construrem suas casas de alvenarias (sic) (Informao Verbal). Assim, a renda em moeda oficial advinda do turismo somada s influncias da convivncia com o turista em ambientes, como em pousadas de estrutura fsica mais luxuosa do que eram acostumados, bem como dos objetos como a televiso que puderam adquirir com seus rendimentos, trouxeram outras necessidades a esta comunidade. “O turismo destruiu relaes antigas, criou novas relaes dos moradores entre si e com atores externos e novos parmetros de status social” (Silveira, 2001: 191). Clayton Lino, em entrevista, relata que entre a dcada de 80 e 90 a arquitetura do bairro deixou ser uma arquitetura tpica e passou para o tijolo, ou seja, de pau-a-pique a tijolo (blocos de concreto) com laje, nem produto da histria deste povo, nem os bons exemplos trazidos de fora com outros materiais e tcnicas. Isso degradou visualmente o bairro, e trouxe populao muitas perdas em termos de conforto trmico, enfim em qualidade, a distribuio espacial deixou de ter influncia histrica e caracterstica da estrutura rural, tudo isso foi alterado (sic) (Informao verbal)”15. Maria Slvia indica que essa mudana aconteceu devido busca, pela comunidade, de status e de mais conforto, segundo o padro que julgam ser “conforto”, me smo que enganoso, porque as telhas de amianto so extremamente quentes e proliferadoras de bactrias. O bloco de cimento tambm extremamente quente se no revestido, como ocorre em grande parte das casas do bairro. Esta historiadora faz referncia, como tambm foi indicado pelo proprietrio da pousada da Diva16, questo da limpeza e maior facilidade de conservao das casas de alvenaria. Convivendo com esta nova realidade, e, mesmo, paisagem do bairro da Serra, em que as pousadas e casas de veraneio de turistas surgiam, os beneficirios locais do turismo, com os lucros advindos desta atividade, e aqueles que no estavam diretamente ligados ao turismo, mas que pela venda de seus terrenos consegui ram uma certa quantidade de dinheiro, comearam a substituir suas casas de pau-a-pique por casas de alvenaria. A necessidade de toda esta infraestrutura [para se realizar o turismo], aliada maior circulao de dinheiro no bairro, venda de muitos terrenos a turistas e a uma poltica que desvaloriza as prticas locais anteriores ao turismo favorecem, portanto, a mudana abrupta da fisionomia do bairro. A primeira metade da dcada de 1990 caracterizou-se pela construo e reforma incessante de casas por todo o bairro da Serra, primeiramente ao longo da estrada e em escala mais lenta do outro lado do Rio Betari, prximo ao Ncleo Ouro Grosso, onde no havia acesso por carro. (Silveira, 2001:193 – adaptao nossa) Silveira (2001:166) destaca que em 2001 havia aproximadamente 110 casas espalhadas pelo bairro da Serra. Segundo moradores entrevistados, desde que o turismo comeou a se manifestar no bairro no houve muita alterao no nmero de casas, mas sim na forma como elas se dispem, ou seja, houve uma mudana na paisagem. Maria Slvia relata que o que houve fo i a alterao de casas de pau-a-pique para casas de alvenaria e em maiores dimenses (tamanhos). A maioria, casas mal acabadas devido no-estabilidade das rendas advindas do turismo e, conseqente, falta de recursos para termin-las ou, ainda, porque as construes estavam embargadas por se localizarem em rea pertencente ao parque. Outro fator que a historiadora aponta a aderncia de uma casa de pau-a-pique paisagem natural e o contraste que uma casa de alvenaria coberta com amianto faz com o ambiente natural, principalmente em reas que apresentam um relevo como o do bairro, em que casas muitas vezes so construdas nos morros, conformando em tipologia de subabitao. importante observar que a impresso que os moradores tm de que o nmero de casa no sofreu grandes alteraes se d devido base de formao do bairro, como j discutido: a estrutura familiar. Como verificado em trabalho a campo houve um aumento no nmero de casas para aproximadamente 200 casas, mas estas se concentraram no mesmo espao em que as casas preexistentes se espalhavam pelo bairro. Os filhos fi xam-se no terreno dos pais; por exemplo, em uma gleba de 7.465,06 m se concentram oito edificaes, uma do proprietrio e o restante de seus filhos. A exceo ao quadro descrito feita somente por algumas residncias de turistas, que permanecem fechadas sendo utilizadas somente

PAGE 41

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 39 em feriados e perodos de frias, pelos equipamentos tursticos e por alguns pontos de comrcio de empreendedores que visualizaram oportunidades no bairro. Figura 2 : Casas construdas sobre o morro e mal acabadas. FONTE: Arquivo pessoal (Pesquisa de Campo, novembro, 2005) Silveira (2001: 182) afirma que “o percentual das casas cujos moradores no possuem consangneos ou afins de famlias antigas no bairro de 20% [...]”, ou seja, por mais que diversos fenmenos sociais venham influenciando a configurao da paisagem e estrutura do bairro da Serra, a estrutura familiar ainda predominante e mesmo o turismo com todos os impactos que causa a est rea no interfere neste processo. No entanto, outro fator, que tambm evidencia o aumento no nmero de casas no bairro da Serra, a questo da verticalizao das construes. Por isso se fazia importante toda a discusso sobre a questo da terra anteriormente, uma vez que a partir da titulao dos moradores, estes comearam a construir casas e mais casas em pequenos lotes, j podendo-se observar “esmagados” dentre pequenas casas, edifcios de dois andares. Percebe-se, analisando as situaes descritas, que dois so os motivos que levam pessoas a verticalizarem suas moradias; a falta de espao devido ao acmulo de casas no centro de cristalizao do bairro ou nos terrenos dentro da estrutura familiar j discutida (como se verifica na Figura 3, casas que no respeitaram e continuam sendo construdas sem respeitar o traado de ruas e limites de passeio), e o desejo de ser mais um empreendedor em turismo. Esse processo de construo de casas onde bem se entende traz um problema estrutural gravssimo ao bairro, pois como no respeitam o arruamento e as linhas de passeio, estradas so construdas em locais que no so ideais para isso, ruas localizam-se prximas de crregos, o que acarreta uma srie de problemas, como eroso, contaminao das guas, entr e outros, fator evidente na estrutura da planta do bairro. Lino destaca que, neste processo, os espaos pblicos so os mais prejudicados, as que existe m so construdos com matrias de m qualidade e desprovidas de qualidade urbanstica (Informao verbal)17. Figura 3 : Processo de verticalizao e de acmulo de casas em um terreno. FONTE: Arquivo Pessoal (Pesquisa de Campo, novembro, 2005) importante destacar que o bairro da Serra abriga duas paisagens distintas dentro de seus limites. Uma, do lado direito da margem do rio Betari, a qual referenciada na maioria das consideraes deste trabalho, e outra, na margem esquerda do rio, uma paisagem que, apesar de tambm sofrer influncia do turismo e do centro de cristalizao do bairro, ainda se conserva o mais prxima ao natural. Deste lado esquerdo do bairro, no h acessos que possibilitem a passagem de automveis, j houve iniciativas de construo de pontes que liguem as margens do rio e possibilitem a instalao de infra-estrutura na margem esquerda do mesmo, todavia, segundo a comunidade local, foram interrompidas e no concludas. Tambm este lado do bairro, apesar de j previsto em projetos, no possui arruamento definido; seus acessos se constituem em trilhas mais alargadas e a estrutura de ocupao dos terrenos, como na margem direita, de predomnio familiar. No h grandes aglomeraes de casas, como do outro lado do rio, ou seja, as casas esto mais dispersas e possvel ainda encontrar casas antigas construdas em madeira e a pau-a-pique. No entanto, pode-se perceber o crescente nmero de casas de alvenaria, como na margem direita do rio, principalmente construdas juntamente s antigas casas que ainda so utilizadas como cozinha devido ao uso do fogo lenha o que

PAGE 42

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 40 tambm se verifica na margem direita do bairro como pode ser observado na Figura que segue. Figura 4 : Casa mais antiga do bairro que hoje s utilizada como casa do fogo a lenha e seus proprietrios moram em casa de alvenaria nos fundos. FONTE: Arquivo Pessoal (Pesquisa de Campo, novembro, 2005) notvel que a influncia do turismo e da ascenso financeira, que essa atividade trouxe a alguns moradores e aos aspectos paisagsticos do lado direito da margem do rio, traz muitas influncias parte que se localiza na margem esquerda; no entanto, h que se admitir que nesse lado, devido talvez dificuldade de acesso e maior fiscalizao do cumprimento da lei por parte do parque, uma vez que fazia parte do parque at setembro de 2005, ou, mesmo pela falta de infraestrutura de recepo de visitantes no ncleo Ouro Grosso, que tem sua entrada principal na nesta parte do bairro, acarretou que esta influncia acontecesse causando menores transformaes na paisagem e na forma de viver de sua comunidade. Mesmo ao abordar para entrevista um morador da margem es querda do Betari pode-se perceber essa diferena; este se revela menos vontade para responder s perguntas e alega no possuir muito contato com o turismo e, muitas vezes, com o outro lado do bairro, mais urbanizado e voltado ao turismo. Para ilustrar essa argumentao a respeito da influncia que est presente, apesar de menor nesta rea do bairro, a Figura 5, mostra uma residncia em dois momentos, na verso pau-a-pique e, aps alguns anos, o novo edifcio em alvenaria. Sua proprietria, diz no ter nenhuma ligao com o turismo, mas da mesma forma como na margem direita do rio, em que as pessoas reformaram suas casas, ela tambm gostaria de melhorar sua moradia; por isso construiu a nova casa de alvenaria no lugar da antiga de pau-a-pique com o auxlio financeiro da filha que professora, alegando ser mais fcil sua manuteno e maior sua durabilidade, trazendo desta forma mais conforto famlia18. Figura 5 : Alteraes nas residncias. FONTE: Comunidade local/ Arquivo pessoal (Pesquisa de Campo, novembro, 2005) Portanto, os rendimentos adquiridos em atividades no-tursticas e mesmo fora do limites do bairro, no caso moradores que emigraram e enviam dinheiro a seus familiares que permanecem no bairro, tambm fazem parte das fontes utilizadas para as mudanas nas edificaes do bairro. No entanto, a evoluo da paisagem edificada do bairro da Serra no fo i acompanhada, de forma perfeita, pela infra-estrutura bsica urbana, nem mesmo o fluxo e aglomerao de empreendimentos tursticos, o que tem si do considerado um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento do turismo sustentvel no bairro e para o alcance de uma verdadeira qualidade de vida pela populao local, como, por exemplo, a inexistncia de coleta e tratamento de esgoto no bairro, sistema virio deficitrio, que mesmo com o advento do turismo no sofreu melhorias considerveis; as principais vias que do acesso aos atrativos esto quase intransitveis. Assim, h uma dicotomia entre preservao e desenvolvimento: os moradores locais querem que o turismo cresa cada dia mais, mas, por outro lado, j existe uma conscincia de que necessrio que acontea uma interveno para que esse patrimnio se conserve e sirva para outras geraes no

PAGE 43

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 41 provimento de condies de sobrevivncia no bairro. Consideraes Finais Tomando como “pilar” a teoria de Santos, entende-se que a paisagem do bairro da Serra apresentava uma determinada forma no passado porque exercia uma determinada funo, ou seja, voltada vida rural em que o homem era subordinado natureza. Passou a ter outra forma, porque tambm passou a exer cer outra funo, agora voltada atividade tursti ca. Portanto, a diversidade da natureza, agora totalmente construda, caracteriza-se como uma construo social em que o material para sua edificao social, ou seja, sua forma no mais ditada pela sua presena na natureza, e isso, evidencia como, cada vez mais, a vida da comunidade local do bairro da Serra est se distanciando da natureza em que est inserida. Entretanto, o bairro da Serra uma rea de ocupao antiga que guarda a herana de povos, onde so vistos no s os traos fsicos de sua populao, mas tambm a forma de organizar o espao em que vivem. Do ponto de vista do comportamento ainda guarda caractersticas de uma sociedade pr-capitalista, destoando da realidade brasileira em que aproximadamente 81% das pessoas vivem em reas urbanas, o que deixa clara a importncia que a natureza tinha na determinao da forma de viver desta comunidade. Todavia, a partir de que a maioria da sociedade torna-se capitalista e tudo mercantilizado, esta rea, apesar de aparentar certo isolamento, tambm exposta ao sistema e seus recursos naturais, por meio do turismo, passam a ser vendidos como uma mercadoria. Logo, o turismo vem exercendo grande influncia no s na estr utura fsica do bairro, mas principalmente na sua estrutura social que, conseqentemente, agir na configurao daquela. Por meio das rendas advindas desta atividade, a comunidade local buscou mais conforto modificando suas casas de pau-a-pique para casas de alvenaria, pois, em seus padres particulares, esse tipo de moradia era o paradigma de edificao confortvel, moderna e que lhes traria algum status social. Esse processo, como uma corrente ideolgica, se alastrou por todo o bairro, atingindo mesmo os que no participavam diretamente do turismo. Ou seja, na medida em que novos valores foram introduzidos com o incremento do turismo, uma nova viso social foi adotada, o trabalho, antes voltado natureza, no se contraps a ela, mas, no entanto, comeou a encar-la de outra forma. O trabalho junto a mesma agora deve ser condicionado ao usufruto sustentvel. Entretanto, a realidad e (Estrutura) que se encontra no bairro da Serra, se contrape ao modelo descrito; e esta contradio foi determinada pela no preparao da comunidade local para o turismo; o turismo foi imposto a ela sem ao menos uma orientao tcnica e jurdica de como desenvolv-la, ocasionando, assim, um crescimento desordenado que acabou acarretando problemas estruturais ao bairro, como a construo de casas em locais noadequados e a falta de infra-estrutura suficiente para proporcionar segurana, dignidade, enfim, qualidade de vida quela comunidade e, mesmo, ao sistema turstico que ali se estabeleceu de forma dissonante modalidade de turismo adequada, o ecoturismo, e a padres de qualidade de servios e instalaes. Este trabalho no tem a pretenso de esgotar a anlise do assunto investigado, mas sim, abrir um leque de reflexes para novos estudos. Referncias Bibliogrficas Lino, C. F. 1978a. Alto Vale do Ribeira arquitetura e paisagem v.1. CONDEPHAAT, So Paulo. Lino, C. F. 1978b. Alto Vale do Ribeira arquitetura e paisagem v.2. CONDEPHAAT, So Paulo. Lino, C. F. 1980. Bairro da Serra: Estudo sobre um bairro Rura l de Iporanga – Vale do Ribeira – SP. Trabalho realizado dentro da Disciplina: Bai rros Rurais do curso de Mestrado em Geografia. Departamento de Geografia. FFLCH/ Univ ersidade de So Paulo. So Paulo. Rodrigues, A. B. 1997. Turismo e Espao: Rumo a um conhecimento transdisciplinar. Hucitec, So Paulo. Santos, M. 1997a. A natureza do Espao: tcnica e tempo, razo e emoo Hucitec, So Paulo. Santos, M. 1997b. Espao e mtodo. 4. ed. Nobel, So Paulo.

PAGE 44

Fogaa. Estudo das transformaes da estr utura fsica do bairro da Serra... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 42 Silveira, P. C. 2001. Povo da Terra, terra do parque: A presen a Humana e conservao da Floresta no PETAR/SP Campinas, UNICAMPInstituto de Filosofia e Cincias Humanas, 2001. Fluxo editorial : Recebido em: 11.05.2008 Enviado para avaliao em: 12.05.2008 Enviado para correo autora em: 13.06.2008 Enviado para correo ao autor em: 23.06.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Este trabalho se constitui parte do primeiro captulo da dissertao de mestrado defendida em agosto de 2006 pela autora, que conta com outros objetivos alm do exposto neste artigo. 2 Bacharel em Turismo pela Universida de Estadual de Ponta Grossa/UEPG, Mestre em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itaja/UNIVALI e Doutoranda em Geografia pelo Institu to de Geocincias e Cincias Exatas da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita F ilho”/UNESP/Campus de Rio Claro/SP. Atualmente docente do curso de Turismo da UNESP/Campus de Rosana. 3O PETAR uma unidade de conservao lo calizada na regio do Vale do Ribeira, abrangendo parte dos municpios de Apia e Iporanga, bastante procurado por visitantes e pesq uisadores por conservar remanescentes de Mata Atlntica e uma das maiores concentraes de cavernas do Brasil. 4 O PETAR, criado em 1958 e delimitado a partir de 1983, foi dividido em quatro ncleos administrativos (Ncleo Santana, Ouro Grosso, Caboclos e Casa de Pedra), uma prtica desempenhada em vrios parques para que a vigilncia e a segurana fossem facilitadas (Silveira, 2001). 5 “Havia basicamente trs aglomeraes distintas interligadas por estradas internas: a rea da mina, oficinas e almoxarifados; rea de casas dos trabalhadores; e rea da administrao e casas dos chefes de seo” (Lino, 1978a:84). 6 Local onde era produzida a farinha de mandioca. 7 Informaes obtidas por me io de entrevista realizada em fevereiro de 2006. 8 Entrevista concedida em agosto de 2005. O senhor Vandir veio a falecer no ano de 2006. 9 Informao levantada junto comunidade local, pois no foi fornecido dado oficial do rgo responsvel pelo servio no bairro. 10 Processo pelo qual parte do parque deixa de ser unidade de conservao, em contrapartida anexada outra rea ao mesmo. 11 Em 16 de setembro de 2005 a Lei Estadual n12.042 desafetou a rea do bairro que fazia parte do parque. 12 Informaes coletadas em entr evista em novembro de 2005. 13 Informaes coletadas com a proprietria em entrevista em Novembro de 2005. 14 Leitura feita pela pesquisadora de informaes coletada s em entrevista em novembro de 2005 e j citada neste trabalho. 15 Informaes coletadas em entr evista em fevereiro de 2006. 16 Informaes coletadas em entrevista com o Senhor Vandir Andrade em novembro de 2005. 17 Clayton Lino, alm de presidente da Reserva da Biosfera da Mata Atlntica e ter morado no bairro Arquiteto. Informaes coletadas em entrevista em Fevereiro de 2006. 18 Leitura de informaes coletadas em entrevista realizada em novembro de 2005.

PAGE 45

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 43 NVEIS DE RADNIO EM CA VERNAS DO PARQUE ESTADUAL TURSTICO DO ALTO RIBEIRA (PETAR) RADON LEVELS IN CAVES OF PARQUE ESTADUAL TURSTICO DO ALTO RIBEIRA (PETAR) Simone Alberigi1 & Brigitte R. S. Pecequilo2 Centro de Metrologia das Radiaes – Instituto de Pesquisas Energticas e Nucleares – IPEN/USP salberigi@usp.br Resumo No presente trabalho so apresentados resultados de medidas das concentraes de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) que recebe cerca de 40 mil visitantes por ano. As cavernas escolhidas foram Couto, gua Suja, Laje Bran ca, Morro Preto, Santana e Alambari de Baixo, por receberem o maior nmero de turistas. Os nveis de radnio foram determinados entre Outubro de 2003 e Novembro de 2005 e esto numa faixa de 153 Bq.m-3 a 6607 Bq.m-3, sendo observado que, de uma maneira geral, as variaes esto associadas s condies climticas. Palavras-Chave: Radnio; Cavernas; Detectores Slidos de Traos Nucleares (SSNTD). Abstract In the present work are show the radon concentrations in caves of Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) with 40,000 visitors annually. The caves evaluat ed were Couto, gua Suja, Laje Branca, Morro Preto, Santana e Alambari de Baixo, due to be the most frequently visited caves. The radon levels were measured over a period of 26 months, from October 2003 to November 2005 and 222Rn concentrations founded are in a range from 153 Bq.m-3 to 6607 Bq.m-3 and we observed that, in general, the variation could be related to climatic conditions. Key-Words: Radon; Caves; Solid State Nuclear Tracks (SSNTD). Introduo O radnio (222Rn) um gs nobre que se origina da desintegrao radioativa do 226Ra por decaimento alfa, na srie radioativa do 238U, sendo o nico elemento gasoso desta longa srie de decaimentos radioativos. Por ser um elemento da famlia dos gases nobres, dificilmente interage com outros elementos e por ser gasoso, possui a capacidade de emanar do solo ou rocha com extrema facilidade e de se concentrar em ambientes fechados (Eisenbud, 1987). Como urnio e rdio esto sempre presentes no solo, rochas e gua, natural a existncia de radnio no ar, que, presente em ambientes a cu aberto, apresenta baixa concentrao devido sua contnua disperso na atmosfera. Contudo, em ambientes fechados e de pouca ventilao, as concentraes podem atingir valores elevados. Isto fica evidente em minas e cavernas onde a taxa de ventilao reduzida devido configurao das mesmas (Binns et al., 1996, Jovanovi 1996, Solomon et al., 1996, SajBohus et al., 1997, Binns et al., 1998, Pinza-Molina et al., 1999, Przylibski, 1999, Sperrin et al., 2000, Gilmore et al., 2001, Gilmore et al., 2002, Papachristodoulou et al., 2004, Veiga et al., 2004, Lario et al., 2005). O interesse em determinar as concentraes de radnio deve-se ao fato de sua inalao estar associada incidncia de doenas respiratrias. Os primeiros relatos datam do sculo XVI, quando regies de minerao na Alemanha tornaram-se conhecidas por incidncia de uma doena que ficou conhecida como doena da montanha, reconhecida atualmente como cncer no pulmo (Khan et al., 1993). O aumento da minerao de urnio nos anos 40 ocasionou um aumento nos casos de cncer de pulmo em mineiros, o que conseqentemente conduziu associao entre exposio ao radnio e cncer de pulmo (Khan et al., 1993). Atualmente, de acordo com relatrio da Organizao Mundial da Sade sabe-se que o radnio a segunda maior causa de cncer no pulmo no mundo, perdendo apenas para o tabaco (Estado de So Paulo, 2006). Estudos realizados em vrias partes do mundo tm demonstrado que as concentraes de radnio no interior de cavernas variam na faixa de 186 a 80000 Bq.m-3 (Pinza-Molina et al., 1999, Przylibski, 1999, Saj-Bohus et al., 1997, Sperrin et al., 2000, Gilmore et al., 2002, Papachristodoulou et al., 2004,

PAGE 46

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 44 Lario et al., 2005), ultrapassando em muitos casos o limite de concentrao de 222Rn, proposto para nvel de interveno de 1000 Bq.m-3 (ICRP 65, 1993) e as doses de radiao recebidas pelos indivduos expostos (guias tursticos, visitantes e pesquisadores). Face a ocorrncia de nveis elevados torna-se necessrio o conhecimento dos valores de concentrao de radnio em cavernas, bem como a avaliao dos riscos causados pela exposio nestes ambientes, principalmente nas cavernas tursticas. No Brasil, cerca de 4000 cavernas esto cadastradas no banco de dados da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), (Auler et al., 2001, SBE, 2005). Estudos realizados em Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso apresentaram avaliao preliminar dos nveis de radnio em algumas cavernas, resultando em valor mdio de 473 Bq.m-3 (Gouvea et al., 1996). Contudo, no existia em nosso pas ne nhuma avaliao por tempo prolongado sobre os nveis de radnio e as doses de radiao recebidas pelos freqentadores destes locais, sejam eles turistas ou guias. No sul do estado de So Paulo, a regio do Vale do Ribeira possui a maioria das cavernas paulistas (Auler et al., 2001, SBE, 2005). O Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), situado entre os municpi os de Iporanga e Apia (Figura 1), possui mais de 200 cavernas cadastradas representando grande atrativo turstico e recebe cerca de 40.000 visitantes por ano (SBE, 2005). Em estudo preliminar, as concentraes de 222Rn nas cavernas do ncleo Santana no PETAR variaram entre 500 e 1000 Bq.m-3, mostrando a necessidade de levantamento detalhad o dos nveis de radnio nesta regio (Maduar, 2001)3. O presente trabalho apresenta o levantamento realizado entre Outubro de 2003 a Novembro de 2005, sobre as concentraes de radnio em algumas cavernas do PETAR. Tambm durante o perodo de estudo foram c onsultados bancos de dados sobre medidas de temperatura, umidade relativa do ar e chuvas na regio para verificar possvel relao entre variaes nos resultados e estas variveis. Figura 1 – Localizao do PETAR. Metodologia e Procedimento Experimental As concentraes de radnio no interior das cavernas foram determinadas por meio da tcnica de deteco passiva. A opo pelo uso de detectores de traos nucleares do estado slido para medida de radnio neste trabalho deve-se ao baixo custo, ao fato de no ser necessr io dispositivo eletrnico associado medida, necessidade de um procedimento de medida integrada (exposio em longo prazo dos detectores), e por ser uma tcnica de amplo domnio do Laboratrio de Radiometria Ambiental do Centro de Metrologia das Radiaes do Instituto de Pesquisas Energticas e Nucleares (IPEN). Conhecidos pela sigla SSNTD (originada do ingls Solid State Nuclear Track Detectors ), os Detectores de Traos Nucleares do Estado Slido so materiais que tm a pr opriedade de registrar

PAGE 47

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 45 permanentemente danos causados por radiaes nucleares de partculas carregadas pesadas (alfa, prtons e fragmentos de fisso) (Enge, 1980). Estas radiaes, ao interagir com estes materiais, depositam energia ao longo de suas trajetrias no material, provocando um desarranjo na estrutura do material, criando cilindros (t raos) de dimenses da ordem de ngstrons. Estes traos, invisveis a olho n, tornam-se observveis quando os detectores passam por tratamento qumico com solues adequadas, capazes de ampliar as dimenses dos traos, com um aumento no dimetro dos traos da ordem de ngstrons para alguns micra, tornando possvel sua visualizao em microscpio ptico comum (Paulo, 1991). Na tcnica de deteco passiva, os detectores so simplesmente expostos ao ar ambiente, no havendo coleta de ar. O princpio bsico de funcionamento da deteco passiva est baseado na adsoro e permeabilidade do 222Rn em diferentes materiais, no sendo necessrio o emprego de aparato eletrnico durante as coletas, tornando-se vantajoso quando a medida deve ser realizada em locais de difcil acesso, como no caso de minas e grutas, onde muitas vezes no h ao menos um lugar apropriado para colocao de equipamento (deteco ativa), o trnsito de pessoas freqente e o monitoramento por longos perodos completos de trabalho dos guias mais interessante. O detector utilizado neste trabalho o policarbonato Makrofol E (espessura de 100 m) de composio qumica C16O3H14 produzido pela empresa alem Bayer. O Makrofol muito utilizado para revestimento de divers os tipos de materiais, por sua transparncia e alta resistncia a aquecimento (Bayer, 2004). Ao mesmo tempo, tem se mostrado tambm um excelente detector de radiao, pois capaz de registrar partculas carregadas pesadas (alfa, prtons e fragmentos de fisso). Este detector plstico com rea de 1 cm2 ento posicionado no interior de uma cmara de difuso do tipo KFK, que possui pequenas aberturas para entrada do gs. Foram montadas 33 cmaras de difuso. Em cada uma das cmaras foi colocado na entrada um filtro de fibra de vidro, pa ra reteno de istopos que poderiam prejudicar as medidas (220Rn e filhos do 222Rn). As cavernas do PETAR esto distribudas em quatro ncleos de visitao: Ouro Grosso, Caboclos, Santana e Casa da Pedra. Para o estudo em questo foram selecionadas seis cavernas. Embora este nmero parea pequeno se comparado ao grande nmero de cavernas cadastradas atualmente no parque, o critrio de escolha foi feito de acordo com o nmero significativo de visitantes que estas cavernas recebem, e considerando a viabilidade para acesso e coletas. As cavernas escolhidas pertencem ao ncleo Santana (cavernas Couto, gua Suja, Laje Branca, Morro Preto e Santana, que d nome ao ncleo, e recebem cerca de 85% dos visitantes do parque) e ao ncleo Ouro Grosso (caverna Alambari de Baixo). As 33 cmaras de difuso KFK foram distribudas entre as seis cavernas. Como a caverna Santana a mais rica em galerias, apresentando uma nica entrada, foram escolhidos cinco pontos de monitoramento com trs monitores em cada ponto: trs pontos de monitoramento foram distribudos em trs galerias abertas ao pblico (Torres, Cristo e Descanso) e dois pontos de monitoramento posicionados em duas galerias do salo das Flores com visitaes proibidas ao pblico (totalizando 15 monitores). Para a caverna Morro Preto foram escolhidos dois pontos, o salo conhecido como Plataforma ou Camarote, prximo entrada e o salo Chocolate ao final da gruta, com colocao de trs monitores em cada salo (total de 6 monitores). O monitoramento da caverna gua Suja foi feito no salo do golfinho (com trs monitores contendo um detector plstico cada). A caverna Couto uma cavidade com um nico conduto e duas entradas, uma em cada lado do morro e tambm esta ligada caverna Morro Preto (Karmann et al, 1988), tambm houve colocao de trs monitores posicionados na metade do percurso turstico. Na caverna Laje Branca o monitoramento foi feito em uma nica galeria (com trs monitores). A caverna Alambari de Baixo (ncleo Ouro Grosso) constituda basicamente de duas grandes galerias: a fssil, cujo nvel varia de 30m a 6 m acima do atual curso do rio, e a galeria ativa do rio (IRCN, 2005). O monitoramento foi feito em uma nica galeria com colocao de trs cmaras nesta galeria. As cmaras de difuso foram penduradas em estalactites no centro dos sales (distantes do teto) como mostrado na Figura 2, ficando expostos por um perodo mnimo de trs meses, procurando estabelecer uma rotina com trocas sazonais entre as mudanas de estao (Alberigi et al., 2005). O perodo de avaliao no PETAR teve incio em Outubro de 2003 e foi finalizado em Novembro de 2005. Os detectores, aps e xpostos, foram levados ao IPEN para tratamento qumico. O processo de revelao adotado neste trabalho utiliza a soluo alcalina PEW40 (15% KOH, 40% lcool etlico e

PAGE 48

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 46 45% de gua), em banho-maria a 70C sob agitao constante, durante um perodo de 2 horas (Csar & Franco, 1986). Terminada a revelao, os detectores, aps lavagem, so secos e a contagem dos traos feita com auxlio de um microscpio ptico ZEISS modelo Axiolab com aumento 5x, 10x, 40x e 100x, ligado a uma cmara de vdeo marca JVC TK-600U, e acoplado a um microcomputador PENTIUM MMX de 32 MB de memria RAM. O “software” KS100 verso 3.0 da ZEISS (Zeiss, 1997) permite a visualizao dos traos para contagem na te la de um monitor de 17”. Figura 2 – Monitor KFK pendurado em estalactite em caverna do PETAR. (a) (b) Figura 3: Detector Makrofol E exposto ao ambiente de cavernas (a) aumento 10x no microscpio (b) aumento 40x no microscpio. A concentrao de radnio determinada por meio da equao 1 (Mayya et al., 1998, Eappen & Mayya, 2004): t K D CRn (1) Onde: CRn = concentrao de Rn-222 (Bq.m-3) D = densidade (quantidade) de traos (traos.cm-2) t = tempo de exposio (dias) K = eficincia do detector de traos (traos.cm-2/Bq.m-3.dias), determinado experimentalmente. Em todas as coletas, durante a troca das cmaras de difuso KFK, eram feitas medidas de temperatura com termmetro de mercrio posicionado em uma rocha e umidade relativa do ar com higrmetro posicionado na extremidade de um basto no interior das cavernas nos pontos de monitoramento citados anteriormente. Tambm foram coletados dados sobre temperatura externa (Alberigi & Pecequilo, 2007) e chuvas no muncipio de Iporanga em trs postos de medidas, afim de observar se os resultados de concentraes de radnio poderiam estar associados tambm a variaes climticas. A Tabela 1 apresenta as informaes e coordenadas dos postos de medidas (IAC, 2005).

PAGE 49

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 47 Tabela 1 – Caractersticas dos postos de coletas de chuva na cidade de Iporanga. Posto 1 Posto 2 Posto 3 Prefixo: F5 – 032 F5 – 042 F5 – 046 Nome do Posto: Caboclos Serra dos Motas Intervales Municpio: Iporanga Iporanga Iporanga Bacia: Iporanga Betari Ribeira de Iguape Altitude (m): 580 240 790 Latitude: 2426’ 2433’ 2416’ Longitude: 4835’ 4841’ 4825’ Resultados A Tabela 2 apresenta os resultados de concentraes de radnio e as incertezas associadas obtidas para o perodo de estudo. A concentrao de 222Rn foi obtida por meio da equao 1. Verificou-se que os resultados obtidos para as concentraes de 222Rn nas cavernas do PETAR (Tabela 2), embora apresentem em alguns perodos nveis elevados, esto dentro da faixa de variao dos valores da literatura para concentrao de radnio em estudos realizados em cavernas de diversos pases (Tabela 3). O menor e o maior valor para concentrao esto destacados na Tabela 2 e correspondem monitorao das cavernas Couto e Santana, respectivamente. Os resultados de temperatura e umidade relativa do ar medidas no interior das cavernas (galerias monitoradas) mostraram-se praticamente constantes sendo constatada pouca variao durante o perodo (temperatura entre 17C e 19C e umidade interna entre 96% e 100%). Os resultados obtidos para medidas de umidade relativa no interior das cavernas foram comparados com valores obtidos de pesquisas sobre variaes climticas na regio do parque, e apresentaram valores similares (entre 90% e 100%) (IAC, 2005). Tambm foram comparados os resultados entre temperaturas internas das cavernas e temperaturas externas (temperatura na regio do PETAR (Alberigi e Brigitte, 2007). Tabela 2 – Concentraes de 222Rn no ar das cavernas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) durante perodo de estudo. Caverna/Ncleo Galerias 13/10/ 03 – 07/03/0 4 (Prim/Vero)(c) 07/0 3 – 07/07/ 0 4 (Outono)(d) 07/07 – 11/10 04 (Inverno)(e) 11/10/04 – 3/01/05 (Primavera)(f) 13/01 – 25/03/ 05 (Vero)(g) 25/03 – 23/07/05 (Outono)(h) 23/06-14/11/05 (inver/prim)(i) Concentraes de radnio (Bq/m3) Alambari de Baixo Ouro Grosso Alambari de Baixo 516 137 1327 432 970 291 610 179 382 174 342 89 370 96 gua Suja/Santana Golfinho ----------(a) 1674 433 406 124 1308 346 834 222 595 184 255 79 Couto/Santana 1 ----------(a ) 1110 348 611 196 704 254 342 161 153 44 230 66 Morro Preto / Santana Plataforma 512 135 1223 362 363 128 677 190 492 183 354 99 ...................(b) Chocolate 1957 508 2177 634 417 111 805 230 1252 339 652 248 441 168 Laje Branca Santana Laje Branca 1009 287 2568 688 1015 291 2414 272 3386 884 1325 358 1217 326 Santana/Santana Flores 1 2373 609 2359 6311488 3922481 6403160 837 1732 450 2160 552 Flores 2 3972 1088 3452 912 1952 514 2135 549 3583 920 1709 427 1684 429 Torres 4950 1256 4649 1183 1532 396 4158 1169 5065 1266 2754 744 1464 392 Cristo 5811 1453 3435 889 1841 478 4438 1133 5337 1370 2634 658 1684 429 Descanso 6607 1672 6358 1619 1312 381 4080 1050 6107 1547 2706 731 1543 418 (a) – Perodo no monitorado. (b) – Monitor extraviado. (c) – Primavera (23/Set/03 – 21/Dez/03) Vero (22/Dez/03 – 19/Mar/04). (d) – Outono (20/03/04 – 19/Jun/04). (e) – Inverno (20/Jun/04 – 21/Set/04). (f) – Primavera (22/Set/04 – 21/Dez/04). (g) – Vero (22/Dez/04 – 19/Mar/05). (h) – Outono (20/Mar/05 – 20/Jun/05). (i) – Inverno (21/Jun/05 – 21/Set/05), Primavera (22/Set/05 – 21/Dez/05).(U.S.A. Naval Observatory, 1992).

PAGE 50

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 48 Tabela 3 – Resultados sobre nveis de 222Rn de outras cavernas do Brasil e do Mundo (dados da literatura). Concentrao de Radnio (Bq.m-3) Pas Tipo de Caverna MnimoMximoMdi a Referncia Brasil Cavernas localizadas em MG, MT e BA 473 Gouvea et al., 1996 Cavernas do PETAR 153 6607 -Este trabalho Austrlia 57 tursticas 6330 (anual) 500(inverno); 795(primavera) Solomon et al., 1996 Eslovnia Inacessveis e tursticas 2350 – 27000 (ver/inver) Jovanovic, 1996 1 Polni a 2 tursticas 100 (inverno) 3600 (vero) Przylibski, 1999 V enezuela Turismo e explorao 100 80000 Saj-Bohus et al., 1997 Reino Unido 3 tursticas 32 12552 Sperrin et al., 2000 1 turstica 27 7800 Gilmore et al., 2002 Grcia Turstic a 197 1929 1311(inverno); 925(vero) Papachristodoulou et al.,2004 Espanha Cavernas Tursticas 300 – 8000 Pinza-Molina et al., 1999 1 Turismo e arqueologi a 186 7120 3562 (anual) Lario et al., 2005 2 Turquia 2 tursticas 20 5883 1919 Aytekin et al., 2006 1Deteco Passiva, 2Deteco ativa e passiva. As informaes obtidas sobre as chuvas na cidade de Iporanga dos trs postos de coletas (Tabela 1) associadas aos resultados de concentraes de radnio so apresentadas nas figuras 4, 5, 6, 7, 8 e 9. 0 200 400 600 800 1000 1200 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 Primav/verOutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver/Primav 10/03 -03/0403/04 -07/0407/04 -10/0410/04 -01/0501/05 -03/0503/05 -07/0507/05 -11/05 m m B q / m3Perodos de medida222Rn na caverna Alambari de Baixo x Chuvas nos postos de coletas -Iporanga Alambari (Rn) F5-032/Caboclos F5-042/Serra dos Motas F5-046/Intervales Figura 4 – Relao entre nveis de 222Rn na caverna A. de Baixo e chuvas na regio.

PAGE 51

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 49 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 0 200 400 600 800 1000 1200OutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver/Primav 03/04 -07/0407/04 -10/0410/04 -01/0501/05 -03/0503/05 -07/0507/05 -11/05m m B q / m3Perodos de medida222Rn na caverna Couto x Chuvas nos postos de coletas -Iporanga Couto (Rn) F5-032/Caboclos F5-042/Serra dos Motas F5-046/Intervales Figura 5 – Relao entre nveis 222Rn na caverna Couto e chuvas na regio. 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 OutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver/Primav 03/04-07/0407/04-10/0410/04-01/0501/05-03/0503/05-07/0507/05-11/05 m m B q / m3Perodos de medida222Rn na caverna gua Suja x Chuvas nos postos de coletas -Iporanga gua Suja (Rn) F5-032/Caboclos F5-042/Serra dos Motas F5-046/Intervales Figura 6 – Relao entre nveis 222Rn na caverna A. Suja e chuvas na regio.

PAGE 52

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 50 0 200 400 600 800 1000 1200 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000Primav/verOutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver/Primav 10/03 -03/0403/04 -07/0407/04 -10/0410/04 -01/0501/05 -03/0503/05 -07/0507/05 -11/05m m B q / m3Perodos de medida222Rn na caverna Laje Branca x Chuvas nos postos de coleta -Iporanga Laje Branca (Rn) F5 -032 F5 -042 F5 -046 Figura 7 – Relao entre nveis 222Rn na caverna L. Branca e chuvas na regio. 0 200 400 600 800 1000 1200 0 500 1000 1500 2000 2500Primav/veroOutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver /Primav 10/03 -03/0403/04 -07/0407/04 -10/0410/04 -01/0501/05 -03/0503/05 -07/0507/05 -11/05m m B q / m3Perodos de medida222Rn na caverna Morro Preto x Chuvas nos postos de coletas -Iporanga Camarote (Rn) Chocolate (Rn) F5 -032 F5 -042 F5 -046 Figura 8 – Relao entre nveis 222Rn na caverna Morro Preto e chuvas na regio.

PAGE 53

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 51 0 200 400 600 800 1000 1200 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000Primav/VeroOutonoInvernoPrimaveraVeroOutonoInver/Primav 10/03-03/0403/04-07/0407/04-10/0410/04-01/0501/05-03/0503/05-07/0507/05-11/05m m B q / m3Perodos de medida222Rn nos sales tursticos da Santana x Chuvas nos postos de coletas -Iporanga Torres (Rn) Cristo (Rn) Descanso (Rn) F5 -032 F5 -042 F5 -046 Figura 9 – Relao entre nveis 222Rn na caverna Santana e chuvas na regio. Discusses As concentraes de radnio apresentaram valores elevados, e fica evidente a diferena de valores para concentrao entre as cavernas (Tabela 2). Em todas as galerias monitoradas fica claro que as concentraes diminuem em perodos frios e aumentam nas estaes mais quentes. Observa-se para a caverna Couto, que, mesmo com um valor mximo de concentrao de radnio obtido no outono, nos demais perodos houve um decrscimo apresentando pouca variao, que pode tambm estar associado taxa de ventilao que nesta caverna a maior devido pequena extenso e tambm s duas entradas existentes. Tambm necessrio relatar que a caverna Couto est ligada caverna Morro Preto, fato que pode facilitar o escape do gs radnio. Nos casos das cavernas gua Suja, que possui um rio que atravessa a caverna em quase todo o percurso turstico e apresenta ligao com a gruta Vargem Grande, e Alambari de Baixo que tambm possui um rio em parte do percurso turstico, e apresenta entrada e sada distintas, os nveis de radnio so inferiores se comparados com os outros resultados obtidos neste estudo. A caverna Alambari de Baixo que tambm apresentou valores mnimos e mximos para concentrao nos mesmos perodos obtidos na caverna Couto, apresentou ainda resultados que se mantiveram praticamente constantes nos ltimos tr s perodos de medida. A caverna Morro Preto, que teve dois pontos de monitoramento distribudos no salo Plataforma (prximo entrada da caverna) e no salo Chocolate (localizado no final da caverna) apresentou em todos os perodos os maiores valores de concentrao de radnio para o salo Chocolate e os menores valores obtidos para o salo Plataforma (Figura 8). Tambm em ambos os sales houve diminuio de concentrao nos perodos de inverno. A caverna Laje Branca apresentou, tal como a caverna Santana, os maiores nveis de concentrao. Observa-se pouca variao entre os perodos, apresentando um valor mximo para o perodo de vero. Os maiores resultados de concentrao de radnio foram obtidos na caverna Santana, a maior do ncleo, e que merece ateno maior por receber o maior nmero de turistas. No primeiro e segundo perodos de medida observa m-se nveis altssimos e pouca diminuio entre os mesmos, mantendo-se praticamente constantes. J para o terceiro perodo (inverno) ocorre uma acentuada queda destas concentraes. Para os quatro perodos seguintes o comportamento assemelha-se com os resultados obtidos em outros estudos (Przylibski, 2002), aumento em perodos mais quentes com poucas

PAGE 54

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 52 variaes entre si e novamente diminuio em perodos mais frios. Concluso De uma maneira geral, observa-se que ocorre acentuada diminuio nas concentraes de radnio em perodos de inverno. Este comportamento foi obtido em outros estudos sobre nveis de radnio em outras partes do mundo (Pinza-Molina et al., 1999, Przylibski, 1999, Sperrin et al., 2000, Gilmore et al., 2002, Papachristodoulou et al., 2004,) e alguns pesquisadores atribuem esta diminuio ao gradiente existente entre a temperatura no interior da caverna e a temperatura externa (Gilmore et al., 2002). Nos meses de inverno, quando a temperatura externa freqentemente toma valores mais baixos do que a temperatura interna da caverna (em torno de 19C), a diferena de temperatura entre o ar da caverna (“quente”) e o ar do ambiente externo (“frio”) faz com que massas de ar quente “mais leve” sejam deslocadas para fora da caverna e, conseqentemente, o radni o tambm levado para fora, diminuindo assim os nveis de radnio no interior das grutas (Przylibski, 1999). No vero no h diminuio, e, conseqe ntemente os nveis de radnio apresentam-se elevados. O Brasil, como pas de clima tropical e em particular, na regio estudada, as quatro estaes do ano no so bem diferenciadas, e os invernos no so to rigorosos como em pases de clima temperado. Assim, a inexistncia de grandes gradientes de temperatura na regio insuficiente para justificar a elevao ou diminuio dos nveis de radnio apenas pelas trocas de ar interno e externo das cavernas, e fazer uma nica afirmao sobre as causas dos elevados ndices de concentraes. Portanto, as variaes nas concentraes de radnio podem tambm estar relacionadas com as caractersticas de cada caverna (configurao, taxa de ventilao, etc.) e as variaes climticas no perodo. Observando a Tabela 2 para cada uma das cavernas verifica-se que cada uma delas apresenta resultados particulares, resultantes de caractersticas peculiares. Em uma primeira anlise, podemos concluir que os resultados obtidos para as trs cavernas (Couto, gua Suja e Alambari de Baixo) se assemelham muito e apresentam os menores nveis de radnio se comparados com as outras cavernas, fato que pode estar associada semelhana de configurao entre as trs ao menos em algum aspecto, Couto assemelha-se a caverna gua Suja, pois ambas esto ligadas a outras cavernas, Couto assemelha-se a caverna Alambari de Baixo, pois ambas possuem entrada e sada, gua Suja assemelha-se a caverna Alambari, pois ambas tm rio em parte do percurso turstico. Tambm possvel associar os resultados de menores nveis de radnio obtidos a alguma fuga do gs, maior taxa de ventilao existente nestas cavernas e conseqentemente maior troca de ar interno com o ambiente externo. Para a caverna Morro Preto, em todos os perodos, os maiores nveis de radnio ocorrem no salo Chocolate. Este resultado est relacionado ao fato de que, com o aumento da distncia entre a entrada e o ponto de monitoramento, a ventilao reduzida, aumentando assim os nveis do gs radnio. As cavernas Laje Branca e Santana apresentaram os maiores nveis de radnio, conseqncia de suas configuraes e taxas de ventilao reduzidas. Tambm observado para caverna Santana comportamento anlogo ao obtido na caverna Morro Preto, aumento das concentraes com o aumento da distncia entre a entrada e os pontos de monitoramento, indicando relao direta entre aumento das concentraes e diminuio na taxa de ventilao. Durante todo o perodo de estudo houve medio de temperatura e umidade relativa do ar no ambiente das cavernas; buscou-se tambm o levantamento de dados sobre as condies climticas da regio no perodo de interesse, que conduzem a formulao de hiptese que relaciona as variaes nas concentraes variao na temperatura externa (Alberigi & Pecequilo, 2007). Contudo, a complexa dinmica do radnio em ambientes naturalmente s ubterrneos sugere que seria til e necessria a implementao de um monitoramento contnuo para medidas de radioproteo em cavernas tursticas. De acordo com as figuras 4 a 9, aparentemente as concentraes de radnio decrescem (acentuadamente em cavernas mais fechadas). Os altos nveis de radnio em cavernas esto associados a uma complexa inter-relao de diferentes fatores, ambos externos e internos: diferenas entre temperatura do ambiente interior e exterior, velocidade dos ventos, variaes da presso atmosfrica, umidade, geomorfologia crstica, porosidade nas rochas, quantidade de rdio presente nos sedimentos e rochas e microclima nas cavernas so alguns dos fatores que podem contribuir para elevao das concentraes de radnio.

PAGE 55

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 53 Os presentes resultados e interpretaes so preliminares face ao estgio inicial da pesquisa que segue em andamento, com a investigao dos fatores climticos j citados, determinao experimental de fatores de equilbrio, concentraes do radnio e tempo de exposio para uma estimativa de dose de radiao para indivduos expostos (monitores ambientais, visitantes e pesquisadores). Agradecimentos O trabalho foi financiado pela Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (FAPESP), processo 2003/08146-2 e Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq), processo 134087/03-8. Contou com a colaborao do Sr. Modesto (diretor do Parque) e todos os f uncionrios do PETAR. Contriburam para realizao do trabalho os monitores ambientais Orley e o Sr. Jurandir (administrador da Pousada Rancho da Serra). Referncias Bibliogrficas Alberigi, S., Pecequilo, B.R.S. & Campos, M.P. 2005. Radon concentrations in caves of Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), SP, Brazil: preliminary results, International Congress Series Elsevier, v. 1276, p. 403–404. Alberigi, S. & Pecequilo, B.R.S. 2007. Caves of Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), SP, Brasil: A Study of indoor radon levels and im pacto of seasonal temperature and humidity In: International Nuclear Atlantic Conference, VIII ENAN, Santos, Brasil. CD ROM. Auler, A., Rubbioli & E. Brandi, R. 2001. As grandes cavernas do Brasil Grupo Bambu de Pesquisas Espeleolgicas, Belo Horizonte. BAYER MATERIAL SCIENCE. 2004. Plastic Technologi c Center, disponvel em: . Acesso: 25/09/2004. Binns, D.A.C., Tolentino, J., Gouvea, V.A. & Melo, V.P. 1996. Determinao de Radnio-222 no ambiente subterrneo das mineradoras de ouro da regio de Nova Lima – MG, Brasil In: VI Congresso Geral de Energia Nuclear, Poos de Caldas, Brasil, CD-ROM. Binns, D.A.C., Figueiredo, N., Melo V.P. & Gouvea, V.A. 1998. Radon-222 measurements in a Uraniumprospecting area in Brazil, Journal of Environmental Radioactivity, 38 (2): 249–254. Csar, M.F. & Franco, M.A.R 1986. Some studies on the registration of particles on Makrofol E, Nuclear Tracks 12 (1–6): 193–196. Eappen, K.P. & Mayya, Y.S. 2004. Calibration factors for LR –115 (type–II) based radon thoron discriminating dosimeter, Radiation Measurements 38: 5–17. Eisenbud, M. 1987. Environmental Radioactivity 2nd ed. Academic Press, Orlando. Enge, W. 1980. Introduction to plastic nuclear track detectors, Nuclear Tracks 4 (4): 283 – 308. Estado de So Paulo. 2006. Gs radnio a segunda maior causa de cncer de pulmo So Paulo, 21 Jun. 2006. Gilmore, G.K., Phillips, P., Denman, A., Sperrin, M. & Pearce, G. 2001. Radon levels in abandoned metalliferous mines, Devon, Southwest England, Ecotoxicology and Environmental Safety 49: 281– 292. Gilmore, G.K., Phillips, P.S., Denman, A.R. & G ilberstson, D.D. 2002. Radon in the Creswell Crags Permian limestone caves, Journal of Environmental Radioactivity 62: 165–179. Gouvea, V.A., Melo, V.P. & Binns, D.A.C. 1996. Concentrao de R adnio-222 em interiores de grutas, cavernas e em regies de minerao no Brasil In: VI Congresso Geral de Energia Nuclear, Poos de Caldas, Brasil. CD-ROM.

PAGE 56

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 54 IAC – Instituto Agronmico de Campinas. 2005. disponvel em www.iac.gov.br Acesso em 25/11/2005. IRCN – ndice de Referncias de Cavi dades Naturais. 2005. disponvel em www.geocites.com/ircnsp Acesso em 06/12/2005. Jovanovic, P. 1996. Radon measuremen ts in karst caves in Slovenia, Environment International 22: S429– S432. Supplement 1. Karmann, I., Batistucci, N.L.N., Philadelphi, M.A., Boggi ani, P.C., Alcover Neto, Pissato, E., Barros, E.J., Silva, E.L., Mattos, A.C.Y., Shinohara, E.J. & Mihaly, P. 1988. Gr upo de Espeleologia da Geocincias – USP. Mapeamento das cavernas gua Suja e Conjunto Morro Preto Couto. Khan, H., A, Qureshi, I.E. & Tufail, M. 1993. Passive dosimetry of radon and its daughters using solid state nuclear track detectors (SSNTDs), Radiation Protection Dosimetry 46 (3): 149-170. Lario, J., Snchez-Moral, S., Caaveras, J.C., Cuezva, S. & Soler, V. 2005. Radon continuous monitoring in Altamira cave (northern Spain) to assess user’s annual effective dose, Journal of Environmental Radioactivity 80: 161–174. Mayya, Y. S., Eappen, K.P. & Nambi, K.S.V. 1998. Methodology for mixed field inhalation dosimetry in monazite areas using a twin–cup dosemeter with three track detectors, Radiation Protection Dosimetry v77 (3): 177–184. Papachristodoulou, C.A., Ionnides, K.G., Stamoulis, K.C., Patiris, D.L. & Pavlides, S.B. 2004. Radon activity levels and effective doses in the Perama Cave, Greece, Health Physics 86 (6): 619–624. Paulo, S.R. 1991. Dosimetria ambiental de Rn-222 e filhos : Medida da eficincia absoluta do CR-39 levando-se em conta os efeitos do plate-out e fatores ambientais Tese (Doutorado) – Universidade de Campinas, Campinas. Pinza-Molina, C., Alcaide, J.M., Rodriguez-Bethencour t, R. & Hernandez-Armas, J. 1999. Radon exposures in the caves of Tenerife (Canary Islands), Radiation Protection Dosimetry 82 (3): 219–224. PrizylibskiI, T.A. 1999. Radon concentration ch anges in the air of two caves in Poland, Journal of Environmental Radioactity 45: 81 –94. Saj-Bohus, L., Greaves, E.D., Plfavi, J., Urbani, F. & Merlo, G. Radon concentration measurements in Venezuelan caves using SSNTDS, Radiation Measurements 28 (1–6): 725–728. SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia. 2005. – disponvel em www.sbe.com.br Acesso: 15/03/2005. Solomon, S.B., Langroo, R., Lyons, R.G. & James, J.M. 1996. Radon exposure to tour guides in Australian show caves, Environment International 22: S409–S413. Supplement 1. Sperrin, M., Denmam, T. & Phillips, P.S. 2000. Estim ating the dose from radon to recreational cave users in the Mendips, UK, Journal of Environmental Radioactivity 49: 235-240. Veiga, L.H.S., Melo, V., Koifman, S. & Amaral E.C.S. 2004. High radon exposure in a Brazilian underground coal mine, Journal of Radiological Protection 24: 295–305. Zeiss, C. 1997. KS 100 Imaging System Release 3.0. CD-ROM.

PAGE 57

Alberigi & Pecequilo. Nveis de radnio em cavernas do Parque Estadual Turstico... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 55 Fluxo editorial : Recebido em: 12.05.2008 Enviado para avaliao em: 13.05.2008 Enviado para correo aos autores em: 16.06.2008 Aprovado em: 24.06.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Licenciada em Fsica (UNESP), Mestre em Tecnologia Nuclear Ap licaes (IPEN/USP). 2 Bacharel em Fsica (USP), Doutora em Tecnologia Nuclear Aplicaes (IEA/USP). 3 Comunicao pessoal.

PAGE 58

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008.

PAGE 59

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 57 ESPELEOTURISMO E EDUCAO AMBIENTAL NO PETAR SP1 SPELEOTOURISM AND ENVIRONMENTAL EDUCATION IN PETAR (SP) Zysman Neiman2 & Andra Rabinovici3 Universidade Federal de So Carlos – Campus Sorocaba. Laboratrio de Ecoturismo, Percepo e Educao Ambiental (LEPEA-UFSCar). Instituto Physis – Cultura & Ambiente. zysman@physis.org.br Resumo Este artigo apresenta discute aspectos da psicologia comportamental relacionados ao carste e s cavernas atravs de observaes participantes em 107 viagens rea lizadas ao Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), com o objetivo de analisar a contribuio dessas experincias para a implantao de programas de Educao Ambiental atravs do Espeleoturismo no Br asil. Foram observados quais processos potencializam a transformao dos comportamentos no sentido de contribuir com a sedimentao da importncia da Percepo e Interpretao Ambiental em Unidades de C onservao. Ao longo de 16 anos, atravs de debates ocorridos no fechamento das viagens (como parte da metodologia da observao participante), foi ficando evidente a necessidade de substituio das atividades centradas no raciocn io, na compreenso conceitual dos aspectos ambientais, por outras que estimulassem as sensaes e emoes, pois estas se mostraram mais eficientes na sensibilizao, refletindo a fora que o c ontato intensificado com o meio natural possui para eliciar comportamentos pr-ambiente. Palavras-Chave: Percepo e Interpretao Ambiental; Espeleoturismo; Educao Ambiental. Abstract This article presents and discusses aspects of behavior al psychology related to karst and to caves using Participant Observation from 107 trips to the Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR), targeting the analysis of the contribution of this experience to the implementation of Environmental Education programs through Spelunking Tourism in Brazil. The observation focused on determining which processes evoke behavior changes in order to contribute to the cons olidation of concepts involved in Environmental Perception and Interpretation in Parks. During 16 years of de bates that took place at the end of the trips (as part of the methodology of participant observation), it became evident that there should be a substitution of activities focused on reasoning and the conceptual understandi ng of environmental aspects with others that stimulated sensations and emotions, because the latter proved to be more effec tive in raising awareness, reflecting the strength of the effect of the inten se contact with nature on pro-environmental behavior. Key-Words: Environmental Perception and Interpretation; Spelunking Tourism; Environmental Educatio. Introduo O Instituto Physis – Cultura & Ambiente uma associao de fins n o econmicos, de carter cientfico, cultural e educacional, que desde 1991 age pela educao e qualidade de vida realizando trabalhos na rea ambiental. Toda sua equipe participa continuamente de cursos e de outras atividades e reflexes que envolvem conceitos de Educao Ambiental (EA), Ecoturismo, visitao, manejo e gesto de reas naturais e Unidades de Conservao, primeiros socorros, liderana, se gurana, tcnicas de caminhada e aspectos psicolgicos de trabalho em equipe. Vrios de seus integrantes participam de programas de doutorado, m estrado, ps-graduao e graduao ligados rea ambiental, alm de estgios feitos em Unidades de Conservao no exterior, a realizao ou orientao de pesquisas ligadas s reas visitadas, a participao na elaborao de instrumentos nacionais ou estaduais ligados rea ambiental como, por exemplo, a elaborao dos Parmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Poltica Estadual para o Ecoturismo, entre outros. Dentre suas metas institucionais prioriza-se, em seus projetos a EA, a participao social, assim como a pesquisa e produo de conhecimento. Para tanto, promove o Ecoturismo; desenvolve projetos educacionais em conjunto com instituies de ensino; parceiro de Unidades de Conservao (UC’s); participa em Polticas Pblicas do CONAMA, CONSEMA, CADES, entre outros; participa de diversas Redes tais como REPEA, Rede de ONGs da Mata Atlntica, entre outros; capacita pessoas; fomenta o desenvolvimento acadmico

PAGE 60

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 58 atravs de estgios, pesquisas cientficas e voluntariado; presta consultoria e assessoria em implantao de Turismo Sustentvel em municpios; oferece encontros, palestras cursos e exposies; realiza viagens para vivncias em campo; alm disso, publica livros. Desde a sua fundao, realiza diversas atividades no Parque Esta dual Turstico do Alto Ribeira (PETAR/SP), como a coordenao dos trabalhos de constituio do Grupo Interinstitucional de Apoio Elaborao do Plano de Manejo, elaborao de placas sinalizadoras, curso gratuito para a comunidade de Ipor anga de EA em Cavernas, plantio de mudas de espcies nativas, apoio na organizao dos aniversrios de 40 e 42 anos do Parque, participao contnua na discusso dos problemas que afetam a comunidade e na formao do Comit Gestor e a elaborao de documentrio cinematogrfico ressaltando os seus aspectos culturais. No entanto, ao longo desses 17 anos de atividades, sua maior contribuio foi organizar atividades de contato com a natureza e, com elas, ao acompanhar as atitudes dos indivduos, realizar pesquisas de aprimoramento de estratgias de Espeleoturismo e Educao Ambiental, atravs da metodologia da observao participante Esta experincia constitui a base de onde surgiu o seu projeto Institucional e com ela a Physis se tornou uma das entidades com maior experincia neste campo no pas. O objetivo deste artigo fazer uma sntese dessa experincia como contribuio implantao de programas de Educao Ambiental atravs do Espeleoturismo no Brasil. Metodologia A investigao de comportamentos naturais, em ambientes e em condi es naturais, geralmente realizada de maneira no-reativa, e, portanto sem que os participantes estejam conscientes de sua realizao. Agem com espontaneidade e, desde que autorizem o uso dos dados ou lhes seja assegurado o anonimato, as questes ticas, mesmo complexas, esto atendidas. A observao participante nesses casos, o melhor instrumento de coleta de informaes. Observadores participantes comeam com algumas hipteses preliminares antes de coletarem qualquer dado. A anlise de casos negativos requer que o pesquisador procure dados que refutem a hiptese inicial. Quando um nico caso negativo encontrado, o observador participante rev a hiptese de forma que esta possa abarcar o caso. Faz-se isso at no haver mais refutaes. Portanto, ser sistemtico na pesquisa qualitativa significa fazer uma busca completa de casos que possam refutar a hiptese. As mensuraes no so padronizadas; os dados no so uniformes e no produzem nmeros que possam ser somados ou cuja mdia possa ser calculada. Mas o procedimento sistemtico. Para usar a observao participante como uma tcnica de pesquisa, uma pessoa deve ser um membro integralmente participante do grupo em observao. Os observadores participantes tornam-se bem familiarizados com as pessoas que estudam e, conseqentemente, no tratam duas pessoas da mesma forma. Alm disso, os observadores participantes tambm so envolvidos em interaes pelas pessoas que estudam. Como em Padua (2001), este o caso deste estudo onde os pesquisadores, apesar de exercerem o papel de “guia” dos grupos, fizeram parte do mesmo o tempo todo, vivenciando com todos as mesmas experincias. As hipteses deste trabalho surgiram, inicialmente da observao de atividades de grupos em situaes nas quais praticavam Espeleoturismo. Entre 1991 e 2006, foram realizadas 107 viagens ao PETAR, nas quais participaram cerca de 3.000 pessoas, sendo a maioria da faixa etria entre 15 a 30 anos. Ao longo dos anos, procurou-se detectar e compreender quais os comportamentos humanos que se manifestam durante o desenvolvimento dessas atividades. Foram analisados, tambm, quais processos potencializam a transformao dos comportamentos culturalmente adquiridos, no sentido de contribuir com a consolidao e compreenso da importncia da EA em Unidades de Conservao. Aps cada uma das viagens com grupos de participantes de atividades dirigidas, as ocorrncias eram discutidas pela equipe de pesquisadores e os procedimentos refeitos para novas experimentaes, at que se chegasse a uma estratgia de trabalho que, acredita-se, tem grande influncia no desenvolvimento de comportamentos pr-ambiente dos participantes das viagens. Uma melhor compreenso do valor da conservao da natureza e da diversidade sciocultural, priorizando a sensibilizao do indivduo quanto importncia do seu papel na construo de um mundo diferente, tanto na relao sociedade x natureza quanto dos indivduos entre si, foram objetivos almejados. O Espele oturismo foi, portanto, utilizado como ferramenta para a Educao Ambiental.

PAGE 61

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 59 Resultados e discusso Visando romper com a anlise fragmentada da realidade, em todas as viagens procurou-se promover a integrao entre aspectos psicolgicos, biolgicos, histricos, geogrficos e sociais, propiciando um conheciment o mais aprofundado da realidade, e no da teoria referente a cada uma das reas do saber. Para a busca da interdisciplinaridade entre os contedos trabalhados, utilizou-se a Interpretao Ambiental como principal estratgia educacional. Assim, ao longo da viagem, os pesquisadores acompanhantes apresentavam as principais caractersticas ambientais e culturais presentes no PETAR e no seu entorno. A informao no era negada, mas nascia a partir do interesse do grupo e respeitava a bagagem anterior que cada um demonstrava, alm de ser apresentada de forma agradvel. Ou seja, as intervenes eram amenas, pertinentes e respeitosas com as caractersticas scio-culturais de cada grupo. Vale lembrar, no entanto, que nas viagens realizadas, os contedos conceituais apresentados por essa tcnica foram tendo peso diminuto frente ao trabalho com os contedos valorativos e procedimentais. O procedimento sistemtico da observao participante foi modificando o roteiro, as atividades e o prprio objetivo das viagens a partir da refutao de hipteses e sua substituio por outras. As primeiras viagens tinham um foco mais centrado na transmisso dos contedos relativos dinmica ambiental do Parque. Isso porque, no incio dos anos de 1990, a formao acadmica dos profissionais que acompanhavam a viagem, aliada a diminuta experincia coletiva na realizao das mesmas, fazia com que os viajantes fossem submetidos a uma excessiva valorizao de conhecimentos cientficos. Coerentemente formao que tiveram, os guias da equipe se reuniam para discutir os objetivos interdisciplinares a serem alcanados e elaboravam o melhor roteiro de atividades para atingi-los. Reunies foram necessrias, para que a equipe de educadores encontrasse os pontos tange nciais dos contedos conceituais que poderiam ser “amarrados” na viagem a ser desenvolvida. Nesta fase, inclusive, eram preparados materiai s pedaggicos de apoio e roteiros de observao em campo, com perguntas, orientaes e proposies de amostras a serem recolhidos e/ou observados pelos participantes. Cada parada para a realizao de interpretao ambiental estava ligada a um conceito a ser transmitido. A hiptese que se acredita verdadeira era a de que o despertar para a conscincia ambiental se daria atravs do aumento dos conhecimentos sobre a dinmica de funcionamento dos ecossistemas (inclusive nas cavernas) e a compreenso dos problemas ambientais que eles enfrentavam. A partir da proposio de um trabalho conceitual sobre alguns temas escolhidos, as viagens procuravam estimular os participantes observao, pesquisa e interao com os elementos naturais e scio-culturais do PETAR ambicionando, ainda, coloc-los em contato com diferentes realidades sociais e ambientais, o que se acreditava, era suficiente para o trato de questes de tica, cidadania e respeito diversidade, valores importantes que se espera incutir num cidado ponderado e socialmente participante. O “teste da eficincia” desse procedimento sempre foi a avaliao das vivncias atravs de conversas informais, pois inevitavelmente formavase um importante vnculo entre guias e grupo, e de um dilogo ao final das atividades (fechamento) com todos, com registro dos discursos e comportamentos exibidos. Este fechamento era, para o grupo, o momento fundamental de racionalizao de tudo que foi sentido durante a viagem, mas ainda no verbalizado, e para os pesquisadores, o momento de testar as hipteses. Com um mosaico de relatos e impresses, os participantes das viagens montavam um painel dos fatos mais marcantes para cada indivduo durante estes dias de intenso contato com a natureza. Uma vez que os discursos emitidos pelos participantes da viagem eram distantes daqueles ambicionados quando da el aborao do roteiro de atividades (muito tericos, “frios”, memorizados e burocrticos), e, pior, n o se repetiam grupo aps grupo (o que permitiria supor que a hiptese era verdadeira), os procedimen tos foram, ao longo desse perodo de avaliaes (1991-2006), sendo alterados. Para Mendona & Neiman (2003), uma visita s reas naturais organizada com esses pressupostos sempre est atrelada lgica do racionalismo, do empirismo e do positivismo. Reproduz toda valorizao dos conceitos e da viso objetiva dos fatos. Sujeito e objeto esto muito claramente separados e o conhecimento est sendo produzido a partir da percepo sensorial compreendida luz das capacidades cognitivas. Essa constatao aponta para a necessidade de promover mudanas nas viagens de Espeleoturismo de modo a sintoniz-las s novas formas de conviver, relacionar-se com a realidade observada e sentid a, construir e reconstruir outras compreenses, produzir e distribuir sensaes, informaes e conhecimentos. preciso

PAGE 62

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 60 fugir do conceito enganoso de que o meio estudado a extenso da sala de aula. Mesmo que se procure trabalhar o discurso da responsabilidade ecolgica e as ticas morais para com a natureza, as experincias diretas nas quais todos os cinco sentidos sejam utilizados para promover uma afinidade emocional com ela parecem ser mais eficientes para as mudanas de atitudes (Kals et al ., 1999). Por aumentar essa compreenso, aos poucos, a nfase na transmisso de conceitos (que inclusive eram realizados atravs da distribuio de textos e cadernos de atividades aos participantes) foi sendo substituda por um trabalho centrado nas vivncias sensoriais e emocionais na natureza, principalmente nas cavernas, ou seja, passaram a ter o objetivo de instrumentalizar menos para sensibilizar mais. Uma pesquisa de Fazio & Zanna (1981, apud Uzzell, 2004: 367-368), inclusive, mostrou que a experincia direta com o objeto da atitude conduz a atitudes mais fortes, quando comparadas a experincias indiretas. A razo instrumental muito eficiente para resolver questes tcnicas, mas ela est longe de ser suficiente para resolver problemas humanos. Os problemas ambientais so essencialmente humanos, e s sero superados se incluirmos uma nova maneira de abord-los. A expresso “viagem sem destino” incomoda um pouco ao cartesiano, com sua viso positivista, pois est pouco disposto a enfrentar o risco das surpresas (Mendona & Neiman, 2003) Desta forma, devido ao descarte de hipteses previsto na observao participante, chegou-se a um roteiro de atividades capaz de produzir, nos fechamentos da viagem, discursos mais similares e recorrentes, estgio onde se pressupe que a Educao Ambiental tenha sido efetivada, ou pelo menos que haja uma previsibilidade de valores e atitudes declarados. Passando, ao longo dos anos, pelos estgios intermedirios que fora m constantemente sendo modificados conforme as avaliaes e a observao participante sugeriam, chegou-se a formulao de atividades que objetivaram a transformao da viso de que o saber algo distante, aproximando o indivduo da realidade que est sendo visitada, buscando uma interao entre a sensibilidade e a razo. Segundo Mendona (2000), devido ao seu uso indiscriminado, as reas naturais, que hoje se encontram preservadas, por serem minoria ante as reas ocupadas por atividades humanas, devem abrigar atividades que valorizem o relacionamento dos participantes com os elementos naturais, de modo a criar neles um compromisso com os lugares e culturas visitados. A aposta metodolgica deste estudo foi o potencial transformador das vivncias das pessoas entre si e com o meio, atravs do contato dirigido e intensificado com a natureza. Foram criadas estratgias que promovem experincias pessoais e coletivas atravs da exposio a limites pessoais, medos, inseguranas, sucessos e a atuao em equipe (pressupondo confiana, solidariedade e afeto), cuidando-se para que as atividades no percam o carter ldico. Valorizou-se o olhar menos analtico e mais subjetivo sobre a realidade. A percepo da paisagem derivada de fatores educacionais e culturais e fatores emotivos, afetivos e sensitivos, sendo estes ltimos oriundos das relaes que o observador mantm com o ambiente. A interpretao da paisagem est sob controle direto da maneira como cada um enxerga o mundo a partir de sua histria pessoal, experincias prvias e expectativas, mas a experincia vivida pode ajudar a construir um novo conhecimento (Ferreira & Coutinho, 2000). Assim, os participan tes foram levados a trabalhar a sensibiliza o, a emotividade e a intuio. As atividades no estavam ligadas ao raciocnio, mas sim a aspectos emocionais. O contedo formal s era transmitido medida que se prestava a aumentar o deslumbramento diante do local, como, por exemplo, saber que aquele vale imenso que se avista do alto foi cavado pelas guas do pequeno riacho l embaixo, ou que as estalactites que se observam nas cavernas levam o tempo de uma vida humana para crescer apenas uns poucos centmetros (Faria & Garcia, 2002). Quaranta-Gonalves et al (2006) recomendam a realizao de atividades de sensibilizao no percurso de uma trilha, tais como pedir para que as pessoas, em silncio e de olhos fechados, prestem ateno aos sons, odores, vento e outras sensaes, alm de valorizar a orientao das pessoas por outros sentidos que no a viso, como, por exemplo, o uso do tato para melhor se perceber detalhes e caractersticas de plantas. Apesar da pequena quantidade de estudos empricos que forneam fundao para programas similares, Bolsho et. al. (1990) apontam que possvel promover o comportamento pr-ambiente atravs de experincias diretas com a natureza que utilizem todos os sentidos. A educao, a percepo e o ldico devem ser utilizados para possibilitar a expanso de uma conscincia conservacionista atravs, sempre, do envolvimento afetivo das pessoas com a natureza e

PAGE 63

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 61 as culturas locais, numa tentativa de apropriao deste novo territrio como sendo o seu. A transformao de espaos em lugares (os seres humanos re-valorizando os espaos ao atribuirem percepes e significados, tornando-os lugares com simbologia prpria), como discute Tuan (1983), estimulada e o PETAR tem atrativos facilitadores que auxiliam essa transformao. De modo a propiciar aos participantes vivncias com situaes que envolvem medo, fascnio, insegurana e limitao com relao s obras da natureza, os participantes foram conduzidos por trilhas e cavernas onde ficaram expostos a “obstculos” com os quais no esto acostumados em seu cotidiano. O prprio ambiente das cavernas se lhes apresenta como “estranho”, “desconhecido” e, em alguns casos, at mesmo “inexpugnvel”. O mesmo vale dizer para a floresta, que para a maioria dos participantes das viagens, tambm carrega uma grande quantidade de significados misteriosos e desafiadores. H um grande potencial de induo ao estado contemplativo pela imagem paisagstica e a magia associada aos momentos de intensa interatividade com o meio, elementos que esto associados ao fenmeno perceptivo do am biente, e que geram lembranas e a nostalgia do significado do seu vislumbre (Marin et al ., 2003). Assim, ao longo de dois dias so convidados a atravessar galerias estreitas nas cavernas, percorrer trechos de rios subterrneos com gua “at o pescoo”, deitar-se sobre o cho da caverna para realizar atividade de relaxamento, equilibrar-se sobre pedras escorregadias de desmoronamentos, andar em silncio pela mata, comer comida feita no fogo lenha, ouvir histrias da comunidade, brincar com os colegas e ajud-los nas suas dificuldades, suportar diferenas e respeitar opinies, ajustar ritmos, e abrir mo de “conforto suprfluo”, substituindo-o pela hospitalidade das comunidades locais. Quanto maiores so as diferenas existentes entre o ambiente visitado e o do cotidiano do indivduo, maiores so os contrastes encontrados e, portanto, mais instigante s os questionamentos. A retirada do cotidiano propicia ao cidado a possibilidade de, no contato direto com novas realidades, repensar o seu prprio modo de vida, analisando a sua qualidade e re-elaborando seus valores e conceitos. Quando esto em contato com a Natureza, os muitos caminhantes enfrentam diferentes nveis de dificuldade, surpreendem-se com diversos fenmenos, compartilham sentimentos semelhantes. Confirmam sua prpria existncia pela percepo simultnea e comunicao com o outro. Os sentimentos de complementaridade, as posturas de solidariedade costumam brotar espontaneamente nessas excurses. H um enorme prazer em poder auxiliar o outro, ajudar a carregar, expressar o que sabe e o que sente, dar a mo para ajudar a subir ou a descer, compartilhar as mesmas emoes, reconhecer a alegria de estar junto quela companhia (Mendona & Neiman, 2003). Os guias que acompanham as atividades foram orientados para ajudar o mnimo possvel a superao das dificuldades individuais, proporcionando assim, indiretamente, o surgimento do esprito cooperativo dos demais participantes, numa clara tentativa de estimular o exerccio do altrusmo. Compartilhar a experincia com um outro pode funcionar como um amplificador do impacto da emoo da estada. A comunicao e a transferncia de emoes sociais positivas com o ambiente natural podem cont ribuir para emergncia de uma maior afinidade emocional (Kals et al ., 1999). Por isso, nas caminhadas por trilhas e cavernas, estimulou-se ao mximo a cordialidade e solidariedade entre o grupo. Todas as informaes foram passadas aos poucos, na medida em que a caverna apresentava seus mistrios, despertando, invariavelmente, a curiosidade do viajante. Tomando o cuidado de no priorizar o contedo, nem valorizar apenas a quantidade de informa es transmitidas, foram abordados tambm conce itos sobre o porqu da diversidade da Mata Atlntica, suas espcies ameaadas de extino, qual a importncia da mata para as cavernas, o que significa a rea natural do PETAR para a comunidade local dentre outros. Se, na ansiedade de conhecer o maior nmero de cavernas possvel num curto espao de tempo, fosse repetido o ritmo urbano e frentico, estar-se-ia na verdade, desperdiando o precioso tempo de contato com a natureza. Para no correr este risco, foi planejada uma seqncia de atividades, dosada de modo que cada um possa "construir" sua prpria caverna. Isto significa ter tempo para observar e contemplar. Aps intenso trabalho de estudo, realizado ao longo dos anos, desde 1991, sobre sua eficincia e garantia de segurana, algumas atividades foram especialmente criadas, planejadas e executadas para mexer com os sentidos, os sentimentos e as emoes. So intervenes que procuram intensificar as percepes que os indivduos j vem experimentando ao longo da visita, uma vez que o simples ato de conhecer no goza de fora

PAGE 64

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 62 transformadora suficiente, talvez com raras excees. Na primeira caverna visitada (Santana), ainda a escurido e a novidade trazem de incio a insegurana. Pouco a pouco, porm, os fachos de luz das lanternas comeam a passear e os olhos a observar a beleza que se apresenta por todos os lados. De qualquer ngulo que se ilumine, do cho ao teto, surgem detalhes a serem investigados. As inmeras formas dos espeleotemas, as passagens estreitas ou o alto teto de um salo da caverna, tudo desperta a vontade de explorar e conhecer. Com a curiosidade j aguada, as perguntas vm de maneira natural, antes de qualquer explanao. O grupo convidado ento a tentar imaginar como se deram os processos geolgicos que geraram aquelas formas. J bem distantes da luz da entrada, experimentam, em seguida, a escurido pela primeira vez. Como a maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de estar imersa num escuro to intenso como o de uma caverna, o grupo se acomoda pelo cho e apaga-se a luz. A voz do guia mantm ainda algum contato com a realidade anterior, e o grupo levado a imaginar, por exemplo, como seria a vida dos pequenos animais do fundo da caverna e como encontrava esta caverna antes de sua ruidosa e iluminada chegada. Um trabalho delicado que exige certa dose de sensibilidade fazer com que pessoas, s vezes extremamente urbanas, se sintam vontade num ambiente mido, escuro e totalmente desconhecido. Discute-se, ainda com a luz apagada, se houve algum tipo de desconforto em relao escurido e porque. O que significa o medo? (Faria & Garcia, 2002). D-se continuidade s visitas a outras duas cavernas (Morro Preto e Couto), onde um trabalho de percepo e relaxamento sempre realizado com um pequeno nmero de pessoas por grupo (de dez a doze, no mximo). Deste modo, os participantes criam um vnculo maior entre eles e com a prpria caverna. Sem nunca estimular um clima de competio dentro do grupo, os obstculos que se interpem, pedras ou desnveis, so superados em conjunto. O sentimento de perplexidade diante das riquezas das cavernas do PETAR acompanha a todos. Ao se apagar a luz mais uma vez, agora na Caverna do Morro Preto, imediatamente os outros sentidos so despertados. Agua-se o olfato, ouve-se uma gota caindo ao longe, percebe-se a alta umidade do ar. hora dos participantes tomarem contato com seus medos mais primais. No aqueles que fazem parte de seu cotidiano e so fabricados pelo ritmo urbano (ser assaltado, perder o emprego, chegar atrasado), mas o medo da desorientao, de estar sozinho sem o grupo, ou apenas um medo inexplicvel. Percebem ento, como diante do nada ou da escurido completa de uma caverna so capazes de abrir espao para reflexo. nesse clima de envolvimento que os guias conduzem atividades de relaxamento, com utilizao de msicas e narrao de histrias. Intercalando as cavernas, so percorridas trilhas na Mata Atlntica, e beira das guas transparentes do Rio Bethary, feita pausa para o lanche. Um banho de cachoeira ajuda os participantes a recuperarem as foras para continuar a viagem trajetria. Na caverna seguinte (Couto) proposta uma atividade: andar alguns passos no escuro. O local, escolhido previamente, plano e sem desnveis, onde h uma parede latera l que serve de guia. O trajeto simples e quase sem obstculos, mas cada metro vencido parece quilmetros, diante da dificuldade de locomoo sem o auxlio da viso. Aqui, os laos de solidariedade entre o grupo so postos prova, mais do que em qualquer momento. A situao exige que as p essoas se auxiliem, dem as mos e tentem explicar o caminho umas as outras. No ltimo dia de visita ao PETAR, o grupo convidado a atravessar a caverna Alambari de Baixo, que oferece as maiores dificuldades em termos de obstculos. No entanto, com a unio adquirida pelo grupo no dia anterior, a tarefa tornase bem mais simples. Num amplo salo da caverna, antes de sada, realizada, mais uma vez no escuro total, uma atividade de uso do tato para percepo de folhas e pedras levadas pelo guia. Para finalizar fazse tambm uma ltima pausa para despedida simblica da caverna, onde cada participante convidado a refletir sobre o significado pessoal daquelas vivncias intensas e diretas com a natureza. No trecho final, ainda dentro da caverna, o grupo acompanha o leito de um rio, com a gua aproximadamente na altura do peito, s vezes um pouco mais funda, dependendo das condies de chuva da poca. O teto e as paredes da caverna vo se fechando em forma de tnel at que se alcana sua sada, estreita e encravada metros acima. Em relatos espontneos, muitos viajantes j descreveram esta hora como sendo, para eles, um “renascimento”. Resumidamente, pode-se dizer que apagar a luz nas cavernas e permanecer em silncio por alguns minutos, caminhar por alguns metros totalmente no escuro, tomar banho de rios e cachoeiras, tentar ouvir pssaros que cantam na mata, so exemplos da s atividades que foram realizadas nessas viagens.

PAGE 65

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 63 Ao considerarmos estes enfoques, estas atividades tornam-se uma experincia de possibilidades de movimentos externos e internos, de exploraes objetivas e subjetivas, de sensaes e experincias cognitivas e afetivas suficientemente capazes de proporcionar a busca de novas situaes onde respeito Natureza, a si e ao outro, com a observncia de valores relativos cooperao, companheirismo, solicitudes, limitaes e especialidades, disposio proativa, convivncia com as diferenas pessoais, constituem-se em marcas e exerccios constantes durante todas as sries de atividades ao longo de seu percurso (Guimares, 2006: 6). Em todas as cavernas as atividades realizadas treinam a percepo e f azem as pessoas, aos poucos, sentirem-se parte daquele ambiente, a princpio to estranho. No foi raro ficarem to vontade a ponto de dormirem durante a atividade de relaxamento feita no salo da caverna Morro Preto, esquecendo o frio, o cansao e a insegurana. Enfim, o intuito das viagens foi no se limitar apenas a admirar as belas paisagens da mata e os cenrios exticos de dentro da caverna. A inteno foi gerar desconforto, no no sentido fsico (que inevitvel), mas somente no de provocar reflexes mais profundas sobre o modo de vida de cada um. As viagens, normalmente, tiveram a durao de dois dias onde, atravs de uma imerso no ambiente visitado, os participantes puderam conhecer pessoas e lugares novos e inusitados. Foram estimulados a perceber, a cada momento, todas as possibilidades de enriquecimento pessoal desse contato direto com culturas to dspares. Na verdade o que se objetivou foi a formao de um cidado capaz de perceber que existem muitos modos diferentes de se viver e que o seu no obrigatoriamente a melhor, mas apenas mais um. Aps dois dias de contato direto com as formaes naturais do PETAR, os grupos foram levados para conhecer, no Parque Estadual de Jacupiranga – SP, a Caverna do Diabo, transformada pelo ser humano, iluminada e com escadas de cimento construdas para facilitar o turismo de massa. Essa uma etapa crucial no processo de sensibilizao e sua incluso no roteiro mais um dos resultados obtidos pelo processo da observao participante. Constatou-se ao longo do tempo e aps diversas experimentaes de atividades, que esta caverna tinha uma fora muito grande em gerar reflexes, pois, ao se deparem com as alteraes e, provocados a discutir sobre o que sentiram ali em comparao com o que sentiram nas cavernas “selvagens” do PETAR, invariavelmente mostraramse indignados. Argumentam, diante das transformaes, que aquilo “no mais uma caverna”, outro espao. Aproveitando dessa indignao, realizaramse, ainda no interior da Caverna do Diabo, discusses a respeito da transformao que o ser humano provoca no meio ambiente, do distanciamento que existe entre eles e a natureza a partir do que sentiram de diferente entre as duas experincias. A proximidade com que vivenciaram as cavernas do PETAR, (onde rastejaram, se molharam, se sujaram, sentiram), na Caverna do Diabo se torna impossvel: o corrimo das passarelas delimita claramente o espao “domesticado” e, portanto, humanizado, do espao “agressivo” e “perigoso” (mesmo que fascinante) da natureza bruta. Esse afloramento do sentimento de revolta diante da “domesticao” da caverna lhes deu conscincia do que toda humanidade tem vivenciado: quebrou-se o vnculo ser humano com a natureza. Essa dicotomia lhes faz mal e contribui com a gerao dos problemas ambientais, uma vez que, ao no se conhecer, no se estar prximo (aquele no mais seu territrio), no se ter apego, o relacionamento afetivo com a natureza e pelo ambiente em que se vive fica comprometido. Na verdade no havendo uma proximidade, no h preocupao em se preservar. A Caverna do Diabo serviu para eles como “metfora” do desequilbrio existente na relao do ser humano com o ambiente. Um estudo realizado por Fazio & Zanna (1981, apud Uzzell, 2004) descobriu que mesmo uma Educao Ambiental que aposte na realizao de atividades prticas diretas do tipo "mo-namassa" para trabalhar conhecimentos, no produz mudanas duradouras nas atitudes ou valores ambientais das crianas. As crianas, neste estudo, foram transportadas, durante uma semana, de um ambiente urbano muito familiar no qual elas viviam, para um meio ambiente rural muito incomum, no qual elas experenciaram cincia. Mas os resultados constatam que, aps 6 semanas, as crianas estavam menos preocupadas com o meio ambiente do que antes da interveno da Educao Ambiental, pois o mundo que pensavam como sendo real e familiar tornou-se abstrato e no-familiar e elas no podiam relacionar o contedo cientfico de suas lies ao mundo social que normalmente habitam. Para evitar o mesmo erro, e com o objetivo de se realizar uma transposio do debate realizado na Caverna do Diabo com o mundo "real" onde vivem os participantes da viagem, foram apresentadas algumas possibilidades de ocupao mais racional desses espaos e do ambiente.

PAGE 66

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 64 Tais discusses serviram como “avaliao” da metodologia aplicada, uma vez que se espera depoimentos que revelem as transformaes de comportamentos eliciadas. Aps todos esses 16 anos de re-elaborao das atividades desenvolvidas atravs da metodologia da observao participante, chegou-se ao ponto no qual cada testemunho e depoimento pode ser “previsto”, em sua essncia, antes mesmo de ser emitido. A hiptese do experimento (observao participante) no pode ser mais descartada: h um a lto grau de envolvimento dos participantes com a viagem, que transparece nas declaraes da grande ligao afetiva com o lugar visitado. O contato dirigido com a natureza fez aflorar alguns sentimentos encobertos pela cultura. Neiman (2007), atravs de um estudo controlado realizado nestas viagens, demonstrou claramente que as mesmas so muito eficientes para a transformao de valores e atitudes dos participantes, bem como na aquisio de novos conhecimentos, devido, principalmente, s experincias significativas de vida que nelas tiveram. Concluso Ao longo dos 16 anos em que foram realizadas as viagens (e os debates na atividade de fechamento) ficou cada vez mais evidente que a substituio das atividades centradas no raciocnio, na compreenso conceitual dos aspectos ambientais, por outras que estimularam as sensaes e emoes atingiam mais eficazmente os objetivos de sensibilizao e tornaram os depoimentos mais coerentes, previsveis e apaixonados. A sinceridade com que os comportamentos pr-ambiente foram aflorando, tanto durante como aps as viagens, refletem a fora que o contato intensificado com o meio natural possui para e lici-los. Os participantes gostam, cada vez com mais intensidade, do lugar visitado quanto mais intenso for o contato “fsico” e “psicolgico” com ele? As representaes sociais (culturais) de valorao da natureza ficam mais evidentes quanto mais prximos estamos das sensaes que ela nos provoca? Aps a observao sistemtica das transformaes pelas quais passam os participantes destas experincias nos faz acreditar em respostas positivas para cada uma dessas questes. As impresses dos participantes das viagens, recolhidas atravs de depoimentos em encontros informais, mesmo muito tempo depois das mesmas terem ocorrido, reafirmam o carter duradouro dessas transformaes. Vale ressaltar que, por fora da experincia, um nmero significativo de participantes resolveu aprofundar seus conhecimentos sobre as questes ambientais e muitos se tornaram profissionais da rea, conforme relatado e acompanhado tambm informalmente. Nas atividades dirigidas de contato com a natureza (sendo o Espeleoturismo uma das possibilidades de promov-las), os marcos afetivos, gerados pelo contato sensorial e emocional com as cavernas e outros elemen tos naturais, introduzem uma grande diferena do ponto de vista motivacional contribuindo para a transformao de valores a atitudes na direo pr-ambiente A Educao Ambiental atravs do Espeleoturismo pode contribuir significativamente para transformao de valores e atitudes individuais, desde que seja conduzida de modo profissional e os agentes eliciadores dos comportamentos pr-ambiente possam estar presentes. Referncias Bibliogrficas Bolscho, D., Eulefeld, G., Rost, J., & Seybold, H. 19 90. Environmental education in practice in the Federal Republic of Germany: An empirical study. International Journal of Science Education 12:133-146. Faria, M. O. & Garcia, E. B. 2002. Um sonho e um trabalho para a construo de outro futuro. In : Neiman, Z. 2002 (Org.). Meio Ambiente, Educao e Ecoturismo Manole, Barueri. Pp.109-133. Ferreira, L.F. & Coutinho, M.C.B. 2000. Educao am biental em estudos do Meio: a experincia da Bioma. In: Serrano, C. (Org.) A Educao pelas Pedras: Ecot urismo e Educao Ambiental. Chronos, So Paulo. pp.171-188. Guimares, S. T., 2006. Trilhas Interpretativas e Vi vncias na Natureza: reconhecendo e reencontrando nossos elos com a paisagem In : Anais do I Congresso Brasileiro de Planejamento e Manejo de Trilhas Rio de Janeiro. Kals, E.; Schumacher, D. & Montada, L. 1999. Emotiona l Affinity toward Nature as a Motivational Basis to Protect Nature. Environment and Behavior 31:178-202.

PAGE 67

Neiman & Rabinovici. Espeleoturismo e Educao Ambiental no PETAR-SP. Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 65 Marin, A. A. ; Oliveira, H. T. & Comar, M. V. 200 5. Percepo ambiental, imaginrio e prticas educativas Textos completos do III Encontro de Pesquisa em Educao Ambiental Ribeiro Preto, verso em CD-Room. Mendona, R. 2000. A experincia na natureza segundo Joseph Cornell. In : Serrano, C. (Org.). A educao pelas pedras: Ecoturismo e Educao Ambiental. Chronos, So Paulo. pp. 135-154. Mendona, R., & Neiman. Z. 2003. sombra das rvores: transdisciplinaridade e educao ambiental em atividades extraclasse Chronos, So Paulo. Neiman, Z. 2007. A Educao Ambiental atravs do c ontato dirigido com a natureza So Paulo: USP, 2007. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia, Univ ersidade de So Paulo. XI, 138 p., 5 Anexos. Padua, S. M. 2001. Educao Ambiental e Participao Comunitria: chaves para a conservao da biodiversidade. In : Roure, M & Padua, S. (Orgs.). Empreendedores sociais em ao Cultura Editores, So Paulo. pp.183-201. Quaranta-Gonalves, M. L; Guimares S. T. L. & So ares, M. L. A.. 2006. Uma aplicao da fenomenologia de Merleau-Ponty e da geografia humanstica de Tuan a um trabalho educativo de percepo ambiental em trilhas Anais do I Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas UERJ, Rio de Janeiro. Tuan. Y. 1983. Espao e lugar: a perspectiva da experincia Difel, So Paulo. Uzzel, D. 2004. A psicologia ambiental como um a chave para mudar atit udes e aes para com a sustentabilidade. In : Tassara, E. T. O.; Rabinovich, E. P. & Guedes, M. C. (Orgs.). Psicologia e Ambiente Educ, So Paulo. pp. 363-388. Fluxo editorial : Recebido em: 27.03.2008 Enviado para avaliao em: 28.03.2008 Enviado para correo aos autores em: 02.04.2008 Aprovado em: 21.04.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Esta pesquisa fruto coletivo dos profissionais que trabalharam no Instituto Physis entre 1991 e 2006, principalmente de seus Diretores (Ana Paula Lolato Secco, Andra Rabinov ici, Marcelo Oliveira de Fa ria, Maria Emerenciana Raia, Maria India Bonduki e Zysman Neiman) e Educadores Ambientais, bem como todas as pessoas que participaram das atividades aqui descritas, cabendo meno especial aos monitores ambientais do entorno do PETAR. 2 Doutor em Psicologia (Ed ucao Ambiental), Mestre em Psicologia (Ecologia Comportamental) e Bacharel em Cincias Biolgicas (todos pela USP), Professor Adjunto da Universidade Federal de So Carlos Campus Sorocaba, Pesquisador do Laboratrio de Ecoturismo, Percepo e Educao Ambiental (LEPEA-UFSC ar) e Diretor-Presidente do Instituto Physis Cultura & Ambiente. 3 Doutoranda em Ambiente e Sociedade (NEPAM-UNICA MP), Mestre em Cincia Ambiental (PROCAM-USP) e Bacharel em Cincias Sociais com n fase em Antropologia (UNICAMP), Professora Assistente da Universidade Federal de So Carlos Campus Sorocaba, Pesquisador do Laboratrio de Ecoturismo, Percepo e Educao Ambiental (LEPEA-UFSCar) e Diretora de Projetos do Instituto Physis Cultura & Ambiente.

PAGE 68

Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008.

PAGE 69

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 67 ECOTURISMO E PERCEP O DE IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS SOB A "TICA DOS TURISTAS NO PARQ UE ESTADUAL TURSTICO DO ALTO RIBEIRA – PETAR ECOTOURISM AND THE PERCEPTION OF SOCI O-ENVIRONMENTAL IMPACTS FROM THE POINT OF VIEW OF TOURISTS IN THE STATE TOURISTIC PARK OF THE UPPER RIBEIRA RIVER – PETAR Heros Augusto Santos Lobo1 Programa de Ps-Graduao em Geocincias e Me io Ambiente – IGCE/UNESP, Rio Claro, SP. heroslobo@hotmail.com Resumo O presente trabalho apresenta os principais resulta dos de uma pesquisa feita no PETAR, no ncleo Santana de visitao, e no Bairro da Serra, comunidade refer ncia para o Parque localizada em Iporanga, SP. O objetivo do estudo foi detectar as percepes dos turist as quanto aos impactos socioambientais gerados pelo turismo nos atrativos do Parque e na comunidade recept ora. Para tanto, foram feitas pesquisas bibliogrficas e entrevistas em campo com 63 turistas, tendo por base um formulrio com cinco questes abertas. Os resultados foram agrupados e analisados em funo de duas variveis selecionadas: idade e grau de escolaridade. A maioria dos entrevistados possui nvel s uperior completo, em uma faixa etria entre 15 e 34 anos. Na viso dos turistas, os imp actos gerados nos atrativos do parque predominantemente negativo, e na comunidade, positivo. Das concluses obtidas, ressalta-se a hiptese de que a capacidade de carga fsica e psicolgica, aliada ao respeito comunidade local e compreenso das necessidades dos visitantes e visitados so fatores fundamentais para a sustentab ilidade do ecoturismo no PETAR e para a ampliao dos benefcios diretos para a com unidade do Bairro da Serra. Palavras-Chave: Ecoturismo; Impactos Ambientais; Per cepo Ambiental; Turismo em Cavernas. Abstract This paper presents the main results of a research project conducted in the Santana Nucleus of State Touristic Park of the Upper Ribeira River, in the commun ity of the Bairro da Serra, located in Iporanga, SP. The objective was the detection of the beliefs of touris ts about the socio-environmental impacts on the sites in the park and the receiving community generated by t ourism. Bibliographical studies and field interviews with 63 tourists based on a form with five open questions were used. The results and final analysis considered the age and education of th e tourists. Most of them had a univers ity education, and ranged in age from 15 to 34. For these tourists, the impacts of t ourism would be negative for the park, but positive for the community. The conclusions include the hypothesis t hat the physical and psychological carrying capacity, as well as respect for the local community and an underst anding of the needs of the visitors and hosts are fundamental for the sustainability of ecotourism in PETAR and an increase in direct benefits for the community of the Bairro da Serra. Key-Words: Speleotourism; Tourism in Caves; Envir onmental Impacts; Environmental Awareness. Introduo Os recursos naturais esto entre as mais tradicionais ofertas de atratividade turstica em todo o mundo. A natureza, revalorizada pelo romantismo, tornou-se um produto cobiado para as possibilidades de fuga do cotidiano agitado dos grandes centros urbanos. Concomitante a este processo, as reas naturais protegidas vm se destacando como uma importante ferramenta estratgica de conciliao de interesses diversos, que vo da conservao de fragmentos representativos dos recursos naturais – na maioria das vezes sua principal funo – ao uso antrpico classificado como sustentvel, onde se insere o ecoturismo. No Brasil, tais reas so representadas pelas inmeras Unidades de Conservao – UC – da natureza, que possuem suas diretrizes de uso regidas pela Lei n. 9985 de 18 de julho de 2000 o sistema Nacional de Unidades de Conservao – SNUC. A criao do SNUC apenas legitimou de forma integral as reas naturais protegidas em mbito nacional, j que a criao de muitas delas ocorreu em data anterior sua promulgao.

PAGE 70

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 68 Dentre estas UCs, destaca-se no presente estudo o Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira – PETAR –, rea natural protegida de domnio pblico estadual, criada em 1958. Com 35.712 hectares, o PETAR protege parcelas representativas da Floresta Atlntica, alm de uma infinidade de formas crsticas, com especial destaque para as mais de trezentas cavernas j registradas. Localiza-se no Vale do Ribeira, Estado de So Paulo, possuindo quatro ncleos de visitao turstica: Santana, Ouro Grosso e Casa de Pedra em Iporanga; Caboclos em Apia (Figura1). Na atualidade, o ecoturismo est entre as mais relevantes fontes de gerao de emprego e renda para as comunidades no entorno do Parque, em especial para o Bairro da Serra, municpio de Iporanga. Todavia, a falta de um plano de manejo nas cavernas – seu principal atrativo – ainda prejudica a realizao da atividade2, pela ausncia de uma diretriz legal que d amparo s aes de uso sustentvel do patrimnio na tural da UC. Em funo disso, o risco de ampliao dos impactos ambientais negativos da atividade se amplia – um nus inconveniente sob a tica conservacionista, mas que vem agregado aos benefcios gerados pelo turismo para a populao local. Por estas e outras questes, o PETAR tem sido constante alvo de estudos que abordam, sob diferentes ngulos, o ecoturismo em sua relao com o ambiente e com a sociedade. Em tempos mais recentes, destacam-se os estudos de Scaleante (2003), que identificou os impactos ambientais gerados pelo ecoturismo na Caverna de Santana. Sua pesquisa concluiu que os reatores de carbureto eram danosos ao ambiente, por causarem alteraes na temperatura e nas taxa s de gs carbnico em diversos trechos da caverna. A mesma caverna foi alvo de outros estudos posteriores, buscando identificar a sua capacidade de carga turstica (Lobo, 2005) de forma a diminuir os impactos ambientais da visitao e assegurar uma experincia mais significativa aos turistas por meio da diminuio dos encontros entre grupos em seu interior. Recentemente, outro estudo significativo foi realizado na Caverna de Sa ntana, sob os nveis de concentrao de Radnio222 – um gs radioativo cancergeno – em seu ambiente (Alberigui & Pecequilo, 2007). As autoras concluram que os nveis de concentrao identificados esto abaixo dos limites mundialmente aceitveis, no apresentando riscos para os turistas e monitores ambientais. Alm disso, Castro (2004) traz uma importante contribuio ao manejo da Unidade de Conservao, ao estabelecer limites de capacidade de carga para a trilha da Casa de Pedra e apresentar parmetros e diretrizes para um estudo semelhante para a trilha do Rio Betari. Figura 1 – Limites do PETAR e seus respectivos ncleos de visitao.

PAGE 71

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 69 Quanto s questes soci oculturais e polticas, destacam-se trs trabalhos no presente estudo. O primeiro deles, realizado por Figueiredo (2000), identificou a trajetria das polticas pblicas de preservao e desenvolvimento implantadas em Iporanga/SP. O autor verificou que uma viso negativa foi atribuda proteo ambiental pela comunidade local, por fatores como a descontinuidade poltica e pelas restries s atividades tradicionais de subsistncia. Por sua vez, Piva (2003) analisou a per cepo de diversos grupos de atores sociais quanto aos impactos no Parque. O autor ressaltou aspectos positivos, como a beleza cnica e a organizao do turismo, e alertou para aspectos importantes, como a visitao irregular que ocorre em cavernas fechadas ao uso pblico, o aumento dos riscos exposio da comunidade local s doenas sexualmente tran smissveis e s drogas e os conflitos entre espelelogos3 e monitores ambientais locais. Estes ltimos tambm foram abordados no trabalho de Neiman (2007), que ressalta o seu papel em fazer os turistas perceberem melhor o ambiente visitado, e no simplesmente conduzi-los a contempl-lo. O autor defende que esta atitude pode modificar o comportamento dos turistas, canalizando a sua postura ps-visitao para a construo de atitudes a favor da conservao ambiental. Considerando os diversos estudos j realizados anteriormente citados, apresenta-se neste trabalho uma breve e sinttica reviso sobre a percepo dos turistas quanto a alguns dos impactos causados pelo ecoturismo nas cavernas e trilhas do PETAR, bem como na comunidade do Bairro da Serra. A pesquisa exploratria se iniciou em 2003, incluindo levantamentos bibliogrficos sobre os temas envolvidos, como foco maior na percepo de impactos e no ecoturismo em Unidades de Conservao, bem como entrevistas com turistas que visitavam o Parque, estruturadas por um roteiro composto por cinco questes abertas. Os dados obtidos foram revistos e a discusso foi atualizada em 2007. O objetivo central do trabalho foi compreender as percepes relativas de impactos ambientais negativos e positivos que os turistas subtraem de sua experincia de visitao, tanto no PETAR quanto no Bairro da Serra. Mtodos e etapas da pesquisa As pesquisas de campo foram realizadas por meio de um survey. Este foi selecionado pelas suas caractersticas e objetividade, com o propsito de se produzir estatsticas sobre alguns aspectos da populao estudada com informaes coletadas por entrevista direta, usando para tal uma amostra da populao. Para tanto, desenvolveu-se um roteiro de entrevistas com questes se mi-estruturadas, onde as perguntas eram padronizadas, de modo a deixar as respostas a critrio do entrevistado, ou seja, com seu prprio discurso (Alencar & Gomes, 2001). Considerando que as questes no foram formuladas para testar nenhuma hiptese, mas sim, oferecer um panorama inicial do tema abordado, a pesquisa pode ser classificada como exploratria (Gil, 1997). No houve uma preocupao com a representatividade estatstica da amostra, por se tratar de uma pesquisa utilizada para a elucidao inicial de uma questo e para a formulao de hipteses para a continuidade do tema, bem como em funo da abordage m eminentemente qualitativa adotada. Os indivduos entrevistados eram escolhidos ao acaso no Bairro da Serra e no ncleo Santana do parque, ficando os questionrios disponveis para todos os interessados em respondlo. Tais localidades foram selecionadas por serem, respectivamente, a comunidade-alvo do estudo e o Ncleo com visitao mais expressiva na UC. A pesquisa foi realizada em Outubro de 2003, quando ento foram disponibilizados oitenta questionrios, dos quais 63 foram preenchidos. Destes, cinco foram desprezados por no oferecerem dados suficientes e/ou legveis. Terminada a fase de coleta de dados, as respostas de cada pergunta foram agrupadas por aproximao dos termos utilizados, visto que as questes eram abertas, criando-se assim as diversas alternativas que possibilitam o tratamento estatstico. Dado o fato de as respostas serem livres, para cada questo permitiu-se identificar mais de uma alternativa, devido abrangncia de algumas colocaes. Os resultados foram analisados de duas formas. Uma primeira anlise quantitativa foi feita sobre cada questo, identificando as opinies predominantes na amostra considerada. Posteriormente, os dados foram cruzados entre si, identificando agrupamentos entre as opinies e seus principais estratos de anlise em funo de uma varivel pr-selecionada. O conjunto de resultados obtidos foi confrontado com trabalhos anteriores realizados na regio e/ou sobre os temas abordados, gerando discusses sobre o ecoturismo, seus impactos ambientais e suas implicaes populao local envolvida. Resultados Considerando o foco conferido ao presente artigo, sero apresentados os resultados de trs das

PAGE 72

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 70 cinco questes formuladas, alm das variveis de controle dos estratos da pesquisa: idade e grau de escolaridade. A primeira das questes foi utilizada como um balizador sobre o pensamento dos turistas quanto atividade que praticavam no PETAR em sua visita. Assim, lhes foi questionado qual o seu entendimento sobre ecoturismo (Figura 2). O ecoturismo associado por 56% dos entrevistados com a natureza, com carregado iderio de preservao, considerando as alternativas construdas. A importncia da comunidade receptora aparece em segundo lugar na pauta das importncias relativas dos turistas, sendo apontada por 25% dos entrevistados, dentre os quais 17% foram demasiadamente enfticos quanto as possibilidades de gerao de emprego e renda advindos do turismo. A questo seguinte versou diretamente sobre a percepo dos impactos am bientais gerados pelo ecoturismo nos limites do PETAR (Figura 3). A maioria dos entrevistados, 68,5%, afirmou que o ecoturismo causa impactos ambientais no PETAR. As opinies se mostraram curiosamente carregadas de juzo de valo r, j que dentre aqueles que assinalaram pela existncia de impactos, ningum fez meno ao impacto positivo ao parque. Os 34,2% restantes, que afirmaram que o turismo no causa impactos ambientais no PETAR foram indistintamente condicionais em suas afirmaes, o que pode ser percebido na figura 3 pelas objees para a inexistncia de impactos. Figura 2 – Percepes dos turistas sobre o ecoturismo (Elaborado pelo autor) Figura 3 – Resposta questo sobre o ecoturismo causar impact os ambientais no PETAR e suas principais causas e fatores condicionantes (Elaborado pelo autor).

PAGE 73

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 71 A questo seguinte abordou os impactos ambientais do ecoturismo no Bairro da Serra (Tabela 1). A maioria dos entrevistados, 78%, percebe que o turismo gera benefcios para a comunidade local, destacando a gerao de emprego e renda (41%), a conscientizao ambiental de todos os envolvidos diretamente no turismo (12%) e a exposio a novos hbitos culturais (12%). Embora no tenha sido mencionado pelos turistas desta forma, este ltimo motivo tambm um dos responsveis pela gerao de um dos impactos ambientais negativos mencionados: o consumismo e a banalizao dos valores tradicionais em detrimento de um novo modo de vida, fator este percebido por iguais 12% dos entrevistados. Tabela 1 – Motivos que levam o ecoturismo a causar impactos positivos ou negativos na comunidade do Bairro da Serra OP'ES % NEGATIVO 22% Gera consumismo, deturpao moral e choque cultural na comunidade 12% O turismo degrada e polui 9% Gera individualismo nos monitores ambientais 1% POSITIVO 78% O turismo sustenta a comunidade/gera empregos 41% Fomenta a conscientizao ambient al dos visitantes e visitados 12% Turistas trazem culturas novas aos locais 12% Fomenta a preocupao com o bem-estar da comunidade 7% Por trazer capacitao populao local 5% TOTAL 100% Fonte: Elaborado pelo autor. Duas questes finais foram realizadas para auxiliar na compreenso da origem dos discursos coletados nas entrevistas: a faixa etria e o grau de escolaridade. Os resultados so representados, respectivamente, nas figuras 4 e 5. At 14 De 15 a 24 De 25 a 34 De 35 a 44 De 45 a 54 De 55 a 64 65 ou mai s 2% 37% 37% 17% 4% 4% 0% 0% 15% 30% 45% % DA AMOSTR A IDADE (ANOS) Figura 4 – Faixa etria dos entrevistados (Elaborado pelo autor)

PAGE 74

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 72 4% 13% 23% 52% 8%0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% Ensino mdio incompleto Ensino mdio completo Ensino superior Incompleto Ensino superior Completo Ps-graduao Figura 5 – Grau de escolaridade dos entrevistados (Elaborado pelo autor). Sobre o perfil dos entrevistados, a maioria situa-se na faixa etria entre 15 e 34 anos (74%), com ensino superior completo ou em concluso (75%). Quatro entrevistados no mencionaram a idade, e seis, a escolaridade. Discusso e concluses O PETAR, uma importante Unidade de Conservao, seja pela sua caracterstica mpar de acumular numa pequena rea um grande nmero de cavernas, seja pela diversidade e importncia ecolgica dos ecossistemas que protege, ainda sofre com o descaso e os abusos da visitao turstica e com o mau uso dos recursos naturais. Nesse sentido, a opinio dos turistas deve ser utilizada apenas como um balizador do processo de manejo e gesto do turismo no Parque e na regio, j que sua percepo varia em funo de suas convices e de sua formao pessoal. Os dados apresentados demonstram a perspectiva altamente relativa dos turistas, que acreditam que o turismo gera mais impactos negativos no ambiente (68,5%) do que na populao local (22%). De fato, os impactos ambientais negativos no ambiente so demasiadamente amplos, se estendendo sobre diversas dimenses do meio bitico e abitico. Beni (2002) pontua as alteraes que podem ocorrer nos hbitos alimentares e reprodutivos de espcies animais. Soldatelli (2005) acrescenta a compactao do solo, a exposio das razes das plantas ou at mesmo sua quebra proposital e a poluio: visual, das guas e do ar. Nas cavernas, Scaleante (2003) traz provas conclusivas sobre os impa ctos negativos do uso de reatores de carbureto. Lobo (2006) acrescenta que estes impactos se agravam em funo do comportamento e dos objetivos de visitao dos turistas, que podem estar buscando experincias mais contemplativas, espirituais ou participativas. Apesar de mencionarem a fragilidade do meio caverncola, nenhum dos turistas entrevistados abordou de forma direta aos limites de visitao dentro das cavernas. vlido ressaltar que as pesquisas foram realizadas em finais de semana e feriados prolongados, quando o volume de visitao no parque aumenta. Os estudos de Lobo (2005) mencionam a necessidade do controle da capacidade de carga das cavernas, utilizando a Caverna de Santana como exemplo. Mas parece que este aspecto no incomodou tanto os turistas, de forma que em seus discursos no foi comentado o excesso de pessoas simultaneamente dentro das cavernas. Isto sugere a necessidade de novas pesquisas nesse sentido, de forma a identificar em mbito mais profundo at que ponto o volume de visitantes interfere na experincia turstica e no aproveitamento do roteiro. Lck (2002) afirma que o grande volume de visitantes pode no ser necessariamente um problema para o ecoturismo, desde que hajam regras adequadas de conduta – apesar de lembrar que a maioria dos estudos atuais aponta o ecoturismo como sendo uma atividade inerentemente de baixa escala. Estas questes se tornam ainda mais instigantes ao se acrescentar discusso o trabalho de McCool & Lime (2001). Os autores criticam de forma rdua a capacidade de carga, reduzindo-a a um simples “nmero mgico”. Todavia, os mtodos mais atuais de manejo por meio da capacidade de carga colocam-na apenas como um dos procedimentos para estabelecer limites fsicos de visitao, sem, no entanto, dispensar os limites comportamentais (Arias et al., 1999). Bonilla & Bonilla (2007) comprovam a necessidade da insero da capacidade de carga psicolgica – o limite de tolerncia dos turistas quanto aos nveis de

PAGE 75

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 73 uso de um determinado roteiro ou destino – no planejamento turstico. Alm disso, na falta de alternativas mais completas, sempre preciso lembrar da incompatibilidade entre a visitao massificada e descontrolada com o espao confinado das cavernas, sua fragilidad e intrnseca e o iderio de conservao ambiental por meio do ecoturismo. No mbito socioeconmico e cultural, a pesquisa de campo revelou a falta de preocupao com as condies de vida dos moradores locais – apenas 3% das menes sobre melhorias estruturais na regio contemplaram as necessidades da comunidade. A maioria dos entrevistados mencionou a gerao de empregos e renda, que atingiu o ndice de 41% das colocaes relativas aos impactos positivos na com unidade. Embora se trate de um dado perceptivo, ele reflete a iluso que paira em diversas instncias dos atores envolvidos com o turismo sobre os seus benefcios, da esfera governamental iniciativa privada, passando por algumas organizaes no-governamentais. Tornando a questo ainda mais relativa, a situao da Comunidade da Serra no to ruim – sob o ponto de vista em questo – se comparada quelas dominadas pelos chamados “enclaves tursticos”, que muitas vezes isolam a comunidade local dos turistas e, com isso, diminuem as suas oportunidades de obter benefcios diretos com a atividade (Goodwin, 2002). Mas tambm no to positiva, dada a alta sazonalidade do mercado turstico, que no inverno tem o fluxo diminudo drasticamente na regio do PETAR. Com isso, novos questionamentos cabem sobre este tema: Quais os reais benefcios gerados para a comunidade pelo ecoturismo no Bairro da Serra? Qual a parcela da comunidade que recebe estes benefcios? Como as pessoas esto sendo preparadas para se adaptarem e planejar suas vidas em funo da sazonalidade turstica? Alm disso, a questo das trocas culturais extremamente ambgua, tendo sido citada como positiva e negativa pela mesma proporo dos entrevistados: 12% cada. Por um lado, surgem oportunidades de contatos com novos modos de vida e comportamento, socializando com os moradores de reas mais remotas os hbitos de consumo das grandes cidades. Por outro, parte destes costumes se traduz em mazelas sociais, como o aumento do consumo de drogas lcitas e ilcitas, da prostituio e do consumismo desenfreado. Estes fatores tambm foram detectados por pesquisas anteriores, sejam estas no PETAR (Piva, 2003), ou fora dele (e.g. Faulkner & Tideswell, 1997, em um estudo similar feito na Austrlia). As alteraes que ocorrem na comunidade receptora podem ser to drsticas a ponto de se desenvolver um novo modo de vida, hbrido da cultura considerada como tradicional com a cultura cosmopolita (Gr newald, 2003), da mesma forma que Banducci Jnior (2001) observou em alguns pontos do Pantanal Sul-Mato-Grossense. A percepo tambm se torna relativa em funo da faixa etria ou da escolaridade dos entrevistados. Pouco menos da metade do total de entrevistados possuem entre 15 e 34 anos (42,3%) e pouco mais de um quarto (27,1%) possui ensino superior completo sem ter ingressado ainda na psgraduao. Se ambas as faixas predominantes forem cruzadas – pessoas com idade entre 15 a 34 anos e que possuem ensino superior completo – o tamanho da amostra correspondente cai para 15,3% do total. Considerando ainda que o extrato “faixa etria” se divide em dois – de 15 a 24 anos e de 25 a 34 anos, percebe-se que a varivel mais importante que influi na percepo dos impactos ambientais negativos no PETAR a escolaridade, sendo os turistas que possuem o ensino superior completo sem psgraduao os detentores do nvel mais amplo de percepo mensurado. No caso dos impactos na comunidade receptora, a situao no se difere muito do que foi observado nos impactos ao PETAR, quanto aos estratos de idade e escolaridade. Predominam as mesmas faixas etrias – 15 aos 34 anos, com 32,8% da amostra – e nveis de escolaridade – ensino superior completo, com 25,9%. A amostra de variveis idade e escolaridade cruzadas demonstra que, diferente do caso anterior, o estrato de maior relevncia para a percepo dos impactos sociais a faixa etria, com predomnio dos entrevistados que possuem entre 25 e 34 anos. Estes dados acima refletem a diferena de percepes entre um mesmo grupo, seja dominado pela alta escolaridade no caso dos impactos no meio, seja dominado pela faixa etria no caso dos impactos sociais. O fato de que as mesmas faixas etrias e graus de escolaridade tenham aparecido em comparaes relativas de impactos positivos e negativos conforme o meio analisado sugere uma preferncia manifestada, ainda que inconsciente, de compactuar com as questes mais dogmticas do turismo: a contraposio entre a atividade que gera emprego e renda – o que visto como positivo e fomentado na maioria das polticas pblicas para o setor – com o iderio fragmentado de natureza intocada (Diegues, 1992), onde o ser humano isolado dos demais ser es vivos e considerado naturalmente danoso ao ambiente. Outro aspecto que consolida essa viso fragmentada e sectria de conservao da natureza aparece por meio das definies de ecoturismo dadas pelos entrevistados. Captando a essncia dos

PAGE 76

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 74 discursos coletados por meio dos termos empregados pelos entrevistados, pode-se dizer que o entendimento geral sobre o assunto est ligado preservao da natureza – o que por si s contraditrio, j que o termo preservao determina a impossibilidade do uso pblico pelo ecoturismo (Brasil, 2000). Trata-se tambm de um meio de sobrevivncia para as comunidades receptoras, visando seu bem estar atravs do investimento de parte das receitas geradas na prpria localidade, buscando a manuteno e a sustentabilidade do sistema receptivo. Para eles, o ecoturismo promove tambm o aprendizado, a conscientizao e a diverso dos envolvidos, atravs da integrao do homem com a natureza. Conclui-se tambm que os processos de conscientizao ambiental desenvolvidos no PETAR ainda no so totalmente eficientes, a ponto de esclarecer populao todos os aspectos negativos e positivos causados pela visitao turstica. A maior lacuna foi observada no tocante aos impactos socioeconmicos e culturais, rea onde ainda existe uma carncia de aes que esclaream sobre as limitaes dos benefcios que o turismo pode trazer e que eduquem os turistas quanto aos costumes e tradies locais. Pela vertente ambiental, o contato com uma rea natural protegida tambm subutilizado. A experinci a vivenciada poderia ser aproveitada para quebrar as barreiras psicolgicas e sociais existentes entre os objetivos de conservao, o uso sustentvel e o iderio dominante de preservao. Todavia, ao que se pode perceber, ainda dominam as experincias superficiais de contemplao e consumo visual da natureza, como j destacada por Moretti (2001), ou de interao dominante – muito forte sob o iderio de turismo de aventura (Spink et al., 2005). A grande oportunidade de transformao pessoal por meio do contato com a natureza, j lembrada e substancialmente ressaltada pelo estudo de Neiman (2007), continua sendo desperdiada. Isto permite concluir que, por mais que futuros limites numricos de visitao do PETAR sejam estipulados e, porventura, respeitados, a capacidade de carga do ambiente continuar sendo, de certa forma, desrespeitada. Ainda assim, percebe-se que as pessoas acreditam que possvel no sujeitar totalmente o ecoturismo ao modo de produo consumista, apesar dos diversos problemas identificados. Por fim, o presente estudo se encerra com a formulao de uma hiptese, para contribuir com futuras pesquisas: a perpetuao do ecoturismo no PETAR e a ampliao dos benefcios para o Bairro da Serra dependem, basica mente, da implantao dos limites de capacidade de carga fsica do ambiente e psicolgica dos envolvidos no turismo, do respeito cultura local e da compreenso das necessidades dos residentes e visitantes – necessariamente nesta ordem. Referncias Bibliogrficas Alberigui, S. & Pecequilo, B.R.S. 2007. Caves of Par que Estadual Turstico do A lto Ribeira (PETAR), SP, Brazil: a study of indoor radon le vels and impact of seazonal temperature and humidity. In: International Nuclear Atlantic Conference, Santos, Brazil. Proceedings 1-6. Alencar, E. & Gomes, M.A.O. 2001. Ecoturismo e planejamento social UFLA, Lavras. Arias, M.C., Mesquita, C.A.B., Mndez, J., Morales, M. E., Aguilar, N., Cancino, D., Gallo, M., Ramirez, C., Ribeiro, N., Sandoval, E. & Turcios, M. 1999. Capacidad de carga turstica de las reas de uso pblico del Monumento Nacional Guayabo, Costa Rica. CATIE/WWF, Turrialba. Banducci Jnior, . 2001. Turismo da pesca e suas contradies no Pantanal Mato-Grossense. In: Banducci Jnior, . & Moretti, E.C. (orgs.). Qual paraso? Turismo e ambiente em Bonito e no Pantanal. Chronos/UFMS, So Paulo. Beni, M.C. 2002. Anlise estrutural do turismo SENAC, So Paulo. Bonilla, J.M.L. & Bonilla, L.M.L. 2007. La capacidad de carga psicolgica del turista como indicador del turismo sostenible. Boletn econmico ICE 2911: 25-35. Brasil. 2000. Lei n. 9985 de 18 de julho de 2000. Sist ema nacional de unidades de conservao. Disponvel em http://www.presidencia.gov.br Acessado em 04 dez. 2005. Castro, C.E. 2004. O caminho entre a percepo, os impactos no so lo e as metodologias de manejo: o estudo de trilhas do Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira – SP. Londrina, UEL, 2004. Dissertao de Mestrado, Centro de Cincias Exatas, Universidade Estadual de Londrina.

PAGE 77

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 75 Diegues, A.C.S. 2000. O mito moderno da natureza intocada. So Paulo: Hucitec, So Paulo. Faulkner, B. & Tideswell, C. 1997. A framework for monitoring community impacts of tourism. Journal of sustainable tourism 5 (1): 3-28. Figueiredo, L.A.V. 2000. "O "meio ambiente" prejudicou a gente ...": polticas pblicas e representaes sociais de preservao e desenvolvimento; desvelando a pedagogia de um conflito no Vale do Ribeira. (Iporanga-SP) Campinas, Unicamp, 2000. Dissertao de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas. Gil, A.C. 1997. Como elaborar projetos de pesquisa Atlas, So Paulo. Goodwin, H. 2002. Local community involvement in tourism around National Parks: opportunities and constrains. Current issues in tourism 5 (3,4): 338-360. Grnewald, R.A. 2003. Turismo e etnicidade. Horizontes antropolgicos 9 (20): 141-159. Karmann, I. & Ferrari, J.A. 2002. Carste e cavernas do Parque Estadual Turstic o do Alto Ribeira (PETAR), SP. In: Winge, M. (ed.) Stios geolgicos e paleontolgicos do Brasil. DNPM, Braslia. Lobo, H.A.S 2004. A percepo dos impactos ambientais do ecotu rismo no Parque Esta dual Turstico do Alto Ribeira e nas comunidades de entorno. Lavras, UFLA, 2004. Monografia de Especializao, Universidade Federal de Lavras. Lobo, H.A.S. 2005. Consideraes preliminares para a reestruturao turstica da Caverna de Santana – PETAR, Iporanga, SP. In: Congresso Brasile iro de Espeleologia, 28, Campinas. Anais 77-87. Lobo, H.A.S. 2006. Caracterizao dos impactos ambientais negativos do espeleoturismo e suas possibilidades de manejo. In: Seminrio de Pes quisa em Turismo do Mercosul, 4, Caxias do Sul. Anais. 01-15. Lck, M. 2002. Large-scale ecotour ism – a contradiction on itself? Current issues in tourism 5 (3,4): 361370. McCool, S.F. & Lime, D.W. 2001. Tourism carryi ng capacity: tempting fantasy or useful reality? Journal of sustainable tourism 9 (5): 372-388. Moretti, E.C. 2001. Atividade turstica: produo e c onsumo do lugar Pantanal. In: Banducci Jnior, . & Moretti, E.C. (orgs.). Qual paraso? Turismo e ambiente em Bonito e no Pantanal. Chronos/UFMS, So Paulo. Neiman, Z. 2007. A educao ambiental atravs do contato dirigido com a natureza. So Paulo, USP, 2007. Tese de Doutorado, Instituto de Psic ologia, Universidade de So Paulo. Piva, E.B. 2003. Avaliao e tipificao dos impac tos do uso pblico nos ncleos Santana e Ouro Grosso – Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira PETAR (Apia – SP) So Carlos, UFSCAR, 2003. Monografia de Graduao, Universi dade Federal de So Carlos. Rasteiro, M.A. 2007. A problemtica da classificao de visitantes de cavernas em Unidades de Conservao. In: Congresso Brasileiro de Espeleologia, 29, Ouro Preto. Anais 239-250. Scaleante, J.A.B. 2003. Avaliao do impacto de ativi dades tursticas em cavernas. Campinas, UNICAMP, 2003. Dissertao de Mestrado, Instituto de Geoc incias, Universidade Estadual de Campinas. Spink, M.J.P., Aragaki, S.S. & Alves, M.P. 2005. Da exacerbao dos sentidos no encontro com a natureza: contrastando esportes radicais e turismo de aventura. Psicologia: reflexo e crtica 18 (1): 26-38. Soldateli, M. 2005. Impactos ambienta is negativos no contexto do turismo de natureza. In: Trigo, L.G.G., Panosso Neto, A., Carvalho, M.A. & Pires, P.S. (eds.) Anlises regionais e globais do turismo brasileiro. Roca, So Paulo.

PAGE 78

Lobo. Ecoturismo e percepo de impactos socioambientais sob a tica dos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 76 Fluxo editorial : Recebido em: 27.03.2008 Enviado para avaliao em: 27.03.2008 Aprovado em: 29.03.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Bacharel em Turismo (UAM). Especialista em Gesto e Manejo Ambiental em Sistemas Florestais (UFLA). Mestre em Geografia (UFMS). Doutorando em Geocincias e Meio Ambiente (UNESP). Bolsista da CAPES. 2 Prova disto o recente embargo feito pelo Instituto Brasile iro do Meio Ambiente – IBAMA – em maro de 2008, pela falta do Plano de Manejo. 3 O termo espelelogo aqui utilizado respeitando a forma apresentada pelo autor citado. Entretanto, preciso alertar que nem todos aqueles que se auto-denominam espelelogos possuem de fato uma relao tcnica ou cientfica com a espeleologia – cincia que estuda as cavernas e seus elementos, de um modo geral. Assim, seria mais conveniente adotar a classificao proposta por Ra steiro (2007), que coloca os espelel ogos esportistas e amadores como espelestas.

PAGE 79

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 77 INCLUSO SOCIAL DE PORTADORE S DE NECESSIDADES ESPECIAIS (PNEs) E A PRTICA DO TURISM O EM REAS NATURAIS: AVALIAO DE SEIS CAVIDADES TURSTICAS DO ESTADO DE SO PAULO SOCIAL INCLUSION OF INDIVIDUALS WITH ESPECIAL NEEDS AND TOURISM IN NATURAL AREAS: EVALUATION OF SIX TOURIST CAVITIES STATE OF SO PAULO rica Nunes (1, 2), Claudia Santos Luz (1 ), Daniela Tomochigue dos Anjos (1, 2), Aymor Cunha Gonalves (1), Luiz Afonso Vaz de Fi gueiredo (1) & Robson de Almeida Zampaulo (1) (1) Grupo de Estudos Ambienta is da Serra do Mar – GESMAR. (2) Universidade Metodista de So Paulo – UMESP. eriquinhanunes@yahoo.com.br Resumo Nos ltimos anos um pblico diferenc iado tem sido atrado pela prtica do turismo em reas naturais, como os Portadores de Necessidades Especiais (PNEs). No entanto, para os PNEs, at as atividades bsicas essenciais tornam-se um obstculo devido a ausncia de um design universal que os inclua como participantes da sociedade. O presente artigo pretende descrever a possibilidade de visitao por PNEs cadeirantes, indicar algumas necessidades de adaptaes em cinco cavidades naturais (Santana, Morro Preto, Alambari de Baixo e Chapu, no PETAR; Caverna do Di abo, no PEJ) e uma artificial (Gruta do Anjo, antiga rea de minerao grantica no municpio de Socorro) do Estado de So Paulo, destinadas ao turismo, com ou sem infra-estrutura. Em todas as reas estudadas possvel chegar de automvel at os centros de visitao, estradas asfaltadas e/ou de terra. Nenhuma cav idade adaptada visitao por PNEs. Entretanto, existe no Ncleo Caverna do Diabo-PEJ, infra-estru tura adequada como banheiros amplos, rampas, calamentos, arquitetura, o que no se repete no PETAR. Constatamos que a Gruta do Anjo a mais adequada visitao aos PNEs, pois possvel acessar ao seu interior com a cadeira de rodas por reas planas e de fcil acesso, a pousada local adequada para o uso de cadeirantes. Palavras-Chave: Ecoturismo; Cavernas; Incluso Social; Po rtadores de Necessidades Especiais; Infraestrutura. Abstract Recently individuals with special needs are being attrac ted to the practice of tourism in natural areas. Because of their difficulties in locomo tion, they need to use wheelchairs or other kinds of instruments. This article describes the possibilities for th e inclusion of such people in the visitation of five natural cavities in the state of So Paulo (the caves of Santana, Morro Preto, Alambari de Baixo, and Chapu in PETAR and the Devils Cave in the PEJ), as well as an artificial one (Anjos Cave in an old mining area in Socorro). It suggests how these places could be improved to facilitate visitation by such indi viduals. In all the areas studied, it is possible to drive a car up to the visito rs center, although some of the roads are not paved. None of the cavities has been adapted for the visitation of such people with special needs, although in the vicinity of the Devils Cave suitable structures such as large restrooms, ramps, and paved areas are available, which is not the case for PETAR. We have concl uded that Anjos cave is the most suitable of these six areas for visitation by such individuals, as it can be accessed by wheelchairs. There are level areas and access is not difficult. Near the Anjo s Cave, there are also local hotels with a suitable infrastructure for these special people. Key-Words: Speleotourism; Protected Areas; Social Incl usion; Person with Special Needs; Suitable Structures. Introduo Portadores de Necessidades Especiais e a Sociedade Realizar atividades bsicas e essenciais como estudar, trabalhar, fazer compras, ir ao mdico, ou de lazer como viajar, ir ao cinema, teatro, bares, restaurantes, parques parece tarefa extremamente simples para a maioria das pessoas. No entanto, para Portadores de Necessidades Especiais (PNEs) tudo se torna um obstculo devido ausncia de um design universal, que os inclua como participantes da sociedade.

PAGE 80

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 78 “ O Desenho Universal no uma tecnologia direcionada apenas aos que dela necessitam: para todas as pessoas. A idia do desenho universal evitar a necessidade de ambientes e produtos especiais para pessoas com deficincia, no sentido que todos possam utilizar todos os componentes do ambiente e todos os produtos”. (SASSAKI, 1997).As pessoas portadoras de necessidades especiais trazem em si uma variao populacional geral da espcie que pode ser gentica, da fase de crescimento, maturao e desenvolvimento, idade e tempo de durao do estmulo e do contexto scio-cultural (Ferreira, 2001). Na evoluo das relaes sociais tais pessoas j foram tratadas como invlidas, deficientes, excepcionais, PPNEs, PNEs (terminologia adotada no presente artigo) e no alvorecer do sculo XXI assumem a designao de Portadores com Deficincia PcD. Este termo passou a ser aceito aps debate mundial e utilizado no texto da Conveno sobre os Direitos das Pessoas com Deficincia da ONU. (Sassaki, 2007). No entanto, independente de terminol ogia adotada, atitudes preconceituosas e excludentes ainda no foram banidas da sociedade e o direito, destas pessoas, de real igualdade ainda no foi alcanado. Vivemos numa sociedade capitalista e excludente onde a informao escassa, o desinteresse e a inspida aceitao social das pessoas PNEs refletem em rejeio, preconceito, resignao e segregao social. No mercado de trabalho, muitas empresas tm por princpio no contratar pessoas com algum tipo de deficincia, subjugando sua capacidade produtiva e criativa, marginalizando-as do convvio social. No setor pblico tambm ocorre mesma situao. Quase no vemos pessoas deficientes assumindo cargos importantes e conseqentemente suas aes so despercebidas pela sociedade. Alm de infra-estruturas simples como rampas, corrimos, portas mais largas, elevadores, banheiros adaptados, autorizao para andar/entrar com ces guias em qualquer local, computadores com mdia para mudos e deficientes auditivos, objetos e estruturas com inscries em braile, profissionais capacitados na comunicao em libras, entre outros, so essenciais para a construo do esprito de cidadania destas pessoas, os acessos s diferentes atividades do cotidiano, informao, aos espaos, a interao com as pessoas, a autonomia, a liberdade e a individualidade (Pinto & Szes, 2006). Algumas Mudanas nas Relaes Sociais Atualmente, o tema da acessibilidade uma das questes centrais para a qualidade de vida e o pleno exerccio da cidadania por portadores de necessidades especiais. Esta questo vem sendo discutida nas diferentes instncias, municipais, estaduais e governamentais, favorecendo a viabilidade do exerccio pelos PNEs aos direitos educao, sade e ao trabalho (Lima, 2006). A lei brasileira (7853/89) diz que o governo tem que tratar a pessoa com deficincia com prioridade garantindo a acessibilidade. Nos termos do art. 2 da Lei n. 10 .098/2000, acessibilidade a possibilidade e condio de alcance para utilizao, com segurana e autonomia, dos espaos, mobilirios e equipamentos urbanos, das edificaes, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicao, por pessoa portadora de deficincia ou com mobilidade reduzida. Os termos do Decreto n. 5.296/2004 defi nem que Pessoa Portadora de Deficincia o indivduo que possui limitao ou incapacidade para o desempenho de atividade e se enquadra nas seguintes categorias: a) deficincia fsica; b) deficincia auditiva; c) deficincia visual; d) deficincia mental; e) deficincia mltipla. Distinta abordagem e bem mais interessante do ponto de vista das relaes sociais apresentada por Arajo (1997): “O que define a pessoa portadora de deficincia no falta de um membro nem a viso ou audio reduzidas. O que caracteriza a pessoa portadora de defici ncia a dificuldade de se relacionar, de se integrar na sociedade, o grau de dificuldade para a integrao social que definir quem ou no portador de deficincia”. Quanto s tcnicas de engenharia e arquitetura, as condies para assegurar a acessibilidade encontram-se descritas em diversas normas da Associao Brasileira de Normas Tcnicas (ABNT), tais como: a) NBR 9050– Acessibilidade a Edificaes Mobilirio, Espaos e Equipamentos Urbanos; b) NBR 13994 – Elevadores de Passageiros – Elevadores para Transportes de Pessoa Portadora de Deficincia; c) NBR 14020 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficincia – Trem de Longo Percurso;

PAGE 81

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 79 d) NBR 14021 Transporte Acessibilidade no sistema de trem urbano ou metropolitano ; e) NBR 14022 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficincia em nibus e Trlebus para Atendimento Urbano e Intermunicipal; f) NBR 14273 – Acessibilidade a Pessoa Portadora de Deficincia no Transporte Areo Comercial; e g) NBR 15250 Acessibilidade em caixa de auto atendimento bancrio. No mercado de trabalho, empresas pblicas e privadas so obrigadas a reservar 5% de seu quadro de funcionrios para PNEs; passveis multas elevadas, caso no cumpram essa norma. Em benefcio, existem abatimentos em relao a impostos. Porm, muitas dessas pessoas com algum tipo de deficincia no so contratados por falta de experincia profissional. PNEs e o Turismo Atualmente, poucos so os esforos destinados para garantir uma das mais crescentes formas de lazer no Brasil e no mundo para os PNEs: o turismo. A indstria do turismo , atualmente, o setor da economia produtiva que mais se expande em todo o mundo. Somente em 1998, a indstria de viagens e lazer, segundo a Organizao Mundial de Turismo (OMT), movimentou, em todo o mundo, mais de 635 milhes de pessoas, universo que injetou na economia uma cifra superior a US$ 439 bilhes (EMBRATUR, 2004). O ecoturismo, importante segmento do turismo, propicia o lazer em reas naturais com fortes motivaes conservacionistas e culturais. Ele utiliza as reas naturais, como instrumento para atender a demanda crescente de pessoas que buscam tranqilidade, fugindo do caos dos centros urbanos. Desta maneira, o ecoturismo deve propiciar ao indivduo oportunidades de contato com o meio ambiente natural e levar o mesmo a reflexes sobre a conservao destes locais com desenvolvimento sustentvel, proporcionando o crescimento econmico das regies (Zampaulo, 2004). No Brasil e no mundo existe um nmero cada vez maior de pessoas se envolvendo com a prtica do ecoturismo, em virtude das potencialidades existentes em todo territrio nacional, divulgao da mdia e possibilidade de viabilizao do desenvolvimento econmico das regies. Esta atividade representa uma pretensa “ruptura do cotidiano” e “alvio das tenses” impostas pelo ritmo e condies de vida nos grandes centros urbanos. (Munster, 2004). No entanto, nos ltimos anos, um pblico diferencia do tem sido atrado pela prtica do turismo em reas naturais, no caso, os PNEs. Este grupo de pessoas tem procurado atividades como: trekking, tirolesa, rappel, off-road, ciclismo, rafting, cav algada, paraquedismo, paraglider, acqua ride, mergulho, surf, visita a cavernas, entre outros. No entanto, as propostas de uso pblico das Unidades de Conservao destinadas visitao, no possuem suporte para receber este pblico diferenciado, seja pela ausncia de infra-estrutura adaptada ou mesmo pela carncia de recursos humanos especializados (Zampaulo et al., 2005). Aproximadamente 10% da populao brasileira so portadores de deficincia, sendo estes marginalizados da atividade turstica por falta de infra-estrutura que lhes seja adequada. Tentando minimizar esta distncia a EMBRATUR organizou um manual com o intuito de criar parmetros de acesso ao portador de deficincia, no s ao hotel, mas aos locais tursticos em geral, sugerindo adaptaes como rampas, portas e sinalizaes especiais, que garantam a circulao e o acesso, interno e externo, a apartamentos, banheiros, caladas, travessias, estacionamento e meios de transporte (EMBRATUR, 2006). Com objetivo de promover a incluso social de portadores de necessidades especiais na prtica do turismo em reas naturais, alguns movimentos sociais esto sendo criados e impulsionados inclusive pela divulgao na mdia. Operadoras de turismo e Organizaes No Governamentais (ONGs) tm desenvolvido projetos de incluso social atravs da visitao ou da prtica de esportes na natureza. Dentre estes, vale destacar a Associao Desportiva para Deficientes (ADD), a ONG Aventura Especial, a ONG Acessvel e o projeto “Cadeirantes Aventuras para um Brasil mais acessvel” e as expedies do projeto “Desafio de Atitude”. No mbito acadmico, Munster (2004) realizou um importante estudo com deficientes visuais, atravs da prtica de esportes na natureza como: trekking, rafting, rappel, caving, escalada em rocha, canyoning e mergulho subaqutico. Trata-se de um estudo amplo que discute um exerccio pedaggico de tais modalidades esportivas, sob o argumento de que o envolvimento com esse conjunto de prticas consiste em uma experincia existencial frtil, para o fortalecimento das relaes pessoais da pessoa com a deficincia visual e consigo mesma, alm da relao com o outro e com a sociedade. Zampaulo et al. (2005) apresentou um relato de caso sobre uma atividade desenvolvida

PAGE 82

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 80 pelo Grupo de Estudos Ambi entais da Serra do Mar (GESMAR), com uma cadeirante em visita a cavernas tursticas no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR). No entanto, so esforos isolados e ainda incipientes no pas, sendo necessrios investimentos em opes de roteiros, estruturas de visitao e formao de recursos humanos especializados no atendimento deste pblico. Com o intuito de fomentar estas discusses o presente trabalho d continuidade ao projeto de pesquisa “Incluso Social de Portadores de Necessidades Especiais (PNEs) e a Prtica do Turismo em reas Naturais” que tem como objetivo avaliar a possibilidade de visitao por PNEs e indicar as necessidades de adaptaes. Justifica-se ainda, pelo fato de que o envolvimento com essa atividade no ambiente subt errneo, consiste em uma experincia frtil para o fortalecimento das relaes do portador de necessidades especiais consigo mesmo e com a sociedade. Objetivo O presente artigo pretende descrever a possibilidade de visitao por PNEs cadeirantes e indicar algumas necessidades de adaptaes em cinco cavidades naturais e uma artificial (antiga rea de minerao grantica) do estado de So Paulo, destinadas ao turismo, com ou sem infra-estrutura. reas Estudadas Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) – Ncleos Santana e Caboclos O PETAR est localizado no sul do estado de So Paulo, aproximadamente, 350 km da capital e abrange os municpio de Iporanga e Apia. Constitui, um rico cenrio de fundamental importncia para o esta do e para o pas, por apresentar um amplo patrimnio espeleolgico inserido em um preservado remanescente de Floresta Tropical mida de Encosta (Mata Atlntica), possuindo grande diversidade de espcies de flora e fauna tropical. O Parque apresenta uma das maiores concentraes de cavernas do estado de So Paulo, somando mais de 200, algumas das quais, so conhecidas internacionalmente, constituindo assim, o principal foco turstico da regio. Encontra-se dividido em quatro ncleos de visitao: Santana, Caboclos, Ouro Grosso e Casa de Pedra, destinados principalmente proteo ambiental, alm do atendimento ao turismo, constituindo uma excelente opo de turismo espeleol gico (Figueiredo, 1998, 2000). Durante os finais de semana e feriados prolongados, um grande nmero de turistas deslocase para a regio do PETAR, utilizando os servios dos diferentes setores da economia local, impulsionando o desenvolvimento do turismo na regio que durante as ltimas duas dcadas sofreu fortes transformaes. O Ncleo Santana est localizado no vale do rio Betary, uma das paisagens mais notveis da regio. Oferece diferentes roteiros de visitao, tais como: a caverna Santana, a trilha do Betary e a trilha do Morro Preto-Couto e contempla a maior infra-estrutura turstica do Parque com sanitrios, lavanderia e ambulatrio (So Paulo, 2006). O Ncleo Caboclos, primeira sede do PETAR, est localizado na regio central do Parque. Com relevo de planalto e altitude mais elevada, constitui-se ponto de partida para visitas em cavernas e outros atrativos (So Paulo, 2006). Dispe de rea de acampamento com sanitrios e lavanderia. Parque Estadual de Jacupiranga (PEJ) Ncleo Caverna do Diabo O PEJ abrange terras dos municpios de Eldorado Paulista, Canania Jacupiranga e Barra do Turvo e encontra-se a 270 quilmetros da cidade de So Paulo. O Parque abriga grandes extenses de mata atlntica e outros ecossistemas em seu interior, possuindo grande variedade de fauna e flora nativa, na qual muitas espcies s o endmicas da regio. Dentro do Parque, a rea mais importante relacionada visitao turstica o Ncleo Caverna do Diabo, que recebe visitao desde o incio da dcada de 60, sendo incorporado ao PEJ em 1969. No Ncleo Caverna do Diabo, est presente uma das mais importantes cavernas tursticas do Brasil: a Gruta da Tapagem (SP-002), reconhecida internacionalmente e mais conhecida como Caverna do Diabo. Descoberta pelo alemo Richard Krone entre o fim do sculo XIX e o incio do sculo XX, foi uma das primeiras grutas do pas a receber infraestrutura turstica, formada por escadas e passarelas de acesso, alm de iluminao artificial. Alguns roteiros alternativos que foram propostos e avaliados, no demonstraram possibilidades imediatas para PNEs (Figueiredo et al., 1999).

PAGE 83

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 81 Gruta do Anjo (Socorro-SP) O Municpio de Socorro est localizado no sudeste de So Paulo, junto a Serra da Mantiqueira, s margens do Rio do peixe, aproximadamente 132 km da capital. Sua rea territorial de 448,07 Km formada por relevo montanhoso e grande potencial hidrogrfico. Possui clima ameno e agradvel e uma populao estimada em 32.704 habitantes (IBGE, 2007). Elevada Estncia Turstica em 1978, tem por base econmica a agricultura, empresas de malharia e o turismo. Alm do turismo convencional, histrico e ru ral, o patrimnio natural possibilita o desenvolvimento do ecoturismo com a prtica de vrias modalidades de esportes de aventura, tais como: rafting, bia-cross, canyoning, trilhas, moutain-bike, trilhas de jeep, asa delta, trike e outros (Socorro, 2007). A Gruta do Anjo, situada numa propriedade particular (Pousada da Gruta), est localizada na Estrada Socorro/Munhoz, km 1, a 2 km do centro da cidade. Proveniente de uma antiga minerao, iniciada no ano de 1960, conseqncia da extrao mineral de quartzo, feldspato e granito. Em 1995, a minerao foi desativada formando, devido as nascentes existentes, uma piscina de gua mineral com profundidade de at de quatro metros em alguns pontos e temperatura mdia de 10C. (Pousada da Gruta, 2007). Seu prtico de entrada tem aproximadamente 42 m de altura e 3 m de largura; seu desenvolvimento linear e sua largura, aproximadamente, 70 e 20 metros, respectivamente. Procedimentos O presente estudo foi realizado a partir da avaliao de cinco grutas tursticas, localizadas em dois parques estaduais (PETAR e PEJ) do estado de So Paulo e uma cavidade artificial localizada no municpio de Socorro (SP) destinada visitao. No PETAR foram avaliadas quatro cavernas: as grutas Santana (SP-41) e Morro Preto (SP-21) no Ncleo Santana e a Caverna Alambari de Baixo (SP-12), que fica fora do ncleo, em outubro de 2004 e a Gruta do Chapu (SP-13), no Ncleo Caboclos, em fevereiro de 2007. No PEJ, foi avaliada a Caverna do Diabo (SP-002), no ms de dezembro de 2006. E, finalmente em maro de 2007, a Gruta do Anjo no municpio de Socorro-SP. Durante os trabalhos de campo, foram realizadas observaes analticas e comparativas, buscando identificar facilida des e dificuldades para a visitao das cavidades e da rea de entorno por cadeirantes, procurando apontar recomendaes de adaptaes que facilitem este processo. Os dados foram registrados em planilhas, fotografias e filmagens. Foram analisados os seguintes aspectos: acesso ao local, acessib ilidade nas trilhas, acessibilidade s depend ncias (acomodaes, restaurantes, recepes, sanitrios, cozinhas, lavanderias, entre outros), potencialidade de visitao e aproveitamento turstico das cavernas ao PNEs de cadeira de rodas. O quadro terico-metodolgico deste estudo baseia-se na investigao de trs pontos principais: anlise do objeto de estudo em questo (atividades espeleotursticas); estudo da varivel que caracteriza o foco de estudo (deficincia locomotora); descrio das reas avaliadas. Figura 1 : Localizao das reas de estudo: 1. Municpio de Socorro; 2. PEJ e PETAR. Resultados e Discusso Parque Estadual Turstic o do Alto Ribeira (PETAR) Ncleo Caboclos O Ncleo Caboclos foi a primeira sede do Parque e localiza-se na rea central do PETAR. Com relevo de planalto e altitude mais elevada, o Ncleo dotado de infra-estrutura, com alojamento para guias ou pesquisadores e rea para acampamento, onde so recebidos cerca de 1000 visitantes por ano. De carro, possvel chegar at o estacionamento prximo rea de camping. O acesso feito por uma rampa com corrimo nas medidas adequadas para um cadeirante. No camping o terreno, quase todo gramado, propcio ao deslocamento de cadeira de rodas j que existem poucas irregularidades. O solo possui boa drenagem durante as chuvas e exis tem pontes com corrimes (em apenas um lado) para travessia dos cursos dÂ’gua. No entanto, no existem rampas de acesso aos pontos de cozinha, lavanderias e sanitrios que esto situados muito distantes da rea de camping. Para acessar estas dependncias, faz-se necessrio percorrer longas escadarias com estreitos degraus (aproximadamente 42), o que dificulta at a

PAGE 84

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 82 possibilidade de carregar o PNE. Os sanitrios so inadequados, pois no possuem as dimenses desejveis, no sendo possvel a passagem da cadeira de rodas pelas por tas e no existindo espao interno adequado para girar a cadeira. A trilha de acesso s cavernas estudadas encontra-se em boas condies de visitao. Durante este percurso possvel ao cadeirante observar os prticos de entrada das Grutas Chapu Mirim I e II (SP-14 e 15), atravessar os cursos de gua por pontes de madeira que se encontram em excelentes condies de manuteno e ter contato com a fauna e flora da Mata Atlntica. J o acesso pela trilha variante que leva a Gruta das Aranhas (SP-113) no possvel, j que est estreita e no permite o deslocamento da cadeira de rodas. No entanto, possvel seguir at a Gruta do Chapu (SP-13), onde sua entrada possui dimenses que possibilitam a passagem de uma cadeira de rodas com at 67 cm de largura. possvel chegar at o seu primeiro salo que muito ornamentado. Por outro lado, preciso muito cuidado e ateno, j que a passagem estreita e o piso escorregadio. Para percorrer esta trilha o cadeirante necessita de ajuda, j que existem alguns lances de escadas e um tronco de rvore obstruindo a passagem. Entretanto possvel superar estes obstculos o que torna o passeio ainda mais atraente ao visitante. Fotografia 1 : Tronco cado (obstculo) na trilha que leva a Gruta do Chapu. Robson de A. Zampaulo, fev. de 2007. Fotografia 2 : Ponte em boa condio na trilha que leva a Gruta do Chapu. Robson de A. Zampaulo, fev. de 2007. Fotografia 3 : Visitao no interior da Gruta do Chapu. Robson de A. Zampaulo, fev. de 2007.

PAGE 85

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 83 Fotografia 4 : Visitao no interior da Gruta do Chapu. Robson de A. Zampaulo, fev. de 2007. No Ncleo ainda possvel seguir de carro pela estrada que leva a Gruta Esprito Santo (SP-72) onde o cadeirante pode conhecer um pequeno abrigo prximo sua entrada. Pelo caminho possvel apreciar e vivenciar a histria das antigas reas de minerao. Para visitao dos PNEs cadeirantes ao ncleo, adaptaes nas condies de infra-estrutura ainda so necessrias. Vale lembrar que em 2004 o Ncleo recebeu investimentos para adequao da infra-estrutura turstica com o apoio do WWF-Brasil sem que fossem realizadas intervenes adaptativas ou implantao de um design universal. No entanto, existem inmeros atrativos naturais e histricos que podem fazer parte de um roteiro de visitao. Apesar da viabilidade, faz-se necessrio utilizao de uma cadeira adequada, de disposio e interesse por parte do visitante e ainda contar com o apoio de amigos e monitores experientes. Ncleo Santana O Ncleo Santana contempla a maior infraestrutura turstica do Parque. Este possui um centro administrativo, com ambulatrio para primeiros socorros, portaria e guarita de recepo, quiosques, sanitrios, lavanderias e rea para camping, que atualmente, encontra-se desativada. O acesso realizado por estrada de as falto em timas condies at as proximidades do quiosque de controle de acesso s cavernas. Para acessar o quiosque existe um pequeno degrau que poderia ser facilmente substitudo por uma rampa. Existe um bom espao fsico para circular entre painis de fotografias de visitantes que ficam expostas. Os banheiros seguem a mesma arquitetura existente no Ncleo Caboclos. O acesso aos banheiros realizado por escadas de difcil acesso, no existem banheiros adaptados e a cadeira de rodas no passa pela porta As pias so mais ou menos da altura que se consegue lavar as mos e em ambos os Ncleos fundamental a construo de rampas e a adaptao dos banheiros. Fotografia 5 : Centro de visitantes (Ncleo Santana). Daniela dos Anjos, out. de 2004. Fotografia 6 : Animal utilizado para o deslocamento da PNE at a gruta Alambari de Baixo. Daniela dos Anjos, out. de 2004

PAGE 86

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 84 A Caverna Santana, com seus quase 6.000 m de extenso, considerada uma das maiores cavernas do Estado de So Paulo. No entanto, o trecho turstico tem aproximadamente 800 m e possui passarelas para o caminhamento e escadas que auxiliam as visitas aos sales superiores. conhecida principalmente pelas suas belas ornamentaes, possuindo raros e variados espeleotemas. Porm, as inmeras pontes e escadarias, s so visitveis se o cadeirante for carregado (nas costas do monitor), sem a utilizao de cadeiras de rodas. O acesso Caverna Morro Preto extremamente complicado para um cadeirante j que existe uma ponte estreita que utilizada para atravessar o rio Betary e em seguida uma enorme escadaria que leva ao prtico principal da cavidade localizada no alto do morro. Este trecho s pode ser realizado se o cadeirante for carregado e requer um grande esforo fsico. A Caverna Morro Preto possui grandes sales com enormes blocos abatidos logo na entrada. Ela possui na sua entrada vrias estalactites gigantescas, todas ligeiramente inclinadas para a sada da caverna. Seu prtico mede aproximadamente 20 m e existe nesta rea um interessante stio arqueolgic o. Portanto, sua entrada uma excelente opo de visitao. O restante da cavidade invivel j que existem grandes blocos pelo caminho, terrenos muito ngremes e, principalmente, grandes desnveis, muitas vezes abruptos. Localizada fora do Ncleo Santana, a trilha que leva a Caverna Alambari de Baixo um longo percurso de aproximadamente uma hora de caminhada. Este trajeto pode ser realizado com auxlio de cavalos, tornando-a uma excelente opo de visita, acrescentando uma experincia diferenciada para esta atividade. Lembrando que no existe no local, nenhum tipo de infra-estrutura turstica. A Caverna Alambari de Baixo possui amplos sales, desnveis acentuados, presena do conduto principal formado pelo leito do rio, alm de galerias superiores (paleo-rio) com grandes blocos abatidos, sendo considerada uma caverna muito esportiva. possvel realizar a travessia com o cadeirante pelo leito do rio com o auxlio de colete salva-vidas ou bias, ou pelo trecho seco, desde que o cadeirante seja carregado. A trilha, aps a travessia da cavidade, segue por uma rea plana localizada em uma propriedade particular que d acesso estrada do bairro da Serra. Neste local, deve-se contar com o apoio de um veculo para o retorno da atividade. Vale lembrar que esta travessia possvel, mas o cadeirante deve possuir uma massa corprea adequada, boa condio fsica e psicolgica e os monitores devem estar devidamente treinados. Parque Estadual de Jacupiranga (PEJ) Ncleo Caverna do Diabo O acesso ao Ncleo Caverna do Diabo realizado por estrada de asfalto que corta a Serra de Andr Lopes e termina no estacionamento do Ncleo. Um caminho de para leleppedos leva at a entrada da Caverna do Diabo, sendo possvel realizar este trajeto de cadeira de rodas com muita facilidade em meio a Floresta Atlntica. Nesta rea existem banheiros adaptados com boa largura, e vaso sanitrio dentro do padro, faltando apenas s barras de apoio. Neste ponto possvel apreciar o prtico da Caverna do Diabo, o Ribeiro das Ostras e seu sumidouro, a pequena Trilha da Figueira, alm de inmeras feies crsticas presentes no local. A Trilha da Figueira plana e apresenta reas com vegetao rasteira e cascalho, conferindo aderncia facilitando o desloc amento da cadeira de rodas. Existe uma grande figueira que d o nome trilha e uma ponte (em mau estado de conservao) que cruza o Ribeiro das Ostras. Aps a ponte, retorna-se ao prtico da Caverna do Diabo pela Trilha do Rolado onde existem trechos mais ngremes, mas superveis pelo cadeirante com o auxlio de mais uma pessoa. Este trajeto, com 280 m, forma um circuito oval de visitao interessante. Na portaria que d acesso a Caverna do Diabo, a passagem da cadeira de rodas adequada apresentando pequenas irregularidades no solo que dificultam um pouco o deslize da cadeira de rodas. Logo em seguida existe uma ponte larga com corrimos. As madeiras so rentes umas as outras, impedindo que as rodas da cadeira fiquem presas facilitando sua passagem. A trilha que oferece acesso cavidade apresenta dificuldades para circular com a cadeira de rodas, pois existe uma ligeira inclinao e alguns obstculos. Infelizmente o acesso s passarelas que adentram a cavidade realizado por um grande nmero de escadas, algumas das quais, muito ngremes. Se o cadeirante quiser continuar a visita, necessita ser carregado. As passarelas possuem boas dimenses, com corrimos nas laterais e com boa extenso (800m) turstica. Durante o passeio possvel apreciar uma das mais belas e ornamentadas grutas do pas. No salo Catedral existe um grande nmero de salincias no solo, que dificultam o deslocamento da cadeira de rodas.

PAGE 87

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 85 Fotografia 7 : Escadaria de acesso a Caverna do Diabo. Jovenil F. de Souza, dez. de 2006. Fotografia 8 : Visitao no interior da Caverna do Diabo. Jovenil F. de Souza, dez. de 2006. No Ncleo, existe um amplo restaurante, banheiros, espao para artesanato, um pequeno museu natural e chals para pernoitar. No acesso para estas reas existem rampas e passagens amplas em quase todos os lugares. Os locais mais inadequados para a visitao do cadeirante so os chals. Estes possuem portas estreitas o que dificulta a passagem da cadeira de rodas e o banheiro pequeno e no existem estruturas de apoio. Gruta do Anjo (Socorro-SP) A Gruta do Anjo est situada em uma rea particular onde, alm da cavidade, h uma pousada. O acesso localidade realizado por estrada asfaltada. A Pousada da Gruta est apta a receber PNEÂ’s uma vez que possui estrutura adequada e amplo estacionamento. O caminhamento at a entrada da cavidade curto (aproximadamente 50 m). A trilha de acesso plana e regular, coberta por cascalho, com gramneas e mataces espalhados em suas bordas. Existem pequenos trechos asfaltados, prximos entrada, que facilitam o deslocamento. A gruta possui um lago central, ladeado por dois sales. O terreno da cavidade plano, formado por solo argiloso bem compactado, com areia presente em alguns trechos, o que facilita a visita. Todo o desenvolvimento da cavidade encontra-se sob penumbra e nos sales h iluminao artificial mvel (lanternas em trips). Existe no salo do lado direito, o mais extenso, um ancoradouro com trs rampas para pedalinhos e correntes de proteo em alguns trechos. As rampas do ancoradouro so estreitas e no permitem o acesso aos pedalinhos com a cadeira de rodas. Para o PNE usufruir dessa atividade preciso que seja carregado at eles. A visita realizada com auxlio de monitores locais, sendo que, no local, existem monitores com experincia e formao em atividades com PNEÂ’s. Fotografia 9 : Prtico da Gruta dos Anjos. rica Nunes, mar. de 2007. Fotografia 10 : Passeio de pedalinho no interior da Gruta dos Anjos. rica Nunes, mar. de 2007.

PAGE 88

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 86 Consideraes Finais Como nossa sociedade somente aos poucos tem assumido design universal para a realizao deste tipo de atividade em um ambiente imprevisvel e sem nenhuma adaptao como as cavernas, torna-se necess rio antecipar a presena do elemento risco. Portanto, deve haver um dilogo constante entre o cadeiran te, condutor e o meio. Ele deve perceber indcios, adaptar-se as condies impostas pela natureza e estar atento aos possveis obstculos naturais. Se a atividade espeleoturstica envolve desafios, as pessoas portadoras de necessidades especiais tm o direito de decidir se querem enfrent-los ou no. Se os riscos so existentes, devem ser tomados cuidados especiais com a segurana, assim como tambm ocorre para as pessoas denominadas normais. Consideram-se os objetivos de formao devem possibilitar o crescimento pessoal, favorecendo as relaes inter/intrapessoais e sociais. Durante a visitao, recomendvel que o condutor do cadeirante utilize luvas para segurar os guides da cadeira de rodas. Assim, evitam-se acidentes que possam ser causados pelo suor das mos, e a criao de bolhas e calos. O uso de munhequeiras, para no l esar os punhos, tambm recomendado. Um bom preparo fsico do condutor tambm necessrio. A cadeira de rodas deve possuir condies mnimas de segurana e resistncia para suportar as irregularidades do percurso. Durante o percurso deve-se tomar cuidado com estruturas pontiagudas, evitando assim a perfurao dos pneus. Bom preparo e fora fsica so necessrios s pessoas (condutores, monitores, guias) que desejam exercer atividades com cadeirantes, pois, podem ocorrer situaes em que seja preciso carreg-los. Esta ao deve ser realizada sem causar grandes desgastes para que no futuro no haja comprometimento sade do condutor. importante a presena de pelo menos dois monitores para diminuir o desgaste fsico, tornar a atividade mais dinmica e garantir mais segurana ao cadeirante. Orientaes de um fisioterapeuta podem contribuir para definir a melhor maneira de realizar esta atividade. Recomenda-se a incluso deste tipo de atividade (visitao com PNEÂ’s) nos cursos de formao de monitores ambientais. Eles devem ser devidamente treinados e possuir muita sensibilidade para receber este grupo diferenciado de pessoas. Acima de tudo, fundamental investir na dissoluo de barreiras arquitetnicas e sociais, que tm limitando ou restringido a descoberta de novas possibilidades de interao do portador de necessidade especial com a sociedade. Segundo informao de Jos Ayrton Labegalini1, coordenador da Comisso de Cavernas Tursticas da Federao de Espeleologia da Amrica Latina e Caribe e membro do Espeleo Grupo de Monte Sio (EGMS), dentre as cavernas abertas para visitao turstica no Brasil, possvel ao PNE visitar a Gruta de Bom Jesus da Lapa, no municpio de Bom Jesus da Lapa e a Gruta da Mangabeira, no municpio de Ituau, ambas na Bahia; e a Gruta de Palmares, no municpio de Sacramento-MG. Pretende-se visitar essas cavidades nas prximas etapas desse estudo. Para ampliar nossas informaes sobre cavernas com potencial de visitao para Portadores de Necessidades Especiais, e a possibilidade de abordagem de novos temas pertinentes ao assunto, convidamos todos os espelelogos a contriburem com informaes. Agradecimentos A Jovenil Ferreira de Souza, Ren de Souza, Alan Pereira dos Santos (GESMAR), pelo estmulo, informaes e auxlio. A Nivaldo Colzato, Ricardo Perez, Srgio Viegas (SBE), pelo estmulo e informaes. E a todos os espeleolgos, monitores ambientais e amigos que contriburam para a elaborao desse trabalho. Agradecemos a administrao do Parque Es tadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR) e do Parque Estadual de Jacupiranga (PEJ) pelo apoio ao nosso estudo. Referncias Bibliogrficas Associao Brasileira de Normas Tcnicas. 2004. NBR 9050: acessibilid ade de pessoas Portadoras de Deficincia a Edificaes, Espao, Mobilirio e Equipamentos Urbanos. ABNT, Rio de Janeiro. Araujo, Luiz Alberto David. 1997. A proteo c onstitucional das pessoas portadoras de deficincia. Coordenadoria Nacional para Integrao da Pessoa Portadora de Deficincia, Braslia.

PAGE 89

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 87 Brasil. Portaria n. 887 de 15 de junho de 1990. Delibera sobre o patrimnio espeleolgico nacional e delimita a rea de influncia das cavidades naturais. Disponvel em: http://www.sbe.com.br/leis/port88790.htm Acessado em: 27 mai 2007. Brasil. Decreto n 5.296 de 2 de dezembro de 2004. Brasil. Lei n 10.098, de 19 de dezembro de 2000 Brasil. Lei n 7.853, de 24 de outubro de 1989. Embratur. Manual de recepo e acessibilidade de p essoas portadoras de deficincia a empreendimentos e equipamentos tursticos. Disponvel em: www.embratur.org.br Acessado em: 10 mar. 2006. Ferreira, Maria Beatriz Rocha. 2001. O ser anthropos: adaptabilidade, alteridade, diferenas e dilogo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ATIVIDADE MOTO RA ADAPTADA, 4, 2001, Curitiba. Anais... Curitiba: 2001. p. 32-34. Figueiredo, Luiz Afonso Vaz de. 1998. Cavernas brasileiras e seu potencial ecoturstico: um panorama entre a escurido e as luzes. In: VASCONCELOS, F. P. Turismo e meio ambiente. FUNECE, Fortaleza. Figueiredo, Luiz Afonso Vaz de. 2000. “O Meio Ambiente’ prejudicou a gente...”: polticas pblicas e representaes sociais de preservao e desenvolvime nto; desvelando a pedagogia de um conflito no Vale do Ribeira. (Iporanga-SP). 1999. 489p. il. co lor. + anexos. Dissertao (Mestrado em Educao, rea de Educao, Sociedade e Cultura) F aculdade de Educao, UNICAMP, Campinas. Figueiredo, Luiz Afonso Vaz de; DUARTE, Nilton Jo s; SILVEIRA-SASSAKI; Margareth. 1999. Ncleo Caverna do Diabo (PEJ): aspectos do manejo turs tico e avaliao de roteiros alternativos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ESPELEOLOGIA, 25, 1999, Vinhedo. Anais... Vinhedo, SP: Trupe Vertical/SBE. IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica. Censo 2000. Disponvel em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/ censo2000/universo.php?ti po=31&paginaatual=1 &uf=35&letra=E Acessado em: 28 abr. 2007. Lima, Luiz Henrique. Acessibilidade para pessoas por tadoras de deficincias: requisito da legalidade, legitimidade e economicidade das ed ificaes pblicas. Disponvel em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9167 Acessado em: 10 mar. 2006. Munster, Mey de Abreu Van. 2004. Esportes na natu reza e deficincia visual: uma abordagem pedaggica. 2004. 309p. Tese (Doutorado) – Faculdade de E ducao Fsica da Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Pinto, Ana Claudia Alves; SZES, Carollina Palermo. 2006. Desenho universal em hotis. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE ERGONOMIA E USABILIDADE DE INTERFACES HUMANO-TECNOLOGIA: Produtos, Informao, Ambi ente Construdo, Transporte, 6., 2006, Bauru. Anais. Bauru: So Paulo, 2006. p. UNESP, Bauru. Pousada da Gruta. Disponvel em: www.pousadadagrutadoanjo.com.br/histria.htm Acessado em: 26 abr. 2007. So Paulo (Estado). Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Instituto Florestal. PETAR: Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira. So Paulo. jan. 2006. 1 folder. Sassaki, Romeu Kazumi. 1997. Incluso: construindo uma sociedade para todos. WVA, Rio de Janeiro. Sassaki, Romeu Kazumi. 2007. Terminologia sobre de ficincia na era da incluso. Disponvel em: http://www.ubcbrasil.org.br/artigos/artigo2.htm Acessado em: 26 mai 2007. Socorro (Municpio). Disponvel em: www.socorro.sp.gov.br/histria.asp Acessado em: 26 abr. 2007.

PAGE 90

Nunes et al. Incluso social de portadores de necessidades especiais (PNEs)... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 88 Zampaulo, Robson de Almeida. 2004. Avaliao de impa ctos socioambientais nas trilhas da Pontinha e dos Gravats – Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba (Santo Andr-SP). 2004. Trabalho de Graduao (Cincias Biolgicas) – Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras do Centro Universitrio Fundao Santo Andr, Santo Andr. Zampaulo, Robson de Almeida Zampaulo; LUZ, Claudia Santos Luz; NUNES, rica. 2005. Incluso social de portadores de necessidades especiais e a prtica do turismo em reas naturais: relato de caso no Parque Estadual Turstico do Alto Ribeira (PETAR-SP). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ESPELEOLOGIA, XXVIII,. 2005, Campinas. Anais. 160-167. Fluxo editorial : Recebido em: 24.04.2008 Enviado para avaliao em: 24.04.2008 Enviado para correo aos autores em: 26.05.2008 Aprovado em: 13.06.2008 A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp 1 Comunicao pessoal via correio eletrnico co m Jos Ayrton Labegalini. Data: 25.02.2007

PAGE 91

RESUMO: Marra. Plano de manejo para cavernas tursticas: procedimentos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 89 Resumos de Teses e Dissertaes PLANO DE MANEJO PARA CAVERNAS TURSTICAS: PROCEDIMENTOS PA RA ELABORAO E AP LICABILIDADE SPELEOLOGYCAL MANAGEMENT PLAN: PROCEDURES FOR ESTABLISHMENT AND APPLICABILITY Ricardo Jos Calembo Marra Resumo O trabalho esta composto em quatro captulos. O primeiro resgata o histrico e os principais fatos ocorridos na rea ambiental no Brasil e no mundo. Discute as estr atgias adotadas para implementao da Agenda 21 e enfoca cavernas como ecossistema. O segundo focaliza o comportamento do turismo e as correlaes com a questo ambiental. Apresenta causas e conseqncias do espeleoturismo, com demonstrao das formas de usos, de materiais utilizados e das estratgias de mon itoramento. O terceiro lista e conceitua as modalidades de planos de manejo existentes. Apresenta os pr ocedimentos e a necessidade de execuo do plano de manejo espeleolgico, seus objetivos e condicionantes. O quarto enfoca as principais caractersticas para elaborao de estudos de capacidade de carga e discute com especial ateno as infra-estruturas bsicas causadoras de impactos em cavernas. O presente es tudo teve como objetivo avaliar os procedimentos e critrios utilizados em manejo espeleolgico, com n fase execuo, gerenciamento e monitoramento da atividade. A pesquisa apresenta as particularidades do uso turstico em cavernas, relatando e debatendo as prticas nocivas e sugerindo procedimentos mais adequa dos. O estudo em questo sugere ainda alternativas para se evitar impactos de poluio trmica, visual in terna/externa, qumica e biolgica, bem como os passos e procedimentos para adoo de capacidade de carga espeleolgica, apresentando como ANEXO, uma proposta de Termo de Refernc ia para elaborao de Planos de Manejo Espeleolgico. Palavras-Chave: Cavernas Tursticas; Planejamento Ambienta l Espeleolgico; Pla no de Manejo para Cavernas; Turismo em Cavernas; Ecoturismo Espeleolgico; Capacidade de Carga. Orientador: Prof. Dr. Othon Henry Leonardos Abstract This dissertation is composed of four chapters. The first recuperates the history of interest in environment in Brazil and the world, emphasizing the major events It discusses the strategies adopted for the implementation of Agenda 21 and focuses on caves as ecosystems. The second focuses on tourism and its relationship with the environment, showing the co nsequences of speleotourism and how caves have been used, managed and materials utilized. The third identifi es and explains the terminology of the different kinds of plans of management which exist. It argues in favo r of a plan for speleological management and presents the objectives for the execution of such a plan, as we ll as suggesting procedures for its implementation. The fourth focuses on the requirements for the establishment of the visitation capacity of each cave and discusses the impact of the basic infrastructure required on this capacity. Th is study aims to fac ilitate the evaluation of procedures and criteria utilized in speleological ma nagement, with an emphasis on execution, management and monitoring. It presents specific examples of the tour istic use of caves, identify ing harmful practices and suggesting more adequate procedures. It also suggests alt ernatives to avoid the impact of pollution, whether thermal, visual (either internal and external), chemical and biological, as well as outlining the steps and procedures necessary for the establishmen t of speleological visitation capacity with reference as enclosure, to the guidelines proposed for the elaboration of plans for spelological management. Key-Words: Tourism in Caves; Environmental Speleology Planning; Management of Planning for Caves; Speleology Ecotourism; Carrying Capacity. Advisor: Prof. Dr. Othon Henry Leonardos.

PAGE 92

RESUMO: Marra. Plano de manejo para cavernas tursticas: procedimentos... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 90 Referncia Marra, R. J. C. Plano de manejo para cavernas tursticas : procedimentos para elaborao e aplicabilidade Braslia: UnB, 2000. Dissertao (Mestrado em Desenvolvimento Sustentvel), Centro de Desenvolvimento Sustentvel, Un iversidade de Braslia. 2000. A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp

PAGE 93

RESUMO: Travassos. Caracterizao do carste da regio de Cordisburgo... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 91 Resumos de Teses e Dissertaes CARACTERIZAO DO CARSTE DA REGIO DE CORDISBURGO, MINAS GERAIS THE CHARACTERIZATION OF THE CORDISBURGO KARST REGION, MINAS GERAIS Luiz Eduardo Panisset Travassos Resumo A presente dissertao tem como objetivo principal, a caracterizao geogrfica do carste da regio de Cordisburgo, Minas Gerais, a partir da aplicao de con ceitos consolidados do “carste clssico” adaptados realidade do carste intertropical. Por meio da caracterizao do carste da Bacia do Ribeiro da Ona, SubBacia do Rio das Velhas, realizou-se um mapeamento e xploratrio das principais feies crsticas, via o cruzamento das informaes levantadas em imagem LANDSAT 7, imagens do GoogleEarth, interpretao de mapas topogrficos (1:100.000), fotografias areas (1 :60.000) e controle de campo. O produto final, apresentado na forma de um mapa de fenmenos crsticos da regio de Cordisburgo, partiu da utilizao da metodologia da Comisso de Fenmenos Crsticos do Comit Nacional de Geografia (Paris, 1965) e adaptada por Kohler (1989). A escolha dessa metodolog ia cartogrfica justifica-se pela existncia de inmeras cartas do carste dinrio e in tertropical, facilitando a anlise comparativa. Tal carta sintetizou, pela primeira vez nessa regio, a distribuio das fe ies crsticas, fornecendo informaes para a compartimentao geoambiental da regio de Cordisbur go, importante subsdio para uma gesto ambiental sustentvel. Por suas caractersticas geolgicas, geomorfolgicas, hidrolgicas e biogeogrficas, o carste dessa regio um expressivo exemplo do carste intertropical brasileiro, cuja evoluo superficial e subterrnea deve ser compreendida como um fe nmenocomplexo. A Formao Lagoa do Jacar foi pouco estudada quanto ao teor de CaCO3 frente s intercala es de filitos, veios de quartzo, etc. Sendo assim, prematuro afirmar que o carste de Cordisburgo apresenta baixo ndice de carstificao em todo o seu pacote carbontico, sendo possvel a ocorrncia de stios com calcrios puros, associados a outros com intercalaes no carbonticas. Contudo, estudos sobre a magnitude e o fluxo subterrneo no endocarste ainda so pouco explorados. Na regio de estudos, tudo indica que o fluxo endocrstico comandado pela Bacia do Ribeiro da Ona, tendo como seu nvel de base o Rio das Velhas. Ao norte da regio estudada, o fluxo endocrstico tambm parece estar associado drenagem do Rio das Velhas, ainda que em cotas mais baixas, nas quais predominam as formas de um carste mais evoludo (plancies e lagoas). Palavras-Chave: Caracterizao Geogrfica; Carste; Cordis burgo; Mapa de Fenm enos Crsticos. Orientador: Prof. Dr. Heinz Charles Kohler. Abstract This work aims at presenting the geographical characteriza tion of the Cordisburgo karst region, in the State of Minas Gerais by applying the consolidated concepts of the “classical karst” adapt ed to the reality of the intertropical karst. The characterization of the karst fr om the Onas Creek basin, Velhas River basin led to an exploratory mapping of the main karst features, wh ich was made possible by confronting data collected through LANDSAT 7 imaging, GoogleEarth images, topographic maps interpretation (1:100.000), aerial photography (1:60.000) and field control. The final product, which is presente d as a map, used the methodology proposed by the Commission of Karst Phenomena of the National Geography Committee (Paris, 1965) and adapted by Kohler (1989). The choice to use this methodology was made on the grounds that the existence of many Dinaric and Intertropical Karst maps is a facilitator to a comparative analysis. As a result of this study, and for the first time in this region, a map summarized the distribution of the karst features, providing relevant information for the ge oenvironmental compartmentation of the Cordisburgo area and important subsides for the sustainable management of this region. Due to its geological, geomorphologic, hydrological and biog eographical characteristics, the ka rst of this region is an expressive example of the Brazilian intertropical one, whos e superficial and subterraneous evolution must be understood as a complex phenomenon. There is little research on the Lagoa do Jacare Formation especially regarding the amount of CaCO3 in com parison to the phyllites, quartz veins, etc. So, it is premature to state that the karst in Cordisburgo shows a low karstification rate in its entire carbonatic pack as a whole. It is

PAGE 94

RESUMO: Travassos. Caracterizao do carste da regio de Cordisburgo... Campinas, SeTur/SBE. Pesquisas em Turismo e Paisagens Crsticas, 1(1), 2008. 92 possible that pure limestone sites associated to n on-carbonatic layers can be found. Studies about the magnitude and the direction of underground water are still insufficient, however. All evidences leads to the fact that the endokarstic flow in the region studied is commanded towards the base level of the Velhas River basin by the OnaÂ’s Creek. In the north of this reg ion, the subterraneous flow seems to be also associated to the Velhas River basin, even though at lower level s, where most of the identified forms is that of an evolved karst (plains and lakes). Key-Words: Geographical Characterization; Karst; Co rdisburgo; Map of Karst Phenomena. Advisor: Prof. Dr. Heinz Charles Kohler. Referncia Travassos, L.E.P. Caracterizao do carste da regio de Cordisburgo, Minas Gerais Belo Horizonte: PucMG, 2007. 95f. Dissertao (Mestrado em Tratam ento da Informao Espacial), Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais. 2007. A Pesquisa em Turismo e Paisagens Crsticas uma publicao da Seo de Espeleoturismo da Sociedade Brasileira de Espeleologi a (SeTur/SBE). Para submisso de artigos ou consulta aos j publicados visite: www.sbe.com.br/turismo.asp


printinsert_linkshareget_appmore_horiz

Download Options

close
Choose Size
Choose file type
Cite this item close

APA

Cras ut cursus ante, a fringilla nunc. Mauris lorem nunc, cursus sit amet enim ac, vehicula vestibulum mi. Mauris viverra nisl vel enim faucibus porta. Praesent sit amet ornare diam, non finibus nulla.

MLA

Cras efficitur magna et sapien varius, luctus ullamcorper dolor convallis. Orci varius natoque penatibus et magnis dis parturient montes, nascetur ridiculus mus. Fusce sit amet justo ut erat laoreet congue sed a ante.

CHICAGO

Phasellus ornare in augue eu imperdiet. Donec malesuada sapien ante, at vehicula orci tempor molestie. Proin vitae urna elit. Pellentesque vitae nisi et diam euismod malesuada aliquet non erat.

WIKIPEDIA

Nunc fringilla dolor ut dictum placerat. Proin ac neque rutrum, consectetur ligula id, laoreet ligula. Nulla lorem massa, consectetur vitae consequat in, lobortis at dolor. Nunc sed leo odio.